As Estações de Hadassah
3 PRIMAVERA 03 – Uma Proposta Real

Em um local muito distante da montanha dos elfos, mais precisamente onde o oriente e o extremo oriente se tocavam, havia um império que desfrutava de seu apogeu.
E no centro desse magnânimo império havia um enorme palácio, cheio de torres, e na mais alta dessas torres havia um aposento real e dentro desse quarto se encontrava o poderoso Rei IX O Grande. Ele não era chamado assim por causa de sua estatura como no caso dos Altos Elfos, mas sim porque durante a sua vida ele havia realizado muitos feitos épicos, primeiro como comandante e guerreiro, e depois de casado como um mestre da diplomacia. E agora com setenta anos, mesmo depois de décadas de experiência, ele se encontrava apreensivo recostado em sua cama enquanto se preparava para mais uma de suas incursões.
Então ele se levantou e gritou decidido:
— Chamem meu filho!
O servo ao seu lado gostaria de expressar que o Rei não precisava gritar, pois ele estava a alguns centímetros de distância, mas como gostava de ter sua cabeça grudada ao corpo, tratou de obedecer a ordem real com eximia prontidão.
O filho do rei chamado Príncipe Herdeiro, adentrou o quarto assobiando descontraído:
— Fala velho. — disse o Príncipe sorrindo, mas ao notar que seu pai carregava consigo uma expressão séria se prostrou em dos joelhos e disse:
— Chamou, meu senhor?
O Rei era um ser majestoso, com cabelos e barbas brancas como a neve, e um rosto que parecia um pergaminho antigo, onde cada ruga de expressão narrava uma história única. As suas vestes nas cores dourada e vermelha exaltavam tal magnificência. Mas o seu humor não estava mais tão magnifico quanto a três ou quatro décadas atrás. Por esse motivo ele foi bem direto ao ponto:
— Já estou velho e quero que você assuma o trono para que eu e sua mãe possamos passar o resto de nossos dias em uma ilha paradisíaca.
— Sim, meu senhor. — disse o Príncipe ainda sem se levantar.
— E para que isso aconteça preciso que você se case, ao invés de desperdiçar seus dias como um solteirão. — disse o Rei levantando em riste seu indicador real, um ato que só acompanhava suas palavras quando ele estava falando sério. — Por esse motivo você deve achar uma nobre moça que aqueça... Ahn, bem, seu coração.
— Então devo pegar minha espada e meu cavalo e seguir em direção ao desconhecido? — disse o Príncipe se levantando e fazendo uma pose heroica. — Enfrentar tiranos, monstros e bestas até encontrar minha cara metade?
— Mas é claro que não. — disse o Rei dando uma gargalhada rouca.
— Não? — disse o Príncipe desconcertado, sua pose se desmanchando.
— Os tempos mudaram garoto — disse o Rei. — Nos dias de hoje tudo o que você precisa é de um Concurso Real.
— Concurso Real? — perguntou o Príncipe, os olhos piscando, confuso.
— Sim — disse o Rei, cruzando as mãos atrás das costas. — Mulheres dos quatro cantos virão como abelhas no mel e ainda reduz a chance de você ser morto em algum confronto estúpido.
— Um concurso real de proporções épicas? — disse Príncipe coçando o cavanhaque, começando a gostar da ideia.
— Exatamente, todos os reinos possíveis serão convidados a apresentar as mais belas donzelas que este mundo já viu. Imagine as notícias, a futura esposa do Príncipe Herdeiro, a mulher mais poderosa dentre todos os povos. — o Rei exagerou as últimas palavras, saboreando o efeito que elas causavam em seu filho.
— Um evento nessas proporções levaria anos para ser organizado, só para os mensageiros alcançarem as terras do Oeste serão necessários meses.
— Meu filho, me acompanhe, por favor.
O Rei passou o braço pelos ombros do Príncipe e o guiou até a sacada da torre, ele abriu as portas e o vento frio do fim do inverno adentrou todo o quarto, o calor da lareira abandonando o Príncipe em questão de segundos.
Diante dos olhos deles foi revelada a vastidão do Grande Império, reduzido apenas pela expansão do céu cravejado de estrelas, que brilhavam como joias na vitrine de uma joalheria. Mais os olhos do Príncipe não pousaram na paisagem, mas sim no homem que estava no centro da varanda. Parecia um mensageiro comum, mas com um olhar mais atento, o Príncipe percebeu que o homem vestia uma armadura especial que o cobria quase que por completo, atado a suas costas estava o maior foguete de artifício que o Príncipe já havia visto, o pavio do foguete se desenrolava até os pés do Rei.
— Já viu um dos Mensageiros a Jato? — disse o Rei sorrindo para o Príncipe.
— Nunca. — disse Príncipe tremendo com a brisa repentina.
O Rei estalou os dedos, um guarda veio e lhe entregou uma tocha.
— Então não pisque. — disse o Rei, enquanto passava a tocha na ponta do pavio.
Milhares de fagulhas voaram e foram refletidas pelo piso lustroso, enquanto o pavio era facilmente devorado pelo fogo. Quando o foguete foi atingido pelas chamas, um chiado baixo escapou, o homem atado ao foguete engoliu em seco e estremeceu, sabendo o que viria a seguir.
Sem nenhum aviso o foguete disparou, deixando um rastro de labaredas avermelhadas, o grito do mensageiro ecoando pela noite como o canto de um pássaro particularmente desesperado. E ele foi subindo até que se tornou apenas mais um pequeno ponto brilhante no céu.

— Uau! — disse o Príncipe abanando a fumaça, acompanhando com os olhos o mensageiro desaparecer na noite. — Até onde eles alcançam?
— Muito longe.
— E é seguro? Quer dizer, ele vai chegar inteiro até o chão?
— Na maioria das vezes sim — disse o Rei dando de ombros, voltando para dentro do quarto. — Através deles podemos enviar mensagens para todos os lugares, dentro de algumas horas todos os povos ficarão sabendo do concurso.
O Príncipe ficou em silêncio, refletindo em tudo o que o seu pai havia dito.
— E então?
— Eu aceito a sua proposta pai, mas com uma condição. Preciso que me dê mais um ano.
— Para que você quer um ano? — disse o Rei cruzando os braços e batendo um dos pés no chão. — Isso é muito tempo.
— Para que haja uma melhor seleção das mulheres que são compatíveis comigo — disse o Príncipe começando a contar com os dedos. — Precisa ser loira, ter olhos claros, ser magra, ter um QI maior do que 140, ser meiga, saber cozinhar, costurar, rir das minhas piadas, me amar acima de todas as coisas, entre outros detalhes que eu anotarei.
O Rei lançou um olhar grave para o seu filho que dizia com todas as letras "Essa mulher não existe e se existisse jamais ficaria com você", mas tal ato passou despercebido pelos olhos iludidos do Príncipe.
— O principal motivo na verdade é, que se você concordar, eu partirei o mais breve possível em busca de aventuras e grandes feitos para um dia assim como você nos seus anos de guerreiro, antes de conhecer a mamãe, eu possa participar de aventuras épicas para narrar a meus filhos sobre como fui valente e corajoso durante a minha mocidade!
— Meu garoto — disse o Rei, pegando o rosto do Príncipe com as mãos. — Você é jovem e um idiota e nos dias de hoje isso é praticamente a mesma coisa. Mas ainda assim você é meu filho e se seu desejo é sair pelas terras perigosas deste mundo, correndo o risco de ser queimado por dragões, esquartejado por bandidos, ou enfeitiçado por bruxas, eu lhe dou a minha benção. E se em um ano, você ainda estiver vivo, você escolherá a sua favorita dentre as mulheres, e no mesmo dia seu nome será mudado e você passará a ser chamado Rei X.
O Rei estendeu a mão e o Príncipe a apertou selando o acordo, que terminou em um abraço.
— Mas ainda falta uma coisinha, antes de partir você terá que convencer sua mãe, ela já tinha tudo preparado para o casamento. — disse o Rei dando um tapinha no ombro do Príncipe.
— Ow meleca, sabia que estava tudo fácil demais. — exclamou o Príncipe socando o ar.
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