As Melhores Intenções
6 Capítulo 6 - Suspiros Tenebrosos
Notas iniciais
Uma semana depois, desde o início de seu caótico emprego, Eleanor estava à beira da loucura.
Enviou centenas de currículos, e não obteve nenhum retorno. Pagou todas as contas em débito, e quase caiu da cama ao olhar o valor da fatura de seu cartão de crédito, definitivamente, ela precisava urgentemente parar de gastar com sapatos e chapéus. E ainda, para piorar sua situação, estava em um falso relacionamento com Elton...
Suspirou, naquela altura do campeonato, não contava mais quantos suspiros dava por dia, mas sabia que eram muitos, tantos que até mesmo Pedro ficou irritado com os suspiros benevolentes que ela lançava toda a noite na mesa de jantar:
— Está suspirando de novo! – ele dizia irritado. – O que está acontecendo?
Ela apenas o ignorava e voltava a suspirar. Depois de um tempo, Pedro simplesmente deixou de questionar todos os suspiros.
Agora ela estava parada em frente ao hospital, agarrada com seu livro, e com uma boina na cabeça. Atravessou a recepção, sendo novamente ignorada pela recepcionista, e seguiu para a ala de quimioterapia.
Helena como sempre estava radiante. Os olhos verdes encaravam o líquido rosa que transcorria por sua veia. Os lábios rachados, as olheiras evidentes... Nada abalava a brilhante imagem que ela produzia.
Eleanor se aproximou dela, certa de que as duas apenas iriam ler o livro como combinado na semana anterior, no entanto, os planos de Helena eram diferentes:
— Qual é sua magia? Elton está encantado! – Helena logo a interrogou, antes mesmo que Eleanor pudesse se acomodar na poltrona.
Ela apenas assentiu em um gesto educado, e sorriu ao dizer:
— Não sei, só conseguimos nos dar bem... – uma mentira deslavada, mas o que podia fazer?
Era provável que Elton tenha feito uma propaganda para enganar Helena. Ele tinha mandado algumas mensagens para Eleanor, informando quais seriam os próximos passos. E ela teve que assumir que ele era um bom mentiroso.
Disse para Helena que estava gostando cada vez mais de Eleanor, e que logo, pretendia levá-la a casa dos pais. Isso deixou Helena satisfeita, tanto que na tarde anterior aquela, Helena ligou para Eleanor feliz e impressionada.
É claro que Eleanor ficou desolada. O sentimento de culpa a consumia, e a rede de mentiras que apenas encobriam os três, estava atingindo um patamar enorme.
— Ah Eleanor, eu sabia que você seria ótima para este trabalho. Elton já parece até mais feliz! – Helena balançava as mãos satisfeita. – Pensei que devíamos comemorar! Amanhã terei uma pausa no tratamento, e meu pai quer comemorar uma evolução do meu quadro de saúde. O que acha de irmos à casa da praia? Fica em uma das melhores praias do estado.
— Acho legal... – na verdade, ela não achava nada bom, entretanto, como poderia falar que não? E ainda se explicar de maneira simples?
Helena sorriu.
— Perfeito. Iremos no final de semana. Avise o Elton, você pode ir junto com a família dele.
O que? Colocar a família de Elton no meio disso tudo? Não era exatamente o que Eleanor pretendia.
— O que é esse olhar em seu rosto? – Helena indagou.
Por alguns segundos, Eleanor permaneceu perdida em seus próprios pensamentos. Ela encarou Helena, e sorriu, tentando disfarçar o evidente incomodo.
— Tudo bem! É-é, quer dizer, não esperava que a família dele também fosse... – ela respondeu.
Helena balançou a cabeça distraída.
— Sim, eles irão. Meus pais também irão. E meus amigos da boate também. Quando se trata de uma festa, eu gosto de chamar todos. E eu acho que esse fim de semana é a sua oportunidade de se aproximar ainda mais de Elton.
Eleanor engoliu seco.
Quando pequena, sua mãe sempre lhe falava sobre as consequências de uma mentira. Agora que vivia uma, sentia na pele as complicações de mentir e enganar alguém.
Meu Deus, como se sentia péssima!
— Certo, então eu irei. – ela declarou, ainda que se sentisse péssima por balbuciar tais palavras. – Depois irei ligar para Elton.
— Perfeito!
Helena ainda mantinha um sorriso satisfeito no rosto.
— Hoje não está enjoada... – Eleanor comentou.
Precisava urgentemente comentar sobre qualquer coisa que não fosse a festa na casa da praia.
— Ah, sim, é verdade. Hoje tive sorte! Ontem Elton esteve aqui, e vomitei bem mais do que na semana passada. – ela deu de ombros, depois prosseguiu: – Acho que ele não liga para isso, o que é ótimo.
— Sim, ele é bem sensível quanto a você.
— Ele é, né? Meu melhor amigo. Fico feliz por saber que alguém estará ao lado dele quando eu morrer. De todas as pessoas que eu conheço, ele é o único que sei que vai sofrer muito.
— Por quê? – Eleanor a questionou.
— Porque, bem, ele é o amor da minha vida, e eu sou o amor da vida dele. Mesmo que nós não possamos ficar juntos. – Helena estalou a língua, e então continuou: – Veja, não é de forma romântica, mas é um amor de amigos, de irmãos... Só sentindo para entender.
Eleanor sorriu. Helena tinha uma sorte e tanta de ter encontrado um amor assim, mesmo não sendo de forma romântica. Eleanor queria também se dar ao luxo de uma sensação como aquela, mas a única vez que se permitiu sentir algo parecido, teve o coração totalmente dilacerado.
Ela fitou Helena por alguns minutos, até se lembrar do silêncio que havia postergado entre as duas.
— Oh meu Deus, esqueci de ler o livro para você! – ela exclamou, pegando o livro que tinha separado especificamente para aquela quarta-feira.
— É mesmo, ficamos distraídas com estes papos cabeça.
Eleanor sorriu. Ela folheou o livro sentindo o cheiro das páginas amanhecidas. Se livrou do marcador, e começou a balbuciar a sinopse da história:
— “Isabel se acha feia. Será mesmo? Feia ou não, é uma garota genial que acaba escrevendo lindos versos para ajudar o namoro de Rosana, sua melhor amiga, com Cristiano, seu grande amor“.
Eleanor passou a tarde lendo o livro A Marca de Uma Lágrima. Às vezes se perdia entre um poema e outro, e às vezes se identificava com a protagonista. Outras, olhava para Helena e torcia o nariz ao reparar no quanto a leitura não lhe parecia empolgante, pelo contrário, causava a ela sono. E quando Eleanor decidiu parar de uma vez por todas de ler, Helena protestou:
— Continue, gosto de ouvir a leitura.
Ela prosseguiu lendo, e logo notou o quanto gostava de praticar a leitura em voz alta. Gostava ainda mais de dividir o seu tempo com Helena, se sentia útil, e esperava de verdade que todas as suas perturbações passassem o quantos antes, e que a mentira desenfreada que ela e Elton estavam levando à frente, pudesse finalmente acabar.
§
Uma hora depois, Eleanor estava na pequena cozinha de seu apartamento, preparando legumes na frigideira, e assando frango no mini fogão portátil que havia ganhado de seu pai.
Na época em que ganhara o fogão, jamais imaginava o quanto aquilo podia ser útil. Odiava de mil maneiras aquela peça, mas aprendeu a amá-la quando sentiu a necessidade de cozinhar algo diferente.
— Ellie! Não voltou mais ao Karaokê?— Fred disse, assim que atravessou a cozinha, assustando Eleanor.
Ela o fitou com um iminente ódio transcorrendo em seus olhos.
— Cadê o Pedro?
— Na sala, com Angie. – ele respondeu, roubando um brócolis da frigideira. – Uau, está quente...
Fred permaneceu atrás de Eleanor, a observando mexer nos legumes com raiva.
— Você nem me repreendeu... O que houve? – Fred indagou.
Era evidente que todo o comportamento que Frederico usava em plena a cozinha, Eleanor o repreendia. No entanto, estava tão perdida nos próprios pensamentos, que mal conseguia dizer qualquer palavra inteligente.
E tinha uma necessidade fora do habitual se portar como uma garota esperta, inteligente, evitando que seus sentimentos ficassem tão transparentes.
Desde que Fred partira seu coração, Eleanor construiu um muro, evitando que sentimentos bons entrasse e saísse. Vestia uma máscara de garota intelectual, boa demais para qualquer um que tentasse investir. E mesmo portando essa postura, tinha aqueles que investiam, resultando em dois últimos relacionamentos frustrados.
Agora, ela se revestia por sua seriedade.
Só não conseguia fazer isso naquela noite. E se odiou por deixar a máscara cair com tanta firmeza de seu rosto.
— Não aconteceu nada. – respondeu rispidamente, se concentrando apenas nos legumes.
— Normalmente você me chamaria de mal educado. Ou me daria um belo tapa forte em meu ombro. Não ficaria com esse olhar vago, pensando em algo que vai além de suas forças. – Fred disse, ainda observando Eleanor.
Ela podia sentir o olhar dele queimar sua pele... Não! Ela não iria permitir que isso acontecesse! Piscou algumas vezes, antes de responder:
— Estou com gripe, e sem disposição e tempo a perder com você.
— Gripe? Nem sabia que a tão destemida Eleanor Santos se deixava abater por uma gripe. – ele riu. – Por que não diz logo o que aconteceu de verdade?
— Porque não é da sua conta... – ela retrucou.
— Antigamente você era mais amável. – ele sussurrou.
— E do que adianta ser amável se isso não foi o suficiente para evitar que partisse meu coração?
Eleanor arregalou os olhos. Não pretendia expor aquelas palavras para fora daquela forma. Na verdade, não pretendia de forma alguma falar sobre, mas havia tantas confusões dentro de seu peito, que quando menos esperava, as palavras saíram naturalmente.
— E-eu...— ela tossiu. – Bom, eu vou tirar o frango da assadeira, se puder arrumar a mesa do jantar... Já sabe onde fica tudo...
Ela se virou, pegou dois panos de pratos, e olhou para o mini forno. Mas antes de prosseguir com sua tarefa, Fred a puxou pela cintura, fazendo com que ela se virasse para ele.
O rosto de Fred estava tão próximo do dela, que todos os seus sentidos haviam dissipado.
Como depois de tanto tempo ele ainda podia mexer com ela? As pernas bambas indicavam o efeito que ele causava nela, inclusive, ela tinha certeza de que Fred sabia muito bem o que aquele gesto estava representando.
— Será que podemos esquecer o passado? – ele disse com uma voz rouca, parcialmente arrebatadora.
Eleanor pigarreou, tentando fugir das mãos que ainda a segurava pela cintura, mas o movimento foi em vão, já que Fred só pressionou mais as mãos nela.
— Acho que quero pegar o frango do forno. – ela sussurrou.
— Como queira. – ele a soltou, mas por alguns segundos, Eleanor jurou que queria continuar daquela forma, com as mãos de Fred segurando sua cintura.
Meu Deus, estava fora de si. Completamente fora de si.
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