As Melhores Intenções
16 Capítulo 16 - Amor Sem Fim
Notas iniciais
2 meses depois...
“Eu nunca pensei o que a morte poderia representar. Ela sempre me pareceu uma ideia distante, até que uma das minhas melhores amigas morreu. Queria poder dizer palavras de consolo, queria poder falar que talvez ela esteja em um lugar bem melhor, e que os anjos estão felizes por tê-la ao lado deles. Mas nada disso seria verdade, nenhuma palavra seria, pois, o que eu sinto de verdade, é um tremendo buraco oco em meu peito, como se uma parte minha tivesse morrido com ela. Odeio pensar nisso! Me sinto tão egoísta..., mas apesar de tudo, eu só queria que Helena pudesse ter tido mais dias. Que sua luz pudesse irradiar mais nas pessoas. Que seu sorriso iluminasse mais caminhos... Queria, além de tudo, que ela estivesse aqui, comigo, ao meu lado. Já se passaram 2 meses desde que ela partiu, finalmente está na hora de seguir. Em frente? Não sei. Sinceramente, não sei para onde ir.”
Helena havia partido numa tarde de segunda-feira. Eleanor não estava presente quando ela deu o seu último suspiro, mas sabia que ela estava feliz. Seus últimos dias tinham sido repletos de alegria. Havia comida boa, música, e boa companhia. Ela se foi feliz, ainda que sua luz estivesse quase se apagando.
Agora, depois de 2 meses que ela se foi, Eleanor estava novamente perdida. Tinha encontrado um bom emprego, estava nos últimos momentos da faculdade, acompanhava a evolução no relacionamento de Angie e Pedro, e estava cada dia mais apaixonada por Fred.
Ah, não tinha como não se apaixonar por ele, especialmente quando ele provocava a felicidade nela. Uma felicidade que ela não conhecia, e gostava de saborear cada pedacinho do que aquilo podia lhe proporcionar. Estava, em outras palavras, feliz! Ainda que não soubesse para onde ir.
A vida precisava de um sentido, e desde que Helena partiu, esse sentido se perdeu com ela. Por isso, assim que acordou na manhã gloriosa de sábado, Eleanor seguiu até a torre mais alta da cidade.
Não que fosse encontrar o melhor caminho indo para lá, não, isso não iria acontecer daquela forma. No entanto, a torre era o ponto mais alto da cidade, onde ela finalmente poderia jogar as cinzas de Helena, que ficou retida com ela.
Isso tinha sido um pedido especial de Helena, e seus pais não puderam negar os pedidos da filha. Portanto, a tarefa de Eleanor era jogar as cinzas.
Ela temia que quando isso finalmente acontecesse, pudesse enfim seguir em frente.
Vestiu seu macacão jeans favorito, colocou o gorro laranja de Helena, e caminhou em passos rápidos até a estação de metrô.
Levou menos de uma hora até chegar na entrada da torre. Pagou o ingresso, e com o jarro das cinzas embaixo de seu braço, seguiu até o ponto mais alto da cidade. A vista, assim como sempre suspeitou, era a vista mais linda. Podia passar horas e horas ali admirando os carros e as pessoas andando pelas ruas. Podia passar uma vida inteira ali que não se incomodaria, nem um pouco.
Conseguia entender o motivo de Helena. Ela, queria além de tudo, permanecer olhando aquela vista para sempre.
Eleanor colocou os fones, e ligou na música favorita de Helena. Just Like Heaven.
Ela se aproximou da grade que separava o precipício da torre, e jogou as cinzas no ar. O vento levou as cinzas para longe, e finalmente, Helena podia descansar em paz.
§
— Às vezes fico me perguntando, como seria a vida se não tivesse conhecido Helena. – Eleanor sussurrou. Ela estava deitada na cama, ao lado de Fred, que parecia se divertir com os cabelos soltos dela.
Ele puxou um fio, e sentiu a madeixa do cacho voltar, fazendo quase um barulho.
— Hum, talvez nós nunca tivéssemos ficado juntos. – Fred comentou.
— É, e Elton nunca teria saído do armário.
Fred não pode conter um sorriso.
— Sim. De alguma forma, a menina Reis nos proporcionou coisas boas.
Eleanor assentiu. Era verdade, ter cruzado o caminho com Helena foi uma das melhores coisas que aconteceu em sua vida.
— Tudo começou com As Melhores Intenções. E acabou bem, por incrível que pareça. – ela disse, ainda com um sorriso bobo perdido nos lábios.
— Somos eternamente gratos por ela então.
— É, somos sim. – ela o encarou por alguns instantes, e ao ver os olhos de Fred, ela teve certeza.
Era aquele momento em que você olha para o amor da sua vida, e sente que precisa lhe falar o quanto o ama. No entanto, não existem palavras suficientes para expressar a imensidão do amor que sente.
Fred, era o seu amor, disso ela não tinha dúvidas alguma.
Nos seus braços, ela podia ser quem quisesse. Ela podia ficar ali para sempre, que jamais reclamaria.
— Eu amo você. – ela sussurrou, pois sabia que não conseguiria dizer em voz alta. – Amo demais, não consigo me imaginar não o amando.
Fred ficou emocionado. Ela podia ver as gotículas de lágrimas formando em seus olhos. Ele a olhou, sorriu, suspirou, e por fim, conseguiu dizer:
— Eu também amo você. Pensei que nunca diria, mas agora que você me disse, sinto que precisava te lembrar disso todos os dias. Amo você, e não posso passar um dia sequer sem você.
Ela o abraçou, sentindo o coração bater cada vez mais rápido dentro de seu peito.
Meu Deus, como ela gostava de finais felizes!
§
Desde que Helena havia partido, Elton percebeu que não tinha muito sentido continuar com sua vida ali. Logo o colégio terminaria, e finalmente ele estava livre para ser quem ele de fato era. Mesmo isso incomodando ao seu pai, que não lhe dirigiu mais nenhuma palavra.
Para ele, estava tudo bem, um dia seu pai poderia enxergar as coisas de uma outra maneira... Quanto a sua mãe, Victória tinha decidido que estava na hora de ajudar ao filho a encontrar alguém. Até mesmo inscreveu Elton em um aplicativo de relacionamento. Mas ele estava recluso. Queria ficar em paz consigo mesmo, e viver as experiências por conta própria.
Por isso, assim que entrou na agência de intercâmbio, suspirou aliviado. Iria para Londres, se perder nas ruas londrinas e talvez encontrar o que sempre procurou ali.
Jamais se esqueceria de Helena, e toda sua sagacidade. Jamais se esqueceria de Eleanor e toda sua loucura.
Tinha sido feliz nos últimos meses, mas, como todo bom garoto perdido na própria cabeça, ele precisava seguir para longe, e Londres era o seu destino certo.
— Eleanor, eu agradeço, de verdade. Não consigo imaginar como seria os últimos momentos de minha filha sem você. – Esmeralda disse, assim que serviu chá para Eleanor.
Ambas estavam sentadas no café, o mesmo que ficava em frente ao hospital.
Esmeralda passava os dias indo e vindo ao hospital, tinha encontrado um acalanto para o coração cuidando daqueles que não tinham companhia.
— Eu que devo agradecê-la. Não sei o que eu faria da minha vida sem ela. – Eleanor respondeu, enquanto saboreava o chá.
— Sabe, eu pensei que iria morrer junto com ela. Mas até nisso Helena me impediu, ela sempre foi forte demais para permitir que eu ficasse triste. Sabia que ela providenciou cartas?
— Cartas?— Eleanor indagou confusa.
— Sim, cartas para superarmos a perda. A sua deve chegar em breve em seu apartamento. Ela planejou a demora também! Essa menina, ela era incrível.
Eleanor sorriu. De fato, Helena era impressionante.
§
Assim que chegou ao apartamento, Eleanor correu para verificar as cartas que tinha recebido, e assim como Esmeralda falou, lá estava a carta de Helena.
Ela se sentou na sala, e a abriu, pronta para ver os primeiros rabiscos:
“Eleanor,
Não sou boa em cartas, então me perdoe caso você não goste do que vou escrever. Essa será a carta mais curta que irei escrever, pois estou com os dedos cansados de tanto tecer palavras para as pessoas que amo. Sabia que aprendi a palavra “tecer” com você? Nem sei se estou a usando do modo correto, mas se não estiver, ignora o meu erro e continue a leitura da minha carta com um sorriso estampado no rosto!
Se você está lendo essa carta, significa que se passou dois meses desde que eu parti. Sinto muito se eu lhe causei alguma dor (espero de verdade que você esteja triste com minha partida). Sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas pode acreditar, sinto como se a conhecesse há séculos. Como se estivéssemos predestinadas para termos as melhores intenções juntas. Obrigada por me mostrar uma amizade sincera. Por me fazer comer bem nos últimos dias, e por finalmente ter libertado Elton. Cuide dele!
Amo você, menina dos pés cheios de bolhas. Com amor, carinho, e uma porção de churros, Helena.”
Eleanor riu, a única coisa que podia fazer depois daquilo, era sorrir. O sorriso mais verdadeiro que podia dar.
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