As Leis Do Paraíso
6 Epílogo
Existem vários tipos de histórias.
Histórias que fazem sorrir, outras que são tristes em seu íntimo. Mas me parece que todas possuem um pouco de amor. Um pouco de romance nas entrelinhas, no ressoar da palavra contra língua e dentes, mesmo quando é difícil percebê-lo, ou permitir-se senti-lo. O amor parece presentear a vida de todos que contam sua história, e até daqueles que preferem se manter em silêncio, que não são escritores, ou poetas, e não sabem usar as palavras.
Mas o problema das histórias tristes, é que só descobrimos o quanto serão tristes depois de sentir na pele, como queimaduras, tudo que as tornam assustadoramente tristes. Não somos avisados de nada disso quando deixamos o ventre que nos protegeu por nove meses. Protegeu de tudo aquilo que é trágico, de toda a dor que iríamos enfrentar. Porque todos enfrentamos. Em um momento ou outro, todos enfrentamos.
Hoje uma risada seca deixa meus lábios quando lembro da conversa, e da maneira com que minha mente me manipulou. Mas não há nenhum humor em meu riso. Ele e meu pranto possuem a mesma essência, e todos os meus gestos já confundem a minha mente, preso aqui, entre paredes brancas. Mortas.
Descobrimos hoje que Louis estava na escala 12, perto de acordar. Nós ligamos imediatamente, mas você não atendeu. Então ligamos para seus pais. Mas, Lorcan, eu sinto em dizer: Louis acordou nesse meio tempo, porém faleceu nem mesmo um minuto depois. Eu realmente sinto muito. Peter jogou seus pêsames em mim, como se eles pudessem significar algum consolo. Não podiam. Não importava. Seus pais te esperam no quarto de Louis.
Havia pessoas ao redor, e elas falavam, ou tocavam-me o ombro, mas seus rostos eram borrões informes de significados que eu não queria entender, ou ver. Eu queria manter-me cego e acreditar.
E me mantive. Ignorei todo o funeral de meu irmão. Eu estava ali, mas o sol me consumia e devorava meus sonhos. Eu mal sentia as mãos me tocando no ombro, fingindo um lamento que não era real. Há muito elas já haviam se despedido de Louis, eu era o único incapaz de deixá-lo ir assim, depois de nove anos esperando. Ainda continuo incapaz, e minha mente oscila entre a razão e a loucura. Mas onde está a razão em perder a única pessoa que amei em toda minha vida?
Olhei para a rua brevemente. Aquele cenário era familiar, como olhar pela sacada de meu apartamento e ver os mesmos carros, as mesmas pessoas andando apressadas pelas ruas sem compreender a magnitude de tudo que as cerca.
Eu estava encarcerado também, e era pela janela de meu quarto que eu olhava. Uma parte de mim tentou mostrar-me a verdade. Eu estava em meu quarto, olhando pela janela, e não no hospital, esperando que meu irmão acordasse. Eu estava encarcerado dentro de minha própria mente, também, e achava que podia julgar o resto do mundo, porque eu tinha você
Vocês o jogariam num caixão e o selariam sob a terra, se isso nos mantivesse separados!
Lorcan, por favor, você não está sendo coerente! Ouça o que está falando!
Sim, eu ouvia. Eu falava a verdade, porque jogaram Louis em um caixão, mas ele estava morto, e eu não sabia. Eu me ouvia. Mas há um abismo tão grande entre ouvir, e compreender. Aprender e internalizar. Eu ouvia, mas há sonatas tristes demais para ouvidos humanos.
Seu cair é fugaz, e é verdade que modela tudo que toca, ganha a essência daquilo que congela, leva embora os sentimentos obscurecidos que apagam a sensatez e os traços delicados da inteligência. Para mim é ácido translúcido, e não água; eu não quero a claridade. Quero manter-me cego e obscuro.
Eu queria, mais do que tudo, eu queria, e ignorei a chuva, ignorei tudo. Continuaria ignorando, se você ao menos me visitasse outras vezes, Louis, meu delírio, minha ilusão. Mas você não veio, porque te machuquei, e porque você precisa ser livre. Precisamos ser livre, e eu talvez devesse deixar de ser egoísta, e te prender a mim. Mas é tão difícil. É mais fácil me secar e proteger da chuva.
Por não ter me esquecido, ou encontrado outra pessoa... Eu me sinto horrível por ser tão egoísta.
E agora eu nunca saberei, não é, meu amor? Nunca saberei o que realmente pensaria ao descobrir que te esperei por nove anos, que não vivi como as pessoas considerariam normal, mesmo que o conceito de normalidade não exista na prática, em ninguém. Nunca saberei se seria egoísta e me arrancaria um sorriso, ou se sentiria medo de minha obsessão. Louis, minha doce obsessão. Não nego. Nunca te neguei, não é mesmo? E não vou começar quando os cílios da demência já piscam, irônicos, para mim.
Nunca saberei de nada, e não saber é mais do que posso suportar.
Ele não conseguia lembrar como ler, ou escrever. Quando tentava, suas mãos tremiam, ou ele jogava para longe o caderno, ou revista no qual tentava se concentrar.
Ah, e era eu que já não conseguia mais ler, ou escrever, e eram minhas memórias que me faltavam, era eu quem oscilava de humor e trancava a porta do quarto. Era eu quem me enchia de dúvidas sobre nós dois, mas era você quem me dizia para te esquecer, me libertar. Que motivo haveria para cada uma dessas coisas? Libertar-me? Louis, você é tão bobo.
No fundo você sabe a verdade. Desliza a mão por meu rosto.
Sim, no fundo eu sabia.
Eu sufoquei William enquanto o estuprava, e não Louis. O pobre e carente prostituto morreu em minha cama, porque eu delirava que era com Louis que ele transara. Então tudo já ruía, e aos poucos eu percebia que não era real. Nada. Nunca. Aquela sinfonia, aquela, de nome Louis, era uma projeção, e suas notas paravam pouco a pouco de rimar, de encaixar. E nosso encaixe era tudo, concorda, meu amor? Sem você sou uma peça quebrada, trancada em um sanatório depois de ser considerado um desequilibrado mental. Meu crime seria punido com essas eternas paredes brancas.
Meu assassinato, e o legado de meu amor.
Deveria ter desistido no dia em que atirou a pedra. Diz e se ergue, alcançando a bengala.
Não, Louis, não deveria. E é por isso que escrevo com tinta de sangue na parede, antes que me encontrem com os pulsos e a garganta cortados pelo estilete que consegui roubar: meus sonhos foram bons sonhos. Não se realizaram, mas foi bom tê-los.
Se há algum outro lado, nos encontraremos nele, Louis. Mas se não, sei que de alguma forma nos uniremos, mesmo que seja para nos fundirmos juntos a algo maior e dançar pelo vento nesse baile que não compreendemos. São essas as leis do paraíso. Então me aguarde, meu gêmeo, meu amor.
Eu estou chegando, enfim.
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