As Estações de Hadassah

2 PRIMAVERA 02 – Apenas Mais Um Dia


Agora que a protagonista já foi apresentada, vamos dar uma olhada mais atenta em quem ela é mostrando um dia de sua vida.

O sol ainda não havia nascido quando Hadassah acordou e ainda se escondia atrás dos morros quando Hadassah saiu de casa, carregando uma cesta com as encomendas da parte da manhã.

Voando ao seu lado estava a sua melhor amiga, Maddy, aspirante a fada madrinha. Maddy era uma criaturinha inusitada, possuía um corte de cabelo moderno e desfiado, um corpinho luminescente de dar inveja, uma língua mais afiada que navalha de barbeiro e nenhuma habilidade mágica que não fosse voar. Isso porque os poderes de uma fada estavam ligados aos feitos épicos que elas realizavam e Maddy não tinha nenhum, exceto o fato de ter nascido.

O vilarejo de Vilamonte estava envolto em silêncio, o único barulho vinha do ecoar dos sapatos de Hadassah, que chapinhavam pelo solo enlameado. Hadassah puxou o véu para mais junto do corpo, cobrindo por completo seus cabelos negros, era o primeiro dia da primavera, mas o inverno ainda persistia cobrindo o mundo com uma neblina densa, que deixava tudo úmido e gelado. Hoje sua missão era realizar as entregas nos bairros élficos, por isso Hadassah se dirigiu para o bosque que se esparramava aos pés da encosta da única montanha que havia na região, onde os elfos da floresta habitavam.

— E esse é o bolo de uvas passas e frutas cristalizadas — disse Hadassah entregando a encomenda na mão de um elfo de ponta cabeça, vestido de folhas verdes.

— Ei! Tra-la-la-láli! Muito obrigado! — disse o elfo voltando para dentro de sua casa na árvore com uma pirueta.


Logo em seguida Hadassah adentrou as profundas cavernas, cujo acesso ficava no fim do bosque. Ali era tão escuro que nem mesmo os elfos da escuridão, que ali viviam, conseguiam enxergar direito.

— Aqui está Sr. Salvatorre, este é o pão preto e este é o bolo de chocolate, que você me pediu. — disse Hadassah, sua voz ecoando pela caverna.

— Puxa o pão é bem mais macio do que eu esperava! — disse o elfo surpreso.

— Isso que você está apertando não é o pão!

— Desculpe. — disse o elfo antes de tomar uma bofetada sombria.


Hadassah saiu pelo fundo da caverna subindo os primeiros degraus de uma escada de pedra, o sol brilhou por alguns instantes por trás das nuvens, lançando raios de luz multicolorida através de todo o bosque, que agora se encontrava abaixo delas.

— Uau, olha que vista incrível — disse Maddy, os olhos brilhando.

— Sabe o que seria incrível, Maddy? Se você guardasse os seus comentários fabulosos para um outro momento. — murmurou Hadassah, limpando o suor da testa, arfando entre um degrau e outro.

Havia um atalho menos cansativo até o topo, que seguia pelos bairros mais estreitos da montanha. Por outro lado, nesses bairros moravam as pessoas mais encrenqueiras da região, por isso Hadassah não se importou com a distância extra que tinha que caminhar.

Se a montanha fosse uma pessoa, ela teria os dentes mais pavorosos da humanidade, pensou Hadassah enquanto subia e subia pelos degraus estreitos e irregulares que levavam até o topo. Por fim, Hadassah chegou ao bairro dos Altos Elfos, onde realizou as últimas entregas do dia.

— Aqui está a sua língua de sogra Sr. Durza, e aqui está a sua baguete Sra. Durza. — disse Hadassah se erguendo na ponta dos pés, para entregar os pães na mão dos elfos, que abaixaram suas mãos compridas, facilitando tudo.

— Que as estrelas zelem pelo teu caminho, pequena — disseram os dois elfos em uníssono.


Com o serviço completado, Hadassah e Maddy aproveitaram para fazer uma parada e recarregar as energias na sombra de uma grande árvore, à beira de um precipício.

— Depois de toda essa caminhada, eu não entendo porque não consigo emagrecer. — disse Hadassah balançando a cabeça, abocanhando metade de um bolinho de chocolate.

— É verdade. — disse Maddy, colocando um grama inteiro de bolinho dentro de sua boca de uma única vez!

Elas estavam no ponto mais alto da montanha e a paisagem a frente deixava Hadassah mais sem folego do que a subida, dali os vilarejos pareciam miniaturas espalhadas pela planície, até a cidade mais próxima podia ser avistada, um borrão cinzento no horizonte verdejante.

— Hadassah, estive pensando — disse Maddy pousando no ombro dela, e colocando a mão debaixo do queixo, pensativa. — Você precisa arranjar um sonho, um bem grande e épico de preferência.

— Como assim? — disse Hadassah limpando farelos de bolinho de seu vestido.

— Nós fadas, também sonhamos, e o meu maior sonho é...

— Entrar para o Hall da Fama das Fadas Madrinhas de Sucesso. — completou Hadassah, sorrindo pela milionésima vez.

— Isso mesmo. — disse Maddy surpresa.

— E o que isso tem a ver comigo? — disse Hadassah se recostando na árvore e admirando o mundo a distância.

— Tudo, se eu realizar feitos incríveis em sua vida, ganharei novos poderes de fada e isso aumentaria as chances de eu entrar para o hall — disse Maddy levantando voo e pousando na tampa do cesto. — Por isso perguntei se você tem algum sonho bem grande, para que nós duas venhamos ser reconhecidas.

— Eu tenho um sonho, mas não acho que ele seja o suficiente para você entrar no hall das fadas. — disse Hadassah, o olhar agora perdido nas nuvens. — Eu gostaria de me casar, não importa muito com quem, mas sim como... Papai e mamãe não tiveram um casamento muito decente sabe, por isso eu gostaria que o meu fosse um evento marcante, com toda sorte de pompa e luxo... Pensando bem, parece um sonho besta, não é?

— Já é um começo, eu acho. — disse Maddy, coçando a orelha.

— Vou tentar pensar em algo mais audacioso. — disse Hadassah bocejando. — Mas tudo parece tão distante, será que um dia as coisas irão mudar?

— Sempre mudam. — disse Maddy se espreguiçando. — Nem sempre para melhor, porém.

E aos poucos as pálpebras de Hadassah e Maddy foram ficando pesadas como bolo solado. O mormaço e o conforto da sombra na árvore, fizeram as duas entrarem em um sono leve e relaxante.

Uma gota gelada atingiu a ponta do nariz de Hadassah, fazendo ela estremecer por completo.

— Que horas são? Maddy acorda, acho que a gente acabou cochilando. — disse Hadassah seus olhos se arregalaram ao olhar para o céu carregado de nuvens pesadas e cinzentas. — Maddy acorda! Nós temos que chegar em casa, rápido.

Hadassah abriu a cesta e colocou os restos de comida dentro, desesperada, fazendo Maddy rolar para o chão. Maddy levantou voo resmungando enquanto esfregava os olhos e ficou estática ao ver para onde Hadassah se dirigia.

— Você está indo na direção errada. — disse Maddy o sono desaparecendo em um lampejo.

Hadassah balançou a cabeça, coçando a sua bochecha salpicada de sardas.

— Já está muito tarde e o céu parece prestes a desabar, se nós não chegarmos logo em casa vamos tomar uma bronca.

— Você é quem sabe. — disse Maddy fechando o seu pequeno rostinho, seguindo atrás de Hadassah.


As duas desceram o caminho serpenteante e estreito, se esforçando para não olhar para as casas assustadoras ao redor. Os bairros perigosos tinham uma história um tanto quanto contraditória. No momento em que a revolta dos elfos havia falhado, o remanescente foi enviado para viver na montanha, que acabou ganhando o nome deles. Para que eles não se misturassem com os povoados ao redor, um grupo de famílias foi incumbido de vigiá-los, com o tempo os elfos se tornaram pacíficos e as pessoas que os guardavam ficaram sem serviço, esse grupo de famílias que agora formavam pequenos bairros, foi dominado pelo tédio e para passar o tempo se tornaram mestres na arte de arranjar confusão.

Um relâmpago atravessou o céu fazendo Hadassah acelerar o passo enquanto o mundo tremia com o retumbar do trovão.

— Parece que o povo está dentro de casa, por causa do clima — disse Maddy, olhando ao redor curiosa. — Acho que durante todo esse tempo a gente temia esse lugar à toa.

Um grupo de garotos surgiu, virando a esquina. Eles estavam no meio de uma gargalhada quando avistaram a cesta na mão de Hadassah.

— Olhe só pessoal, presas fáceis. — cochichou o mais velho para o seu grupo e com um tom agradável prosseguiu: — Olá jovens moças, o que trazem vocês a essa tão inesperada visita?

— O que vocês têm nessa cesta? — disse outro menino perdendo a paciência e tomando a frente do primeiro.

Hadassah inclinou se preparando para abrir a cesta, os meninos a cercaram, suas faces transbordando de curiosidade. Ao abrir a tampa, Maddy saiu de dentro lançando pó mágico em seus rostos desprevenidos e os garotos tombaram para trás gritando de dor. O pó podia não ter nenhuma magia, mas acredito não ser necessário explicar a dor que envolve ter pequenos grãos dentro dos olhos.

Hadassah aproveitou esse momento para atingi-los com cestadas e socos firmes de quem sova pão todas as semanas, a situação parecia sobe controle até que os meninos decidiram soltar os cachorros, literalmente. Acontece que os rapazes estavam levando os animais para passear quando se depararam com as duas.

Hadassah disparou ladeira abaixo, com Maddy em seu encalço.

— Pense pelo lado positivo, não tem como a situação ficar pior do que isso. — disse Maddy zunindo, ultrapassando sua amiga.

Os cachorros estavam quase alcançando a barra do vestido de Hadassah, antes que ela pudesse abrir a boca, um raio atingiu uma árvore soltando faíscas para todos os lados. Os animais voltaram para casa correndo com o rabo entre as pernas, Hadassah se desequilibrou com o susto e caiu no chão enlameado, ao se endireitar a tempestade começou a cair copiosamente.

— Não abra mais a boca Maddy, até chegarmos em casa, não abra mais a boca! — disse Hadassah tentando se proteger da chuva congelante.


Quando Hadassah bateu na porta de casa, a tempestade havia dado espaço para uma chuva consistente, no caminho ela havia escorregado uma dezena de vezes e por isso o seu vestido preferido estava irreconhecível, seus cabelos, seu maior orgulho, estavam cheios de gravetos e folhas. A porta então se abriu com um rangido, um homem grande e carrancudo a encarou sombrio, depois de perceber quem era um enorme sorriso tomou conta de seu rosto.

— Entre, senão você irá pegar um resfriado. — disse Hassam, o pai de Hadassah colocando uma enorme toalha sobre os ombros da filha, enquanto puxava ela para dentro.

Ada sua mãe, se apressou e arrastou Hadassah para perto da lareira, onde os pães estavam assando.

— Ela dormiu no meio do caminho. — disse Hadassah, retirando Maddy de dentro do cesto e a entregando para a sua mãe, sem acordá-la. Como Maddy conseguia dormir no meio de uma tempestade permaneceria um mistério.

Ada acomodou a fada sobre a prateleira acima da lareira e se voltou para ajudar Hadassah a se enxugar, como ela era baixa o serviço não durou muito.

Hadassah bafejou voltando a sentir os dedos das mãos. O rosto de Hadassah corou ao encarar sua mãe, mas nem Ada nem Hassam fizeram comentário algum sobre o assunto, parecia que eles haviam aceitado o fato de sua filha ser distraída.

Com Hadassah já seca, Ada disse:

— O jantar já está servido, eu e o seu pai nos juntaremos a vocês daqui a pouco.

Aproximando da mesa Hadassah foi tomada pelo cansaço, sentadas em suas cadeiras as suas primas já haviam começado a refeição.

As trigêmeas Decour eram parentes por parte de mãe e eram tão desagradáveis que até mesmo os seus pais as deixavam na casa de Ada por meses a fio, na esperança frustrada de que elas aprendessem a serem mais educadas. As três poderiam ser consideradas lindas, contanto que não abrissem a boca.

— Nossa que cara inchada de bolacha é essa? — disse Carolina, a morena, as três deram risadas juntas.

— Com essa aparência e esse vestido está parecendo mais uma assombração gorda — disse Mel, a ruiva. — Um gordasma.

As trigêmeas riram juntas novamente.

— E com esse cabelo está parecendo mais uma criatura do pântano. — disse Clara, a loira e as três riram mais forte do que da última vez.

Hadassah poderia muito bem dar uma resposta à altura, mas nesse momento, se encontrava mais concentrada no prato de sopa, onde seu rosto estava descansando.