As Prattis
17 [Capítulo 16]
Angelina despertara exausta, mantendo os olhos meio fechados por causa da claridade. O som irritante do despertador a incomodava, então decidira esticar-se para pegar o celular, e livrar-se daquele tormento. Devagarzinho, abrira os olhos, com o aparelho em mãos, e logo se levantara em solavanco. No visor do celular havia a seguinte mensagem: “Soneca há 35 minutos”. Como fizera isso?
Minutos passados, depois de muito arrancar cabelos em preocupação, Angelina chegara já pronta, à mesa principal para tomar seu café com tranquilidade, já que àquela altura já teria perdido a primeira aula mesmo, então de nada adiantava correr.
Avistara Mônica tomando café, sozinha, e sentara ao seu lado, sentindo a tensão retornar aos seus ombros. Sabe quando você pensa que as coisas não podem piorar, e elas vão e pioram? Logo Mônica? Tantas pessoas para encontrar lá, e fora encontrar logo Mônica. Lembrou-se do que teria dito a ela na noite anterior, e suspirou inaudivelmente.
— Bom dia. — Dissera finalmente, e Mônica a encarou séria, seguindo um silêncio atormentador. Angelina até pensou em levar o café para a viagem, ou ignorar a presença de Mônica, mas realmente queria conversar com ela.
— Lembra do que conversamos há uma semana atrás? Sobre Henrique... — Perguntou, encarando a mais velha que a olhou numa expressão de doloroso entendimento. — Você disse pra mim que queria que nós encontrássemos alguém que realmente nos fizesse feliz, e que ouvíssemos a voz do coração. Mesmo que não fosse alguém que você esperasse. Você lembra dessa conversa?
— Sim. — Respondeu, em baixo som. — E eu ainda penso tudo isso, Angel, mas o problema é que vocês esquecem muito fácil as coisas de ruim que acontecem nessa família. Esse rapaz partiu o coração de Luísa uma vez, e ela fez muitas coisas erradas depois daquilo... E tudo por causa dele. O que vai acontecer se acabar as flores, e tudo for como antes?
— Mônica, não temos bola de cristal para saber se ele a magoará novamente. Mas a realidade é muito diferente agora. O pai dele está morto, e ele já tem uma campanha política sólida, experiência, eleitores, idade e dinheiro o suficiente, para não precisar mais aceitar ordens da mãe. O fato é que você está julgando uma pessoa que tomou uma decisão ruim há tantos anos atrás, quando ambos eram adolescentes... Anos se passaram, e tudo está diferente agora. Exceto o fato dele continuar sendo a escolha do coração da Luísa.
Mônica olhou para baixo, compreendendo o que Angelina queria dizer. Por que era sempre tão irracional quando se tratava da felicidade de suas irmãs? Sempre que dava de cara com coisas que minimamente a ameaçassem, ela as repudiava de imediato.
— Talvez você tenha razão. Eu preciso deixar vocês viverem da maneira que desejam. Mesmo que seja um erro.
— Erros não são de todo ruins, Mônica. Você lembra o que tio Joseph fez com a tia Celeste? Você acha que a tia Celeste cometeu um erro, certo? Em casar com ele?
— Claro que sim. — Respondera, firme em suas convicções, considerando aquela pergunta a mais ridícula de todas.
— Mas aí é que está, irmã. Você quer enquadrar o amor num filtro preto e branco. Mas o amor não é assim. Independente de tudo o que aconteceu, eles se amavam muito, e tenho certeza que tia Celeste não se arrependeu de nada nem por um segundo. Porque graças a esse amor que surgiu a Jés, a Gaby. E graças a eles dois terem se casado e tido todos aqueles problemas, nós tivemos o presente de aderir elas à nossa família.
Mônica observara o discurso da mais nova abismada! Em que momento Angelina se tornara tão expert no amor? E em que momento ela se tornara tão madura e coerente? Ela era a mais nova de todas as irmãs, e até outro dia sonhava com uma vida ilusória ao lado de Henrique.
— E eu sou extremamente grata ao fato de Deus ter colocado elas em nossa vida. Tudo acontece por uma razão, Mônica. Você sempre me disse isso...
— Deus escreve certo por linhas tortas. — Concluiu, rindo timidamente, encarando a menor cheia de orgulho. — Quando foi que você aprendeu tanta coisa sobre o amor?
As bochechas de Angelina ruborizaram-se imediatamente. Como dizer que estava apaixonada por uma mulher, e para piorar, por uma pessoa que morava embaixo do nariz delas, e que a correspondia completamente. Não queria dar a irmã razões para ter um infarto, ou magoá-la com um tipo de realidade que ela não era capaz de compreender ou de suportar. Precisava pensar mais um pouco e decidir, junto com Jéssica, o melhor passo a dar. A situação deveria ser pesada com muita cautela, já que envolvia duas famílias que há anos teria emergido em apenas uma. Qualquer passo em falso poderia corromper aquela união bruscamente, e destruir a harmonia familiar daquela casa.
— Eu acho que o rompimento com Henrique me ajudou a amadurecer mais emocionalmente. E, para ser sincera, o amor da Luísa por esse rapaz me inspirou, por ter sido capaz de perdurar por todos esses anos. Nós sabemos que, no fundo, ela permaneceu solteira até hoje porque esperava por ele. Um amor impossível que, anos depois, tem uma nova oportunidade de ter um final feliz. E eu realmente espero que dê certo, Mônica.
— Eu também. — Mônica suspirou pesadamente, enquanto recebia um beijo no rosto de Angelina, que decidira adiantar sua saída, até mesmo para cortar o assunto antes de falar algo que pudesse vir a se arrepender depois.
Após despedir-se da irmã, a mais nova saíra apressada, levando um pedaço do bolo de laranja, em um guardanapo, para comer no caminho. Normalmente, Mônica estranharia sua pressa, mas a jovem tinha aula hoje, então sua pressa estava bem auto explicada, e não teria porque gerar qualquer tipo de desconfiança na outra.
Uma semana se passou, Luísa estava cada vez mais desconfiada das conversas sussurantes entre Angelina e Jéssica pelos cantos da casa, e toques casuais entre conversas, mas especialmente pelas suspeitas saídas no início da noite para fazerem “caminhadas para espairecer”. Já sabia o que estaria acontecendo, mas decidira não pressionar nenhuma das duas a dizer a verdade, mantendo-se neutra a toda aquela estranha movimentação. No entanto, nesse dia a Luísa iria finalmente confirmar todas as suas suspeitas.
À noitinha, a jovem havia saído para jantar com Mário, e voltara para casa mais de 20h. O rapaz a deixara na frente do portão de entrada, a seu próprio pedido, já que, embora Mônica tivesse lhe pedido sinceras desculpas, ainda se sentia desconfortável em trazer o rapaz para casa, após tudo que acontecera naquele jantar.
Então Luísa viera caminhando calmamente pelo jardim, quando ouvira umas risadas abafadas por trás de algumas árvores, em uma parte bem distante da casa.
Aproximara-se do som, bem devagar, sabendo exatamente o que deveria avistar, e não se surpreendera. Angelina e Jéssica estavam deitadas na grama, e a mais nova estaria fazendo cócegas na outra, que estava rindo involuntariamente.
— Ainda acha que eu não ganho de você? — Perguntou Angelina, com o tom de voz provocante, enquanto levantava a sobrancelha em falsa arrogância.
Jéssica a olhou, com os olhos brilhantes, e deu um pequeno sorriso de lado. Com um golpe de mestre, virara a situação em segundos, derrubando Angelina, e jogara-se por cima, a fim de impedir os seus próximos movimentos.
— Diga que você ganha de mim agora. Diga. — Provocou Jéssica, segurando firme, porém delicadamente, as mãos da garota, que mordiscara os lábios em sinal de excitacão.
Ao sentir que a outra não era mais capaz de demonstrar resistência alguma, Jéssica deixara-se levar pelo momento, e aproximara-se do rosto de Angelina para beijá-la. As duas se encararam por alguns segundos, enquanto ansiavam por aquela continuação.
Luísa estava parada, perplexa, assistindo toda a cena.
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