Notas iniciais
Os últimos dois capítulos foram excluídos por desviarem demais da ideia inicial. Tendo isso em vista, os eventos a seguir continuam a partir do final do capítulo "Uma tarefa de mago"

Um sopro súbito de vida. Era como a adrenalina que pulsa em todo por um corpo quando seus olhos se abrem após um terrível pesadelo, ou talvez pudesse ser encarado como uma pausa gigantesca no tempo. A floresta, antes congelada e completamente silenciosa, estava sendo preenchida pelo canto dos pássaros, pelo sibilar de cobras e pelo vento forte que se espalhava com o pulmão de uma biodiversidade inteira. Após a queda da Orbe de Gelo, nada diferenciaria aquele lugar “amaldiçoado” de uma floresta regular e com certeza um detalhe importante como esse não passaria desapercebido por uma única alma em toda a província.

— Creio que você tenha muito a dizer, Rondric. — A postura de Vlad ao dizer essas palavras era amedrontadora. Mesmo com tantos homens libertados e grande parte deles aliados do antigo general do imperador Henrick, nenhum teve coragem de rodear o assassino para aumentar a moral de Rondric. Não, todos formavam filas atrás do homem, deixando-o com a parte burocrática de uma gratidão por terem sido salvos por alguma espécie de assassino, um dos astutos.

Qualquer pessoa com uma gota de percepção se sentiria intimidado pelo corpo esguio dele ao vê-lo dentro de um combate. Sua velocidade de movimento, a precisão cirúrgica de seus golpes, a forma como suas írises escuras pareciam estar sempre lendo cada intenção que seu coração poderia desejar; esse amontoado de características deixaram um homem magro de braços cruzados com uma aura de intimidação maior que qualquer demônio de suas religiões.

— Todos nós somos gratos. A presença de sua vinda poupou a todos nós do destino de morrer como ratos dentro daquelas gaiolas. — As palavras soavam respeitosas mesmo que a linguagem corporal de Rondric sempre demonstrasse superioridade debochada. Algo em seu âmago parecia também ser afetada pela aura de Vlad, mas seu orgulho não permitiria a ele assumir isso. — Mesmo assim, não imagino que alguém como você... — O olhar pesou sobre o Orc, depois retornou para Vlad. — Ou como você vieram até essa parte da floresta para nos libertar. O que vocês são? Inimigos do atual regime?

Murzuf começou a rir com as palavras do ex-general. O capuz retornou ao seu rosto, ocultando mais uma vez a identidade do orc; ele se posicionou ao lado de Vlad, apoiando o cajado de madeira no chão. Curiosamente havia um volume em suas costas que marcava de modo nítido um outro cajado, essa marca apareceu em algum ponto depois do cajado de Lescelov desaparecer. Quem poderia imaginar o que teria acontecido?

— Não possuímos inimigos. — A voz grave do Orc respondeu à pergunta. — A única coisa curiosa nesse momento é porque um prisioneiro condenado à morte está fazendo perguntas a respeito da segurança do reino? Talvez a quebra da Orbe tenha alterado a sua memória e o grande Rondric esqueceu que seus tempos de glória caíram junto com a Revolução Vermelha.

Com a frase bem colocada pelo orc, o assassino cruzou os braços, claramente interessado na próxima resposta que viria. Vlad não era o tipo de pessoa que se metia nas brigas alheias, ainda mais entre parceiros de trabalho; caso estivessem num caso de vida ou morte, provavelmente o Orc conheceria o criador antes que visse o homem interferir numa briga pessoal. Apesar da grande vontade de ver sangue, isso não aconteceu: Rondric abaixou a cabeça após alguns segundos de silêncio. Sua postura naquele instante demonstrava uma certa humildade em reconhecer que não deveria estar se metendo nos assuntos pessoais dos viajantes após ter sido salvo da morte eminente.

— Tenho plena consciência da posição que estou. — Respondeu por fim. — Nós somos considerados traidores por nos opormos à Revolução Vermelha. Membros do antigo regime, líderes de movimentos de contrarrevolução, até mesmo servos de nobres sofreram essa perseguição em massa. — Rondric suspirou como se começasse a entrar num assunto intenso demais para ele. Todos perceberam e por isso um dos homens assumiu a história. Esse tinha cerca de um metro e setenta de altura, cabelos loiros, olhos escuros e uma gigantesca marca na bochecha esquerda que recordava o formato de uma adaga. Seu semblante não parecia tão abatido quanto a maioria dos outros, como se seu espírito destacasse dos demais. Suas palavras soaram firmes e em tom de prolongamento do ponto pausado pelo antigo general:

— Inventaram que uma praga havia se espalhado e passaram a selecionar quem o novo imperador julgava ser opositor, assim nos trancafiaram para servirmos de cobaia. No final dessa história, quando provavelmente nós todos estivéssemos mortos e esses malditos possuíssem a força suficiente para criar uma doença com sua magia profana, eles começariam uma campanha de expansão e dizimariam exércitos inteiros sem perder um único soldado. — Enquanto passar por toda aquela situação deixava o espírito de alguns homens quebrado, outros se enchiam de fúria. Era o caso daquele ali. Vlad conseguia notar como se uma chama queimasse dentro do âmago daquele ali.

— E quem é você? — O assassino perguntou com bastante curiosidade. Aquele contrato de assassinato ao imperador nunca fizera tanto sentido, afinal realizar um golpe de Estado no primeiro imperador não-tirano em centenas de anos cria muitas inimizades. A lista de pessoas que poderiam estar financiando aquilo era gigantesca: Desde um grupo conservador que deseja o retorno da antiga dinastia, até mesmo um opositor ainda mais tirano só aguardando o momento certo para saltar e tomar o trono no momento oportuno. As palavras de Drasbel tinham bastante coerência ao dizer que Vlad se encontrava no centro de um tabuleiro gigantesco de xadrez.

— Frederich, o Indomável. — Apresentou-se. Para o assassino aquele nome não significava nada, mas dentro do jogo da política, Frederich representava o líder do movimento de contrarrevolução. Nascido nas ruas, um dia já foi o Campeão do Império em nome de Henrick até a Revolução Vermelha lançar ele na prisão por anos, onde sozinho ganhou a influência até mesmo dos guardas que o mantinham cativo. Um dia, dentro do calabouço, o Indomável simplesmente desapareceu junto com muitos prisioneiros que o seguiam. A cidade acreditava que a Praga Noturna o havia levado para o mundo dos mortos, mas graças a Vlad, ele estava de volta aos vivos. — Antes de ser capturado, eu pretendia levantar uma guerra contra o atual império para destruir essa maldita “nova ordem”. Mas ele se antecipou bastante e graças a você, eu possuo outra chance.

Finalmente os braços de Vlad se descruzaram. A marca de Drasbel em seu braço esquentou quando uma ideia cruzou sua cabeça, mas não de forma repreensiva. Se foi coincidência ou não ele jamais saberia, só que encarou a sensação como um bom agouro: Ele não havia libertado dezenas (ou seriam centenas?) de homens por bom coração. O assassino era um grande fã da balança de equilíbrio e se havia salvado a vida de tantos, cada um deles devia um favor que poderia ser pago com a vida se necessário. A empatia em seu coração havia morrido muito tempo atrás e ele não se apegaria à gratidão do coração mortal, pois em sua pele, sabia que ela era passageira. Os seres daquela parte do mundo eram egoístas e sempre trairiam quando lhes fosse conveniente; por maior que fosse o ódio que sentia pelos elfos, eram os humanos quem ganhavam na competição da hipocrisia. Num mundo onde existe o deus da justiça como Azliel, a parte que mais se parecia com todos os seres humanos que Vlad conhecia era a traição, Drasbel costumava ser visto como um deus diabólico e maléfico, mas se isso fosse verdade, não seriam toda aquela raça maléfica por natureza da mesma forma?

— Isso é ótimo, pois eu possuo uma informação que pode lhe auxiliar nessa sua vontade de resistir. — Vlad deu alguns passos para trás e se virou. — Frederich, Rondric, há algo importante que ocorrerá essa noite e eu posso revelar a vocês alguns detalhes. Seria tolo da minha parte fazer isso na frente de todos, é claro. Mas se estiverem dispostos a me acompanhar.

Os dois homens assentiram e olharam para os outros prisioneiros. O primeiro a ir em frente foi o antigo general enquanto o Indomável passava a conversar com os outros a respeito de como eles se organizariam dentro das próximas horas, afinal haviam perdido demais. Era como se muitos deles tivessem morrido por causa de uma praga; se todos chegassem ao mesmo tempo na cidade seria um alarde muito grande. Rapidamente, Frederich pontuou que após as informações fossem dadas a ele, bolariam um plano de recuperar a própria vida mais uma vez. De dois a cinco minutos mais tarde, haviam três homens afastados pro inferior da floresta: Rondric, Vlad e o antigo campeão.

Diante daquela situação havia um momento de tensão escondido nas entrelinhas. Não da parte do assassino, que tinha toda a situação sob controle, mas dos outros dois. Apesar de a maioria dos homens ali jamais sonhar com a possibilidade, Frederich e Rondric já imaginavam que o homem na frente dos dois pertencia ao Pacto Sombrio. E para muitas das vítimas dessa facção, ir até um canto escuro com um inimigo daqueles era nunca mais ser encontrado. Mesmo que os dois quisessem fazer algo contra Vlad, jamais teriam formas de antecipar um movimento do homem, pelo menos era o que a reputação daquela facção dizia.

Todavia, uma vez que os dois desconfiados notaram o semblante do assassino se aliviar e as costas do mesmo tocarem uma árvore, eles tinham uma leve confiança que não seriam mortos (ainda).

— Possivelmente vocês não sabem de nada das últimas semanas. — Começou o homem esguio. — Não pretendo ajudar vocês, tampouco cooperar “contra um inimigo em comum”, pois isso não é minha função. Mas darei uma informação crucial, uma que pode dar a oportunidade de organizarem suas próprias forças.

Os braços de Vlad se cruzaram na frente do corpo e ele apoiou a sola do pé direito no tronco atrás de si. Observou atentamente como era a reação de cada um dos líderes com a possibilidade de informações privilegiadas. Ao perceber do ex-general um suspiro de nervoso, seu objetivo de dramatização estava concluído.

— Ao pôr-do-Sol, o Imperador estará organizando um evento público que imagino ser para tentar aumentar sua popularidade. Não possuo as motivações dele escritas num pergaminho, sinto informar. — Prosseguiu Vlad. — No entanto, a guarda real é treinada para possíveis atentados nessas ocasiões. Funcionam sistematicamente da seguinte forma: Duas linhas de soldados em cada flanco e, em caso de um potencial ataque, as ordens são que três das quatro fileiras de soldados lutem contra os agressores. A linha restante deverá manter posição para evitar um ataque surpresa. Enquanto isso, os arqueiros ficam por cima o tempo todo, pelo menos doze deles espalhados por seis pontos da região do evento desejado. Consigam driblar toda essa defesa...

— E o Usurpador estará morto. — Concluiu o ex-general com um sorriso diabólico entre os lábios. — Mas por que está nos contando isso? — O tom desconfiado era evidente.

— Eu não possuo aliados, nem inimigos. — Vlad descruzou os braços e voltou a ter os dois pés fincados no chão. — Mas com certeza não cabe a mim decidir se existem lados certos ou errados no meio dessa disputa política. Se vocês acreditam que conseguirão, basta usar a informação corretamente. Se falharem, vocês nunca tiveram chance no final das contas; afinal, são apenas prisioneiros que foram libertados às custas do acaso. Certa vez, foi-me dito por uma sábia que o conhecimento quem tornou Azliel o senhor do destino.

Os dois homens abriram a boca para fazer alguma pergunta, mas o delator não parecia estar aberto às perguntas pois simplesmente começou a andar de volta para o local do antigo combate vitorioso.

— Nós já fomos aliados antes. — Comentou Rondric após alguns segundos de frustração por não conseguir extrair mais do assassino. — Há diversos homens aliados ao antigo regime dispostos a nos dar abrigo até de noite.

— Está na hora de vingar a morte do imperador. O verdadeiro. — Frederich respondeu com um tom rancoroso.

Em cada palavra proferida pelos homens, o ar de uma vida arruinada dava-lhes motivação para continuar sem ter mais nada a perder. Nem mesmo a vida, uma vez que para todos os cidadãos, eles haviam falecido em decorrência da Praga Noturna. Eles se viraram e iniciaram a caminhada de volta aos seus homens. Mesmo que houvesse um pouco de confiança graças à informação privilegiada, grande ansiedade e medo mergulhavam suas mentes mortais na dúvida volátil. A incerteza era intensa e cruel, a possibilidade que as palavras de Vlad pudessem estar certas, que eles eram apenas prisioneiros libertos às custas do acaso.

Em meio à semente da dúvida, ambos ouviram um som distante vindo de onde os homens deviam estar aguardando. Possuía um cheiro de confusão, isso era um fato, e os dois avançaram disparados e temendo pelo pior. Talvez reforços do imperador tivessem chegados, talvez tudo já estivesse perdido antes mesmo de começar. Eles poderiam já ter perdido sua chance antes mesmo dela começar. Motivados por esse medo, começaram a correr. Aquele lugar nunca pareceu tão longe; o tempo lentamente desacelerava. Os segundos se tornavam minutos, os metros se tornavam quilômetros, mas não havia qualquer magia envolvida naquela sensação. Era apenas o mais primitivo dos instintos humanos: O medo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.