As Long As I Have You
6 Vento Ventania
POV Buttercup
No intervalo, desta vez, topei ir comer algum lanche com Butch. Ficar sozinha não vai me ajudar em nada. E ainda preciso descobrir se ele conhece o Ace. Fiquei muito confusa com aquele sonho. Butch parecia feliz de me ver indo ao refeitório com ele.
— Que bom que resolveu vir. – Disse ele, com um grande sorriso. – Está com fome hoje?
— É, meio que é isso. – Eu dei um sorriso amarelo.
Não sei se era fome ou vazio na alma. Não quero mais andar lado a lado com a solidão.
Mesmo cercada de pessoas, me sentia sozinha. Mas acho que Butch consegue quebrar essa parede invisível que me separa do mundo. Ainda mais que pode ter alguma ligação com meu namorado. Digo, ex-namorado.
Peguei um sanduíche de frango e Butch, um hambúrguer hipergorduroso com Coca. Optei por uma latinha de suco de fruta. Não tava a fim de tomar refri.
— Você não está se forçando a estar aqui comigo, está?
Parei por um segundo. Butch me encarava, com seus enormes olhos verdes, como se pudesse ler minha alma e meus pensamentos. Será que ele descobriu?
— Claro que não. – Respondo, mas falho ao gaguejar. – Por que acha isso?
— Você não queria vir até aqui. – Continuou. – Eu posso ver nos seus olhos.
— Nos meus... olhos? – Toco meu olho esquerdo e observo minha mão. Ele ri da minha atitude.
— Foi mal. Não queria que se sentisse pressionada. – Ele disse, meio triste. – Só queria que se animasse um pouco, sabe? Ontem no início da aula você estava mais animada... Mas agora parece triste.
Eu forço um sorriso. Acho que esse cara é vidente. Ele, de tantas outras pessoas, percebeu o que realmente sinto? Ele é especial, bem como o Ace disse.
— Eu acho que sou bipolar. – Dou de ombros, tomando um gole do meu suco.
Ele balança a cabeça, fazendo os cabelos dele balançarem junto.
— Não é, não. Você deve estar com algum problema, só isso. Todos temos problemas. Está tudo bem.
Caramba, como ele pode me entender tanto? Se ele lutar karatê, jogar futebol, jogar Fatal Fury 3 e andar de skate, eu admito que ele é especial.
— Ah, valeu... – Respondo, meio tímida ainda. – Ninguém nunca disse isso.
— Mas eu digo porquê é a verdade. – Sorriu ele. – Não somos obrigados a ser fortes o tempo todo.
Ele tem toda razão. Eu canso de ter casca grossa o tempo todo. Mas também não quero viver desabando sempre. Detesto me sentir fraca e indefesa.
— Bom, eu costumo ser forte o tempo todo. – Me vangloriei, mostrando meus músculos. – Esse aqui é o Bob. Bob, Butch.
— Seu músculo se chama Bob? – Ele soltou uma gargalhada que me contagiou.
— E esse outro é o Freddie. – Mostro o músculo esquerdo. – “E aí, cumpadi?” – Faço um sotaque caipira para ser a voz de Freddie.
Butch quase se afoga com o hambúrguer de tanto que ele riu. É bom fazer alguém rir. Me senti ótima fazendo isso. E mais, eu ri pra caramba também.
— Eu não sou forte o tempo todo, nem faço questão. – Ele deu de ombros, com um olhar tranquilo.
Aquilo fez meu coração disparar. Como pode estar tão calmo? Geralmente, os caras são mais durões que as garotas. Não no meu caso, né? Eu endureci pelas experiências.
— Mesmo com todos esses músculos? – Brinquei, pegando no braço dele e apertando os músculos. – Como é o nome desse? Brady?
— É, pode ser. – Ele se divertiu e mostrou o outro. – E esse é o Tadeu.
Eu gargalhei até a barriga doer. A sensação era ótima.
Assim que paramos de rir, ele começou a me olhar fundo nos olhos, o que me fez congelar no lugar. E o mais incrível, é que eu não conseguia desviar o olhar.
— O que foi? – Indaguei, nervosa.
— Não precisa se forçar a ser forte, Buttercup. – Disse ele, calmo. – Eu estarei aqui para te amparar.
Eu arregalei os olhos. Como assim? O que ele quis dizer com aquele discurso?
— Eu quero ser um bom amigo pra você. – Ele continuou e eu suspirei, aliviada. Então era disso que ele estava falando.
— Claro, pode crer. – Revirei os olhos, dando risada.
Terminamos nossos lanches e eu até agradeci pelos discursos motivacionais. Ele apenas sorriu, dando de ombros. Voltamos para a sala conversando e rindo de alguma coisa boba que ele dissera.
— Srta. Utonium e Sr. Jojo. Estão 2 minutos atrasados. – Ralhou a tal Evelize.
— Eu sinto muito, Sra. Evelize. – Reverenciou Butch, como se estivesse diante da Rainha da Inglaterra. Eu segurei o riso, sentando em meu lugar.
— Sra. Burton pra você. – A professora fez uma cara feia para Butch, que se dirigiu ao seu lugar, ficando calado.
A aula passou rápido até. Arrumei minhas coisas e fui até o estacionamento da faculdade. Quando olho para trás, levo o maior susto. É ele de novo, Butch Jojo.
— Que susto! – Reclamei, levando a mão ao coração disparado.
— Foi mal... Parece que viu um fantasma. – Brincou ele.
— Quase que vi o meu fantasma, pois quase me matou de susto! – Reclamei mas sorri em seguida. – Já está indo pra casa?
— É, já sim. – Respondeu ele.
— Quer uma carona? – Indaguei, me surpreendendo pelo que eu disse. Foi quase sem pensar.
— Não tenho capacete...
Tiro da minha mochila um capacete portátil, que é dobrável, a última invenção do Professor, digo, do meu pai. Como é difícil chamar ele de pai!
— Eu tenho isso, que é pro caso de precisar. – Mostrei a ele que era um capacete e ele abriu a boca num perfeito “o”, impressionado.
— Maneiro!
— É, não é? Foi meu pai quem fez. Ele é cientista.
— Isso é fantástico! – Sorriu ele, pegando o capacete. – Obrigado, Buttercup.
— De nada. Agora, vamos! – Disse eu, tomando a frente da moto.
Não fui tão rápido, afinal, não queria assustá-lo. Fui seguindo as leis de trânsito e os semáforos.
Eu sentia que era como se Ace estivesse ali comigo. Era estranho, quase sempre tenho essa sensação perto de Butch.
Chegamos à residência de Butch, uma casa um pouco mal-cuidada por fora. Ele me contou que é órfão e só tem dois irmãos. Deve ser triste ter uma vida assim.
— Bom, aqui estamos! – Falei, parando a moto. – Está entregue, mocinho!
— Valeu, motorista. – Piscou ele e rimos.
De repente, uma coisa muito estranha aconteceu. Não sei se acredito em coisas sobrenaturais, mas o que aconteceu foi sobrenatural, sim. Um vento repentino soprou sobre mim e Butch, esvoaçando nossos cabelos e roupas. Parecia vento de chuva, mas não parecia que ia chover. Aparentemente, o vento era só naquela região onde estávamos. Comecei a me sentir tonta e quando abri os olhos novamente, reconheci a casa de Butch. Eu já estive ali antes. Mas como era possível?
Notei que Butch estava com a mão na testa, parecendo tonto. Quando ele abriu os olhos, não era os olhos dele e sim, os de Ace. Negros, com faíscas e brilho misterioso. Até o sorriso era de Ace. Meu coração quase parou.
Ace estava no corpo de Butch? Eu tremia tanto que não conseguia pensar.
— A-Ace? É você? – Deixei escapar.
Ele sorriu da mesma forma que Ace, colocou uma das mãos na cintura como meu namorado costumava fazer e disse:
— Há quanto tempo, Docinho.
Senti um frio percorrer minha espinha. Era o apelido que Ace me chamava. Quer dizer que ele está mesmo aqui e no corpo de Butch! Sem dúvidas, era ele!
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