As Melhores Intenções

9 Capítulo 9 - Afogando as Consternas


Notas iniciais
Consternar: O mesmo que magoa, prostra, desalenta, abate, choca, aflige, desola.

Fred tinha a absoluta certeza que jamais se sentiu tão impotente como daquela vez. Ver Eleanor, sua irmã de consideração, com outro rapaz, havia lhe despertado sentimentos desconhecidos. Não era ciúme, ou ao menos não achasse que fosse. Era algo maior que aquilo, talvez um instinto para proteger a menina que sempre viu como uma irmãzinha...

Quem ele queria enganar? Não via Eleanor como irmã há tempos... Só que ele não podia se permitir gostar dela, não com as sutis delegações de Pedro.

O fato era que: Pedro pediu com todas as intermitências que Fred jamais tentasse qualquer coisa com Eleanor, pois se havia uma coisa que Pedro sabia, era que Fred não pertencia a uma única garota, e isso seria frustrante demais para Eleanor.

Por isso ele a dispensou há três anos. Foi cruel e inconsequente. Mas foi absolutamente necessário.

Eleanor agora o ignorava, e odiava a presença dele martirizada todas as noites no jantar. Tinham um relacionamento de cão e gato, e Fred sabia que não podia desejar mais que aquilo, embora agora esteja transcorrendo de vontade de beijá-la a todo instante.

Assim que a observou no meio da multidão da boate, soube que estava perdido, e que ela seria sua ruína.

Ele podia abdicar de todas as outras por uma única garota. Sim, ele podia fazer aquilo.

Mas tinha estragado tudo ao tentar beijá-la na cozinha, na noite do frango e legumes. E hoje, Eleanor estava com outra pessoa, conforme Pedro tinha lhe falado antes dele embarcar na moto e seguir para a casa de praia dos Reis.

Então, como se o destino pudesse pregar uma maldita peça de mal gosto, lá estava ela, acompanhada por Elton. Logo Elton, o garoto que fugia sutilmente todas as noites para o Jardim do Éden. Algo estava errado, mas não cabia a ele confrontar. Não em meio a uma lancha.

Só lhe cabia uma vontade louca de beijá-la, como se ela fosse a última criatura existente no mundo. E isso estava prestes a acontecer, se não fosse o balanço da lancha, e a resistência de Eleanor, ele teria a beijado.

Antes que pudesse selar os lábios aos dela, Eleanor tinha caído para trás, ela soltou um grito alto de pavor, e a única coisa que Fred pode fazer foi gritar pelo seu nome:

— Eleanor!

Notou o quanto aquilo era inútil. Como ela poderia responder se estava prestes a se afogar?

Fred não pensou muito nos próprios atos. Subiu na grade da lancha, e assim como Eleanor, se jogou no mar.

Ela se debatia rente a água.

Fred nadou até ela e segurou os braços agitados de Eleanor:

— Pronto, peguei você! – ele exclamou. – Passe os braços ao redor do meu pescoço.

Eleanor seguiu as ordens sem contestar. Talvez estivesse tão desesperada para sair da água, que ao menos não ligou para o tom autoritário que Fred usou, o que agradou ele, pois assim facilitaria o salvamento dela.

Ele pegou Eleanor pelas pernas, como se estivesse prestes a carregar uma noiva, mas submersos na água. Os dois contornaram a lancha e seguiram para o ponto exato onde Elton e Itália haviam partido.

Fred impulsionou o corpo de Eleanor para cima, que assim que sentiu a lancha, agarrou no chão e subiu ao barco, ficando deitada e sentindo a respiração entrar em um estado normal, enquanto Fred subiu atrás dela, se deitando ao seu lado.

— Meu Deus... – ele sussurrou.

— Obrigada...

Ele levantou a sobrancelha e disse:

— Por nada. Dá próxima vez que quiser ir nadar, não pule da lancha.

Eleanor apenas assentiu. Os olhos dela estavam fechados, e pela primeira vez, estando ao lado de Eleanor deitado no chão da lancha, Fred notou que jamais poderia viver bem novamente sem ela ao seu lado.

Seu coração entrou em pequeno descompasso, ao notar que estava se apaixonando pela garota irritadíssima ao seu lado.

§

Ao recuperar totalmente o fôlego, e voltar para a segunda parte da lancha, Eleanor percebeu que deveria se sentir grata por Fred. Não totalmente grata, já que havia sido o próprio que causou o incidente. Mas ao menos devia estar parcialmente feliz. Quem se arrisca a pular de uma altura considerável para salvar alguém? Além disso, ele poderia ter pedido a ajuda do capitão, não que isso fosse a melhor escolha, considerando que ela podia se afogar ainda mais.

Enfim, a questão era que Fred tinha a salvado de um terrível afogamento, e agora ele a olhava com uma expressão diferente no rosto, como se estivesse esperando os próximos passos dela.

Ela observou o horizonte. Elton e Itália ainda nadavam longe dali, ainda não tinham notado o ocorrido, e pareciam se divertir, mesmo que ela tivesse que forçar a visão para vê-los.

Fred ainda mantinha a expressão indecifrável no rosto. Ele gostava de torturá-la com aquele olhar... Ela suspirou, e se virou para ele:

— Por que agora? – perguntou irritada.

Ele piscou algumas vezes antes de responder:

— Não entendi...

— Por que só agora você me quer? Por que só agora percebeu que talvez tenha uma queda por mim? Por que agora?

Fred fitou o chão. Não sabia se ele olhava para o chão com vergonha, ou se era apenas uma forma de fugir do olhar astuto e questionador que ela lançava para ele.

— Ellie é complicado. Sempre a vi como uma irmã, e há três anos tive que dizer aquelas coisas para evitar um possível desentendimento com seu irmão. – ele se explicou. – Eu não a vejo mais como irmã, mas isso não significa que possamos ficar juntos. Queria aproveitar com você, estar ao seu lado.

Eleanor ponderou que Fred era um idiota. Por que tinha que considerar Pedro antes dela?

— Agora é tarde. Estou com Elton, e não quero essas investidas estranhas suas. – ela retrucou o encarando.

Fred riu, mas foi uma risada seca e quase assustadora.

— Tanto eu como você, sabemos que Elton não gosta de meninas.

— Isso não é da sua conta. E para todos os defeitos, independente de qualquer coisa, eu e ele estamos juntos.

Ela o fitou. Os olhos dele ardiam, não de ódio, não de amor, ardiam com algo maior que ela não soube dizer o que era. E preferiu assim.

Fred jamais saberia de toda a história por trás daquele falso namoro, ela nem tinha contado para Pedro sobre o assunto, então seu segredo estava seguro. Fred não ficaria sabendo. Ao menos não por ela.

— Eu não sei do que isso se trata, mas acho que você vai machucar as pessoas erradas. – Fred declarou.

— E quem são as pessoas erradas? – a pergunta havia soada com um tom de incredulidade.

— Helena, você e eu.

Você?

— É Eleanor, eu.

Era a segunda vez no dia que ele a chamava pelo seu nome inteiro, isso não ocorria com tanta regularidade... Ela o olhou encabulada e suspirou.

Não tinha mais nada que pudesse fazer além de suspirar.

§

Quando finalmente voltaram para a mansão da praia, Eleanor seguiu para o quarto com Elton, acompanhada pelo olhar rancoroso e triste de Fred. Resolveu que a melhor opção era ignorar. Sentia culpa o bastante por seus atos até aquele momento, não podia mais sentir culpa em magoar Fred, afinal, ele merecia, não merecia?

De qualquer forma, ela resolveu que estava na hora de um banho.

Assim que ficou pronta após o banho, ela e Elton foram até o salão principal da casa. Mais uma vez, havia tantas pessoas que Eleanor não conseguiu contar quantas eram. Todos aqueles convidados estavam se divertindo muito, bebendo, jogando papo fora, e comendo conforme os garçons serviam.

Fred não estava presente ali, no entanto o ambiente estava repleto de música, com um pouco de MPB antiga, e uma mistura de músicas mais atuais.

Ela e Elton seguiram para a mesa de Helena, que parecia mais animada naquela ocasião. Helena abriu um sorriso solene para receber os dois.

Estava sempre radiante, mesmo que estivesse à beira de um colapso, Helena seria incapaz de transparecer isso.

— Vocês chegaram! – ela disse, assim que ambos se sentaram na mesa. – Estava me perguntando como foi o passeio de barco...

— Foi ótimo. Eleanor até entrou na água, apesar de ter sido forçada a isso. – Elton explanou um fato que Eleanor preferia ter omitido.

Ela sorriu envolvendo o constrangimento somente para ela.

— Eu caí da lancha, mas Fred me ajudou.

— Fred? Ah, ele é um cavaleiro. – Helena olhou para as pessoas, antes de continuar: – Elton, poderia ir atrás de água para nós? Estou com uma sede...

Ele piscou atordoado. Não era uma coisa que deveria fazer, já que tinha garçons para aquilo. Mas Eleanor o cutucou debaixo da mesa, e torceu para que ele seguisse, afinal, Helena só tinha feito aquele pedido, pois queria ficar sozinha com Eleanor.

Elton balançou a cabeça, cedendo aos pedidos de Helena, e seguiu até a mesa de bebidas.

— Pensei que ele não iria sair daqui. – Helena comentou.

— Também pensei.

Helena fitou Eleanor, com um olhar um pouco indecifrável:

— Eleanor você está fazendo tudo muito bem com Elton. Ele parece feliz.

Realmente, mentir sobre aquele relacionamento havia deixado Elton feliz. Ele não precisava se preocupar em manter um relacionamento não correspondido com Helena, e ainda se mantinha dentro do armário para as pessoas que mais amava.

Ele estava feliz a custo de enganar outras pessoas.

— Quero desistir Eleanor...

Desistir?

— Quero apenas parar de vez com o tratamento, eu realmente não aguento mais.

E antes que Eleanor pudesse responder qualquer coisa, Helena já tinha desmaiado aos pés da mesa.

— Alguém me ajuda! – Eleanor gritou, enquanto em câmera lenta as pessoas se aproximavam dela.

Notas finais
Obrigada por lerem!