As Melhores Intenções
5 Capítulo 5 - Grandes Mentiras
Notas iniciais
Elton fixava os olhos negros unicamente em Helena. Ele parecia compadecido pelas dores de sua amiga, inclusive, ignorara a existência de Eleanor no segundo que chegou, e no mesmo instante, foi tão prestativo atrás de um segundo balde para vômito, que obrigou Eleanor a se levantar da poltrona.
Agora ela estava em pé, observando Elton e Helena agirem como dois namorados, ainda que não sejam mais, ou que Elton seja gay.
No entanto, não cabia a ela atrapalhar o relacionamento daquelas pessoas. Mal conhecia Helena, e só estava ali com um único objetivo: fazer com que Elton diga a verdade, mesmo isso significando a perda definitiva de sua renda temporária.
— Por favor Elton! – Helena suplicou. – Preciso daquelas rosquinhas...
Elton mantinha os olhos nela, mas ao ver de Eleanor, parecia contrariado.
— Mas você está enjoada. Pelo o que me disse, sua mãe foi se livrar do primeiro balde com vômito, e agora, estou segurando o segundo balde. – ele franziu o cenho ainda contrariado. – Rosquinhas não são uma boa ideia.
— Elton, não se pode negar rosquinhas para quem está morrendo!
Eleanor tentou segurar uma risada, mas foi um gesto inútil, pois os olhos negros de Elton a encararam como se ela fosse uma retardada. Ela engoliu seco e pigarreou, disfarçando o constrangimento.
Para sua sorte, Helena não pareceu se importar, e continuou contra-atacando:
— Não me olhe assim Elton! Você entendeu o que eu quis dizer... Depois daqui, vou para casa, e furtivamente, comerei uma rosquinha.
— Uma só rosquinha? – Elton indagou.
— Uma só.— Helena cruzou os dedos em frente ao rosto.
Sua aparência estava terrível, mas nada como um bom humor para melhorar em 100% o sorriso amarelo e os olhos cansados. Ela insistia tanto que Elton fosse comprar as rosquinhas, que não havia como ele negar. Além disso, tanto Helena como Eleanor, sabiam que aquela saída era necessária.
Para Helena: prosseguir com os planos de acalantar o coração do amigo.
Para Eleanor: confrontá-lo e exigir a extrema verdade.
— Ok, você venceu. – Elton sussurrou rendido.
— Ah, Eleanor, vá com ele. Compre rosquinhas para você também.
Eleanor deu de ombros e assentiu, seguindo Elton para fora da ala.
Assim que cruzara para fora do hospital, Elton se virou bruscamente para Eleanor, parando em meio a calçada movimentada.
— Eu sei que Helena pagou para você. – ele grunhiu, enquanto colocava as mãos no bolso da calça jeans. – E você é um pouco desprezível por ter aceitado.
— Perdão?
Eleanor sabia que o mau humor de Elton não vinha de graça. Porém, ele não precisava tratar das coisas tão diretas a ponto de ofendê-la.
Ela se recompôs, e olhou com escárnio para Elton.
— Não sei quem é mais desprezível. Eu que aceitei o trabalho, ou você que mente para sua melhor amiga.
Elton piscou um pouco antes de entender o que estava acontecendo.
— Nunca menti para ninguém. Muito menos para Helena. – ele disse com a voz mais firme que possuía.
Eleanor cruzou os braços, e observou Elton com o olhar mais gélido que conseguia reproduzir.
— Mentiroso. Ou talvez esteja com amnésia... – ela sorriu, enquanto prosseguia: – Será que devo lembrá-lo das suas peripécias no Jardim do Éden?
Elton engoliu seco, e Eleanor percebeu que aquele era o seu touché. Ele olhou para ela como se estivesse prestes a arrancar os olhos dela, e talvez fizesse isso mesmo, se não fosse pelas pessoas que passavam entre os dois.
Ele apontou para o outro lado da rua, direto na loja das rosquinhas, e continuou a caminhar em direção da loja. Eleanor o seguiu, correndo pelos carros e entrando na loja da forma mais mal educada que alguém podia fazer.
Elton balbuciou algumas palavras para o atendente, que apontou uma porta lateral. Ele comboiou até a porta, seguido por Eleanor, que naquele momento, já não entendia mais nada.
Quando atingiram o fundo da loja de rosquinhas, Elton a fez se sentar em uma cadeira velha. Ele circulou pelo cômodo pequeno, que parecia ser um estoque, no qual Eleanor não soube dizer se de fato era.
— Como sabe do Jardim do Éden? – Elton nutria uma falta de paciência impressionante, além de falar de uma forma nociva.
Ela não lhe dirigiu o olhar, e dando de ombros, respondeu:
— Eu o segui, e vi o que estava fazendo com o rapaz que foi atrás de você também.
— O que exatamente você viu? – Elton escolhia as palavras com cautela, mas Eleanor simplesmente as ignorou.
— Você estava transando com ele. – ela respondeu, inquieta e constrangida por ter espiado Elton em posições constrangedoras.
Ele suspirou. Como poderia negar aquilo? Os olhos de Eleanor jamais a enganara.
— Ok, bem, eu sou gay.
— Sim. Percebi isso ontem à noite.
— E sim, eu enganei Helena esse tempo todo...
Existia um certo tom de pesar na voz Elton, no entanto, Eleanor apenas esperou que ele prosseguisse com a própria conclusão.
— A questão é que... – ele olhou de um lado para o outro, perdido pelas constatações que teria que dizer. – Eu amo Helena, profundamente, com todo o meu coração. Eu só não a amo da mesma forma que ela. Nós nos conhecemos desde pequeno, e jurei a mim mesmo que ficaria com ela para todo o sempre, mas no colégio, nas baladas, eu simplesmente me sentia atraído por...
— Homens?
— Sim. – ele sussurrou. – Não quero que me entenda, mas também não quero que me julgue. Não contei nada a Helena, pois se ela souber, terei que falar ao meu pai, e tenho certeza de que ele não irá compreender isso. Se puder manter isso entre nós, eu fico grato.
Eleanor bufou. Como podia deixar aquilo apenas entre os dois, se a sua missão era conquistá-lo? O que diria a Helena se não cumprisse o acordo?
— Não posso deixar entre nós. Já combinei com Helena que faria você feliz! Preciso contar a verdade, senão, não posso trabalhar e muito menos receber o dinheiro dela. – Eleanor se explicou, mas Elton não parecia concordar.
Ele se ajoelhou na frente de Eleanor.
— Você não entende. Se contar para Helena, meu pai irá saber, ele não é alguém compreensível...
— Elton...
— Você pode dizer para Helena que somos namorados. Assim ela ficará feliz, e ninguém irá precisar saber de nada!
O contra argumento de Elton era bom. Eleanor admitia que estava cedendo a concordar com a loucura dele. Bem, era uma proposta boa: fingir ser namorados e continuar ganhando o dinheiro. Embora fosse uma boa ideia, ainda estaria mentindo para uma garota desesperada que estava prestes a morrer. Não parecia ser honesto, não parecia ser do feitio dela fazer algo como aquilo.
A precisão do dinheiro é de tanta importância assim?
Bem, ela podia juntar as economias com o dinheiro que a mãe dedicava mensalmente a colocar em sua conta, mas havia a faculdade, e a mensalidade era tão expansiva... Além disso, não podia deixar Pedro bancar todas as coisas sozinho. O trabalho como autor não lhe rendia bons frutos.
Podia procurar um emprego normal? Podia, se não fosse pela crise econômico em que o país passava, se não fosse pela falta de oportunidade... Se não fosse por estar tão desesperada, ela teria feito Elton dizer toda a verdade para Helena. Mas antes que pudesse raciocinar melhor, ela decidiu:
— Ok, acho que podemos fazer isso.
— Sério? – Elton indagou, ainda incrédulo.
— Sim..., Mas depois iremos dizer a verdade para Helena. Ela parece ser compreensiva. Assim que você estiver pronto para contar sobre, iremos desmanchar esse mal entendido. Ficaremos juntos por ora, para continuar com o combinado.
Elton sorriu e agarrou as mãos de Eleanor.
— Prometo que serei um bom namorado de mentirinha. Só teremos que agir felizes na frente de Helena. – ele percorreu a palma das mãos de Eleanor, antes de continuar: – Você deve estar se perguntando, por que não falo logo para Helena..., Mas é que não estou pronto. Considero ela da família, e quando contar, queria que todos soubessem de uma vez.
— Não seja bobo Elton. Mas eu o entendo, só acho suas razões erradas... Se eu perceber que isso irá se prolongar por muito tempo, farei com que você diga toda a verdade. – era mais uma exigência do que aviso. Eleanor sabia que mantinha um tom duro, mas o que estava fazendo era tão errado, que o sentimento de culpa já corroía suas entranhas.
Ela suspirou fundo ao perceber no que havia acabado de embarcar.
— Vamos deixar Helena feliz. Esse primeiro mês de radioterapia e quimioterapia irá debitá-la. Depois, irei confessar tudo aos meus pais, e a ela. Devo isso a ela, principalmente ela, que contratou alguém para me amar. – Elton disse com pesar.
— Ela te ama muito Elton. Não queria vê-lo sozinho caso aconteça algo com ela...
— Eu sei Eleanor, eu sei...
Não parecia que soubesse, mas Eleanor ficou quieta. Já tinha se metido em grandes problemas, a única coisa que podia fazer, era torcer para que a rede de mentiras não ficasse maior do que já estava.
§
Os dois voltaram para a ala do hospital carregando pacotes de rosquinhas. Esmeralda, a mãe de Helena, achou extraordinário a quantidade, e não conseguiu esconder a vontade que sentia em comer uma. Já Helena, garantiu que iria comer tudo quando o enjoo passasse, coisa que não iria ocorrer tão rapidamente assim.
Elton e Eleanor voltaram mais próximos, disposto a levar a mentira para frente.
Helena até sorriu ao notar a proximidade de ambos, e logo, encaminharia uma mensagem com sua satisfação quanto aquilo, disso, Eleanor não tinha dúvidas.
Ela tentou não encarar as pessoas ao seu redor. Sentia uma culpa estranha a consumindo, e a cada minuto que passava, se odiava um pouquinho mais.
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