As Fendas da Máscara
8 Fragmentos de um Passado
Os primeiros raios do sol iluminaram a divisão onde Naak e Akael tinham ficado, preenchendo o espaço com uma luz suave que contrastava com o silêncio da madrugada. Naak abriu lentamente os olhos, demorando alguns segundos a reconhecer onde estava, ainda presa entre o sono e a memória do que tinha acontecido.
Ao mover-se ligeiramente, reparou que a sua barriga estava cuidadosamente enfaixada com ligaduras, o que a fez recordar imediatamente os eventos recentes. Ao seu lado, viu Akael a dormir numa cadeira, de braços cruzados, numa postura rígida mas claramente vigilante, como se tivesse passado a noite inteira a protegê-la. Naak aproximou-se dele em silêncio e tocou-lhe levemente no rosto, gesto que o despertou de imediato.
Quando Akael a viu acordada e já recuperada, levantou-se com alguma rapidez e abraçou-a sem hesitar. Naak sentiu, naquele abraço, todo o peso da preocupação que ele tinha guardado durante aquele tempo.
— Naak… fiquei preocupado.
Naak retribuiu o abraço, sem dizer nada, permitindo que o silêncio entre ambos dissesse o que as palavras não conseguiam. Passados alguns minutos, sentaram-se ambos na beira da cama, ainda envoltos numa quietude confortável, quase frágil.
O momento foi interrompido quando Izan e Leaf entraram na divisão. Leaf, com um tom leve, perguntou se queriam comer alguma coisa, ao que ambos responderam que sim. Izan afastou-se então para verificar a fogueira, certificando-se de que ainda havia alguma brasa que pudesse ser apagada, enquanto Leaf se aproximava com dois pratos.
— Aqui têm.
Naak e Akael comeram com satisfação, recuperando forças após o que tinham vivido. O ambiente era calmo, quase doméstico, até que Naak decidiu quebrar o silêncio.
— Quem era aquela mulher?
A pergunta caiu na divisão como uma pedra num lago quieto. Akael olhou para Naak e depois para o chão, com um olhar pesado e pensativo. Nesse instante, Izan e Leaf trocaram um olhar rápido, percebendo que estavam a mais naquele momento, e decidiram sair discretamente sob o pretexto de irem recolher materiais para os seus clientes.
— Nós vamos ter que sair durante algumas horas para recolher materiais para os nossos clientes… só voltamos mais tarde, por isso fiquem à vontade.
Quando a porta se fechou, o silêncio tornou-se mais denso. Akael respirou fundo, como se estivesse a preparar-se para algo que evitava há muito tempo.
— Aquela mulher foi o meu verdadeiro amor — disse Akael, olhando para Naak com tristeza. — Deixa-me contar-te o meu passado.
Naak ajeitou-se melhor na cama, atenta, enquanto Akael se levantava e ficava de frente para ela. O olhar dele perdeu-se por um instante antes de começar a falar, mergulhando numa narrativa carregada de memórias que ainda lhe pesavam.
POV Akael
A pessoa que vês hoje à tua frente já não é a mesma pessoa quando conheceu Saya. Naquela altura, eu era alguém que apenas se interessava por poder e não me importava como o obtinha. Era jovem, inexperiente.
Fui abandonado pelos meus pais por ser diferente. Tinha uma ligação fácil com demónios e eles não souberam lidar com isso. Um dia, simplesmente… deixaram-me.
Foi o culto dos Necromancers que me acolheu. O Izan estava lá nessa altura. Temos uma diferença de cinco anos, por isso sempre o vi como um irmão mais velho. Foi ele quem me ajudou a crescer e a compreender melhor o mundo.
Quando atingi a maturidade, os meus poderes tornaram-se instáveis e tive de partir. Precisava de um Warlock para me acompanhar. O único disponível não era confiável, mas era a minha única hipótese de controlar o meu poder. O Izan acompanhou-me nessa jornada.
Comecei a dominar demónios de Rank baixo, mais depressa do que o esperado. O meu Mestre ficou impressionado. Disse que eu era dotado. O passo seguinte seria controlar demónios de Rank alto.
O Izan avisou-me para ter cuidado com o meu Mestre… mas eu não quis ouvir. Era jovem. Finalmente sentia que tinha um propósito.
Foi nessa altura que a conheci. Conquistei a aldeia dela pela força. Não houve grande resistência. O responsável pediu-me para poupar as vidas e apresentou-me as pessoas com conhecimentos úteis.
Foi numa tarde que a vi pela primeira vez. Estava na varanda da casa que tinha tornado minha. Ela era a mulher mais bonita daquela vila… mas não foi isso que me chamou a atenção. Foi o sorriso dela.
Vi-a a sorrir para outro homem. E nesse instante senti algo que não conhecia: raiva.
— Quem é ela? — Perguntei responsável numa ocasião
— É a Saya. — Respondeu o responsável.
— Quero conhece-la. Trás ela até mim. — Disse.
— Com certeza, meu Lord.
O olhar dela era neutro quando a conheci.
— Quero-a ao meu lado. — Disse apenas.
O responsável hesitou, mas acabou por aceitar e iria preparar a cerimônia.
— Será feito… Lorde.
Vi a surpresa no olhar dela. Nesse mesmo dia, vi-a despedir-se do homem com quem sorria. Foi um momento duro. Eles sabiam o que estava a acontecer e cada um foi para seu canto.
O casamento aconteceu. Tudo decorreu como esperado. Mas no dia seguinte… tudo mudou.
O silêncio à mesa era sufocante.
— Porque não sorris? — Perguntei.
— Não há motivos, para tal. — Respondeu ela, sem me olhar
Isso irritou-me o que fez a minha raiva crescer.
— Tu tens tudo o que queres. — Batendo com o punho na mesa, mas ela não se intimidou, simplesmente pousou a colher e ficou a olhar para mim.
— Eu não necessito coisas materiais e o que tu me tiraste era o que realmente me fazia feliz.
— Tu preferes a companhia daquele homem do que á minha, onde posso dar-te tudo? — A resposta dela atingiu-me forte. — Eu não estou a pedir-te nada de mais.
— Como queres que te dê algo senão o sinto? — Num tom serio. — O que sinto neste momento por ti é ódio profundo. Podes ter tudo de mim a nível físico, mas nunca a nível emocional, NUNCA!!!!
Aquelas palavras quebraram algo em mim. Eu não soube lidar com isso e o utilizei a minha força para subjuga-la, á minha vontade.
No fim… só ouvi o choro dela, onde ficou gravado na minha memória como uma ferida que nunca cicatrizou.
— Se achas que pela força vais ganhar o meu sorriso, estás muito enganado.
Saí do quarto, para ir para o escritório, deixando-a sozinha no quarto. Izan estava já no escritório.
— Devias ter tido mais calma, — disse ele. — as emoções não se conquistam pela força.
— Izan, se eu não consigo ter aquilo que quero, não vou perder tempo com coisas fúteis, só uma coisa que necessito dela nada mais, o resto não me interessa.
— Então, vamos ver este cenário, Akeal e se alguém te tirasse o teu poder, neste momento? Como reagirias?
— Ficaria com raiva.
— Esse sentimento que sentes, é o que ela está a sentir de momento.
Foi naquele momento que percebi algo.
— Como posso corrigir o que fiz?
— Isso, meu amigo, é algo que tens de ser tu a descobrir por ti mesmo.
Desde então… tornámo-nos estranhos.
Saya vivia comigo, mas distante. Em público cumpria o papel de esposa. Em privado… passava muito tempo sozinha no jardim onde lia bastante. Quando eu precisava satisfazer-me sexualmente ela disponha-se, onde não tinha reação. Ao terminar eu saía do quarto e ia para o meu escritório. Nessa face passei a dedicar-me ao treino e ao controlo dos demónios, muito mais seriamente.
Um dia, durante um treino quando estava a tentar controlar um bando de cães do inferno, , um pequeno cachorro escapou. Estava assustado, onde no meio da confusa ele conseguiu sair do escritório. Deixei-o fugir, porque estava demasiado concentrado em domar aquele bando.
Mais tarde quando fiz uma pausa vi o cachorro no jardim… nos braços da Saya. Ela olhava para ele com ternura. Fui até ao jardim onde observei a cena, eu podia tê-lo destruído… mas não o fiz. Algo me parou naquele momento, foi o olhar dela.
— Podes ficar com ele se quiseres.
— Estás a falar a sério? — Mostrando surpresa no olhar dela. — Posso mesmo ficar com ele?
— Sim estou a falar a serio.
— Obrigada, Akael.
Foi a primeira vez que vi um ligeiro sorrir dela, de forma genuína. Ela chamou-lhe de Rufus e desde então… algo mudou. Ela tornou-se mais leve. Mais viva. Eu observava-a em silêncio, com uma atenção diferente.
Até que um dia fui ter com ela ao jardim. Onde Saya abaixou o livro.
— Akael, necessitas de alguma coisa?
Demorei a dar-lhe resposta porque observava o desenho dos lábios dela.
— Ah já sei o que queres. — Levantando-se para preparar-se para a ocasião…
— Saya! — Agarrando-lhe o braço. — Não, não é isso que quero. Eu apenas queria saber se estava tudo bem contigo.
O olhar de surpresa nela fez ela demorar a dar-me resposta
— Eu estou bem e o Rufus também. Obrigada por perguntares.
Naquele momento fiquei novamente a observar os lábios dela, com olhar semicerrado, porque naquele momento queria senti-los nos meus lábios, mas não o fiz, ainda era demasiado cedo, para tal movimento
— Vou voltar para o meu escritório. — Soltando-lhe o braço.
Nesse momento, um perigo surgiu por cima dela, onde puxei-a instintivamente para mim. Ficámos demasiado perto. Durante alguns segundos… olhámos um para o outro. O silêncio entre nós tornou-se carregado de algo novo. Tive oportunidade de observar os olhos dela mais ao pormenor e depois afastei-me. Ela agradeceu-me, antes de voltar ao escritório.
Mais tarde, quando estávamos na hora do jantar, Izan entrou na sala apressado, onde informou que um grupo de inimigos aproximava-se da vila. Vi que Saya mostrava alguma preocupação no olhar, mas nada disse. Levantei-me da mesa e fui preparar-me para a batalha, juntamente com Izan. A batalha não foi nada especial, era apenas um grupo de bandidos.
Quando voltei, Saya estava à minha espera, onde o ligeiro sorriso dela recebeu-me, algo que nunca tinha experimentado. Ela tratou das minhas feridas. Apesar de continuamos a manter distância emocional, pequenos gestos começaram a aproximar-nos lentamente, sem apercebermos-nos.
Durante o tratamento, não disse muito.
— Obrigada por defenderes a aldeia, não sabes o quanto este lugar significa para mim. — Quebrando o silencio.
— É o meu dever como responsável da aldeia. Dever proteger o que é meu. — Levantando-me.
— Certo. — Saya abaixando o olhar.
Regressei ao meu escritório onde na cadeira fiquei pensativo. Vi os primeiros flocos de neve a cair e com eles trouxe o inverno e o meu Mestre.
Na altura não vi o sinal de perigo quando o meu Mestre estranhamente mostrou um certo interesse em Saya, onde trouxe consigo perguntas.
Após a partida do meu Mestre organizei um evento na minha casa, onde as pessoas da vila pudessem conviver umas com as outras. Na varanda vi Saya observar o jardim, onde viu o homem de quem um dia gostou… com outra vida. E novamente vi a tristeza nos olhos dela.
— Não te preocupes Rufus, eu irei ficar bem. — Num tom baixo. — Eventualmente irei ficar.
Aproximei-me dela onde tentou limpar as pequenas lágrimas dos seus olhos. Eu sabia que era tarde para me desculpar.
— Tens o direito de me odiar para o resto da tua vida, eu não irei nunca mais forçar-te a nada que não queriras. Se quiseres ir embora podes ir, não irei impedir-te.
Ela ficou em silêncio.
— A única coisa que posso dizer é que tens razão Saya eu não percebo nada de emoções. Talvez nunca venho aperceber.
O silêncio ficou no meio de nós, onde no momento que estava prestes a sair, ela me chamou.
— Akael, espera. Achas que podes fazer-me um pouco de companhia por mais uns minutos?
— Sim, posso.
Ficamos ainda algum tempo, na companhia um do outro, onde ela disse-me
— Eu odiei-te. Porque eu já tinha planos com outra pessoa e tu simplesmente por teres poder deitaste tudo a para a perder.
Olhou para as mãos dela.
— Depois do que aconteceu entre nós, daquela vez, eu comecei a ser mais observativa e percebi que nunca tiveste realmente com alguém, simplesmente tiveste sempre focado a tua vida toda em treino e naquele dia em que encontrei o Rufus, vi que o homem por detrás desse poder. Não és má pessoa, simplesmente um homem sem experiência emocional.
Olhou novamente para o horizonte.
— Confesso que ao ver o homem que iria estar ao meu lado, com outra mulher, mágoa, porque os sentimentos que tivemos, simplesmente não desaparecem da noite para o dia, mas a vida continua e temos de aceitar e caminhar para a frente. — Com um sorriso amargo.
Saya começou a sentiu frio. Abracei-a sem pensar muito. Ela encostou-se a mim, por sentir confronto no meu calor. Pela primeira vez… senti algo parecido com paz.
O evento terminou, Saya estava cansada e cheia de sono onde aguentou até despedir-mos do último convidado. As pernas dela cederam, por não aguentar mais, peguei-a ao colo e fui deitá-la. Ela adormeceu, rapidamente o respirar dela era suave e regular, observei o rosto dela. Com os meus dedos afastei ligeiramente o cabelo dela para observar ainda melhor o rosto dela.
Fui deitar-me ao lado dela. Foi a primeira vez que senti paz ao lado de alguém, algo que nunca tinha conhecido antes. E naquela mesma noite, acabei por adormecer também, pela primeira vez em muito tempo, sem conflitos dentro de mim.
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