As Joias do Carrasco

3 Isso não é do tamanho de um lobo!


Notas iniciais
Aqui estamos nós, 3 semanas depois do último capítulo. Não acho um tempo absurdo para atualizar, e vocês? Mesmo assim, eu vou pedir desculpas pela demora. Como vocês sabem, minha avó estava no hospital, eu e minha mãe estávamos com ela em outra cidade, foi complicado. Bem, ela acabou falecendo. Minha mãe teve um monte de coisas para resolver, tivemos alguns estresses. Agradeço a todos que desejaram melhoras para ela, sério, muito obrigada ♥

Palácio da Fênix, 12 anos antes.

Gritos incompreensíveis, era apenas isso que Catarina conseguia ouvir. Uma intensa discussão entre os Magni e os seus pais. Tinha uma noção do que se tratava a discussão e, se fosse o que pensava, agradecia que Tiberius não estivesse lá para ouvir. O rapaz, apenas três anos mais velho, estava no mesmo quarto que Catarina. Algo estava acontecendo, algo que ambos os casais julgavam ser melhor manter afastado das crianças.

— Não deve ser nada — Tiberius havia dito quando os Magni os expulsaram da sala, mas agora era visível que nem ele acreditava nisso.

Sentada no chão, usando a porta de apoio, Catarina tentava escutar a discussão, mas ouvia apenas fragmentos. "Traídos" e "andarilhos", ouviu os Magni dizerem. Sua mãe tentou se explicar para eles, enquanto o pai se manteve em silêncio.

— A gente nunca quis ser um problema... — murmurou Catarina.

— Do que está falando? — Tiberius se sentou na cama, olhando para ela. — Vocês não foram um problema, Cat. Nós queríamos ajudar vocês.

Em vez de consolá-la, seu coração se apertou de culpa. Ela achava gentil que Tiberius dissesse aquelas coisas, mas logo percebia que ele não podia ser sincero, não sem saber de toda a história. E caso soubesse de toda a história, Tiberius a trataria diferente? Sua família trabalhava para os Magni desde que era uma criança, e a amizade entre os dois começou naquela época. Catarina era provavelmente a única amiga que Tiberius podia ter naquele ambiente repressivo e isolador que era o Palácio, que valorizava a discrição e seriedade, uma sociedade de pessoas distantes umas das outras.

Então Catarina torcia para que a verdade não destruísse a amizade que eles construíram juntos.

— O que foi isso? — A voz de Tiberius a despertou de seus pensamentos. Ela ouviu batidas fortes interromperem a discussão. Alguém estava na entrada. Catarina não resistiu a curiosidade, abriu a porta do quarto a tempo de ouvir os murmúrios receosos de seu pai.

— São os pretorianos...

— Tiberius, Catarina, voltem para dentro! — ordenou a Sra. Magni, mas nenhum deles se moveu. Pelo contrário, Catarina aproximou-se do parapeito do mezanino, atenta ao que acontecia no nível abaixo. A porta foi aberta de maneira brusca pelos soldados do Pretor Vauxhall. — Voltem. Agora!

— Vincent e Lydia Magni — começou o Líder dos Pretorianos —, vocês são acusados de transportar pessoas ilegalmente para dentro da cidade, comprometendo a segurança da população e a ordem pública, e de incitar uma revolta contra a autoridade de Aurora.

Tiberius agarrou Catarina pelo braço e a puxou de volta para o quarto, como ordenado. Antes da porta se fechar, Catarina pôde ver os soldados erguerem suas armas na direção dos quatro. Ela quis gritar, mas o som ficou preso em sua garganta. Catarina ouvia o próprio coração acelerado, e ela perdeu o controle de suas lágrimas. Tiberius estava pálido e tentava acalmar sua respiração. Ambos sabiam que aquilo não era uma prisão, era o próprio julgamento e a execução.

— D-desculpe... Me desculpe.... — A voz de Catarina mal saía, em um sussurro entre lágrimas. Não tinha força para dizer pelo quê Tiberius deveria desculpá-la, mas não podia parar de pedir perdão. Tiberius a envolveu em um abraço acolhedor, ignorando as palavras sem sentido de Catarina.

Por um momento não disseram nada, até os soluços de seu choro pararam, e o silêncio que precedeu o fato foi ensurdecedor. Então eles ouviram os tiros, e Catarina só não desabou no chão porque Tiberius ainda a segurava próximo a ele, mas todo o seu corpo tremia de medo.

— Eu vou morrer...

— Não... — Ele disse com cuidado, sua voz era contida. Tiberius estava tão abalado quanto Catarina, mas tentava não demonstrar. Ele sempre tentava não demonstrar. Catarina sabia que seria morta ou expulsa de volta para a floresta. Mesmo no segundo caso, não duraria muito, não sozinha. Tiberius tirou algo do bolso e entregou a Catarina. Uma corrente dourada, com o cristal transparente da joia do Ar como pingente. — Não se a joia for sua.

Mas não era. Catarina fechou os dedos em volta da corrente, sentindo-se cada vez pior, a cada gesto altruísta de Tiberius.

— Não posso... — Catarina não podia tirar mais isso dele. Não podia permitir que sua presença destruísse cada aspecto da vida de Tiberius.

— Eles estão vindo. Por favor, Cat. — Ele segurou seu pulso, suplicante. Naquele momento, Tiberius pareceu tão inseguro quanto Catarina se sentia. Ele também estava sozinho, e não podia perdê-la também.

Então os pretorianos entraram. O ar começou a se agitar em volta dos dois, seguindo os comandos de um coração aflito. Mas não era o coração de Catarina a comandar aquela força invisível, como os soldados pensaram, era o de Tiberius. Ele comandou o ar e manteve as ameaças afastadas enquanto pôde, mas, ao final de tudo, ele saiu como o filho de uma dinastia caída, e Catarina ganhou uma nova vida como a Portadora da joia do Ar.

~*~

Atualmente

— O senhor pensou no que eu sugeri? — Tiberius perguntou ao Pretor. Estavam em seu gabinete, Tiberius sentado a frente da mesa de Rower, enquanto o Pretor analisava alguns papéis a sua frente.

— Sim, eu pensei. Acho que você tem razão. — Rower lhe entregou uma folha com oito nomes escritos à mão, sendo o primeiro "General Alessa Rower, Líder dos Pretorianos". Tiberius não precisou ler os outros nomes, devolveu a folha, aparentando rara impaciência em sua postura normalmente contida. — Ponha meu nome, Rower.

O Pretor fez uma pausa nos documentos, tirou os óculos e ergueu o olhar de maneira indiferente. A desavença entre ambos era antiga, desde que a família Magni fora acusada de transportar pessoas para o interior dos muros. Na época, Edward Rower nem sonhava alcançar o cargo de Pretor, mas era um jovem político recém-nomeado, que fez de tudo em seu poder para punir devidamente o crime da família de Tiberius, o que lhe custou meses de planejamento reunindo provas.

— Eu segui suas sugestões, Magni. Concordo que se os portadores das joias vão começar a sair, seria vantajoso mandar alguns pesquisadores e soldados para escoltá-los, em área segura, longe das... batalhas que vão acontecer. É arriscado, mas todos foram voluntários. Mas você não é um cientista e não tem carreira militar.

— Sou familiarizado com armas e tenho conhecimento tático.

— Não faz de você um soldado. Sua carreira é política, Tiberius. Acho bastante cavalheiro você querer acompanhar Catarina lá fora, mas ela tem a joia do Ar para se proteger, inclusive da radiação. Segundo a Calisto, é claro, mas eles vão usar proteção mesmo assim. A sua presença pode até mesmo desconcentrá-la, ela vai querer manter você seguro.

— Rower, por favor. Nós sabemos que o único motivo para você me impedir de sair é porque você sabe que eu quero isso.

— Me dê um motivo, então.

— É perigoso e eu posso morrer. — Rower riu com a resposta, mas o rosto de Tiberius indicava que a proposta era séria.

— Você realmente sabe argumentar, Magni — concordou, ainda achando graça. Retomou a folha e acrescentou o nome de Tiberius à lista. — Eu prefiro dar a ordem, obrigado. — Rower voltou o olhar para os outros documentos. Se Tiberius fazia questão de sair junto ao grupo, ele conseguiria. Algumas pessoas ainda respeitavam o Magni, quase o admiravam. Aonde ele quisesse ir, as portas se abririam. Rower preferia estar à frente disso. — Mas devo dizer que ficaria decepcionado se você voltasse vivo.

— Vou me esforçar para não decepcioná-lo, Pretor.

~*~

Dois dias depois, o grupo havia se reunido às pressas. Calisto sentia quando os portais estavam abertos, ou pelo menos dizia sentir, mas não fora clara quanto ao tempo que aquele permaneceria aberto. Ao que parecia, o tempo variava. Os portais se abrem e fecham quando querem. No momento, todos torciam para que pudessem ao menos decidir quando se fechavam, com a ajuda de Calisto. Sem conhecer a nômade, os cidadãos de Aurora tentavam manter a expectativa não muito alta.

— Então... — Vermont murmurou, próximo de Calisto. Não parecia muito disposto a se enturmar com os outros, mas ela tinha mostrado interesse na sua presença, e mesmo que fosse apenas pela joia, que a Cidadela gentilmente lhe entregara de acordo com a necessidade da situação, já era mais do que qualquer outro ali tinha demonstrado. — O preço para preservar minha vida é arriscar a minha vida repetidas vezes? Ótimo acordo. Faz todo o sentido — ironizou.

— Pelo menos você trocou a morte certa pela chance de morrer. Acho que isso é sair ganhando — respondeu Calisto. Ela estava terminando de colocar a proteção. O traje deveria proteger da radiação, era usado pelas expedições em busca de combustível e materiais não produzidos na cidade. Ele lembrava uma armadura, modelava o corpo com um material plástico resistente ao impacto, revestido internamente por camadas de Demron, o que lhe confere a proteção contra a radiação. O traje completo incluía um capacete, e assim protegia o corpo inteiro. — Por que preciso usar isso? A joia me protege. Elas protegem nós cinco.

— Não é só a radiação. Vocês vão lutar, sabe-se lá contra o quê. — A general Rower já estava pronta, e auxiliava um dos pesquisadores com o traje. — Além disso, é mais fácil para controlar a contaminação na Cidadela. Ou você quer passar pelo banho de descontaminação toda vez que retornar?

— Argh, não, obrigada... — Calisto concluiu que não era uma exigência tão ruim. O Pretor até fora generoso, todos os membros da expedição, incluindo ela e Vermont haviam recebido armas. Armas de fogo eram raras, então apenas a general e seus soldados as usavam. Antony também tinha um revólver, mas a arma pertencia à sua família há muito tempo. Tiberius trazia uma espada na bainha.

Os pesquisadores demoravam demais para se vestir. Calisto ficava impaciente. Não gostava da ideia daquela caravana. Olhando ao redor, ela viu Astra se despedindo de uma mulher, provavelmente sua mãe. Os Magni conversavam entre si, sempre em murmúrios incompreensíveis para quem não estivesse muito próximo. Já Antony estava sozinho. Conversava um pouco com um soldado ou cientista do grupo, mas logo se afastava, apenas esperando a hora da saída.

— Estamos prontos — Anunciou a Líder dos Pretorianos, subindo em seu cavalo. Aurora não produzia combustível, então economizavam ao máximo. Os cavalos eram quase totalmente cobertos com o tecido Demron, mas não havia nenhuma armadura que pudesse diminuir sua agilidade. Todos estavam montados. — Quero lembrá-los de que não estamos escoltando vocês, Portadores. Não nos aproximaremos do portal e ficaremos apenas em áreas seguras. Isso significa longe tanto dos seres do Desconhecido quanto das tribos ciganas. — Ela concluiu, olhando diretamente para Calisto, que abriu um sorriso cínico.

— Nada mais justo. — Sem esperar resposta, Calisto guiou o cavalo portão afora, sabendo que estava sendo seguida apenas por causa dos sons dos galopes atrás de si.

Não havia tempo a perder. Embora os portais às vezes se fechassem sozinhos, o objetivo era fechá-los antes que as criaturas o atravessem. Calisto não era cautelosa em seu caminho. Estava atenta, sim, mas não tinha as mesmas preocupações que seus companheiros. Mesmo quando entraram na floresta, Calisto manteve o ritmo, deixando-se orientar pelo sentimento abstrato de estar na direção certa, impossível de descrever, mais ainda de ignorar. Os três pesquisadores vinham no final da caravana, pois seus cavalos carregavam mais peso do que os outros, com alguns equipamentos portáteis. Por vezes insistiam em parar para colher uma amostra de solo, ou pegar alguma planta bonitinha, coisas que Calisto não entendia a importância, e que a irritavam por atrasar o seu caminho. Tudo aquilo podia ser colhido na volta, após selarem o portal. A general surpreendentemente compartilhava dessa opinião, pois os repreendeu após a terceira interrupção. Catarina também parecia tensa, mas para Calisto era difícil ter certeza do motivo.

— Acho que vocês devem parar por aqui — alertou. — Estamos muito perto.

Não estavam próximos o bastante, mas Calisto queria mantê-los em uma área segura, fora do raio de ocupação em volta do portal. Também desceu do cavalo, sinalizando para que os outros fizessem o mesmo. Dependendo de qual adversário enfrentariam, não seria vantagem alguma estar montado.

— Certo. Meu pessoal vai estabelecer um perímetro de segurança para que eles possam trabalhar.

— Eu vou com eles. — Tiberius falou. — O Pretor permitiu.

— Deveria ficar na área segura.

— Se algo acontecer com a gente, vocês vão precisar saber — disse Catarina, defendendo a ida de Tiberius junto a eles.

Alessa Rower não pareceu se convencer. Era óbvio o que ela estava pensando, se algo acontecesse aos portadores das joias, com todos aqueles poderes, que chance Tiberius tinha de escapar para avisá-los? De qualquer forma, Tiberius estava apenas informando. Se o Pretor havia permitido, Alessa não tinha poder para impedi-lo. Era algo até previsível, os Magni eram um casal insuportavelmente inseparável, Alessa não se lembrava de já ter visto um sem a presença do outro.

Os seis continuaram o caminho. Exceto para duas pessoas, era a primeira vez que qualquer um deles pisava na floresta. A primeira, obviamente, era Calisto. Nascida e criada, ela se sentia mais à vontade na floresta do que na Cidade Aurora. Por mais selvagem que fosse o ambiente, dentro de uma tribo todos se ajudavam. Aurora podia tentar disseminar o mesmo comportamento dentro dos muros, mas não passava de uma mentira.

A segunda pessoa a já ter andado por entre aquelas árvores não parecia tão confortável em retornar. Catarina Magni.

A floresta ficava cada vez mais densa, a luz do sol atravessava a copa das árvores em feixes estreitos. Calisto às vezes parava de andar e ficava alguns segundos analisando a paisagem, como se enxergasse algo que os outros não podiam ver.

— Posso perguntar algo? — Antony se aproximou, atravessando com cuidado as raízes irregulares de uma árvore enorme coberta de musgo. Não era um homem muito comunicativo, mas se esforçava quando sentia necessidade de entender algo.

— Aham — concordou, sem desviar os olhos para ele. Ela parecia bem focada.

— Como você sabe o que pode fazer se a joia do Espírito nunca esteve "ativa" como você disse?

— É que faz parte de mim — respondeu, com indiferença. Antony pensou que ela tivesse se esquivado de responder quando foi questionada por Tiberius por se sentir ameaçada diante da situação, mas ela parecia não ter nenhum motivo que sustentasse suas crenças. Mais, ainda parecia achar que a falta de motivos não era algo importante. Saber por saber era suficiente. — O espírito é energia, e eu sei que posso direcioná-la. Você não sabe o que pode fazer?

Agora eu sei.

— Como descobriu? Se não sabia, como despertou seus poderes?

— Pressão. — Astra, que vinha logo atrás, respondeu. Antony não sabia que ela estava ouvindo. — Medo. Ansiedade. Raiva. Não temos controle no começo.

— É mais ou menos isso — concordou Antony, embora as emoções que Astra descrevera não fossem as mesmas que ele sentia quando usava seus poderes. Fazia sentido que aquelas emoções despertassem o fogo para Astra, mas nada que fosse tão instável poderia persuadir rochas. Para Antony, era uma experiência totalmente diferente.

— Não faz sentido... A joia é parte de quem são, não deviam precisar controlar. Deviam ter os mesmos objetivos.

— É uma pedra. Uma pedra mágica, sim, mas não tem objetivos. — Astra respondeu.

Caminhando entre a vegetação alta, Astra tropeçou em algo. Não chegou a cair, logo recuperou o equilíbrio, mas estranhou o objeto. Não era uma pedra ou raiz de árvore. Ela se abaixou e afastou a vegetação com as mãos.

— Nós chegamos. — Ouviu a voz fraca de Calisto. Todos os sons pareciam distantes no momento de choque. Astra não gritou, mas se levantou em um salto, horrorizada.

— Gente... — chamou, com a voz vacilante, sem conseguir tirar os olhos do corpo em péssimo estado no chão. As roupas estavam rasgadas, deixando à mostra diversas feridas irregulares feitas por algum animal, os olhos haviam sido arrancados, assim como as pontas dos dedos. A mandíbula fora destroçada, os lábios e dentes arrancados por mordidas.

— O que fez isso? — Perguntou Antony, atônito. Não conhecia nenhum animal com esse comportamento. Tiberius foi o único que se aproximou para uma análise mais profunda.

— Ele ainda estava vivo quando aconteceu — disse, examinando o sangue nas pontas dos dedos e nas órbitas oculares vazias. Não parecia abalado com a visão, apenas intrigado. — E foi recente. Deve ter sido algo que passou pelo portal. Onde está o portal, Calisto?

— Perto, muito perto. Não consigo definir o local exato — respondeu, hesitante, se explicando rapidamente após os olhares que recebeu. — É como se fosse um som, que fica tão intenso quando me aproximo que me confundo com a direção da fonte.

— Suas habilidades são cheias de "detalhes", não é? — Catarina insinuou, cruzando os braços. — Gostaria que não escondesse esses detalhes importantes, muito menos quando estamos nos colocando em perigo.

Astra sentia um leve desapontamento. Apesar de ter suas dúvidas quanto aos Magni, Astra concordava com Catarina nesse ponto. Calisto mostrou coragem ao buscar ajuda na cidade, de acordo com Astra, mas nunca respondia as coisas com clareza e escondia informações propositalmente. O potencial que Astra pensou ter visto, algo diferente do ninho de cobras que a rodeava em Aurora após o chamado da joia do Fogo, parecia ter sido apenas ilusão.

Em contrapartida, sob o olhar acusador de Catarina, Calisto não aparentava indiferença ou irreverência. Parecia envergonhada.

— Achei... que evitariam vir se soubessem. Me desculpe. Mas é fácil reconhecer um portal. É como um retrato do nosso mundo, mas as bordas brilham.

— Então é melhor encontrarmos logo, porque esse não é o único corpo. — Tiberius anunciou. Podiam ver pelo menos cinco outros corpos jogados próximo a eles, em condições similares ou piores do que o primeiro.

— Seja lá o que for... — começou Astra — espero que só tenha passado um pelo portal.

Como se para contradizer Astra, ouviram o som de folhas se remexendo à distância, e urros repulsivos de um animal desconhecido.

— É... Aquela direção não é uma boa. — Vermont constatou, assustado.

Para garantir, Astra pegou seu isqueiro. O objeto lhe passava segurança. Assim como Antony não criava a terra que manipulava, Astra não criava o fogo, apenas dominava o já existente.

— Primeiro o portal, depois as criaturas. — Havia sentido na sugestão de Tiberius, já que a ideia era impedir que mais criaturas atravessassem para a Terra, porém Astra mostrava-se receosa. Se houvesse alguém em perigo, ela preferia evitar o surgimento de mais um cadáver.

O grupo começou a procurar, mas não era fácil ignorar os sons bestiais que vez ou outra estavam presentes. Calisto se apoiou em uma rocha para subir uma elevação. Gostava de lugares altos, pois tinha mais visão do lugar, principalmente na floresta, cujo terreno irregular e as árvores sempre serviam de obstáculo, escondendo coisas importantes.

— Você já viu um desses portais? — Vermont perguntou.

— Sim. Não se preocupe, eu sei o que estou procurando.

— Essa é a menor das minhas preocupações no momento. — Vermont ouviu o som de folhas secas se quebrando, e não eram seus passos nem os de Calisto que o causavam. Vermont olhou ao redor, apreensivo, esperando algo, mas nada aconteceu. O som parou. Pelo rosto de Calisto, ela também tinha escutado. — Não deve ter sido nada... — falou, ciente de que nunca na história da humanidade aquela frase já esteve correta. Quando seguiram a direção de onde o som viera, encontraram rastros na terra remexida. Calisto se ajoelhou, para observá-los com mais atenção.

— Dane-se a general Rower... — resmungou, retirando o capacete do traje. Vermont não achava que o visor atrapalhava a visão, mas não comentou nada. Calisto devia estar familiarizada com rastros, já que viveu toda a vida na floresta. Para Vermont, nada naquela área de terra fazia sentido algum. — Pelo tamanho e padrão das pegadas, não parece muito grande. Deve ter o tamanho de um lobo.

Vermont riu com a informação, Calisto falou como se isso fosse um alívio, algo que pudesse tranquilizá-los. "Ah, tudo bem, é apenas o tamanho de um lobo!"

— Ele parece ter uma cauda, mas ela deixa uma marca estranha... — Ela tocou a borda de uma das pegadas com os dedos enluvados, e continuou olhando ao redor, agora não procurava apenas as pegadas. — Lodo. Ele deve ter vindo do rio.

— Isso parece lama comum que pode ter em qualquer lugar.

— A última vez que choveu foi há sete dias, eu nem tinha chegado em Aurora ainda, o terreno aqui é alto, se tivesse chovido a água teria escorrido pra de onde a gente veio. Se ele veio do rio, o portal pode estar...

— Cuidado! — Vermont interrompeu, jogando-se sobre ela a tempo de verem um animal saltar para onde estavam segundos antes. Vermont mal teve tempo de sair de cima de Calisto e a criatura já avançava novamente na direção deles. Assustada, Calisto agiu por impulso, ergueu a mão e sentiu sua própria energia se projetar na proteção que ela desejava. A energia azulada formou uma espécie de escudo, e o animal se chocou contra ele violentamente, mas não pareceu se ferir, pois continuou dando golpes, tentando alcançá-los. — Isso não é do tamanho de um lobo! — Vermont gritou. Ele tinha pouco mais que 1,70 m de altura, e a criatura tomava quase dois terços disso.

O animal parecia um híbrido de cachorro e macaco, só que bem maior do que ambos. Tinha o pelo escuro e duro como se fossem espinhos. A cauda, também negra, era longa e tinha algo que parecia com uma mão humana na extremidade. As garras e presas não pareciam amigáveis.

— Você falou "rio"? Eu adoraria ir para um lugar com água...

Calisto não achava que eles pudessem correr mais do que a criatura, mas quando Vermont agarrou sua mão, ignorou as dúvidas e correu o mais depressa que pôde.

Notas finais
Demron é um tecido que protege contra radiação. Não achei um texto em português: https://en.wikipedia.org/wiki/Demron Vocês estão lutando contra um Ahuízotl, uma criatura do folclore asteca: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ahuizotl Foi difícil terminar esse cap, pq na parte da floresta me bateu um bloqueio enorme. Mas eu consegui, fiz minha parte e agora é a vez de vocês. — Antony Carter, do leitor "Eu Voltei": O portador da joia da Terra, embora em uma situação muito inusitada, demonstra muita calma e sensatez, e está pronto para reagir a qualquer ameaça. Enquanto procura pelo portal, ele escuta o movimento de um animal, provavelmente o Ahuízotl, e o choro de uma criança. Agora ele vai: (A) Antony tem um forte código moral e não poderia negar ajuda a uma criança indefesa, ele imediatamente vai seguir o choro para salvar a criança, pois não pode se dar o luxo de perder tempo, e vai chegar até o rio. (B) Embora queira muito salvar a criança, Antony teme que mais criaturas atravessem para a Terra se o portal permanecer aberto, então ele decide que o melhor a fazer é ignorar a criança e encontrar o portal para que Calisto possa fechá-lo. (C) Antony decide salvar a criança, mas não sabe ainda o que vai enfrentar. Apesar de ter a joia da Terra e o revólver, ele vai chamar (??????), que estava mais perto dele, e ambos vão até o rio. Porém, eles não escutam mais o choro. — Astra Rosales, da leitora "Juls": Astra é a portadora da joia do Fogo, e, como o elemento que domina, é impulsiva e imprevisível. Ela é confiante, tem um senso de proteção e sempre defende seus ideais. Os corpos mutilados na floresta a deixaram bastante abalada. Astra não gostou muito da ordem do Tiberius de focar no portal e apenas depois enfrentarem seja lá o que os espera. Lembrando que Astra depende do isqueiro para usar fogo como arma e tem apenas uma faca para se defender, ela vai: (A) Ignorar a ordem de Tiberius e seguir na direção da qual ouviram os sons dos animais, pois enquanto eles procuram um portal que pode inclusive se fechar sozinho a qualquer momento, alguém pode estar precisando de ajuda, e ela não pode deixar que outra pessoa se junte àqueles corpos. (B) Em um grupo, as pessoas não podem decidir agir sozinhas, precisam de um plano e precisam seguir o plano. Se o plano é encontrar e fechar o portal, é isso que Astra vai fazer. Sua busca a leva até uma clareira, e embora o lugar pareça calmo, algo pode acontecer ali. — Tiberius e Catarina, da leitora Zombie Geek: Tiberius e Catarina não estão acostumados com esse tipo de aventura ou rotina, mas até que estão indo bem, embora Catarina se sinta vulnerável na floresta. O casal inseparável desceu até o rio antes dos outros, e olha só, eles encontraram o portal. O que fazer agora? (A) Ambos voltam para chamar os outros, afinal, apenas Calisto consegue fechá-lo. (B) Tiberius deixa Catarina no rio e volta sozinho para chamar os outros. (C) Tiberius fica no rio, caso algo saia do portal, e Catarina vai chamar os outros. Preciso das respostas para continuar, mas caso alguém não possa me dar a resposta para seu personagem, eu mesma tomarei a decisão. Deixem a resposta nos reviews. Aqueles que não tem personagens na história ainda são bem vindo a comentar, viu? Apareçam, gente :~ Qualquer crítica, principalmente quanto aos personagens, podem vir puxar minha orelha, viu? Eu preciso saber se os personagens estão bons.