“É ela!” Apontou a morena de cabelos presos em um longo rabo de cavalo, focando seus olhos na mulher sentada à beira do lago e colocando um sorriso em seus lábios.

“Você tem certeza?” Questionou o homem ao lado dela, parecendo inseguro “Lisa, não precisa ser hoje. Não precisa ser assim.” Ele disse, tomando a chave do carro em mãos e passando a descer da ponte sobre o lago.

“Precisa, sim!” Exclamou a mulher, parando em frente a ele, com os braços cruzados sobre o peito “Você me disse que eu deveria interferir caso passasse mais de um ano. Bom… faz dois!”

“Para alguém que esperou dois anos, mais uma noite não vai fazer a menor diferença.” Ele disse, afastando-a e voltando a caminhar em direção ao estacionamento “Além disso, a Rachel está me esperando. Por quanto tempo mais você acha que a babá de 16 anos vai ficar esperando?”

“Você paga por hora trabalhada e acrescenta o táxi dela para casa, certo? No lugar dela, eu torceria para você demorar o máximo possível.” Riu a mulher, parando na frente dele e bloqueando seu caminho novamente.

“Mais um motivo para eu ter pressa.” Ele respondeu “Lisa, eu nem sei o que fazer, o que dizer… Esse tipo de coisa tem que acontecer de forma natural, não dá para forçar uma situação assim…”

“Só vai!” Ela exclamou, empurrando-o na direção contrária “Não estou te falando para pedir aquela mulher em casamento, mas você precisa admitir que está ficando enferrujado nisso e você sabe que não está ficando mais jovem a cada ano que passa. Se não começar a treinar, quando aparecer uma mulher que realmente deixe você interessado, você vai se fazer de idiota na frente dela.”

“Você… promete que não vai embora enquanto não tiver certeza de que as coisas estão dando certo?” Ele perguntou, sentindo seu rosto corar e começando a ceder para a pressão.

“Claro que sim.” Ela disse, sorrindo de maneira reconfortante e acariciando o ombro dele “Para que mais servem as irmãs? Mas… se não der certo, vou ficar aqui até o final. Não vou te deixar na mão.”

“Lisa…”

“Só vai! Onde é que ficou o meu irmão mais velho que chegava em casa com uma mulher diferente por semana e que deixava nossos pais malucos tentando não errar o nome da moça?” Ela perguntou, fazendo-o rir ao se lembrar da sua adolescência.

E, então, ele respirou fundo, atravessou a ponte para o outro lado do rio e, por fim, passou a caminhar em direção à loira sentada na beira do lago, atirando pedaços de pão para os patos ao redor.

“Com licença… Oi.” Ele pronunciou, sentindo sua voz tremer.

No momento em que a mulher olhou para ele, ele sentiu que suas mãos ficaram frias instantaneamente e que seu coração poderia saltar para fora da boca a qualquer momento. De fato, estava completamente enferrujado e tudo o que queria fazer era sumir dali. Porém, ele havia iniciado a conversa e não haveria uma forma não constrangedora de ir embora sem conversar com ela, agora que havia chamado sua atenção.

“Oi.” Ela respondeu, aguardando que ele prosseguisse.

E aquele foi o final da conversa. Ele queria saber o que dizer, mas sua cabeça havia criado muitas expectativas para aquele momento e não havia nada que ele pudesse fazer para atendê-las. Ele se sentia paralisado, envergonhado… culpado. Por algum motivo que ele mesmo não conseguiria explicar, ele se sentia como se estivesse traindo pelo simples fato de tentar iniciar uma conversa com uma mulher desconhecida no parque. De forma racional, ele sabia que esse sentimento não fazia sentido, já que ele não estava em um relacionamento com ninguém, mas algo em sua mente parecia gritar que ele não tinha o direito de tentar seguir em frente. E era esse algo que fazia com que se entregar para uma simples conversa fosse tão complicado quanto havia sido nos últimos dois anos.

“Ah… sabe, você me encarando desse jeito está começando a me deixar assustada…” Comentou a mulher em frente a ele, jogando o restante dos pães para os patos e se levantando do chão, colocando sua bolsa sobre os ombros “Tem alguma coisa para me dizer?”

“Ah… tenho. Tenho sim…” Ele disse, percebendo que a mulher cruzou os braços e focou seus olhos nos dele, de forma questionadora. Estava começando a ficar irritada… e ele não tinha a menor ideia do que deveria dizer.

“Então?” Ela perguntou de forma impaciente, passando a bater a ponta de seu pé direito no chão, apressadamente.

“Que… que horas são?” Ele perguntou, sentindo sua voz tremer.

A mulher em sua frente o encarou de forma estranha. Parecia haver algo mais, ele não teria permanecido parado em silêncio em sua frente por tanto tempo apenas para saber o horário, além disso, ela pôde perceber que ele tinha um relógio caro em seu pulso, evidentemente funcionando. Ainda assim, buscando encurtar a conversa, ela olhou o relógio em seu próprio pulso brevemente e respondeu.

“Oito e meia.”

“Obrigado.” Ele respondeu, forçando um sorriso simpático e começando a se afastar.

Quando passou a andar em direção à ponte, viu sua irmã parada ali, com uma expressão indignada em seu rosto. Foi então que ele entendeu que, caso não se esforçasse de verdade, ela o forçaria a conversar com mais mulheres estranhas pelo resto daquela noite de sexta-feira.

“Na verdade…” Ele pronunciou, voltando-se para ele novamente. Rapidamente, ela rolou os olhos e se voltou para ele, com uma expressão cansada em seu rosto “Qual é o seu nome?” Ele iniciou.

“Por que quer saber?”

“Eu… Sabe, eu estou bastante nervoso. Eu não sei se você percebeu, mas eu estou tentando chamar a sua atenção de alguma forma e não está sendo fácil fazer isso de forma positiva. Enquanto você cruza seus braços, minha irmã…” Ele disse, apontando a mulher que ria enquanto os observava “está rindo de mim!”

“É sua irmã quem escolhe uma mulher para você abordar? E, se você conseguisse, ela iria sair junto com a gente? Desculpa a pergunta, mas quantos anos você tem? Não parece ter idade para pedir esse tipo de ajuda para a irmã.” Ela perguntou, rindo de forma debochada “Sabe, se está tentando chamar a minha atenção, pode ter certeza de que você conseguiu, mas talvez não da forma que você queria.”

“Bom… precisa concordar que eu precisava de uma ajuda.” Ele disse, sentindo seu rosto completamente vermelho denunciando o constrangimento que ele tentava disfarçar.

“Por que não traz a mamãe da próxima vez?” Ela disse, revirando os olhos e dando as costas para ele conforme passava a caminhar para o outro lado do parque.

“Espera!” Ele chamou, segurando o braço dela. Irritada, ela se voltou para ele, arrancando seu braço da mão dele “Posso começar outra vez?”

“Está começando a ficar muito estranho…” Ela disse, abraçando a bolsa contra seu peito.

“Meu nome é Pierre, tenho 35 anos e sou advogado. Trabalho em um escritório aqui perto.” Ele se apresentou “E você?”

“Eu não estou interessada, Pierre.” Ela disse, dando as costas para ele novamente e voltando a andar.

“Gosta de crianças?” Ele questionou, tentando manter uma conversa de qualquer forma e continuando a segui-la.

“Por quê?! Já está planejando nossa vida juntos?!” Ela questionou, visivelmente irritada.

“O quê?! Não! Eu só queria…”

“Para de me seguir! Eu estou perdendo a paciência!” Ela exclamou, acelerando o passo.

“Pode me dar só uma chance para conversar? Aceita tomar um sorvete, um café… Qualquer coisa?”

Então, ela tirou um spray de pimenta de seu bolso, voltou-se para trás e o espirrou nos olhos dele. No momento em que ele levou a mãos para seus olhos e passou a gritar, ela o chutou entre as pernas e o empurrou para dentro do lago. Somente quando teve certeza de que ele não a seguiria mais, passou a correr o mais rápido que poderia.

Poucos segundos depois daquilo, Pierre sentiu um par de mãos puxando-o pela camiseta e tirando seu rosto de dentro da água. Tossindo e tentando recuperar o fôlego, Pierre se puxou para fora do lago e se sentou na grama, esfregando seus olhos. Ao conseguir se recuperar, abriu seus olhos e percebeu sua irmã sentada em sua frente, parecendo preocupada.

“Está tudo bem com você?” Ela perguntou, acariciando o rosto dele de forma protetora.

“Fisicamente, sim. Moralmente, estou pronto para mais dois anos sem tentar nada parecido com isso.” Ele respondeu suspirando. Imediatamente, ela passou a gargalhar “Fico feliz que tenha achado engraçado, mas eu estou me sentindo péssimo.”

Ao olhar para o rosto dele, Lisa não conseguiu distinguir se ele estava chorando ou se aquela era a água do lago ainda molhando seu rosto. Evidentemente, ele também não queria que ela soubesse, porém, aquilo foi o suficiente para que ela perdesse o sorriso nos lábios.

“Desculpe.” Ela disse e respirou fundo. Então, deu um beijo no rosto dele “Não fiz você conversar com ela por mal e nem para rir de você, eu só achei que você precisava voltar a procurar por alguém e tudo precisa começar de algum ponto. Pierre Gauthier, os anos estão passando! Você ainda é jovem, mas sabe que fica mais velho a cada segundo, certo? O relógio está fazendo tique-taque e… Bom, eu não quero imaginar que você vai ficar sozinho para o resto da vida. Você não merece isso, você é uma pessoa incrível!”

“Eu pensei que tinha resolvido isso sete anos atrás.” Ele disse, levantando-se rapidamente e dando as costas para ela.

Conforme caminhavam em direção ao estacionamento daquele parque, Lisa percebeu que Pierre passou suas mãos pelo rosto diversas vezes, mas sabia que o deixaria ainda mais envergonhado caso perguntasse a ele se estava chorando, então fingiu não notar e se manteve atrás dele.

“Às vezes, eu acho que você está se boicotando de propósito.” Ela disse “Você é um ótimo advogado, Pierre! Sua carreira toda é baseada em convencer as pessoas do que você está dizendo, então, por que não usa isso a seu favor na sua vida pessoal? Além disso, você é bonito e sabe disso. Não precisa de muito esforço para conseguir a atenção de alguma garota. Ainda assim, por algum motivo, você está sozinho e, evidentemente, triste há dois anos, Pierre. O que está acontecendo?”

“É sério?!” Ele questionou, rindo de forma cínica e focando seus olhos visivelmente inchados nos dela “Você realmente não sabe o que está acontecendo?”

“Já acabou, Pierre! Acabou!” Ela exclamou, segurando-o pelos ombros e olhando no fundo de seus olhos “Eu só consigo imaginar o quanto deve ter sido incrível e eu sinto muito que isso tenha acontecido com vocês, mas, infelizmente, acabou! Ela não iria querer te ver assim. Ela iria querer que você guardasse com carinho as lembranças que vocês criaram juntos e que você seguisse em frente! Faça valer a pena o que vocês tiveram! Se você decidir sofrer pelo resto da sua vida, você vai deixar bem claro que teria sido melhor que vocês dois nunca tivessem se conhecido. É isso que você quer fazer com a memória dela?”

Ele não conseguiu responder. Foi inevitável chorar em frente a Lisa naquele momento. Tão logo quanto isso, ela o envolveu em um abraço e passou a acariciar seus cabelos conforme ele chorava sobre seus ombros. Por um longo tempo, Lisa permaneceu em silêncio, permitindo que ele colocasse para fora toda a dor que ele guardava para si mesmo. Permaneceu assim até perceber que Pierre estava se acalmando aos poucos e, então, deu um beijo em seu rosto e permitiu que ele se afastasse do abraço, oferecendo um sorriso para ele.

“Eu sinto falta dela.” Ele pronunciou.

“Eu sei…” Respondeu Lisa, passando a segurar as mãos dele “Eu prometo que eu não vou forçar mais nada. Você passou por muita coisa, merece ter seu tempo.”

“Obrigado.” Ele respondeu, sorrindo para ela conforme voltaram a caminhar para o estacionamento.

“Mas…” Ela começou, com um sorriso mal disfarçado em seu rosto “quando você decidir tentar outra vez, por favor, não deixe de me convidar! Foi super engraçada a cena do lago!” Ela disse, fazendo com que ambos rissem.

“Lisa, promete que você não vai contar para ninguém!”

“Só se você me prometer que não vai desistir! Você merece uma família!”

Notas finais
Pessoal, bem vindos à minha nova fic! Espero que tenham gostado do capítulo inicial e que, por favor, comentem!! Comentários, tanto positivos quanto negativos, ajudam a entender se a história está interessante a podem colaborar com os próximos capítulos, além de ajudarem a entender se vocês têm interesse que eu continue! :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.