As Duas Lâminas
4 Eu durmo dentro da minha mochila nova
A viagem para a Maple foi ótima. Pegamos o Táxi Regular para Porto Lith, e então embarcamos no navio de madeira de Shanks.
Shanks era o capitão do navio que, aparentemente, não tinha nome. Era um homem jovem e bem-humorado, do tipo de instrutor que os aprendizes geralmente procurariam. Ele usava um “overall”(um tipo de roupa que é calça e camisa, não sei explicar) azul com botões dourados e um chapéu de capitão, também azul.
Ele nos recebeu muito bem. Quando descobriu que meu sobrenome era Cooper, perguntou se eu não queria ficar no mastro. Entenda, eu ADORO lugares “incomuns”, do tipo: o alto do mastro em um navio, o porão de carga, lugares altos que servem como esconderijo e de onde se pode observar tudo, enfim, aqueles lugares que os adultos chatos geralmente diriam: “aí não”. Me perguntei como Shanks sabia que eu adoraria ficar ali. Deve ter conhecido meu pai, e senti uma onda de orgulho ao pensar em como era parecido com ele.
Então, foi isso que fiz. Subi no mastro(porque ficar nos assentos com todo mundo é para os fracos), e lá havia um homem um tanto gordo, entediado. Ele pareceu ficar muito feliz quando eu perguntei se podia tomar o lugar dele. Como alguém pode não gostar de ficar no lugar mais alto do navio?
Ali tinha uma caixa de isopor com vários refrigerantes e garrafas d'água, uma cadeira de couro reclinável e um teto de palha para proteger do sol. Cara, aquilo era demais. O que mais impressionava era a paisagem. Eu estava em um navio, mas a Ilha Maple ficava flutuando no meio do nada, por isso só o que eu via eram as nuvens e o céu azul, que agora ficava no chão também. Dali de cima, dava pra ver como o navio era pequeno em comparação a toda aquela imensa quantidade de nada.
Chegamos depois uns quinze minutos. Shanks jura que a viagem durou duas horas, mas é difícil perceber quando se está tomando refrigerantes no melhor lugar no navio. Estava começando a anoitecer, e daqui de cima, tive a melhor vista do lugar.
A Ilha Maple ficava em um ponto onde as nuvens eram mais abundantes, e algumas ficavam até embaixo da ilha. Estávamos voando muito acima dela, por isso eu podia ver ela toda daqui, e ainda faltavam algumas centenas de metros para chegar. Não era muito grande – talvez fosse um pouco menor do que toda Perion -, e parecia um lugar pacífico, perfeito para um descanso.
Mas eu sabia que era ali que eu iria fazer um dos exames mais difíceis e importantes da minha vida.
O barco parou flutuando a várias centenas de metros acima do extremo norte da ilha, onde havia algumas casas e alojamentos. Parecia que antigamente aquilo tudo fosse um campo de mato curto e flores, com algumas cadeias de colinas aqui e ali, e as pessoas fizeram as estradas em cima de aquilo mesmo.
Norte... mas espere aí, o barco só pode atracar em Porto Sul, que decididamente não fica no norte. Desci e fui procurar Arien, mas ele devia estar na parte de dentro, porque eu não o via em lugar nenhum.
–Ah, Cooper — disse um dos marujos. — Íamos mandar te chamar. Tome – falou, estendendo uma mochila muito leve, com uma corda escapando em um dos lados — Coloque isso nas costas, e ponha sua mochila da escola no peito.
–Pra quê? — perguntei, fazendo o que ele pediu.
–Bem, Shanks vai lhe dizer – ele me deu um sorriso sarcástico – Encontre-o na frente na popa, passando pela estibordo.
–Naonde?
–Na frente do navio.
–Ah...
Cheguei, e lá estava Shanks. Ele acenou pra mim, e pediu pra eu ficar na borda do navio. Eu não tinha muito medo de altura, então beleza.
–O que você acha? Ele perguntou, olhando para a ilha. Linda, não?
–Demais... — respondi, um pouco nervoso.
–Está com medo?
–Bem... um pouco. Pra falar a verdade, nunca imaginei que seria escolhido...
–Ora, isso acontece – disse ele, solidário – A gente acha que está indo mal e, quando percebe, já está graduado. Não se preocupe, todos os aprendizes ficam nervosos na chegada. Na verdade isso até que é bom, porque você fica se preparando para enfrentar uma coisa muito difícil, e quando você chega, você vê que não é tão ruim assim. Quando você estiver lá, fazendo os exercícios, vai ver que não é tão ruim e o medo vai diminuir.
Isso é mais ou menos a mesma coisa que eu vivia dizendo pra mim mesmo para superar a timidez.
–Enfim, está na hora de você descer – Shanks olhou pra mim, esperando uma resposta.
–Não vamos desembarcar em Porto Sul?
–Ah, não, aprendizes descem de pára-quedas.
–O quê? — Comecei a entender por que estávamos voando tão alto.
–Está vendo essa cordinha aí, na sua mochila?
–Esta aqui?
–Essa mesmo. É só puxar que o pára-quedas abre.
–Mas...
Sem aviso, ele me empurrou. Eu sei que deveria ter esperado até cair um pouco mais, mas, no susto, comecei a procurar a cordinha que nem um doido. Agarrei-a com a mão esquerda e puxei com toda a força e... vup! A queda louca foi interrompida e comecei a cair mais devagar.
A Ilha Maple estava perto, mas ainda assim parecia muito longe. E o que aconteceria se eu errasse o chão e caísse no céu, e ficasse caindo lentamente de pára-quedas infinitamente até... não, era melhor não pensar nisso. Decidi olhar pro navio, que já partia para o sul. Shanks estava na beirada acenando e me desejando boa sorte.
A mochila devia estar programada, porque comecei a cair em círculos na direção do acampamento. Depois do susto inicial, consegui até curtir o pequeno passeio. Dava pra ver toda a ilha, as colinas, os vales, e alguns pontos em movimento que deveriam ser os monstros.
Aterrissei em um círculo acolchoado(o pára-quedas voltou sozinho pra mochila) em um espaço aberto no meio de várias barracas – calculei que daqui a três dias aquilo estaria cheio de alvos como aquele, para os vinte aprendizes que chegariam juntos(os guerreiros, bruxos e outros faziam o exame em outro mês, nunca juntavam duas profissões diferentes). Vi um grande círculo desenhado no chão, com uma plaquinha “William Cooper” e me dirigi para lá. A placa dizia para eu colocar a mochila no centro do círculo. Coloquei.
Certo, e agora? Eu estava parado no meio do (meu) círculo, no meio de um espaço rodeado por barracas. A uns cem metros de distância, dava pra ver umas casas de pedra, onde uma menina estendia roupas no varal, provavelmente filha de algum coordenador da ilha(lá só moravam pessoas encarregadas dos exames e ao auxiliar os novatos).
Eu estava indo perguntar a ela quando ouvi um barulho atrás de mim. Então percebi que havia saído do círculo. Me virei, e vi a minha mochila começar a tremer. O pára-quedas saiu de lá e se transformou em uma barraca circular cinza, alta o bastante para eu ficar em pé, do tamanho de um quarto comum. Entrei lá dentro, e lá tinha uma cama, uma pequena cozinha com mesa de jantar, uma mesa/cadeiras com livros do tipo “Como Limpar Sua Adaga” e “Cento E Uma Maneiras De Se Esconder Em Um Banheiro”, além um frigobar e prateleiras com frutas, verduras, carnes e ovos. E eu disse que a mochila estava leve?
Coloquei minhas coisas na mesa, e fui pra cozinha. Peguei um refrigerante de laranja, e comecei a beber, feliz.
–Então, muito legal aqui, não é?
Engasguei com o refrigerante, e quase pulei de susto. Arien estava fechando a porta, e não percebeu. Rapidamente terminei de beber e joguei a garrafa no lixo.
–Sabe, eu lembro de quando eu e seu pai viemos fazer o teste. Ficávamos trocando de barraca, e os examinadores trocaram nossos nomes durante uns dois dias. Tudo bem que depois disso eles descobriram e tivemos que ficar a noite toda limpando o acampamento, mas mesmo assim foi divertido. E naquela época as barracas não tinham refrigerante.
–Arien – falei, aliviado por ver um (ele era o único) amigo. Eu não sabia o que iria fazer depois que acabassem os refrigerantes – você não tinha que descer em Porto Sul, com os outros?
–E perder a melhor coisa de vir pra essa ilha? Claro que não! Além disso, eu odiaria ter que aturar aqueles discursos chatos de entrada. Pular de pára-quedas é bem mais emocionante.
E se sentou na mesa, pegando um refrigerante sabor limão.
–Gostou da viagem? — Arien perguntou, depois de um longo silêncio.
–A viagem é a melhor coisa – respondi, um pouco triste – Estou com medo dos exames.
–Não se preocupe com isso. O exame é só daqui a três dias, você não pode fazer nada além de ficar aqui tomando refrigerante. E enquanto Lucas e os examinadores não chegam, eu também não tenho muita coisa pra fazer além de ficar aqui tomando refrigerante. — agora ele foi experimentar o de uva. — Mas enfim, sobre o exame... — ele se inclinou para mais perto de mim – Will, não se preocupe. Seu pai também tinha esse medo. Ele achava que não conseguiria lidar com toda aquela coisa de uma adaga só e escudo.
–Mas ele não ficou aqui parado tranquilamente, ficou?
–Não, porque ele não chegou três dias antes de todo mundo – Arien respondeu, sorrindo – por isso ele teve que pegar os testes e treinamentos finais logo no primeiro dia. Na verdade ele fugiu à maioria deles, e ficava pegando bebidas das outras barracas. Uma garrafa de cada frigobar, pra que ninguém desse falta.
“Ele não ligava muito pras regras, mas sempre ajudava os outros alunos. Sempre que alguém tinha uma dificuldade em alguma coisa, seu pai dava uma 'aulinha' para ajudar. Tentava fazer com que todos passassem, e conseguiu: todos saíram daqui e foram direto para a Escola Avançada – alguns deles graças aos ensinamentos de última hora do seu pai. Bem, talvez você não tenha muita gente pra ajudar, mas aposto que vai conseguir fazer um bom exame.”
–Por falar nisso, o que vai cair nos exames? — perguntei.
–Praticamente tudo o que você aprendeu na Escola. Eles vão bolar situações onde você precisa encontrar alguma coisa escondida, rastrear uma pessoa que esteja parada, andando, e depois uma que tenha habilidade para se esconder. Tem um que você tem que levar um determinado objeto até uma base, que está cheia de armadilhas, sem falar nos guardas que tentam te atrapalhar, é o meu favorito. Em outro teste, você vai ter que se esconder de cinco Rastreadores durante uma hora; em outro, lutar contra Guerreiros e Lanceiros, correr pistas de obstáculos e caçar monstros.
–Monstros? — aquilo não soava nada bem.
–Nada que você não possa enfrentar. Lesmas não são muito difíceis, mas quando você chegar nos Cogumelos vai começar a dar um pouco de trabalho, porque eles são mais fortes. E os Gosmas são muito rápidos. Já os Porcos são rápidos, violentos e fortes. Mas, se alguma coisa der errado, os instrutores irão intervir. Nunca ninguém morreu ou saiu muito ferido em um teste dessa ilha. A única coisa que você tem que se preocupar é em fazer os testes direito, e além disso, todos terão um último treinamento antes de começarem a caçar os monstros.
E eu só havia lutado contra bonecos de madeira e Tocos – às vezes Streppe levava a gente para enfrentar alguns no local de construção. Mas nós nunca chegávamos muito perto dos Cogumelos.
–Acho que vou aproveitar o tempo para treinar – falei, me levantando, mas Arien sacudiu a cabeça
–Já está tarde. Você ainda tem três dias antes dos testes, pode começar a treinar amanhã. Durma um pouco, amanhã de manhã eu venho aqui pegar mais refrigerante.
Sorri, agradecido. Ele me desejou boa noite e saiu. Peguei minha mochila(a minha mesmo) e me vesti para dormir.
Daqui a três dias, eu iria fazer meu primeiro teste. Meu sonho de se tornar um bom Gatuno dependia de como eu me saísse neles.
Eu estava com bastante medo, mas prometi a mim mesmo que daria o melhor de mim neles. Mas agora, depois da surpresa de “ownar” a escolha, viajar no alto de um navio e cair de pára-quedas em uma ilha flutuante no meio do céu, eu só queria dormir.
Fale com o autor