As Melhores Coisas do Mundo
1 Meu Mundo de Cabeça Para Baixo
Notas iniciais

~Nico~
Tudo começou há um ano atrás, mais ou menos. Até então, eu não era importunado. Era uma vida perfeita: as pessoas não implicavam comigo e eu nunca era o último a ser escolhido nos trabalhos de grupo ou nas aulas de Educação Física. Os outros tinham um certo respeito por mim. Mas é claro que tudo isso mudou, Godric's Hollow não é a Capital, e nem ao menos Hogsmeade. Traduzindo: Godric's Hollow é uma cidade muito atrasada no tempo onde as pessoas são muito, muito preconceituosas, e não é o melhor lugar para um gay viver.
Eu escondi isso por muito tempo, e acho que teria continuado com essa farsa se não fosse pelo filho da mãe do Draco Malfoy, um playboyzinho que se acha só porque o pai é o prefeito da cidade. Para encurtar a história, eu estava com um cara no porão da escola, lugar que os alunos vão para... err... ficarem mais íntimos, se é que me entendem. E o loiro oxigenado tinha algum problema com esse cara, não sei, e nos seguiu até lá. Aproveitando a oportunidade, filmou tudo e postou na internet.
Deu o maior rolo, claro, e o video foi retirado, mas nunca consegui provar que foi ele. Droga, aquele maldito! Todas as noites, antes de dormir, vejo aqueles olhos cinzentos me lançando um olhar sarcástico, os lábios finos sorrindo de canto, antes de fugir e estragar o que era para ser uma noite fantástica. E estragar também a minha vida, né?
Então, de lá para cá, eles não me deixam em paz na escola. Todo santo dia tenho que aguentar as piadinhas que nunca acabam. Os professores tiveram que abrir uma exceção para eu fazer todos os trabalhos sozinho, e eu só queria não existir. Seria perfeito, mas acho que sou covarde demais para tirar a minha vida. Tenho medo do inferno.
Às vezes acho que não deveria temê-lo. Quando entrei numa igreja aqui perto de casa, algumas beatas praticamente me expulsaram de lá, dizendo que eu ia para o inferno por causa dos meus pecados e blá-blá-blá, que eu nunca deveria ter "conhecido" um homem (internet é uma droga mesmo).
Foi com esses pensamentos que eu entrei na escola naquele dia. Eu estava tão distraído que não notei o que se passava à minha volta, e quando dei por mim estava caído no chão, com o Malfoy ao meu lado. Eu fiquei tonto de repente, mas me forcei a me concentrar. O loiro se levantou, rindo junto com os amigos. Senti um nó se formar na minha garganta, minha raiva só aumentando. Levantei de um salto, pegando Malfoy pelo colarinho e o empurrando contra a parede oposta.
–Ei, calma aí cara... foi mal... — seus olhos finalmente encontraram os meus, e todo o traço de humor desapareceu do seu rosto.
–No estacionamento, depois da aula — falei entredentes.
Eu sai andando rápido, meio sem rumo. Olhei para trás de relance e vi uma mancha de sangue no armário em que eu bati a cabeça. Merda!
–Hey, di Angelo! Querpegar ele depois da aula, né? — um dos amigos dele gritou, enquanto os outros riam. Miseráveis, malditos...
Saí correndo até o jardim, sentindo o liquido quente e viscoso escorrendo pelos meus cabelos e pela nuca.
Deitei atrás de uns arbustos, desnorteado. Minha cabeça girava e latejava enquanto meu sangue manchava a grama verde brilhante. O vento gélido batia em meu rosto e tudo estava ficando muito calmo. Fechei os olhos, um leve sorriso se formando nos meus lábios. Então assim que é morrer? O paraíso, finalm...
Um grito estridente cortou o véu de paz que era tecido à minha volta. Levantei cambaleando, encontrando uma garota com expressão horrorizada me encarando. Seus macios cabelos dourados estavam desgranhados e seus olhos vidrados. Ela desviou o olhar para a poça de sangue no chão, e depois olhou novamente para mim.
–Eu... eu vou te levar para o hospital.
Foi tudo o que ela disse, me puxando. Corremos até o estacionamento e entramos num Impala 67 preto. Ela teve um pouco de dificuldade para pôr a chave na ignição, suas mãos tremiam, e ela começou a dirigir em alta velocidade. De repente me ocorreu que se eu não morresse por conta da hemorragia, morreria num acidente de carro. Mas, surpreendentemente (e para a minha decepção), chegamos vivos e inteiros lá.
Eu não registrei praticamente nada do que se seguiu. Eu sei que fui posto em uma maca e muita gente de branco ficou em volta de mim, mais nada.
Eu não sei porque vim. Era tudo o que eu queria, mas aquela garota... eu sei quem ela é, e ao ver a sua reação não podia contrariá-la. Era mais com a vida dela que eu estava preocupada ao entrar no carro, e não com a minha.
Katniss Everdeen, acho. Eu não sei o porque e nem como, mas todos sabem que o pai e a irmã dela foram assassinados bem na frente dela, pobrezinha. E quando vi meu sangue derramado no chão e seus olhos, assustados com todas as lembranças do seu passado, eu... é perturbador lembrar de como ela ficou pouco tempo depois disso, e não quero vê-la assim novamente. E ver um cara sangrando até a morte no jardim do colégio, vamos combinar que traumatiza qualquer um.
Eu sentado numa cama, num quarto todo branco. O médico saiu, e Katniss entrou, ainda parecendo muito assustada. Eu tentei sorrir para tranquilizá-la, e eu não sei se deu certo, porque ela riu. E eu ri também. Foi uma risada pura e estridente, e acho que parecíamos dois loucos num quarto branco de um hospital, rindo com as desgraças do mundo nos cercando.
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