As Fronteiras Gêmeas - Interativa
5 Capítulo 4
Notas iniciais
~WALQUIRIA RETRON~
Eu estava no meio de minha aula de poções quando as coisas começaram a dar errado.
Primeiro, meu parceiro de “laboratório” era um elfo com quem eu saíra por uns dois dias e não parava de me mandar indiretas sobre como o relacionamento dele com a nova namorada estava ótimo.
E eu com isso?
Segundo, o professor não parava de falar de substâncias inúteis que poderiam salvar sua vida se você não fosse bom o suficiente para fazer uma Poção da Cura.
Fazia mais de um ano que eu basicamente ressuscitara um aluno em plena aula que havia tido um ataque cardíaco. Definitivamente aquilo era desnecessário.
E, só para finalizar, eu já estava me irritando com o garoto que estava sentado logo atrás de mim, que não parava de acender e apagar um isqueiro (objeto que ele nem deveria ter aliás) a poucos centímetros do meu cabelo.
– Pode, por favor, parar com isso? – me virei para trás para encará-lo. O garoto só sorriu de canto e acendeu o isqueiro mais uma vez – Qual é o seu problema, akir, é surdo por acaso?
– Não, só não estou a fim de te ouvir mesmo. – aquilo foi a gota d’água. Pude ver a expressão do garoto que estava do meu lado e ele estava claramente rindo da minha cara.
– Não me venha com essa. Apague logo essa coisa. – encarei o isqueiro com desgosto, mas ele continuou rindo.
– Ou o quê?
– Vou te dar um aviso prévio: Você não quer me ver irritada.
– De desde quando você quem diz o que quero?
Ele só podia estar testando minha paciência. Respirei fundo e tentei ao máximo me manter estável, me virando para frente e tentando me concentrar já que o professor agora estava dando as instruções para uma Poção de Sorte.
E foi aí que eu senti cheiro de queimado...
– Uhmm... Walquiria? – o garoto ao meu lado chamou minha atenção.
– Que é!?
– Seu... Errr... Cabelo.
Foi o suficiente. Olhei para trás e consegui ver claramente as pontas chamuscadas. O garoto com o isqueiro havia sumido.
– Aquele filho de um troll com uma maldita harpia...
– Walquiria?
– Eu vou matar ele...
– Wal...
– NÃO PERCEBE QUE EU ESTOU IRRITADA SEU MALDITO AKIRME SEM CÉREBRO??
Me levantei e saí da sala. Sem falar com o mestre de poções nem nada. Não tinha humor o suficiente para isso.
E o paquiderme estava parado encostado na parede da escola. Aquilo só podia ser brincadeira.
– Você... Chamuscou... O meu... Cabelo. – falei pausadamente, tentando controlar a voz. Sem descontrole... Sem descontrole...
– E você estava me irritando.
Essa eu nem respondi, somente dei um passo para frente e lhe deu o maior tapa que podia.
E ele segurou o meu pulso a centímetros do seu rosto.
– Você não fez isso. – o encarei, mas ele nem se moveu.
– Dá pra me deixar em paz, agora?
Instintivamente levantei meu joelho, mas ele bloqueou o movimento. Por fim, decidi por só me afastar e deixar aquilo para outro dia.
Me soltei de sua mão e dei meia-volta, tomando rumo para a sala de poções.
Mas é claro que as coisas sempre podem piorar.
O diretor estava parado bem atrás de mim.
~AARON COHEN~
– E então... Aqui estamos novamente... – murmurou o velho duende enquanto entrávamos na diretoria.
A garota que, por alguma razão, decidira me infernizar naquele dia entrou logo depois de mim e não pude deixar de notar que parte do seu cabelo estava carbonizada.
– E então, o que aconteceu? – perguntou o diretor com ar de tédio.
– Bem, esse akirme idiota... – começou a garota, mas logo foi interrompida pelo velho.
– Sem palavrões.
– Tá, okay. – a elfa suspirou – Ele chamuscou o meu cabelo durante a aula de poções. Eu só fui dar pra ele o que ele merecia.
Tive de revirar os olhos, o que só deixou a garota ainda mais irritada.
– Tudo bem. Walquiria, certo? Está dispensada.
– Só?
– É. Só. Deixe-me falar com o senhor Cohen agora, se me permite.
Walquiria, como devia se chamar a garota, saiu da sala xingando meia dúzia de palavrões e fechou a porta atrás de si. Assim que já não era mais possível ouvi-la o diretor continuou:
– Por Ester, Aaron. Nem era para você estar naquela aula.
– Eu estava sem nada para fazer. – dei de ombros.
– Mas você tinha teste de Feérico.
– Eu sei falar feérico. Não preciso provar isso para ninguém.
O velho deu um longo suspiro.
– O que aconteceu dessa vez?
– Eu estava na aula de Poções e aquela garota..
– Walquiria.
– Walquiria. Começou a me infernizar.
– Você não é de falar muito.
– Não sou.
– Então quer dizer que ela decidiu te “infernizar” – aspas com os dedos – por nada?
Revirei os olhos. Eu já havia ido para aquela diretoria algumas vezes e na maior parte delas era sobre algo que envolvia fogo. Acho que o diretor devia ter uma gaveta só para guardar meus isqueiros confiscados.
– Me dê logo esse isqueiro. Sei que você está com um e não vou deixar você incendiar as lixeiras outra vez. Você já devia saber disso.
Entreguei meu isqueiro e revirei os olhos.
– Não vou perguntar de novo o que aconteceu por que acho que não é mais necessário. – o duende me encarou – Mas se quer continuar nessa escola...
– Não quero.
– Você realmente acha que eu quero ficar aqui?
– Você é o diretor. Pode sair quando quiser.
– Cansei. Pode sair se quiser, senhor Cohen. Ficar andando por aí como quiser. Para mim já chega. Só não arranje problemas pra mim. Saia dessa sala e, pelo amor de Todos, não volte.
– Com prazer.
Levantei-me da cadeira onde eu estava e fui embora, sem não antes pegar um dos papéis que estavam jogados em uma das prateleiras da sala do diretor. No topo havia um título escrito em três línguas diferentes. Assim que me vi fora da escola procurei pelo feérico e li em voz alta:
“INSCRIÇÃO PARA A CONFERÊNCIA INTERESCOLAR (COIN) – SEDE SEASHELL”
~OLIVER SALTWARN~
Acordei com alguém chamando meu nome.
O que é bem estranho, já que Pearl estava dormindo com uma pedra e o resto do mundo parecia silencioso. Mesmo assim, eu tinha certeza que alguém havia me chamado.
Pulei da cama e olhei em volta. Como sempre, a porta da sacada estava aberta e o cheiro de maresia enchia o quarto. Ao longe era possível ver a Lua, agora cheia, brilhando, e alguns golfinhos ainda nadavam por aquelas bandas.
Sempre me orgulhei de dormir em um quarto onde se olhasse para qualquer direção só se podia ver o mar e as paredes do castelo. Agora eu começava a imaginar o porquê.
Devagar, como se guiada por um alguma espécie de corrente, caminhei até a sacada e fiquei algum tempo observando a vista. Havia algo muito estranho naquilo tudo. Não é nada comum para sereias ter insônia ou acordar no meio da noite.
Muito menos ter instintos suicidas.
Demorou algumas para eu notar que eu não estava mais de pé na sacada, e sim sentada em seu peitoril, com os pés balançando a milhares de metros da água lá embaixo.
Engraçado.
A brisa noturna fazia com que meu cabelo ricocheteasse em meu rosto, pintando minha visão de laranja-escuro. Era óbvio que eu não estava plenamente consciente, mas de repente a ideia de pular se tornou bastante convidativa.
Qual seria a altura?
– Oliver? Você tá bem? – ouvi a voz sonolenta de Pearl atrás de mim – O que você está fazendo sentada aí?
A voz dela era tão engraçada desse jeito...
– O mar é bonito, não é? – ri como boba. Por que eu estava fazendo aquilo?
– Muito. Mas o que isso tem haver?
E foi então que pulei.
***
O azul se aproximava rápido e ao longe era possível ouvir os gritos de Pearl misturados com o quebrar das ondas. Era como... Magia.
Não sei o que salvou, se foi o modo com que caí ou algum tipo de deus maluco, mas logo me vi mergulhada em água morna e salgada. Não sentia nem um pouco de frio.
Voltei a me mexer algumas contagens depois da queda e coloquei minha cauda para trabalhar. Eu podia não saber ao certo para onde ia, mas eu estava adorando a sensação das correntezas m minha pele e dos desenhos que a luz fazia na areia logo abaixo de mim.
Tudo era tão lindo.
Dei algumas piruetas enquanto nadava, deixando os peixes passarem em meio ao meu cabelo e pegando algumas caronas com golfinhos que se mostravam prestativos. Por alguma razão assim que vi uma pequena floresta de algas meu coração começou a dar cambalhotas de alegria.
Com cuidado, passei a me mover entre as plantas, observando enquanto os cavalos marinhos se afastavam para eu passar e uma tartaruga me lançava um olhar curioso. Não sabia que tartarugas conseguiam fazer isso.
E foi então que eu vi. Pouco a frente, logo depois que a floresta acabava, as raízes de uma enorme árvore se projetavam no chão lamacento de algo que me parecia um pântano. Pela primeira vez desde que eu acordara, eu agora voltava a ouvir alguém me chamando.
Rapidamente, nadei até o meio das raízes e foi então que algo estalou em meu cérebro.
O que eu estava fazendo ali??
Como se por resposta, uma sombra surgiu na superfície. Um reflexo alaranjado. O reflexo que eu um dia achara que era o meu próprio. Meu sonho acabara de se tornar realidade.
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