As Fronteiras Gêmeas - Interativa
2 Capítulo 1
Notas iniciais
~OLIVER SALTWARN~
Afastei uma alga do meu rosto e espiei para dentro da floresta. A não ser por alguns poucos peixes, eu estava sozinha. A luz da Lua dançava no meio das plantas formando desenhos estranhos enquanto eu nadava devagar tomando cuidado para não fazer muito barulho.
Era como se alguém me chamasse. Eu não sabia quem ou como, se era uma pessoa ou uma força do universo, mas algo definitivamente estava me fazendo seguir naquela direção.
A floresta foi rareando aos poucos até que abaixo de mim só era possível ver areia. Eu devia estar à poucos metros da superfície quando vi os contornos difusos ao longe.
Aumentei a velocidade e em poucos minutos, estava em meio a uma confusão de raízes pertencentes a uma enorme árvore. Tornei a olhar para a superfície e, para minha surpresa, algo se mexeu.
Lentamente me aproximei. Minha cauda dançando entre as raízes soltas e folhas em meio ao lodo grosso que se desprendia do fundo. Um cardume de peixes brincou em meus cabelos enquanto eu tentava descobrir o que poderia estar do outro lado da superfície.
Pude ver um lampejo alaranjado e finalmente me toquei. Eu estava me assustando com meu próprio reflexo.
Ri comigo mesma e aproximei meu indicador da superfície, curiosa para ver a água formar aquelas ondas tão características a meu toque.
Porém, antes que eu tivesse a chance, tudo se tornou negro.
Eu finalmente acordara.
***
Devo admitir que a Pearl realmente devia ter algum problema auditivo. Definitivamente não é normal escutar porcaria de música humana naquele volume.
– PEARL! SUA DEMENTE! DÁ PRA ABAIXAR O KHAT* DO SOM?? – gritei, jogando um travesseiro em minha colega de quarto.
– Ei! Calma aí! – reclamou a garota enquanto desligava o aparelho que se mostrou ser a origem da música – Eu achava que ainda estava dormindo...
Bufei e olhei em volta, notando que todas as outras camas estavam vazias.
– O Sol já nasceu? – perguntei em meio de um bocejo. Pearl somente assentiu.
– Aham, faz umas dez ou onze contagens... – a garota comentou enquanto esfregava o aparelho de som com um pano limpo para tirar a sujeira.
– Onze contagens?? – exclamei – E por que você não me acordou??
– Bem, eu ia. Mas aí eu lembrei daquela vez da arraia e desisti. A Katherine passou aqui mais cedo. Ela estava bem irritada pela Aqua ter escondido o material dela. – Pearl sorriu e colocou uma mexa dos cabelos escuros atrás da orelha – Ela quase congelou o corredor todo. Foi bem engraçado. Prometi pra ela que ia ajuda-la a procurar a coisa toda, mas...
– Tá, tá. – saltei para fora da cama – Entendi eu acordei mais tarde que de costume. Dá pra você parar de falar agora?
Pearl riu e se levantou da cama também, pegando algumas roupas no guardador de roupas enquanto eu me trocava. Belo jeito de começar o dia.
***
– Se pronuncia RÁ-DI-O, Kath. Não Á-DI-O. Eu já te falei umas vinte vezes!
– Sei. E eu também já te falei pra NÃO me chamar de Kath. – Katherine bufou, deixando uma mecha de seu cabelo loiro cair sobre o rosto.
– Ainda não entendo qual seu interesse com humanos, Pearl. – dei de ombros com um sorriso de lado – Eles não me parecem muito especiais.
– Mas eles são, oras! – a garota riu – Se não fosse por eles eu nunca ia ter o meu rádio à pilhas e a gente não ia ter uma banheiro. Devia pensar nisso de vez em quando.
Não respondi enquanto virávamos o corredor em direção à aula de Idiomas.
Fazia cerca de seis anos que eu frequentava a Seashell, por escolha do meu pai, é claro. Ser filha do Ressen tinha suas vantagens, mas suas desvantagens também. Uma delas era ter de passar boa parte do ano em um internato só para seres filiados à água, onde eu devia aprender um monte de matérias insuportáveis tendo como único consolo o apoio de duas sereias que mal conseguiam ficar duas contagens sem brigar que dirá um dia.
Abri a porta da sala de aula devagar para não atrapalhar a aula, enquanto Katherine, que era um ano mais avançada que eu e Pearl, seguiu pelo corredor.
– Anniye Saltwarn yun Marinestar. Ghaac nmacco.** – rosnou a professor Earwyn de mal humor. Suspirei enquanto me dirigia para uma das carteiras de madeira do fim da sala, com Pearl ao meu lado.
– Não se preocupe com ela. Aquele bacalhau velho vai embora daqui a pouco. – minha amiga tentou me animar enquanto somente revirava os olhos e torcia o cabelo com impaciência.
– Muito bem. Comecemos nossa lição.
***
~KATHERINE ICEBELL~
Saí da aula de Educação Aquática com cada escama de minha cauda doendo como se um ouriço tivesse decidido usá-las como casa de veraneio. Tentei ignorar a dor ao máximo enquanto me secava com um pedaço de pano para poder ir direto para a aula de História antes que o professor me matasse.
– Ei, Katherine. Está com problemas aí? – perguntou uma sereia próxima em tom de desdém, enquanto fazia suas pernas aparecerem somente evaporando a água que as molhava.
– Estou bem, Coralia. – respondi rispidamente, finalmente fazendo com que minha cauda se transformasse novamente em um par de pernas humanas – Não preciso de ajuda de gente como você.
– Ah, é claro. – a garota ignorou, ainda com aquele olhar de quem se acha superior – Da próxima nem pergunto.
Revirei os olhos enquanto aquela piranha ia embora pela escada em espiral.
Tentei ir o mais rápido que pude enquanto corria para a sala de aula. Não gosto de correr, não mesmo, mas até que valeu à pena, já que consegui não chegar atrasada.
***
– Bem, vocês, como alunos do último ano, devem saber que a cada três anos nós realizamos um evento bastante importante no meio mágico – começou o professor Aegates pouco depois de eu me sentar – a Convenção Interescolar, ou, como é melhor conhecida, a COIN.
Alguns alunos aplaudiram, mas eu me mantive neutra. Eu havia participado de um desses eventos pouco depois de entrar para a Seashell, mas não havia me enturmado muito, já que fazia pouco tempo desde a morte de meus pais e digamos que eu não estava muito a fim de interações sociais no momento.
– Nesse evento todas as escolas reconhecidas do meio mágico se encontram em um só lugar para celebrar a união de nosso povo, por isso, é um prazer lhes informar que neste ano a Seashell será a Sede deste evento.
Mais vivas. O professor teve de esperar umas boas contagens para todos voltarem a se calar.
– Como alunos do último ano, é de extrema importância a participação de vocês nos preparativos para o evento, por isso, peço que entrem em contato com a diretora em caso de interesse. – o professor sorriu ao ver que vários alunos já pareciam levar em consideração o convite – E é claro, como é tradição, o cristal de Statera será levado para cá no dia do grande evento, isto é, daqui à uma semana.
Uma semana? Era um período de tempo bem pequeno para algo que me parecia tão grande... Tentei pensar no que podia haver de tão especial em uma festa como aquela para todos estarem tão animados.
– Certo. Certo. – o professor levantou a voz para poder ser ouvido em meio ao burburinho – Agora vamos à aula. Alguém se lembra onde paramos na semana passada?
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