As Estações de Hadassah
1 PRIMAVERA 01 – Introdução

Era uma vez uma família composta pelos melhores padeiros e confeiteiros que o mundo já presenciou.
Suas receitas eram inigualáveis, a beleza, os sabores e os aromas de suas iguarias tinham a reputação de serem tão bons que segundo os costumes eram capazes de fazer os cegos verem, os mudos falarem e até mesmo trazer os mortos de volta à vida. E embora isso seja um exagero, tendo experimentado elas pessoalmente, diria que as degustar foi uma experiência magnífica.
E foi por este motivo que o Grande Imperador do Norte os adotou e fez deles membros de sua corte, na intenção de ter o monopólio sobre as divinas guloseimas. E em pouco tempo, dos quatro cantos do mundo, vieram gente de todos os povos a fim de beliscarem as delícias do momento. E com isso da noite para o dia os humildes padeiros conquistaram seu próprio brasão, os Doma, como eles passaram a ser conhecidos, se tornaram a cada ano mais relevantes e eram cercados por toda sorte de riquezas e luxo.
Como um sonho bem recheado de creme e coberto de açúcar, a sorte dos Doma foi doce, mas se esgotou rapidamente, quando no Império uma outra família chegou. Estes eram muito mais disciplinados que os Doma e tinham uma visão mais focada na expansão de seu negócio do que na qualidade dos produtos que ofereciam. Eles trouxeram consigo algo que transformou a vida de todos para sempre: bolinhos saudáveis.
De um momento para o outro, ninguém mais se interessava pelo sabor, a preocupação com os ingredientes e as calorias se tornou o fator mais decisivo na hora de se alimentar. Os incríveis bolos recheados passaram a ser considerados crime contra o Império e seus aliados, e os Doma que sempre foram vistos como heróis da cozinha passaram a ser considerados os vilões da saúde.
O mais curioso de tudo é que ninguém questionava o fato de os bolinhos saudáveis serem prejudiciais, eles tinham um péssimo gosto e não traziam em si nada de especial exceto promessas vazias.
E como um castelo de algodão doce na água, os Doma se desmancharam, primeiro eles foram rejeitados pela população e depois foram expulsos da corte.
Os Doma buscaram abrigo nos reinos vizinhos, mas eles não os aceitaram com medo de atraírem a ira do seu grande aliado. E assim os Doma vagaram para o norte e para o sul, para o leste e o oeste, vendendo seus mais preciosos confeitos a preço de banana e a renda que conseguiam lhes permitia apenas sobreviver.
E pouco a pouco, a linhagem foi abandonando a profissão, até que tudo o que sobrou do legado dos Doma foi um casal e seu bebê. Esse casal conseguiu comprar um terreno em um vilarejo isolado ao lado da Montanha dos Elfos e ali eles abriram uma padaria, honrando a tradição de sua família.
Antes de responder à pergunta “sobre quem é esta história?”, acho apropriado deixar claro sobre quem essa história não é.
Essa não é a história de uma princesa entediada sentada à beira de uma fonte, aguardando outro sapo para lançar na parede, na esperança de que ele se torne um príncipe.
Essa não é a história de uma princesa em uma cama de dossel, aguardando que um príncipe tenha coragem de suportar um bafo matinal de cem anos e venha beija-la.
E acima de tudo, essa não é a história de uma princesa encantadora de animais, cercada por anões com sérios problemas de temperamento.
Porque esta não é a história de uma princesa.
Esta é a história de como muitas vezes desejos e realidade se entrelaçam e se despedaçam formando algo que trilha um caminho entre uma tragédia e uma comédia.
Esta é a saga de uma jovem, filha de padeiros, conhecida não por suas riquezas, nem por sua beleza, mais sim por estar sempre acima do peso.

Sim, essa pessoa rechonchuda e gulosa é a protagonista desta história, seu nome é Hadassah.
E eu, o Cronista, fui encarregado da nobre missão de narrar sua saga!
Por isso não venha com piadinhas por ela ser sim, arredondada, porque por dentro ela é uma grande mulher (e ao que parece por fora também... desculpe, eu vou me controlar, prometo).
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