As Prattis
4 [Capítulo 3]
Duas semanas depois do rompimento de Angelina com o ex-namorado, as preces de Jéssica foram atendidas, quando o final da relação foi definitivamente apresentado como algo passado e enterrado, sem possibilidade de retorno, ao menos não recentemente.
Era o final da tarde, de um dia de terça feira, quando a família Prattis e Lopes haviam acabado de sair da missa de sétimo dia da esposa do prefeito da cidade, Mário Trindade Pontes, que fora o grande — e talvez único — amor da vida de Luísa.
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Eles haviam crescido juntos, por serem praticamente vizinhos, e namoraram por quatro anos, durante a adolescência, até que o rapaz fora praticamente obrigado pela família, a seguir carreira política, repetindo os passos do pai, Jânio Pontes, que acabara morrendo pouco tempo depois de um infarto fulminante, após uma discussão com a esposa, Sandra. Nesse momento, tudo se complicara, e o rapaz acabara intimado pela família Pontes a entrar em um casamento arranjado com a formosa filha do governador de um município vizinho, como forma de conseguir vantagens e influências em um acordo político entre as famílias, e salvar assim o status e padrão de vida familiar.
Mário fora muito covarde em defender o seu amor, e sofrera muito, porém calado. Ele não possuía mais amigos, já que todos ficaram do lado da Luísa, e não possuía apoio familiar, simplesmente precisou reinventar sua vida do zero, sem o amor de sua vida ali. Sua mãe teria ate mesmo ameaçado deserdá-lo, se não investisse na sua carreira política sucessória. E para tal objetivo, o casamento com impacto político era absolutamente necessário. Então, meses depois o rapaz acabou cumprindo a missão de casar-se a “negócios”.
Entretanto, Mário sempre fora um bom homem, então dedicara seus próximos 5 anos a manter o casamento arranjado, sendo fiel e respeitando a esposa, que nada tinha a ver com todo aquele círculo político imundo e desprezível. Jamais chegara a amar a esposa como teria amado Luísa, mas com a convivência e intensa dedicação da mesma prestada a ele, acabara tornando-se capaz de ama-la o suficiente para respeita-la até o fim da sua vida, que infelizmente acabara sendo breve, por causa de um câncer.
Luísa sofrera muito com o término da relação, e até mesmo começara a beber. Chegara a ter envolvimentos com alguns rapazes, mas sem jamais firmar compromisso com nenhum. E, para Mônica em particular, essa missa apenas a lembrava o tanto de escândalos que já precisou contornar por causa desse relacionamento que jamais deveria ter iniciado. Mas Luísa cismara de ir àquele enterro, então Mônica convocara sua família para comparecer, em apoio. Não queria que a família Pontes sequer se aproximasse da sua irmã mais nova.
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A frente da igreja estava muito movimentada, as pessoas interagiam em grandes círculos, enquanto esperavam a família Pontes e a família Vasconcelos (da falecida) desocuparem-se para desejar os seus pêsames. Alguns poucos pareciam verdadeiramente sentidos por estar ali, a exemplo de Mário, que tinha em seu rosto as marcas de um legítimo sofrimento.
O coração de Luísa estava partido em vê-lo tão triste, e fizera questão de ir cumprimentá-lo, a profundo desgosto de Mônica e da família do rapaz. Todas as irmãs a seguiram, preocupadas com a situação. Assim que a viu se aproximar, Mário jogara-se em um abraço íntimo e apertado da ex-namorada, que parecia realmente sentida por vê-lo tão infeliz. Sendo finalmente consolado por alguém que verdadeiramente se importava com seus sentimentos, o rapaz não conseguira mais evitar as lágrimas pela sua triste perda, e desabara em seus braços.
O abraço durou por vários segundos, e tornou-se evidente a intimidade que os dois possuíam, cabendo às irmãs aproximarem-se o suficiente para cortar o momento entre os amigos, e afastá-los, a intuito de evitar um constrangimento público com a família Pontes.
Quando se afastaram de Mário, Angelina se dispersara por um minuto do grupo, e momentaneamente absorta, visualizou o ex-namorado em situação comprometedora com outra mulher. O jovem Henrique estava apoiando-se por trás de uma loira — parecida com ela, diga-se de passagem-, em um abraço bem íntimo, enquanto conversavam animadamente com algum colega.
Todas as irmãs estavam ocupadas, interagindo com as pessoas a sua volta, ou no seu próprio círculo familiar, por isso deixaram de observar a súbita distração da menor, exceto Mônica, que conseguira notar o que a outra estava olhando, e fora capaz de impedi-la a tempo. Enraivada, Angelina tentou caminhar na direção do novo casal, mas Mônica a segurou.
— Você está louca? Escândalo em plena praça pública? Não desonre a nossa família! E a Igreja está bem ali. Respeite os mortos celebrados nesse dia!
Com a respiração descompassada, Angelina triplicou seu mau humor ao lembrar-se dos motivos que Henrique teria dado para dar o fora nela. E um dos motivos estaria na sua frente.
— "Igreja"? "Não faça escândalo"? É tudo o que você tem a dizer? É por sua culpa que estou nessa situação. Perdi o meu namorado por sua causa!
— Não seja infantil, Angelina. Se eu realmente pensasse que esse cara pudesse te fazer feliz, se isso simplesmente passasse pela minha cabeça, eu jamais teria sido contra o seu casamento. Porque eu te amo!
— É mesmo? Ou será que você quer que eu seja como você?
— O que você quer dizer com isso?
— Casta. Antisocial. Mal humorada.
— Eu sou como sou, porque desejo ser assim. Desde pequena quis ser como a nossa tia, Madre Cecília, e você sabe disso. Mas jamais forçaria alguém a querer ser como eu. Vocação é vocação.
— Mas você nunca permitiu que eu tivesse com Henrique uma relação normal. Não o suportava. Nem chamava ele para os eventos sociais.
— Você sabe muito bem porque. O cara é um mauricinho, pilantra, vândalo, e Deus que me perdoe por minhas palavras, mas eu jamais iria aceitar que um homem desse entrasse para a nossa família!
— Tá vendo? E ainda diz que não quer mandar na minha vida?
Mônica fechou os olhos e respirou fundo, ainda segurando as mãos da irmã para que a mais nova não fugisse dali. É exatamente por isso que ainda não teria seguido sua vocação de se reclusar em um convento. Não podia deixar a família do jeito que estava, como o mais velho membro da conjuntura familiar, ela era a base da relação, a mais sábia, equilibrada, e sem ela todas pareceriam tão perdidas.
Não podia ser egoísta de se afastar, enquanto todas ainda eram tão imaturas diante da vida. Mas talvez Angelina tivesse razão. E se tivesse rompido com suas crenças, por não dar uma chance ao rapaz? Ele poderia ter mudado. Fora quando se lembrou da cena que estariam assistindo. Olhou para trás, instintivamente, e virou a cabeça da irmã naquela mesma direção novamente:
— Eu posso ter atrapalhado seu relacionamento, e você tem todo o direito de me culpar por estar infeliz, mas como você pode ver, as ações dele falam mais do que qualquer defesa minha agora. Mal esfriou o rompimento de vocês, e ele já arranjou outra para iludir, e enganar. Ele é um trapaceiro, Angelina, e nunca gostou de verdade de você. Então se é "Disso" que você me culpa, eu sinceramente não me sinto nem um pouco lastimada.
Angelina parecia fora de si com tudo o que ouvira, mas engoliu toda a raiva, decepção e choro, e saiu correndo dali. Por sorte, a sua aproximação e a discussão entre as irmãs Prattis, não foram notadas por Henrique, e Mônica permaneceu tranquila, já que a honra da família em jamais se expor publicamente, não havia sido tocada. Estava sentida pelo sofrimento da irmã, mas sentia-se certa de que aquilo tudo era providência divina, e que traduzia-se no melhor desfecho possível para aquela situação. Sabia que não teria feito nada errado perante à Deus.
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