AIGAM, 16 ANOS ATRÁS

LUNA FOI TIRADA DA CAMA ÀS PRESSAS. Corria por corredores que não conseguia distinguir. Ainda estava sonolenta, e a densa névoa que pairava por todo o castelo não ajudava. Tudo que conseguia ouvir eram seus passos no chão gélido de mármore, em sincronia com os do pai, que corria a seu lado segurando sua mão com força. Sua mãe vinha logo atrás, correndo com um pouco mais de cautela para não acordar a pequena Emma, que ainda dormia a sono solto, como se não tivesse saído do berço.

A menina não conseguia entender o porquê daquilo tudo. Estava tudo normal quando foi dormir, e parecia que tinha apenas encostado a cabeça no travesseiro quando foi sacudida pelo pai. E tudo acontecera tão rápido, que não teve tempo para perguntas. Mas agora elas invadiam sua mente. Por que estavam correndo? Por que pareciam tão desesperados? Para onde estavam indo?

Subiram um lance de escadas em espiral. Trinta e dois degraus, contou ela. E naquele momento conseguiu identificar o local onde se encontravam. A ala leste. O local proibido do castelo. O lugar que seus pais sempre disseram para ela evitar pisar. Como a névoa era consideravelmente menos densa ali, Luna conseguia ver para onde estava sendo guiada. Contou as portas pelas quais passavam no corredor. Uma... Duas... Três... Quatro. Pararam. A porta pesada de carvalho abriu sem muito esforço, suave, sem barulho. Entraram em um movimento rápido e ela se fechou atrás deles.

O ambiente era escuro, iluminado apenas por pequenas janelas do outro lado do cômodo. Era um salão enorme, com pé direito alto, com espaço suficiente para caber cada habitante de Aigam. Mas a única coisa que ali residia era um espelho. Um grande, curioso e esplêndido espelho. E caminharam a passos largos até ele.

— Luna, precisamos te dizer algo muito sério — começou a falar seu pai, o rei. Tinha um rosto fino, cabelos encaracolados castanhos, e olhos azuis como safira. Forte. Corajoso. Confiante. – Você terá de ouvir atentamente o que iremos lhe falar, está bem? Pode fazer isso?

— Sim, papai — a menina se manteve rígida, coluna ereta, olhar centrado. Seus braços se mantiveram ao lado do corpo, seus punhos cerrados. Estava com medo, mas permaneceria valente. Pelos pais. Pela irmã.

— Então, querida — a mãe se abaixou com cuidado, o que fez a bebê se remexer, mas não acordou. A rainha tinha cabelos longos e louros que caiam sobre os ombros numa delicadeza bela, e seus olhos eram castanhos claros, quase cinzas. Sua pele era branca como neve. Seus lábios vermelhos como sangue. Era de uma beleza mística. Destemida. Sábia. Gentil. — O papai e eu teremos que resolver alguns problemas no castelo. Alguns problemas no reino. E seria demasiado arriscado mantê-las aqui. Seria perigoso. E queremos que você e a Emma fiquem em segurança. Consegue compreender isso?

— Sim, mamãe.

— Vocês ficarão juntas, não se preocupe – falou o pai, também se agachando, de maneira que seus olhos fitavam os da filha de frente. – Um dia, eu prometo, estaremos todos juntos novamente. Um dia vocês voltarão para casa, e tudo voltará ao normal.

— Mas quando voltaremos, papai? — Luna engoliu em seco. — E como saberei que é seguro voltar para casa?

— Logo, Luna. E você saberá. Nós temos certeza que saberá.

Naquele momento, ouviram-se passos no corredor. As respirações ficaram mais ofegantes, o sentimento de medo que Luna sentia agora aumentara, e o olhar apavorado que a mãe lançou ao pai atingiu em cheio a menina, e por um segundo ela não conseguiu respirar. O que está acontecendo?!

O rei tirou do bolso seu colar. O pingente balançava de um lado para o outro, produzindo uma pequena luminosidade ao ser visto de certo ângulo, e a menina teve quase certeza de que ele tinha um brilho próprio. A metade de um sol. O símbolo de Aigam. Dourado, vivo, nobre como ouro. E ele o colocou no pescoço da filha.

— Isso é para sempre se lembrar de casa. E para Aigam nunca estar longe de você. Sua mãe deu o colar dela para a Emma, então é uma ligação entre vocês duas também. Uma ligação entre todos nós. Entendeu?

O pai a abraçou sem dizem nem mais uma palavra. Em seguida, a mãe a beijou na testa suavemente e disse que a amava, que amava as duas mais que tudo no mundo, e que sempre estaria com elas.

Os passos no corredor se aproximavam. A rainha entregou com cuidado a caçula para a primogênita, que a segurou com firmeza.

— A proteja — foram as últimas palavras da mãe.

Luna se virou e encarou o espelho. Seu reflexo não muito visível por causa da escuridão. Sabia o que fazer. Respirou fundo e andou um passo. Atravessou o vidro. Estava dentro do espelho. Estava indo para algum lugar onde ela e a irmã ficariam sozinhas, mas seguras.

Enquanto se desmaterializavam, Luna deu uma última olhada nos pais. Sorriam para elas, apesar das lágrimas escorrendo em seus rostos. A menina estava prestes a dizer “eu amo vocês”, porque não havia dito em nenhum momento daquela noite turbulenta, e sentia que, por mais que soubessem, eles precisavam ouvir isso, e ela precisava dizer isso, pelo menos mais uma vez.

Foi quando a porta do salão se abriu num estampido e ela não conseguiu ver, ouvir ou sentir mais nada.