P.O.V. Jesse.

Eu estava transportando livros de uma sala para a outra, arrumando as estantes. Levei uma hora para organizar a biblioteca principal, então eu peguei os livros que eram da sala do David e estavam na biblioteca principal e carreguei de volta.

Eu estava carregando duas caixas e usava fones de ouvido. Já estava tão acostumada em arrumar essa biblioteca que já sabia o lugar de todos os livros de cor.

—Porque tem que ser sempre tão bagunceiro David? Parece criança.

Estava tão focada em colocar os livros no lugar que nem notei que não estava sozinha na sala.

P.O.V. Lestat.

Ela entrou carregando uma pilha de caixas cheias de livros, estava cantando. Ela colocava os livros no lugar quase como se fosse automático.

Ouvi-a perguntar para si mesma como se falasse com o tal David.

—Porque tem que ser sempre tão bagunceiro David? Parece criança.

Ela dançava pela sala totalmente alheia a minha presença. Mas, quando se virou para a mesa ela tomou um susto.

—Jesus!

—Creio que seja bem mais novo.

—Como você entrou aqui? Oh, claro o David e seus preconceitos. Olha só o que dá não me ouvir. Deixa eu ver? Entrou pela janela? Mas, que surpresa.

Ela amarrou o cabelo ruivo com um lápis.

—O diário está sob a mesa. Se é o que quer, pegue e vá embora.

—Não vim pelo diário.

Ela começou a recolher os livros da mesa e a colocá-los no lugar.

—David! Oh David!

—O que foi... nossa!

—Ta vendo?! Ele entrou pela sua janela! Tem um vampiro no instituto e ele entrou pela sua maldita janela!!

—Isso não quer dizer nada.

—Não quer? Eu enfeiticei todos os outros cômodos menos esse. E por onde ele passou? Por esse!

—Enfeitiçou?

—De onde você acha que vieram os vampiros? As bruxas da minha linhagem criaram os vampiros.

—Uma bruxa?

—Você finalmente descobriu o que você é.

—Ele descobriu e nem percebeu. Graças á isso eu sei a verdade.

Disse ela pegando o diário em mãos.

—Eu sou a última. Achei o grimório da minha tia Maharet semana passada, me mandaram pelo correio e os feitiços funcionam.

—Tia Maharet? Ela existe mesmo?

—Parece que sim. E eu estou de greve agora.

—De greve?

—Olha David, sou bibliotecária e eu já perdi a conta de quantas vezes eu arrumei a sua sala hoje.

—Você é minha aprendiz.

—Exato. Sua aprendiz não sua faxineira! Eu arrumo todos os livros aqui, saio dois minutos e quando eu volto parece que passou um furacão aqui dentro! Assim não dá!

Ela saiu da sala furiosa batendo a porta atrás de si.

—Nunca vi ela tão raivosa.

—Então ela é uma bruxa?

—Parece que sim. Como entrou aqui?

—Pela janela.

—Que ótimo. Agora ela vai ficar esfregando isso na minha cara por toda a minha vida.

—Ela é mesmo muito especial.

—É. Ela é sim.

—Jessica é realmente parente de Maharet?

—Você conhece essa tal tia dela?

—Conheço. Ela é amiga de Marius. E está prestes á bater á sua porta.

—O que?

Batidas furiosas são ouvidas.

—Jess?

—Você foi convocado.

—Com licença.

O homem de meia idade saiu. Ela entrou, sentou-se no chão e fechou os olhos.

—O que está fazendo?

—Não olhando. Se eu olhar a bagunça... a minha greve vai pelos ares.

—Porque?

—Porque eu sou meio obcecada com limpeza e organização. Eu etiqueto tudo, limpo, guardo, organizo. Se fosse a minha casa saberia como é.

—Isso é um convite?

—Não.

—Você é mesmo parente de Maharet?

—Você a conhece? Sabe onde ela mora?

Ela se levantou rapidamente e perguntou tudo ao mesmo tempo.

—Sei e sim eu posso.

Então a vi fechar os olhos de novo.

—Não olhe, não pense, não arrume.

—Isso te afeta mesmo não é?

—Você nem imagina como.

Jesse começou a pegar as coisas, vestiu uma blusa de frio, colocou os seus lindos cabelos ruivos pra fora da blusa, pegou a bolsa e saiu praticamente correndo.

—Jesse, onde está indo?

—Dessa vez não David! Dessa vez não.

Eu já estava do lado de fora, mas pude ouvi-la trotando escada a baixo e a vi sair pela porta.

—Consegui. Consegui!

Ela pulava e batia palminhas de felicidade.

—O que você conseguiu?

—Quer parar de fazer isso?! Eu não furei a greve. O David se deu mal.

—Você é mesmo uma incógnita.

—Não mais que você. Eu não consigo te ouvir e nem se quer preciso me esforçar.

—Como assim?

—Sou telepática, eu posso ler mentes. Eu movo objetos com a minha mente, telecinética e sou pirocinética. Foi assim que eu matei os vampiros na boate aquele dia. Isso veio do meu pai, é um gene mutante.

—Porque não dá uma volta comigo?

—Qual é o seu jogo? O que você quer de mim?

—Quero te conhecer melhor. Desvendar os seus mistérios.

—É, boa sorte com isso.

Então começou a chover.

—Sério?! Eu fui ao cabeleireiro ontem!

—Vem comigo.

Puxei-a e ela veio.

—Uma limousine?

—Entra logo.

Ela entrou.

—Pra onde senhor?

—Pra casa Thomas.

Nós chegamos á mansão e ela ficou realmente impressionada.

—Quanta ostentação.

—Seus lábios estão roxos e você está tremendo.

—Estou viva. E com frio.

—Que tal um banho quente?

—Eu não vou dormir com você. Seu tarado maluco.

—Lestat. Sendo rejeitado por uma dama?

Ela ficou em choque.

—Permita que eu me apresente, eu sou...

—Marius.

—Bom, vejo que me conhece.

Ela olhou pra ele, o examinou e o cutucou.

—Desculpe, só queria saber se você era real. Esse dia tá muito estranho.

—Eu sou real minha cara.

—Ta igual no quadro. Exatamente igual, o mesmo casaco vermelho.

—É fã dos meus quadros então?

—Não. O David que é. Ele é totalmente obcecado com isso.

—David?

—Meu chefe. Ele é como se fosse o meu pai.

—Vem, vou chamar o Roger pra te ajudar.

—Roger?

—Sim. Roger!

—Fala chefe?

—Prepare um banho para a minha delicada convidada. E arranje roupas.

—Vem benzinho.

Ela olhou ameaçadoramente para Roger.

—Se colocar a mão em mim...

Seus dedos se acenderam.

—Vira torrada.

—Tá bem. Por aqui por favor.

P.O.V. Marius.

Eu não pude acreditar no que meus olhos acabaram de ver.

—O que? Como ela fez aquilo?

—Ela é uma bruxa Marius. Ela e Maharet tem parentesco.

—Sim. Maharet teve uma filha antes de ser convertida, seu nome era Miriam.

—Como ela se tornou bruxa?

—É hereditário ao que me parece e alguns de seus poderes são fruto de mutação genética.

—Fascinante.

—Assustador. Você não estava lá naquela noite, quando ela incinerou vários vampiros ao mesmo tempo e a Admirel's Arms.

—Soube do incêndio.

—Foi ela Marius. Sentindo-se acuada, ela lançou sua... bom sua mágica de fogo sob os vampiros que tentaram atacá-la.

—Essa menina sozinha botou fogo na boate?

—Na boate e em tudo que tinha a até uns três quarteirões pra frente.

—Como?

Ouvi um barulho estranho.

—Que barulho é esse?

—Um secador de cabelos.

Logo ela desceu as escadas, usando uma camisola de seda e um enorme roupão que era dos anos cinquenta.

—Não se ache grande coisa. Foi a única roupa de mulher que eu achei. Então, já acabaram de falar de mim?

—Qual sua relação com Maharet?

—Ela é minha ancestral.

A menina perguntou:

—Se importam se eu sentar?

—Não.

Ela se sentou. Então riu.

—O David iria pirar se estivesse aqui agora.

—Maharet é uma bruxa?

—Ela era. Ou você é uma bruxa ou uma vampira nunca os dois.

—Porque não?

—Uma bruxa é uma serva da natureza e uma vampira é uma aberração da natureza. Você pode ser uma coisa ou outra nunca os dois.

—O que acha que sabe sobre nós?

—Foi a irmã da minha tia Maharet que criou os primeiros vampiros. Akasha e Enkil. Isso foi no Egito, antes do Egito ser o Egito. Alterar o tempo de vida de alguém foi o que começou toda essa bagunça em primeiro lugar. Eu aprendi a lição, eu não vou salvar nenhum vampiro. Os mortos devem ficar mortos.