As Melhores Intenções
3 Capítulo 3 - Jardim do Éden
Notas iniciais
Eleanor olhou uma última vez para o seu reflexo no espelho. Havia tanto tempo que não ia em baladas ou festas, que tinha até se esquecido de como se vestir para aquela ocasião. É claro que sabia que tinha de ir bonita, desejável, que fizesse com que Elton pudesse se interessar por ela, mas não possuía roupas adequadas.
Precisou ligar para Angie, sua melhor amiga, e obrigou a amiga trazer algumas opções que pudessem dar certo para o evento, e finalmente, ambas conseguiram encontrar um bom aspecto para Eleanor.
O vestido de mangas compridas com brilho prateado, havia lhe caído como uma luva. Até mesmo disfarçava a saliência na barriga que Eleanor tinha adquirido recentemente.
— Ah, ficou linda. – Angie murmurou, encarando o reflexo de Eleanor no espelho.
— Mesmo?
— Mesmo.
Angie era a pessoa mais sincera que Eleanor conhecia. E quando sua amiga a elogiava, isso significava que de fato estava bonita. Os olhos azuis de Angie brilhavam.
Ela se jogou na cama de Eleanor, enquanto suspirava aflita.
— Angie... O que está acontecendo? – Ellie perguntou.
— Seu irmão. Ele não me ligou desde a última vez que saímos. Quando ele chegar e me ver aqui, vai me ignorar...
— Ângela Siqueira! Pare com isso imediatamente.
Mas Angie permaneceu deitada na cama.
Eleanor sabia que Pedro e Angie tinham um relacionamento complicado. Era de extrema importância frisar a palavra complicado para não chamar aquilo de tóxico. No entanto, ambos viviam nesse vai e vem de relacionamento há muito tempo, e mesmo que ela tentasse interver, Pedro e Angie simplesmente não se desgrudavam.
Viviam entre tapas e beijos.
— Bem, tem certeza de que não quer ir comigo ao Karaokê? – Eleanor perguntou.
— Tenho sim! Aliás, você tem que cumprir o seu trabalho.
Eleanor apenas assentiu. Contar para a amiga sobre seu novo emprego, havia sido algo fácil. Angie sempre fora a pessoa mais compreensível do mundo, e isso a tornava uma excelente melhor amiga. Podia até julgar as atitudes de Eleanor, mas compreendia melhor do que ninguém suas razões.
§
Assim que chegou ao Karaokê, Eleanor foi recebida por dois seguranças. Um, avaliou o convite online que havia recebido de Helena, e outro, a acompanhou até a área vip, onde Helena e sua turma a aguardavam.
Quando se aproximou do grupo de pessoas que se formava ao redor de uma mesa redonda, Eleanor pode reparar no quanto Helena estava diferente. Usava uma peruca rosa choque, e vestia um vestido apertado, destacando bem suas curvas. Linda, pensou Eleanor se aproximando do grupo.
— Oi! – ela exclamou, recebendo a atenção de todos.
Eram pelo menos 5 pessoas naquele grupinho social contando com Helena. Tinha uma garota loira, uma morena, um garoto ruivo, e um menino de cabelos pretos e longos cílios. Ele usava delineador no olho, o que acentuava os olhos puxados. Talvez esse garoto fosse Elton...
Helena a recebeu feliz. Pulou a mesa que as separavam, e abraçou Eleanor com pouca delicadeza.
— Você veio! Bom, vou apresentar o pessoal. – ela disse, apontando para o grupo de pessoas. – Essa loira aguada é Marlene, minha prima. – Marlene cumprimentou Eleanor com um gesto sutil. Pelo jeito, não desperdiçaria seu tempo falando com ela. – Está é Itália. E sim, ela tem o nome de um país.
Itália, que até o momento mantinha sua atenção unicamente para a bebida, lançou um olhar terno para Eleanor e sorriu:
— Olá Eleanor! Helena nos contou sobre a nova amizade que fez.
A princípio, Eleanor ficou surpresa em saber que todos já a conheciam..., Mas ponderou que aquilo pudesse ser parte dos planos de Helena, e apenas correspondeu aos cumprimentos de Itália.
— Bem, continuando as apresentações. – Helena disse, apontando para o garoto ruivo. – Esse é o Bernardo.
Bernardo sorriu para ela, que retribuiu o sorriso.
— E por último, Elton, meu japa mais mal-humorado de toda boate.
Elton não a olhou, muito menos sorriu, ou gesticulou qualquer gesto.
Eleanor se arrepiou ao sentir a frieza no qual seria tratada, e na qual teria que lidar. Ela olhou com um olhar de suplicias para Helena, que apenas deu de ombros.
— Ele está assim porque vocês finalmente terminaram o relacionamento... – Itália esclareceu. – Todos nós sabíamos que não estava mais dando certo... Melhora esse humor Elton, ao menos vocês são amigos.
Talvez ele não quisesse ser amigo, Eleanor pensou, mas não disse nada. Apenas se aproximou do seu lugar à mesa, e acompanhou Helena nos drinks.
— Quantos anos você tem? – Helena perguntou, oferecendo um copo de martini a ela.
— Tenho 21. E vocês? – respondeu, pegando o copo da bebida.
— Todos nós chegamos aos 18 já, quer dizer, nem todos. – Helena apontou para Elton, que permanecia com os olhos centrados na pista de dança. – Ele tem 17.
Menor de idade. Eleanor gelou. Não podia fazer aquilo com um menor de idade. O que diriam dela se descobrissem?
Ela olhou para Helena, que assentiu.
— Vamos ao banheiro juntas? Precisamos conversar... – Helena pediu sussurrando, para que ninguém mais pudesse ouvi-las.
Eleanor a seguiu até o banheiro, que ficava no andar inferior da boate. As duas entraram no espaço, e com apenas um estalar de dedos, Helena se livrou de todas as pessoas presentes do banheiro, inclusive aquelas que estavam nas cabines.
— Ai! O que faremos Eleanor? – Helena andava de um lado para o outro. Aparentemente nervosa, quando prosseguiu: – Terminei com Elton, mas ele ficou bravo, e não triste... Na verdade, pareceu aliviado... E quando disse que podíamos ser amigos, ele disse que estava tudo bem. Acho que ele não gostava de mim mesmo.
— Mas isso você já sabia, não? – a pergunta saiu pelos lábios de Eleanor sem ao menos ela perceber o que havia acabado de dizer.
Mas Helena não se importou com o comentário, e continuou:
— Sabia... Bem, disse para ele e aos meus amigos que fiz uma amizade com você. Elton está desconfiado que arranjei você para ele... Ele me acha patética. Sempre tentando conciliar as coisas...
Talvez Helena fosse patética mesma..., No entanto, não cabia a Eleanor lhe dizer a verdade. Ela precisava daquele emprego, mais do que imaginava. A quantia singela que havia recebido durante a manhã, foi muito boa. Conseguiu fazer seus investimentos, e planejou sua futura viagem pós formatura. Estava empolgada com sua missão, e estava disposta a fazer tudo o que lhe solicitaram, inclusive, distrair Elton...
— Bom, talvez ele esteja irritado com você. Mas vai passar. – Eleanor tentou deixar as coisas mais calmas. – Onde eu posso encontrá-lo, além daqui, é claro?
Helena pensou por alguns minutos, e disse:
— Não sei... No hospital, no colégio dele...
Meu Deus, ela estava lidando com um garoto do colegial? Eleanor sentiu o estômago revirar.
— Quando ele completa a maior idade? – sussurrou, sentindo mais algumas náuseas a invadirem.
— Mês que vêm. Calma, não será nada ilegal... – Helena a tranquilizou. – Bem, vamos fazer o seguinte. Voltamos para o salão... Você terá que ir atrás dele, e caso não consiga aqui, pode me visitar no hospital amanhã. Ele sempre vem me ver durante o período da manhã. Ele ainda está de férias do colégio, então vem me ver com mais frequência.
Eleanor assentiu. Ela também estava de férias da faculdade, e teria muito tempo livre até organizar sua vida. Não seria um problema visitar Helena no período da manhã, já que desperdiçava seu tempo assistindo a videoclipes de K-POP.
— Vamos voltar, talvez observar ele na balada possa te ajudar.
Ambas seguiram para a mesma mesa em que estavam antes, mas ao invés de estar cercada pelos amigos de Helena, a mesa estava sozinha. Aparentemente, todos haviam se dispersado pela boate, e assim que notou a falta de Elton, Eleanor suspirou.
Seria mais difícil do que imaginava.
Elton não estava disposto a aceitar todas as iniciativas. Parecia desconfiado das intenções de Helena, já que ela não é nada sútil. Entretanto, Eleanor sabia que precisava cumprir o combinado, já havia recebido boa parte do dinheiro proposto por Helena, e nada mais justo do que continuar com sua parte no acordo.
Ficar, cuidar e amar Elton. Mesmo que ele não permita isso.
Ela atravessou a boate, enquanto Helena voltou a se sentar na mesa. Eleanor procurou por todos os lados. No palco de Karaokê, na pista de dança, e até mesmo na área onde não precisava de pulseiras vips para entrar.
Quando alcançou a pista de dança, notou que Itália e Bernardo dançavam freneticamente ao som de um DJ. Eleanor só não entendeu como a música do DJ e do karaokê, não destoavam entre o palco e pista de dança.
Se aproximou da bancada do DJ, e assim que colocou os olhos no artista, engasgou-se:
— Fred?! – exclamou.
Fred tocava com frenesi. Sabia que o principal ganha pão de Fred era a música, só não imaginava que ele pudesse tocar em uma das boates mais badaladas da cidade, o que para ela, significou que ao menos ele tinha um pouco de talento.
— O que faz aqui Ellie? – ele perguntou, lançando para ela um dos sorrisos mais indecifráveis.
— Hum, apreciando. – mentiu, já que se recusava a explicar o real motivo.
— Apreciando? Que palavra bonita para se usar numa balada...
— Não sabia que trabalhava aqui.
Ele deu de ombros, e continuou a tocar.
— Há muitas coisas sobre mim que você não sabe.
E de fato, existiam inúmeras coisas que Fred jamais lhe contaria. Isso porque a guerra entre os dois foi declarada há três anos, e desde então, não compartilham nada entre si, a não ser um sentimento de ódio recíproco.
— Eu tenho que achar uma pessoa. – ela começou a dizer. – Tchau Fred, e vê se não aparece para jantar em casa amanhã.
— Pode deixar Ellie, você sabe que eu sempre apareço.
Antes que pudesse pensar em algo para responder, ela se distanciou e seguiu para pista, balançando a cabeça. Fred não era o seu foco naquela noite, precisava encontrar Elton o quanto antes.
E quando suas esperanças já tinham desaparecido, ela visualizou Elton seguir para o andar de cima da boate, seguido por um rapaz.
Eleanor seguiu os dois, atravessando mais uma vez a pista, e se direcionando para a escada, que a levava direto para o andar superior. Assim que atingiu ao extremo principal do andar superior, notou que algo não estava certo. Entrou em um extenso corredor, chamado Jardim do Éden, e em cada canto tinha casais se atracando, beijando, e fazendo coisas incompreensíveis para ela.
Observou ao redor atrás de Elton.
E quando chegou ao final do corredor, o encontrou, mas ele não estava sozinho.
Elton estava acompanhado pelo rapaz, e os dois, estavam em posições altamente perigosas.
Pela vigésima vez naquela noite, Eleanor suspirou.
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