O menino olhou cada um daqueles rostos; que antes estavam cheios de pena e de compaixão, e agora estava com raiva. Rick pôde ver que todos queriam entender o por quê que ele disse aquilo, e viu que a qualquer minuto, a qualquer momento eles poderiam o deixar pra morrer. Aquilo fez suas pernas tremerem, e ele começou a olhar pros lados, como se aquilo jogasse seus pensamentos pra longe. Ele não queria morrer, não poderia. Perdera toda a família pros mortos-vivos e não admitia que eles matassem ele também, ele teria que sobreviver pra contar a história dos Camp (sua versão adaptada praquele refúgio). Os olhos dele percorreram todo o quarto, perguntando em quem se podia confiar, olhou para Sam e percebeu que ele parecia um pobre desiludido, fraco, inútil. Seus olhos encontraram os de Becky; ela lembrava realmente sua mãe. Mas esse devaneio logo foi substituído pela sensação de medo novamente, depois que sentiu o olhar de Lia o furar como facas afiadas numa noite fria.
– Me responda, ou eu acabo com você. Aqui. Agora. – Falou Lia, demonstrando impaciência.
Carol se pôs entra Lia e Rick, na tentativa de protege-lo. Os olhos azuis dela se infiltraram nos castanhos de Lia, mas Lia não sentiu nada. Ela estava tão fria, e aquilo fez com que Lilly tivesse arrepios das costas até o pescoço. O que poderia estar acontecendo com ela? Pensou Lilly, mas rapidamente ela se deu conta que não poderia ter aquela resposta, então afastou esse pensamento para que pudesse acompanhar a resposta de Rick.
– Eu falo, mas primeiro, temos que sair daqui! Estamos desprotegidos aqui. – Rick disse com os olhos distantes, parecendo muito mais velho do que realmente era.
No estante em que Lia ouviu isso, deu uma risada sarcástica em alto e bom som para que todos pudessem ouvir, Becky a cutucou e a olhou de cara feia.
– Do que você está falando, Rick? Será que seu nome verdadeiro é Rick mesmo? Ou você apenas fingiu – de novo, pra todos nós? Será que podemos confiar em você novamente? – Desafiou Lia enquanto olhava de cima a baixo pro menino.
– Você quer parar de implicar com ele, Lia? Só por um minuto! – Gritou Sam, com os nervos a flor da pele. Quando viu que Lia fizera exatamente o que ele acabara de mandar, ele passou as mãos no cabelo, como sinal de nervosismo e revisou o olhar entre todos naquele quarto. – Ok. – Suspirou ele. – Do que você está falando, Rick? Por que você acha que estamos desprotegidos aqui, sendo que você ficou vivo a mais tempo que nós?
Becky continuou a olhar pro menino, e sentiu uma necessidade enorme de protege-lo, como se ela fosse mesmo sua mãe. E, ao olhar bem para Rick, percebeu que as mãos dele estavam tremendo e que um fio de suor brotava em sua testa. Ela correu em sua direção, e começou a passar as mãos em seus cabelos, que agora estavam molhados.
– Você está bem?
– O que ele tem? – Perguntou Lilly.
– Não sei, médicas de plantão, por favor, venham aqui! – Becky fez um sinal para que Lia e Carol chegassem mais perto, e elas obedeceram.
Ao analisarem bem o menino, elas cochicharam tão baixo que só quem estava perto o suficiente – como Becky e Rick – puderam ouvir, a ansiedade era vidente nos olhos da líder e de Sam. Quando Lia voltou a olhar pra Lilly, olhou-a com uma expressão confusa.
– E aí? – Perguntou Lilly.
– E aí o que? – Lia perguntou, ainda mais confusa.
– O que o menino tem? – Foi a vez de Sam falar.
– Ele está com uma gripe, nós achamos que ela é fraca... Mas não temos os aparelhos para confirmar, e também está com febre, provavelmente está delirando. Por isso nos disse que não era seguro ficar aqui, e – Lia foi interrompida por gritos de dor do menino.
– O que está doendo? – Perguntou Carol, que estava em cima de Rick demonstrando preocupação.
– Temos que sair daqui, antes que eles nos impeçam! – Gritou o menino em meio as lágrimas que brotavam do seu rosto.
– Eles quem? – Perguntou Sam.
Eles estavam tão concentrados na doença de Rick que não viram os irmãos Sean e Abigail chegarem a porta, e eles ouviram a conversa – pelo menos uma parte dela. E isso fez com o que eles tivessem uma entrada inesquecível.
– Nós. – Respondeu Abigail com um tom seco.
Todos se viraram quando reconheceram aquela voz aguda; o ódio era evidente nos olhos de todos, até mesmo nos de Lilly. Rick começou a negar com a cabeça, e foi puxando a gola da blusa de Becky, até quase a deixar sem ar. Becky pôde ver que ele estava desesperado, e tentou acalma-lo.
– O que foi?
– Eu não disse deles, eu disse dos zumbis! – Gritou Rick.
Os irmãos começaram a bater nas grades, na tentativa de abrir, e enquanto não conseguiam, lançaram um olhar mortal para Lia, que estava do outro lado. Lia retribuiu o olhar e considerou aquilo como uma ameaça. Uma ameaça da qual eles nunca poderiam ter feito, não para Lia Northmann.
– Eu não disse que iria matar vocês? Vocês tem probleminhas? – Lia falou num tom sarcástico e falou ‘probleminhas’ como se estivesse falando com uma criança de 2 anos.
– Lia, Lia, Lia. Ou devo chamar de Nathalie? – Desafiou Abigail. – Você não é nada do que apresenta ser, senhorita Zimmer. Agora, por favor, nos dê o garoto.
Lia ficou de boca aberta, como ela poderia saber meu nome completo? Pensou Lia. As outras garotas apenas lançaram um olhar desafiador pros rivais.
– Nós daremos o garoto, mas primeiro temos que sair daqui. – Sam disse confiante. – Eu lhes dou minha palavra.
– E por acaso sua palavra vale alguma coisa? – Perguntou Spencer.
– Tenha certeza de que ela vale muito mais do que a sua, nojento. – Respondeu Carol, e com um riso falso ela continuou. – Agora, por favor, vocês poderiam nos dar licença pra que nós pudéssemos sair daqui e entregar o garoto á vocês? Eu juro, eu sou boazinha! – Ela encerrou a frase com um bico e acenando a cabeça.
Rick tossiu e continuou lá em seu canto, junto a Becky. Os irmãos se olharam e depois olharam pra Abigail; eles não precisavam falar, se entendiam com apenas um olhar.
– Ele está doente? – Perguntou David.
Lilly assentiu com a cabeça.
– Ele está com uma forte gripe, e eu acho que ele não tem muito tempo. – Lilly continuou a mentir sobre o menino, como se estivesse falando ‘que dia foi ontem’. – É contagioso, e se eu fosse vocês, não ficaria com o menino. Nós vamos sair daqui e deixar ele como forma de agradecimento aos mortos-vivos por eles terem poupado nossas preciosas e maravilhosas vidas. Então. Ainda vai querer ficar com o senhor Camp?
– Não, pode ficar com ele. Adeus! – Disse Abigail enquanto corria com passos longos e pesados, e os irmãos não ficaram pra trás.
Depois de alguns minutos, eles começaram a ouvir gemidos. Lilly achava que Rick estava certo o tempo todo, e que agora eles iam ser massacrados pelos zumbis que ali estavam. Ela começou a ficar em pânico só de imaginar a cena e isso fez com que ela tivesse um breve enjoo, e pediu pra que todos pegassem suas armas e corressem o mais rápido que pudessem.
Mas no caminho, Rick dormiu e Becky e Carol foram o carregando até uma árvore. Sem sinal de zumbis, elas pararam ali e olharam para os outros.
– O que vamos fazer agora? – Perguntou Sam.
– Vão procurar remédio pro menino, eu a Becky esperamos aqui. –Disse Carol.
– E se vocês não estiverem aqui? – Perguntou Lia, ainda não convencida que as amigas poderiam se virar sozinhas naquela anarquia que estava Detroit.
– Nós vamos estar aqui, eu prometo. – Falou Carol olhando diretamente pra Sam.
E sem avisos, Sam se abaixou e a beijou, e ela finalmente se entregou aquele sentimento maravilhoso. Agora ela sabia o que era a verdadeira felicidade, e começou a pensar no quanto estava sendo idiota de esnoba-lo. Aquele beijo fez com que Lia e Lilly soltassem um “uhuuuu!” enquanto Becky fez cara de nojo, e pra disfarçar ela olhou para o seu lado esquerdo.
O beijo finalmente acabou com o sorriso dos dois, ele passou as mãos em seu rosto, e continuou a acaricia-la.
– Eu já volto, mas eu quero que fique com isso. – Ele lhe entregou o seu canivete que estava guardado por todo esse tempo. – Por segurança.
Ela assentiu com a cabeça e eles foram embora. Demoraram 15 minutos até finalmente pegarem todos os remédios com a supervisão de Lia, e quando voltaram a árvore, não tinha sinal de ninguém – nem mesmo alguma mensagem. E no chão estava o anel dourado de Carol, com uma pedra de rubi no meio, o anel de sua formatura, que, desde o dia que se formara nunca tirava o anel. Ela amava aquilo mais que tudo.
Lilly pegou o anel e apertou contra o seu peito, elas se foram, pensou ela. Aquilo fez com que ela tivesse uma dor no estômago, como se tivessem lhe dado um soco, e o pensamento que sua irmã poderia estar morta a qualquer minuto a deixava com raiva de si mesma. Afinal, ela jurou a seu pai que iria protege-la, e ela não ia morrer antes de conseguir salvar a sua irmã dos monstros que haviam tirado a vida de quase todo o resto do mundo. Com lágrimas nos olhos, o cenário apocalíptico de Detroit se transformou num grande borrão, e ela tinha certeza de que sua voz não ia sair como ela queria, mas continuou mesmo assim.
– Vamos, temos que achar Carol e Becky. O mais rápido possível. – Ela disse com a voz trêmula, enquanto com as mãos enxugava as lágrimas que não paravam de cair.
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