As Duas Semideusas
1 Emma
Era uma segunda feira, meu primeiro dia de aula, quem diria que eu finalmente ficaria por mais tempo em algum lugar, afinal, eu e minha mãe só viajávamos, eu nunca tinha morado em lugar nenhum por mais de três meses, o que era realmente uma tortura. Eu não tinha amigos em lugar nenhum, a única coisa que me restava era a minha mãe.Meu pai havia morrido logo que eu nasci, não tinha uma foto se quer com ele, ou até mesmo dele. Minha família era muito distante, pareciam não gostar de mim ou da minha mãe, era só eu e ela.
Como ela não tinha um emprego fixo, nos mudávamos muito mesmo.Eu tomava café da manhã em uma linda mesa preparada pela minha mãe antes de sair para trabalhar, havia waffles, pão, tudo que se pode imaginar, acho que ela queria que eu fosse feliz ali, ou pelo menos queria fingir que eu fosse.
Eu usava uma jaqueta de couro preta, um jeans todo rasgado e meio surrado e uma blusa branca com uma caveira dourada. Em geral, eu me vestia assim, não gostava daquelas roupas dessas garotinhas, saias, blusas rosa, ou qualquer coisa do tipo.Fui caminhando para a escola, que era apenas a duas quadras de onde eu morava, logo que cheguei, notei uma grande placa, cuja qual eu não consegui ler direito, porque eu tinha dislexia e TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), mas era colégio alguma coisa.
Logo que eu entrei, eu já notei que todos olhavam para mim, como se eu fosse um alienígena, olhei para mim mesma como se eu procurasse algo de errado, uma mancha na roupa, ou sei lá.
Duas garotas, em especial, me chamaram atenção, positiva e negativamente.
A primeira era o gênero popularzinha, tinha cabelos ruivos lisos e olhos brilhantemente azuis, ela já chegava perto de mim, fitando-me e rindo, chegou até a esbarrar, só para que meus livros caíssem. Ela vestia uma mini-saia jeans, uma regata branca básica extremamente decotada e uma jaqueta de couro curta laranja avermelhado, além de, é claro, a sua bolsa de marca.
A outra, diferentemente, tinha cabelos loiros delicadamente trançados e olhos de um verde misturado com castanho, talvez até mudasse de cor. Sua roupa era parecida com a minha, porém sua blusa tinha um coração desenhado com brilhantes dourados, sua calça era colada e ela usava uma sapatilha, mas a jaqueta era praticamente idêntica.
Eu era aluna nova, ela devia ser aluna daquela escola há muito tempo, todos falavam com ela, até mesmo os garotos do time de futebol.
Antes mesmo de conseguir me aproximar, o sinal tocou, caminhei lentamente para a sala de física, onde eu teria a minha primeira aula. Para a minha felicidade, ou talvez, infelicidade, ambas as garotas se encontravam na minha turma.
O professor começou a falar e eu não prestei a mínima atenção, comecei a desenhar algumas coisas que tiveram feito parte dos meus sonhos ultimamente.
Eu entrava em uma sala de aula, eu não a reconhecia de nenhuma escola que eu já havia estado antes, disso eu tinha certeza. Logo que eu entrava na sala, eu percebia, depois de todas as mesas e cadeiras, uma marca na parede, era um triângulo. Eu tocava na marca e, então, uma porta se abria. Eu entrava em um labirinto e alguém tocava em meu ombro. O sonho acabava assim, o que me irritava.
No meio do meu desenho, a garota loira tocou em meu ombro, ela estava sentada ao meu lado, havia mudado de lugar, ela disse:
– Gostei do seu desenho. Meu nome é Bonnie.
– Obrigada, Emma, prazer.
– Eu ando tendo um sonho parecido com isto ultimamente, que coincidência, não?
– É, muita coincidência, sim. Você estuda aqui há quanto tempo? — falei.
– Bem, nem um dia! — ela rio — Eu sou nova aqui, você também, não é?
– Sim.
Conversamos durante a aula inteira, ela me contou que ela e seu pai também viajavam muito, parecia até que a história dela era igual a minha. Enquanto falávamos, Bonnie me contou que a garota ruiva, cujo nome era Juliet, era a mais popular da escola, uma líder de torcida, a "pegadora" e "gostosa", de acordo com todos os garotos — fora ser a mais desejada do colégio, é claro.
Parecia que nós nos conhecíamos há muito tempo.
Eu sentia que nós tínhamos mais em comum do que se era possível acreditar, o que me era muito estranho, já que eu era acostumada a não ter ninguém (apesar de ser algo nada decepcionante, já que você não tem com quem se preocupar).
Eu fui para a casa dela depois da aula, o que para a minha mãe foi muito bom, ela gostava de saber que finalmente tudo dava certo pra mim.
Chegando lá, eu conheci o pai dela, que logo saiu de casa, parecia não ligar se eu iria fazer qualquer coisa naquela casa, ele era novo, devia ter cerca de 35 anos, era loiro e tinha os claros tão bonitos quanto os da Bonnie.
Por fim, subimos para o quarto dela, acabei dormindo lá, fomos pra escola no dia seguinte um pouco mais cedo, como não tinha ninguém ainda — o que foi estranho — subimos para o andar de cima, vimos ao mesmo tempo, uma porta idêntica ao nosso sonho. Entramos e fomos até o lugar onde o triângulo estaria, quando o tocamos, a porta abriu e entramos no labirinto.
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