As Crônicas da Tempestade
24 Capitulo 21 - Laços de Família
Capítulo 21 — Laços de família.
Capital real, Nação do Fogo
Jee fitou seu reflexo no espelho, avaliou minuciosamente e por fim passou novamente a navalha com um floreio aparando bem a barba. Sorriu, feliz com o que via. Depois caminhou até a cama e apanhou o paletó cinza ligeiramente apertado nos braços. Levou a mão a escrivaninha de onde tirou um colar surrado com uma lasca de pedra negra pontilhada de cores que mudavam de acordo com a luz e enfiou no pescoço, uma lembrança de casa.
Depois apalpou o bolso e uma onda de insegurança gelou a espinha ao sentir o pacote nele. Será que estava mesmo certo disso? Com tudo aquilo que estava acontecendo ele estaria pronto para um compromisso como aquele?
Foi então que a imagem de Yuzushi Atakano veio a cabeça. Ela estava em sua mira, só precisava puxar o gatilho e tudo teria terminado, toda a revolta teria acabado com ela. Todos poderiam ter vivido felizes e essa matança entre irmãos teria fim. Ele bufou afastando o pensamento, nada acabaria com a sua noite. Respirando fundo saiu porta afora.
Fazia uma noite agradável e quente, como era habitual da Nação do Fogo, principalmente na Capital Real situada no centro de uma cratera. As ruas estavam lotadas de pessoas aproveitando o período de paz momentâneo, ali os efeitos da guerra eram pouco visíveis e muitos dos habitantes da capital trabalhavam como mercadores ou donos de indústrias que viam os conflitos apenas com olhos para negócios nunca chegando a ver o campo de batalha de verdade.
Jee fez seu caminho pelas ruas movimentadas tomando cuidado para não esbarrar em ninguém já que era mais alto do que a maioria de seus compatriotas, geralmente o evitavam pela sua natureza e traços típicos das províncias mineiras. Uma vez ou outra encontrou soldados patrulhando as ruas com cães farejadores e busca por rebeldes. Um deles o parou e exigiu os documentos de maneira rude demais para o seu gosto e, mesmo após Jee apresentar suas credenciais, ainda o encararam torto enquanto seguia seu caminho.
Completara três semanas desde o último confronto com os rebeldes no Forte Qiuã e desde então Atakano não fora vista e seus agentes agiam por debaixo dos panos espalhando a ideologia e fomentando sindicatos a aliarem à rebelião. A caçada à líder rebelde não dera resultados e os esforços se mostraram inúteis assim como qualquer investida contra Nitrus fora repelida pelos rebeldes que conheciam aquela área como ninguém e lutavam feito demônios.
Jee olhou as estrelas e sorriu. Estava com bom pressentimento quanto aquela noite. Respirou fundo e entrou no restaurante. O lugar fora iluminado pela luz de centenas de velas aromáticas, e ao fundo uma melodia vintage soava pelo ambiente. Era sem dúvidas um dos melhores restaurantes da cidade.
A sua espera estava uma mulher em um vestido vermelho deslumbrante, seus cabelos negros sedosos caindo pelos ombros livremente. Seus olhos pareciam faiscar em um dourado vivo e o queixo ligeiramente erguido lhe davam um ar de beleza natural. Apesar de parecer desconfortável naqueles trajes, exibia um lindo sorriso no rosto quando ele se aproximou.
Jee a avaliou de baixo para cima. Não parecia em nada a mulher decidida e orgulhosa que conhecera anos atrás, uma garota que poderia facilmente lhe dar uma surra.
— Quase não a reconheci sem a farda, capitã. — Ele sorriu com a falsa zombeira — Você está linda, Lian Fu.
Ela ergueu uma sobrancelha, e provocando disse:
— Você também está bem charmoso para um mecânico, Jee. Você até que é bonito quando não está coberto de graxa.
Ele sorriu e puxou a cadeira para que ela se sentasse dizendo:
— Bem colocado. No entanto devo dizer que a graxa faz parte do meu charme masculino.
— O que deu em você para me trazer em um lugar desses? — ela indagou enquanto ele se sentava — Estaria feliz apenas de ir no Genges Doo`s na esquina da minha casa.
— Uma mulher especial precisa de um lugar especial, Lian Fu — ele deu uma piscadela. Em um segundo um garçom apareceu e Jee pediu vinho — Estamos comemorando.
Ela esperou até que o garçom enchesse as taças e ergueu a dela.
— E a quê exatamente estamos comemorando?
Ele ergueu a taça.
— A estarmos vivos e felizes! — ele exclamou — E a eu finalmente ter encontrado a mulher por quem esperei toda minha vida.
Lian Fu rolou os olhos com um ar divertido. E eles brindaram.
— Só estamos saindo a seis meses, como tem tanta certeza disso?
Jee a fitou intensamente.
— Abençoado foi o dia em que você me acertou com aquele cabo de vassoura na Academia.
Lian Fu riu.
— Você mereceu, se eu não tivesse feito aquilo teriam te expulsado por gritar com um oficial. Quem sabe teria até indo parar na prisão.
— Você diz isso agora. Para uma garota baixinha você tinha uma mão bem pesada, capitã — ele zombou e encheu mais uma vez as taças.
Conversaram sobre trivialidades durante o jantar e depois Jee pediu outras garrafas. Passaram horam afim em um jogo de seduções e lembranças do passado. Até que por fim Jee pousou sua mão sobre a dela e a fitou sério.
— Lian Fu, eu quero que saiba que apesar de todas as coisas que estão acontecendo recentemente, com a guerra e conosco, eu sempre vou amá-la. Estarem sempre ao seu lado não importando no que diabos você nos meta, e é por isso que eu preciso saber de uma coisa... — ele enfiou a mão no bolço do blazer e retirou uma caixinha — ... você estará ao meu lado?
Por um momento Lian Fu ficou atônita sem esconder a surpresa em seu rosto. Seus olhos se marejaram e ela se levantou sem jeito quase derrubando a mesa e lhe abraçou forte.
— Sim! Vou estar sempre com você, Jee! Até o fim!
Foi a primeira vez na vida que Jee chorou, no entanto essas lágrimas eram de alegria. O soldado enfiou o anel no dedo de sua amada com as mãos tremulas de emoção. Ficaram abraçados por alguns minutos sentindo o calor um do outro e o amor que emanava deles. Mais tarde já no apartamento de Lian Fu os dois deram lugar a paixão se tornando um com o outro noite à dentro.
Suados e ofegantes se aconchegaram na cama. Lian Fu deitada sobre seu peito de forma tão natural que parecia que aquele sempre fora seu lugar. Mais tarde à primeira luz do dia, Jee se levantou tomando cuidado para não acorda a agora sua noiva. Mas assim que se ergueu, seus olhos se abriram.
— Aonde vai? — ela indagou com um sorriso no rosto.
Ele já vestia as calças e enfiava um pé no sapato.
— Tenho de voltar ao quartel, estou de serviço hoje. Tenho de ir agora, mas mais tarde eu volto com uma surpresa. — Ele acariciou o rosto dela e roçou seus lábios com o polegar e sorriu — Esse foi o primeiro dia do resto de nossas vidas, querida.
Ele a beijou e depois partiu.
Mal tinha atravessado metade do caminho até o quartel quando sua visão foi bloqueada por um saco preto, e em seguida sentiu uma pancada forte na cabeça. De um momento para o outro seu mundo cor de rosa se dissolveu em escuridão.
Quando acordou sentiu a cabeça latejando. Ouviu algumas vozes e ordens serem dadas, depois uma mão rude arrancando o saco de sua cabeça. Jee piscou algumas vezes com o faixo de luz em sua cara. Aos poucos foi se acostumando a claridade e por fim reconheceu que estava em uma sala fechada e caindo aos pedaços.
Outra ordem foi dada e a figura que lhe desvendou saiu porta a fora, deixando-o sozinho com sua líder.
— Lamento a porrada na cabeça, Jee. Mas conhece o procedimento, certo?
— Yuzu...? Merda... Onde eu estou? — Jee perguntou sentindo um gosto salgado de sangue na boca.
— Está em casa, Jee — ela respondeu simplesmente — De onde não deveria ter saindo.
Tentou se levantar, mas só piorou as coisas e teve de se sentar na cadeira novamente. Sua cabeça rodopiava em um turbilhão de cores. Ela o drogara! Ele a fitou sério.
— Essa não é mais minha casa! E você não é mais minha família!
Atakano cerrou os dentes e lhe bateu com as costas da mão.
— Isso não é coisa que diga a sua querida tia! Seu moleque ingrato!
Jee escarrou sangue no chão.
— O que você quer?
Atakano o agarrou pelo queixo e o examinou.
— Você se tornou bem parecido com seu pai. E vejo que herdou o mal gênio dele também...
— O que eu quero, Jee, é a família reunida outra vez — ela disse com franqueza — Estive muito tempo em Valu, sozinha, quase enlouqueci naquele inferno. Só quero o amor daqueles que eu amo.
— Diz isso mesmo depois do que fez com meu pai?
— Nada vem antes da família, rapaz. Seu pai sabia bem disso, por isso estive com ele até o fim.
Jee se levantou exaltado.
— Meu pai morreu por sua causa!
— Ele deu a vida por aquilo que acreditava ser o certo! Meu irmão não era nenhum idiota! — ela devolveu — Você esteve em Kyoshi, viu a brutalidade de Raidou! Se a Senhora do Fogo foi capaz de permitir tal coisa, quem será capaz de detê-la?
— Mas uma revolta, Yuzu? Isso é uma loucura, não deu certo da última vez e não dará certo agora. Estou cansado de lutar! Isso foi tudo o que fiz a minha vida toda! — Ele gritou enraivecido — Você acredita que está libertando essa gente, mas só estará as levando para a morte! Pare os ataques, tente a diplomacia, negocie com a Senhora. Sei que podemos chegar a um acordo.
Yuzushi não podia acreditar naquelas palavras. Ele mais do que ninguém deveria saber que os poderosos não dão a mínima para pessoas como eles: pobres, nascidos e forjados nas chamas das minas. Em seu sangue corre brasa e fuligem.
— Não vou permitir que continuem a abusar de nós — ela disse em fúria — Você fala como eles! Até se tornou um deles! Onde está sua lealdade?
— Quer falar de lealdade? Hum? Isso vindo de alguém que vendeu a alma a Firion. Não me venha com essa! Sabe muito bem que ele é uma víbora. Achou que ele deixaria a Nação do Fogo nas mãos do povo? Ele é um ditador disfarçado de messias!
— Firion não será um problema. Nunca deixaria nossa pátria nas mãos daquele desgraçado, a Nação permanecerá forte e não se dobrará perante ele. — Ela afirmou decidida — Ele é apenas mais um degrau que usaremos para acabar com essa monarquia absolutista.
— Acha que está no controle aqui? — Jee indagou — Nesse exato momento ele já deve ter comprado metade dos seus homens, ele até mesmo enviou o Avatar para ficar de olho em você! Não seja burra, Firion já está em Nitrus mesmo que você não saiba.
— Você deu as costas ao seu povo uma vez, Jee — ela disse amargurada — Não dê as costas a ele novamente. — E ela saiu fechando as pesadas portas atrás de si, deixando-o sozinho com os fantasmas do passado.
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