As Crônicas da Tempestade

28 Capitulo 25 - Guerra Civil Parte 3


Capitulo 25 – Guerra Civil Parte 3

Palácio Real, Capital Real, Nação do Fogo

— Ah! Estão todos aqui, que bonitinho — Atakano disse sarcasticamente e um sorriso felino se espalhou pelo seu rosto. Seu olhar predatório caiu sobre a nova presa. — Então você é o pau mandado de Raidou. Você mais baixo do que pensava, devo dizer que estou um pouquinho desapontada, os boatos são exagerados a seu respeito.

Dalai apenas concordou com a cabeça.

— Não ligo para o que esses boatos dizem e muito menos para o que você pensa de mim. Não estou aqui pra impressionar ninguém, vim para resolver um assunto inacabado — ele rodopiou o bastão improvisado com um floreio — Se você se render agora acho que posso maneirar na sua surra.

Yuzushi Atakano riu e se virou para o Avatar.

— Não acredito que apanhou para um fanfarrão desses — ela sacudiu a cabeça e nesse momento sua mão deslizou para a cintura e num instante uma faca voava pelo ar.

Um giro do bastão fora o suficiente para que caísse inofensiva na grama.

— Que maldade no coração, atacando assim do nada sem nem um aviso, você é mesmo uma mulher suja — Dalai disse nada impressionado e avançou com uma estocada que acertou apenas o ar, em seguida o rapaz trocou de base girando o corpo pegando na ponta do bastão e o utilizando como uma clava prestes a arrancar a cabeça de Atakano com uma rajada devastadora.

Mas ela não estava mais lá, já havia dado uma esquiva em pêndulo. A onda de ar arrancou tudo em seu caminho desde a calçada de ladrilhos até os bancos de pedras lançando-os contra a casa principal destruindo as paredes e indo parar lá dentro. Atakano dançou para longe do alcance do rapaz e observou o estrago.

— Nunca vi dominação de ar assim, gosto de sua raiva, combina bem mais do que calma e serenidade dos monges senis — ela admitiu e nesse instante outra pessoa se pôs entre os dois. — O que foi velhote, ainda quer levar mais porrada?

Raidou a encarou friamente.

— Ainda não terminamos. — Ele disse e se virou para Dalai — Eu te tirei de Valu por um único motivo, não se esqueça disso. Tá a hora de fazer sua parte do acordo.

Dalai sorriu para o veterano cabeça dura e sentiu um estranho respeito por aquele bastardo. Assim ele se virou confiante para o Avatar:

— Se quer acertar as contas venha comigo, quero bastante espaço para te humilhar — ele falou e deu impulso para cima do telhado, logo em seguida Lana estava em seu encalço.

Após partirem Raidou se virou para Lian Fu;

— Proteja a Senhora, tire-a do país e aguarde mais ordens antes de dar o próximo passo — ele falou.

— Mas general... — Lian Fu ia protestar, mas Raidou a calou com um olhar.

— Faça o que lhe é ordenado, capitã. Seu dever maior é para com este país, nunca se esqueça disso.

Rangendo os dentes Lian Fu e seus homens partiram em direção a casa principal, deixando-o sozinho com Kaijin e Atakano.

— Um gesto nobre de sua parte Raidou — Atakano disse vendo-a partir — Não queria ter de matá-la, não agora. Lembro de ter sido assim anos atrás, já fui seu braço direito antes, lembra? Bom, isso antes de você me trair e me mandar para Valu.

— Pare de choramingar e venha de uma vez — Raidou brandou e tomou posição de combate.

Kajin foi o primeiro a agir outra vez conectando-se com água e formando tentáculos de seus braços com pontas congeladas. Os ataques vieram de todas as direções de uma vez em uma chuva de golpes. Raidou se limitou a avançar se projetando para adiante jogando o ombro para frente em uma esquiva frontal bloqueando quando preciso e levando golpes quando necessário.

Raidou fintou para a esquerda girando o corpo para a direita conectando um uppercut flamejante no queixo do jovem fazendo-o recuar vendo estrelas, no entanto o veterano não o permitiu se afastar e lhe castigou com mais dois hooks no tronco, terminado a sequência com uma meia lua incandescente.

No entanto o último golpe errou seu alvo quando Atakano agarrou Kaijin pela gola e o puxou para trás evitando assim o golpe fatal. Depois, a guerrilheira aproveitou a abertura dada pelo chute e deu um salto desferindo um chute de pés juntos bem no peito do general derrubando-o de costas.

Raidou caiu dando uma cambalhota para trás e de joelhos lançou uma torrente de bolas de fogo. Kaijin que já havia se recuperado ergueu um escudo de gelo da junção de dois tentáculos de água dando cobertura para a companheira saltar por cima e descer com um soco flamejante que por pouco não arrancou a cabeça do general.

Raidou mediu a distância com um one-two mas Atakano se esquivou em pendulo e voltou com um cruzado poderoso fazendo um jato de sangue se espalhar pelo chão. Raidou evitou um segundo ataque por um tris e deu um pisão na mulher a jogando para trás apenas para ser atingido por um tubo de água e ir parar de cara no muro.

O general tentou se mexer, entretanto a água se transformara em gelo prendendo-o ao muro. Por puro instinto se desviou de uma lança de gelo que se alojou onde sua cabeça estivera um instante antes. O veterano permitiu a raiva fluir pelas veias aquecendo o sangue, controlou o fluxo de calor interior para que se tornasse exterior inspirando fundo e assoprando uma cortina de chamas derretendo o gelo que o segurava.

Atakano já estava em cima dele com um poderoso direto de direita incandescente o qual Raidou desviou com o antebraço, em seguida deslizando a mão por seu braço e agarrando seu pulso. Mas antes que pudesse finalizar, um machado de gelo passou voando e a guerrilheira estava livre.

Raidou não teve reação quando viu seu braço decepado ainda no pulso de Atakano.

Dalai dissipou uma rajada de vento com o bastão. O rapaz sorriu com aquela técnica desleixada que a menina chamava de dominação de ar e decidiu dar a ela uma amostra de como um verdadeiro dominador lutava. Girando o bastão para reunir força o rapaz partiu para cima com um ataque em diagonal.

Lana rolou para o lado bem a tempo de se esquivar da lufada que cortou uma das antigas torres de vigia do palácio como se fosse papel e a viu despencar para o pátio lá em baixo onde a luta entre a guarda real e os revolucionários parecia estar perto do fim. Tenho que tomar cuidado com esses malditos ataques, Lana refletiu circulando seu inimigo, tentando ler seus pensamentos.

Dalai então começou seu gingado implementando completamente o bastão como extensão de seu corpo jogando de uma mão para a outra em uma dança macabra e imprevisível. Lana mediu distância com dois jabs de fogo mas eles foram dispersados antes de chegarem ao seu alvo e então num piscar de olhos o Filho da Tempestade já estava em cima dela com o salto de um chute alto. O Avatar mal teve tempo de erguer a defesa e seus pés quase saíram do chão quando recebeu a pancada. Ainda no ar, Dalai usou o bastão para se impulsionar ainda mais para o alto e dar uma pirueta descendo com tudo com o bastão.

Lana mandou uma esquiva lateral jogando o corpo para o lado pouco antes do golpe abrir um rombo no telhado. A garota cambaleou para trás e sentiu o medo lhe subir à cabeça. Esse cara é um demônio! Ela pensou chocada quando viu seus olhos verdes encarando-a com sede de sangue. Uma aberração...

Dalai deu um golpe lateral no tronco de Lana e depois um soco no rosto quando ela se envergou jogando-a no chão com o golpe. Vendo-o de baixo Lana soube que aquele seria seu fim, ela havia perdido.

— Levanta! — ele rugiu enfurecido e enfiou uma bicuda em seu estômago roubando o ar de seus pulmões — Onde está toda sua determinação? Onde está a mulher que disse que venceria essa guerra? Hein? — ela tentou se afastar, mas ele a pegou pelos cabelos e a forçou a encará-lo — Onde está a mulher que roubou um bebê e conscientemente mandou milhares de homens e mulheres para morrer numa guerra sem sentido! Olhe para mim! Agora, eu vou te dizer uma coisinha: você nunca será um avatar pelo qual vai valer a pena lutar! — ele a jogou de cara no concreto e se afastou olhando para o luar — Levanta de uma vez e lute a sério!

O ódio de Lana borbulhou em seu estômago e ela sentiu o poder adormecido fluir por suas veias, como se enfim encontrasse a iluminação. Seus olhos assumiram um brilho branco sobrenatural e sua mente e corpo já não pertenciam mais a ela, era como se observasse através de outro mundo. Por um momento tudo ficou claro.

Lana se levantou sem esforço e assumiu a posição de combate. Dalai sorriu, fora por isso que viera de tão longe, agora sim ficara interessante.

— Dê o melhor que puder, Avatar.

Lana avançou com uma velocidade sobrenatural, num instante já estava conectada com o ar comprimindo-o nas palmas das mãos em uma espécie de pequenos tornados impulsionando-a para frente. O Avatar desferiu um chute lateral devastador cortando o horizonte em dois, no entanto Dalai mandou uma Ponte para Frente no último momento evitando o pior do ataque.

O rapaz rodopiou o bastão e deu uma estocada na altura da garganta, mas o Avatar se limitou a pegá-lo com as mãos nuas e quebrar a barra de ferro, em seguida inspirou profundamente e soltou fogo pelas ventas. Dalai largou o bastão e gingou para trás apoiando a mão no chão e dispersando as chamas com um chute em arco, depois deu um rolamento para trás já se defendendo do pedregulho que o acertou em cheio no ombro e o jogou longe.

Dalai levantou-se e colocou o ombro no lugar com esforço e procurou seu inimigo. Mas o Avatar agora vestia uma armadura completa de pedras e em suas mãos garras de gelo cintilavam a luz do luar. Seus olhos se estreitaram e por trás dela a cidade brilhou azulada, o brilho vinha dos rios e córregos. Foi aí que ele percebeu o que eram eles, ela ergueu a mão e uma centena de lanças de gelo saltou vindas de todas as direções.

Dalai começou o gestual que lhe ensinaram no templo há anos atrás quando ainda era um monge do ar, apenas aquilo poderia salvá-lo agora, ele girou o bastão somando forças ao complexo processo para acelera-lo e em alguns instantes um enorme tufão se formava sobre sua cabeça. Um pouco mais! Ele rangeu os dentes quando as primeiras lanças passavam raspando por seu corpo e então a lembrança de mestre Yako veio à tona, Não, eu não vou terminar como ele!

O tufão perdeu forças e deixou a forma antiga para trás se transformando numa esfera de ar protegendo o rapaz enquanto as lanças se estilhaçavam contra a ventania. O esforço custou caro a Dalai e ele não conseguiu manter a esfera por muito tempo, porém havia sido o suficiente para terminar o serviço.

Mas assim que se dissipou, Lana aguardava por ele. O Avatar o agarrou pela garganta e o ergueu, encarando-o com uma satisfação sombria estampada no rosto em seguida, parecendo perder o interesse, enfiou as garras em sua costela e se deleitou com os gritos. Quando se deu por satisfeita, o deixou cair no telhado para sangrar lentamente até a morte.

O Avatar gesticulou para as lanças fincadas no telhado e elas se reconstruíram e ela levitou imponente levando-as consigo, deu uma olhada para Dalai que agonizava no chão e partiu em direção a casa principal.

Raidou fitou, descrente, o cotoco que antes ficava seu braço depois seus olhos recaíram sobre Atakano que vinha em sua direção triunfante. Ela arrancou fora o braço decepado que estava preso ao seu pulso e então pousou a mão sobre a cabeça do general. Sua mão escorregou dos cabelos grisalhos e foi parar no queixo.

— Lamento Raidou, mas tenho outros planos para você. A morte seria clemente demais para redimi-lo por seus crimes. — Ela então deu um murro em sua têmpora e sorriu quando o velhote tombou.

Então algo chamou sua atenção, um calafrio arrepiou os cabelos. Uma espécie de estática no ar a perturbou, um brilho estranho cruzou o céu. Uma estrela cadente, talvez? Mas não poderia ser real, ou podia? O Avatar estava voando em direção ao palácio.

— Aquela era a Lana? — Kaijin indagou se aproximando.

— Não, tá mais para a fúria dos deuses encarnada. Venha, temos que impedi-la antes que faça alguma besteira.

As portas de biombos da casa estavam arrebentadas quando entraram, diversos membros da guarda real estirados no assoalho, os que não haviam sido empalados acabaram com o pescoço quebrado em ângulos estranhos, sem dúvidas tentaram barrar o caminho do avatar. Yuzushi quase sentiu pena deles, quase. Mais para dentro ouviram o som de um combate.

Um corpo fora arremessado pela janela, uma Lian Fu ferida e com o braço quebrado. A menina respirava com dificuldade, mas insistia em levantar-se, o espírito jamais seria domado enquanto vivesse ainda que o corpo chegasse ao limite.

No fim do corredor podiam ver a Senhora do Fogo Akame atirando inutilmente com uma arma de projéteis contra o Avatar. As balas ricochetearam inúteis contra a armadura rochosa que se auto restaurava a cada disparo.

— Lana! Já chega, vencemos! — Kaijin gritou para a menina — Não precisa matá-la, acabou!

Mas a garota não o escutava mais, tudo a sua frente era o inimigo e tinha o dever de destrui-lo a qualquer custo. Quando estava prestes a rasgar a garganta da Senhora, Atakano interveio acertando-lhe um raio na cabeça destruindo a blindagem o suficiente para que ela a nocauteasse sem cerimônia.

— O que você fez com ela, poderia tê-la matado! — Kaijin esbravejou empurrando a guerrilheira.

— Ou ela poderia nos matar — Atakano rebateu e sua atenção caiu sobre a garota inconsciente — Firion finalmente conseguiu sua aberração. Venha, ajude-me com ela.

Enquanto Kaijin erguia Lana nos braços, Atakano se virou para a Senhora.

— Sempre quis fazer isso! — e deu um murro na cara real de Akame quebrando seu nariz — Essa é apenas uma parcela da dor de meus irmãos de Nitrus!

A luta terminou. A Nação do Fogo finalmente alcançara a tão sonhada liberdade.