As Melhores Intenções

11 Capítulo 11 - Discos de Vinil


Notas iniciais
Toda vez que eu penso em lhe dar, o meu amor, meu coração...

Na quarta-feira da semana seguinte, Eleanor seguiu até o hospital.

Como rotina, ela tinha estabelecido seguir algumas ações ao longo de sua semana:

Nas segundas, tratou de separar o dia unicamente para Yoga ou Pilates. Mas nenhuma das opções deu certo. Por isso, decidiu que segunda-feira era o dia de quaisquer exercícios, desde que cuidasse de seu corpo.

Nas terças, cuidava de suas finanças. Tinha recebido alguns valores exorbitantes de Helena, que parecia satisfeita com o que Eleanor e Elton tinham feito. Mesmo sentindo-se altamente culpada, Eleanor usou o dinheiro para cobrir suas despesas, e até mesmo ajudou Pedro a pagar as contas.

Mas ela não podia deixar as coisas daquele jeito.

Havia prometido a si mesma que devolveria todo o dinheiro, levando o tempo que fosse necessário para juntá-lo.

Nas quartas, dedicava o seu tempo a ler para Helena, que saboreava a leitura de histórias diferentes, além de ser o único dia da semana em que ela comia algo diferente da comida do hospital.

Naquela quarta em específico, Eleanor prometeu levar churros de doce de leite.

Ela cruzou a recepção, já sendo reconhecida pelos funcionários e médicos, e seguiu para o quarto de Helena.

Helena estava assistindo TV quando Eleanor bateu na porta:

— É você a pessoa que está trafegando pelo hospital com um cheiro de churros? – Helena perguntou animada, assim que colocou os olhos na caixa que Eleanor segurava.

Eleanor deixou os churros na mesa improvisada próxima da janela, e assentiu.

— Churros de doce de leite. Os melhores que você pode encontrar em São Paulo.

Helena suspirou.

— Se minha mãe descobre que você anda me trazendo isso, ela terá um troço. – ela riu, ao imaginar Esmeralda tecendo palavras sobre o quanto o açúcar faz mal. – Ainda bem que ela está ocupada demais no salão. Com você e Elton vindo todas as quartas e quintas, foi muito bom aos meus pais, que decidiram ter esses dois dias da semana de folga.

Eleanor sorriu. Esmeralda e Alexander passavam os dias no hospital, só tinham uma folga nas quartas e quintas, dias tirados exclusivos para os visitantes ficarem com Helena.

— Fico feliz em estar sendo útil.

— Sim, sim! Você tem sido maravilhosa. Uma pena que dentro de algumas semanas suas visitas irão ficar mais curtas.

Era verdade, em breve Eleanor iria retornar com as aulas na faculdade. Os dois meses de férias tinham passado rápido demais, e dentro de duas semanas ela teria que retornar para a faculdade.

— É sim, mas tenho muito tempo livre durante manhã e tarde. – ela declarou, notando o descontentamento de Helena.

Helena a olhou de soslaio, e apontou para os churros.

Eleanor a serviu um dos churros, depois serviu para si própria. Antes que as duas pudessem falar qualquer coisa, os múrmuros de prazer percorreram o quarto.

Aquela era a melhor sobremesa existente de todo mundo, e quem dissesse o contrário para ela, levaria um tapa.

— Meu Deus, isso é divino! – Helena disse, enquanto lambia a ponta dos dedos. – O que trouxe para ler? Espero que não seja nenhum dramalhão! Prefiro sempre quando traz romances.

— É, romances são os meus favoritos também. Por isso escolhi um romance mais atual, publicado ainda neste século.

Helena olhou para Eleanor impressionada. Todas as leituras de Eleanor eram clássicos da literatura. Senão da literatura brasileira, da inglesa. O único livro que destoava dentre as escolhas dela, foi o primeiro que leu, A Marca de Uma Lágrima, no entanto, apesar de ter sido publicado na década de 90, ainda fazia parte dos livros fora daquele século.

— Estou impressionada. Quem diria? Qual livro você trouxe?

Eleanor retirou de dentro da bolsa o livro, e o entregou diretamente para Helena.

— “A garota que você deixou para trás”, Jojo Moyes. Humm.

— É um dos meus romances favoritos. Queria lê-lo para você. Eu chorei em várias partes, confesso.

Helena sorriu.

— Você é muito romântica Eleanor. – ela afirmou com veemência, observando as bochechas de Eleanor ficarem cada vez mais rosadas.

— Só com livros. – Eleanor sussurrou.

— Na vida não?

Não.

Os livros eram refúgios. Eleanor podia se refugiar dentro do amor dos personagens, pois acreditava que nada do que ocorria nos livros iria acontecer com ela.

Nenhuma declaração de amor, nenhum amor proibido, nenhum baile, nenhuma dança em meio a uma sociedade aristocrata, nenhum momento que lia nos livros iria ocorrer em sua vida. E Eleanor se sentia bem com aquilo.

Aprendeu que o amor é lindo nos romances. Na prática, é um sentimento inútil e superestimado por idiotas que creem que isso muda vidas.

Não muda vidas. Não diminuem distâncias, e muito menos cura feridas. O amor é algo incansável, que só a fez perceber o quanto ela era uma idiota. Idiota por querer tanto que uma de suas histórias favoritas acontecessem de verdade com ela.

Ela rangeu os dentes ao notar o clima estranho se manifestar no quarto. Pegou o livro, e começou a lê-lo.

Helena ficou maravilhada pela leitura, e se recostou mais na cama, saboreando os churros, e ouvindo as palavras que Eleanor soltava.

§

Quando Eleanor deixou Helena no hospital, dormindo, e alimentada de churros, ela decidiu que estava na hora de dar uma volta pela cidade. Fazia um bom tempo que não aproveitava o que a cidade podia proporcionar, como as livrarias, os cafés, e até mesmo a loja antiga de discos.

Enquanto caminhava pelas ruas, avistou a loja de discos antigos.

Ela entrou na loja, observando os únicos dois clientes espelhados pelos finos e estreitos corredores.

Havia a parte da MPB, do rock, do Heavy Metal, do Grunge, e diversos outros. Eleanor tinha uma coleção afável dentro de seu quarto de discos antigos. De Slayer a Madonna, ela guardava com muito primor seus estimados bens. Daquela vez, iria procurar por algum que ainda não tivesse visto, já que não podia ouvir.

Tamborilou os dedos pelas fileiras, até encontrar um do Tim Maia. Puxou o disco, mas outra mão também o puxava.

Ela olhou para o dono da mão, e suspirou, ao notar a presença materializada de Fred ali:

— O que faz aqui? – indagou, assim que seus olhos encontraram os de Fred.

Ele estava bonito usando uma camiseta preta, e uma calça jeans clara, realçando os músculos dos braços e pernas.

Ela engoliu seco. Se continuasse encarando tanto Fred, ele logo notaria e usaria daquilo como artifício para perturbá-la.

— Essa é a minha loja favorita na cidade. Sempre estou aqui atrás de algum disco que não tenho. – ele parecia absolutamente confortável, ao contrário de Eleanor, que retorcia as mãos.

Desde o seu afogamento, ela ainda não o tinha encarado, não em conversas casuais. E pelo o que Pedro havia lhe dito, Fred andava muito ocupado com novas apresentações em boates pela cidade.

— E você, também coleciona vinis? – ele perguntou, voltando a segurar firmemente o disco que ela tanto queria.

— Coleciono, apesar de não os ouvir.

— Que ultraje!— Fred levou a mão ao peito. – E ainda queria levar este clássico para não ouvir?

Eleanor revirou os olhos.

— O que eu posso fazer? Não tenho toca discos.

— E ainda assim gosta de colecioná-los.

— Não se pode ter tudo nessa vida. – ela murmurou, desviando o olhar. Ainda que Fred continuasse a encarando.

— De fato não podemos. – ele concordou, e prosseguiu: – Quer ouvir este disco comigo? Depois deixo você levar para casa.

— Você tem toca discos?

Fred pareceu achar graça na surpresa de Eleanor.

— Eu sou um DJ. Tenho todos os tipos necessários para se tocar música boa. Inclusive toca disco.

Humm.

Ela queria ter algo melhor para responder, mas a situação estava tão constrangedora, que ela soltou mais alguns múrmuros:

Hmpf...— tossiu, sendo acompanhada pelo olhar questionador de Fred.

— Então, vamos?

— Perdão?

Ele revirou os olhos, era óbvio que ela sabia do que se tratava o assunto.

— Vamos Ellie, não seja tão chata. Prometo não tentar nada com você. Iremos apenas apreciar boa música, e depois o disco será seu, já que evidentemente, quem pegou primeiro foi você.

— Que bom que você sabe. – Eleanor mordeu os lábios, mas teve que dar o braço a torcer. Queria muito escutar o disco, afinal, um clássico da música brasileira deve ser apreciado. Sem mais delongas, ela aceitou ao convite: – Tudo bem, vamos então.

E lá foram os dois. Fred não morava longe do centro, por isso seguiram a pé até o apartamento dele.

Alguns anos atrás, Eleanor acharia aquilo um máximo. Sempre quis visitar o esconderijo de Fred, conhecer todas as peculiaridades dele. Mas naquele momento, a única coisa que se passava em sua mente era: quantas garotas ele já levou até ali?

Não tinha o direito de questionar aquilo, afinal, não estavam em um relacionamento. Embora não pudesse dizer nada, havia certa pulga atrás de sua orelha, sem contar o ciúme que invadia o seu peito.

Depois de refletir tudo o que Elton tinha lhe dito, ficou bem claro que ela ainda amava a Fred e que não podia deixá-lo de amar tão cedo.

Ele é o melhor amigo do seu irmão. A pessoa que a salvou do afogamento. O príncipe encantado dos seus sonhos de criança... Por que não estava feliz? Na verdade, Eleanor não sabia que sentimento era aquele invadindo o seu peito, e deixando as coisas ainda mais confusas.

— Está é a minha humilde residência. – Fred disse, abrindo a porta e deixando Eleanor adentrar o espaço.

Para sua surpresa, o apartamento de Fred era menor que o seu. Típico estúdio, onde havia apenas uma cozinha conjugada com a sala, que também era o quarto, uma varanda minúscula, e um banheiro escondido no final do apartamento.

As paredes estavam cheias de quadros, e em meio a sala, a cama de Fred ganhava mais vida. Os equipamentos de DJ estavam guardados em um baú, próximo da porta da varanda.

Um espaço pequeno, entretanto, muito bem decorado.

Ela se sentou na cama, e esperou que Fred puxasse assunto, mas a única coisa que ele fez, foi deixar as chaves em cima de um balcão que dividia a sala e a cozinha.

Fred se ajoelhou em frente a cama, e puxou debaixo dela o toca disco.

— Você guarda debaixo da cama? – ela perguntou.

— Sim, como pode notar, não tem muito lugar aqui.

Eleanor deu de ombros.

— Ainda sim... Lugar peculiar.

Fred sorriu. Ele arrastou o objeto preto até o meio da sala, e colocou o disco que haviam comprado. A primeira música que transbordou o ambiente foi Ela Partiu.

— Bem, é um álbum cheio de clássicos. – ele sussurrou, sentando-se ao lado de Eleanor.

Só de saber que compartilhava uma cama com Fred, o coração de Eleanor entrava em descompasso.

Eleanor encarou as próprias mãos, quando sussurrou:

— Então ouvir os discos é isso?

Ele a olhou confuso.

— Isso?

— Nós dois, envoltos por música, mas ao mesmo tempo por um silêncio estranho.

Fred não pode deixar de rir com o comentário dela.

— Ora Eleanor, vai me dizer que não sabe apreciar boa música?

Eleanor revirou os olhos. Não era bem esse ponto que queria chegar.

— Não seu idiota. Eu aprecio boa música, só não sei apreciar com alguém ao meu lado. – explicou, sentindo-se desafiada.

Fred assentiu, compreendendo o ponto de vista dela, ou não, ela realmente não soube dizer.

— Você precisa aprender a lidar com o silêncio das pessoas. – ele murmurou.

— Não entendi...

— Ah, estamos apreciando a música, isso não é suficiente?

— Bem, é, mas com você aqui é estranho.

— Quem está na minha casa é você.

Eleanor soltou um longo suspiro, e deu uma leve cutucada em Fred.

— Só estou aqui porque você me chamou, e não permitiu que eu levasse o disco sem antes ouvi-lo. – declarou, orgulhosa por saber como responder a Fred.

— E você não está me deixando ouvir. – ele comentou, ainda que houvesse um tom de brincadeira em sua voz.

— Uma forma muito simpática de me fazer calar a boca.

— Existem outros meios...

Eleanor o olhou feio.

— Fred, você prometeu!

— Ah, se você pensou que eu iria beijá-la, está muito enganada. – ele se levantou, ao término da primeira música, e esticou a mão para Eleanor. A segunda estava prestes a começar, quando ele continuou: – Estava pensando em dançar.

— Dançar?

Ele assentiu.

— Sim, ao som de “Eu amo Você”.

E antes que pudesse pensar em qualquer desculpa, ela pegou na mão dele, sentindo que Fred a apertava firme, com vontade.

Eleanor jurou que sentiu uma corrente elétrica percorrer pelo seu corpo, assim que sua mão tocou a de Fred.

Notas finais
Obrigada por lerem!