E é anunciada a chegada de Cacieri. Os portões se abrem. A sala do trono, de beleza negra, possui o intragável cheiro da morte e de cinzas. Cacieri que, por ordem de Davi, retorna de mais uma empreitada em Grovandia, agora prepara, também à pedido do rei, um navio de pequeno porte para viajar ao continente baixo.

Mesmo que observando com atenção a cada livro, o rei dos caídos não faz ideia de seu objetivo. Observa apenas que muitos dos livros e historias ali encontradas registram conhecimentos, armas e planos trazidos pelo grande artesão.

Por fim, após muito procurar, uma série de livros chama a atenção de Danael devido à data recente. “Cartas às estrelas”, série de cartas enviadas ao rei Lyn durante anos de espionagem em Zasal.

Leu, por dois dias e duas noites, os fatos que ocorreram durante sua ausência, e sobre Nova Zasal.

Já em seu terceiro dia, e ainda confuso sobre sua missão, Danael perde sua consciência e adormece. Mais tarde é despertado por uma brusca dor em seu crânio.

Lentamente abre seus olhos e estes observam sua amada sorridente com o último livro publicado da série em mãos, a mais provável causa da dor.

– Mais um pouco e perfurarias meu crânio.

– Ainda bem que acordastes, não queria despertá-lo – diz Artelas, a ignorar seu amado. – Estavas a dormir tão bem.

Artelas solta uma gargalhada, e lhe entrega o livro.

Neste, ela aponta a frase: “O povo é mais forte que um império”. A frase nada mais era que a epífrase pertencente ao capítulo “O rei e o caçador”.

“Meu rei sabe que em minha primeira carta já lhe relatei esse fato, começo a escrever-lhe, então, a partir deste relato que novamente faço sobre minha viagem a Alistaír, mas não da mesma forma. Escrevi, pois soube que os planos de Davi e sua anexação se estendem agora para o continente baixo, então me recordo e à Vossa Alteza da ocasião, como disse com estas palavras: 'O milagre que testemunhei foi de um povo dando sua vida pelo que crê, crianças e mulheres sem armadura levando à morte cavaleiros, soldados armados, mesmo cientes da chama grega'.

Como vê, o povo é o segredo para detonar Davi. Quando o povo tiver ideia de seu poder, poderá se rebelar e destronar o rei de Nova Zasal. Antes de encerrar a carta, em trinta dias estarei viajando para Lareira em nome de Davi.

Já se passou três anos, o rei dos caídos está por aí, Danael não é fraco.

– Cacieri”.

A porta da grande livraria se abre, a luz do sol adentra escondendo o homem que a havia aberto.

Aquele homem exausto possui em suas mãos uma resma de folhas que entrega à copista da livraria. Conforme a porta se fechava, a luz do sol é substituída pela luz das tochas e da grande fogueira no centro. Foram se tornando visíveis feridas profundas e o rosto do homem que não se aguentava acordado. Era Cacieri, sua viagem havia sido mais cruel que o previsto.

Cambaleando, Cacieri chega à Danael, e com voz tremula diz:

– Eu, porém, já sabia. Você vive, mas Artelas está ao teu lado? – ele se ajoelha bruscamente e perde a consciência.

Pelos portões da muralha que protege o castelo de Nova Zasal, Kendel passa a praça redonda que era aberta ao público branca e de beleza inigualável. Possuindo, em suas bordas, vexilluns de Nova Zasal; nas paredes leste e oeste, fontes de água bem trabalhadas, uma em formato de dragão rubro e a outra de uma quimera. No centro, envolto em um jardim de plantas, havia uma estátua gloriosa esculpida a partir do mármore branco. A imagem era do rei dos caídos com as vestes do Tártaro. Em frente da mesma, um caixão branco com adornos dourados, e em frente às flores, na dianteira do jardim circular, está uma placa de aço com o nome “Danael” esculpida