E se acomodaram nos bancos de madeira à penumbra da vila Bárbara. Na caverna de Grovandia, ao tomarem a primeira de muitas rodadas de “vira cérebro” ou “degads’draag”, Horace, desconfortado e já pressionado pelo olhar de seus companheiros, diz:

- Não gosto dessa missão. Está se tornando diplomática demais, além de tomarmos uma arma que deixará o rei Davi ainda mais poderoso sem atrapalhar a anexação territorial.

- Não se preocupe – diz o cavaleiro com o nome de Ronan Rolix. – Não importa como acabe, a anexação ocorre, afinal se falharmos, a guerra será declarada e com o fogo grego, Davi terá não só motivos, mas meios para vencer a batalha.

Cacieri se retira mentalmente do local. Sua mente pulsa, talvez por causa do “degads’draag” ou talvez por esconder tão grave segredo.

A noite fora farta de bebida e comida, e excluindo o fato de Ronan Rolix cantar realmente mal os contos do norte, o anoitecer fora moderado, em se tratando de forasteiros, que geralmente não aguentam “degads’draag” pelo efeito.

Cacieri se sentia no vale Ulysses onde cresceu. Mesmo sem conhecer seu pai ou mãe de verdade, Cacieri teve uma infância relativamente normal, sendo criado por Martyn de Howkar, intitulado de louco, e sua irmã de sangue Gillena.

O tempo passava rápido no reino vivo ao passo que voava nos Elísios e se arrastava como um cágado acorrentado no Tártaro. Danael prosseguira por muito tempo, e sua face antes bela se tornavam mais maduras, sua barba agora já se mostrava contrastando ele com o moço que acabara de atingir a maioridade, como era apresentado no começo da narrativa, e agora possuía uma feição menos maleável a ponto de se moldar triste ou zangada por motivos pequenos. Havia momentos em que apenas a sua vontade de prosseguir não adiantava, pois suas pernas já quase não suportavam caminhar. Suas vestes agora já em farrapos começavam a perder o tom real e o rei dos caídos poderia não chegar ao fim de sua jornada, e em certo ponto da viagem, ele realmente cai ao chão.

Com os lábios secos e o estomago já sedento por qualquer alimento, ele avista com os seus olhos negros e cansados o seu objetivo. Naquele instante uma brisa gelada encheu os pulmões de Danael, revigorando misticamente o rei dos caídos. A ponta do Tártaro era como uma gruta gelada e escura, diferente de todo o resto do submundo. Mesmo sabendo o efeito de se beber as águas do rio Lete, este aparentava tentador. Ao mergulhar seus pés no mesmo, Danael e Artelas atravessam lentamente o rio cuja profundidade na região não era maior que dois palmos.

O dia raia e a luz do sol derrama-se sobre a terra do continente médio. Cacieri a essa hora já estava acordado banhado em devaneios, e se aproveitando da condição em que seus amigos estavam, se deixa levar pelas lembranças de Gillena e, então, observa seus pulsos. No pulso direito uma marca percorria o palmo até seu dedo indicador, uma marca profunda de uma cicatriz que não fecharia nunca, a marca que seu pai havia feito antes de deixá-lo em Ulysses.

Cacieri levanta-se e derrama as garrafas de “vira cérebro” que haviam sobrado do dia anterior na face e pescoço dos soldados que possuíam o seu comando. Partiram dali rumo as áreas profundas, em corcéis selvagens que tomaram para si.

As mãos que poderia acalmar uma fera selvagem, que eram capazes de amor e compaixão, agora se tornavam cada vez mais negras. Davi acaricia os leões de pedra de seu trono que era forrado por peles de cervos e cuja extensão se dava até nove metros a frente de seu cadeirão. O príncipe da escuridão agora se tornaria rei de todo continente, pois Alistaír, Arkell e todas as ilhas baixas estavam prestes a sucumbir à anexação. Uma gargalhada lhe escapa e ecoa pelas colunas de seu castelo, e então cessa repentinamente. A felicidade de Davi se vai, e o silencio domina seu salão.

Fora então anunciada à entrada de um homem. O senhor não possuía dinheiro algum e suas vestes estavam em farrapos. Acreditando ser um aldeão, Davi ordena ao seu segundo conselheiro que o atenda, mas o homem rejeita a gentil oferta, e, ainda sem manter contato direto para o rei, diz:

- Passaram se o quê? Dois anos? E vossa majestade já não se recorda de mim?

O homem se levanta de sua reverencia e olha diretamente os olhos do rei que com o espanto e deboche lhe diz:

- Ora, se não é – ele faz uma pausa – um bêbado.

- Saia de meu trono – o homem começa a dirigir-se com um tom de voz autoritário e irreverente. – Filho meu.

- Zasalem?

- Sim, o direito paternal vem à frente da herança de sangue.

- A primogenitura vence se o rei for deposto ou revogar o seu direito.

Dito isso, Davi levanta-se de seu trono e empurra o torso de seu pai com a lâmina.

- Cota de malha?

- Eu previ sua reação, filho.

Sangue e chuva se escorriam pelas pontas dos poços do Tártaro, cuja aparência se lembrava o dos campos Elísios. Sem ligar para as almas sem vitalidade, Danael escala a superfície junto à sua amada, fazendo pausas sempre que encontrava um espaço entre as vigas de suporte entre as paredes principais. Logo estavam eles em pleno reino dos vivos, porém, sua localização era desconhecida.