As Crônicas da Tempestade
21 Capitulo 18 - Um novo cíclo
Notas iniciais
Capítulo 18 – Um novo ciclo
Nação do Fogo, Praça Real, Capital
As gotas de chuva desciam em círculos sobre a praça do Senhor do Fogo, às portas do palácio imperial. Os gritos enfurecidos de dezenas de pessoas abafavam o som da chuva, mas de nada adiantava a água para esfriar seus corações sedentos por justiça. Homens e mulheres carregavam placas, cartazes e pintavam até mesmo seus corpos ansiosos para serem ouvidos.
Os pesados portões imperiais se abriram e, antes que o povo invadisse o palácio, uma tropa de choque empurrou os civis para trás na tentativa de reprimi-los. A senhora do Fogo observava tudo de sua liteira, impassível como se suas feições fossem feitas de pedra, seus olhos fixos no tumulto que se formava.
Foi quando uma pedra derrubou o primeiro guarda.
A ordem de comando cortou a noite e o batalhão avançou com seus cassetetes distribuindo pauladas em todos em seu caminho. O ato de violência foi o suficiente para alguns recuarem, mas os mais valentes revidavam com pedras, bolas de fogo e objetos cortantes incendiando a cidade com o desejo de sangue.
A senhora Akame cerrou os dentes. Aquilo já estava saindo do controle. As recentes manifestações culminavam cada vez mais em atos de violência de ambas as partes e, a cada novo protesto, seus números de opositores cresciam exponencialmente. Toda aquela merda iria estourar em breve.
Ela suspirou irritada. Logo quando haviam conseguido uma grande vitória contra a Aliança Libertadora em Kyoshi agora enfrentavam a ameaça de uma guerra civil. É tudo culpa daquela mulher! Suas unhas se cravaram com força na palma da mão. A Senhora do Fogo era uma mulher de força inigualável e mão de ferro temida e respeitada por todas as nações, não poderia simplesmente deixar que lhe tomassem seu trono, não antes de devolver a Nação do Fogo a glória e a paz.
— Fong — a senhora chamou, usava um leque para esconder o rosto e evitar que os inimigos rebeldes lessem seus lábios.
Como que saído das sombras uma figura taciturna em uma máscara militar apareceu ao seu lado com uma reverência respeitosa.
— Minha senhora, em que posso servi-la?
Os gritos nas ruas aumentaram quando novos dominadores rebeldes se juntavam a batalha. Embora bastante pressionada, a força defensiva do império se mantinha firme aos ataques impetuosos de dominadores mais jovens e ousados.
Foi aí que um furou o bloqueio.
Aproveitando o caos de bolas incandescente, a mulher saltou usando uma caçamba de lixo como impulso e pousou com uma cambalhota por cima do batalhão. Depois disparou como uma bala em direção a Senhora do Fogo, em sua mão a lâmina que empunhava refletia o brilho do luar. Apesar do perigo, Akame permaneceu imóvel e de cabeça erguida sem demonstrar medo.
A assassina gingou em zigue-zague desviando da guarda de honra rapidamente lhes cortando a garganta sem pestanejar. Mas a três metros de seu alvo a assassina foi bloqueada por um homem sombrio oculto pela máscara em forma de labaredas das forças especiais.
— Não permitirei que continue. — Ele falou com a voz abafada e assumiu a posição de combate — Você insulta seus antepassados levantando armas a sua senhora. Pagará com sua vida por esse pecado.
Fong avançou com o um chute médio flamejante fazendo sua oponente recuar. Ela o encarou pouco surpresa e investiu em arco com o punhal que acertou inutilmente o antebraço revestido erguido pelo soldado. O soldado avançou com uma sequência rápida de socos que terminaram bloqueados.
Com a elasticidade de um artista de circo, a assassina saltou para o lado já emendando para uma rasteira evitada por um passo para trás. Um pisão no peito a jogou para trás, ela rolou de costas mal evitando um arco de chamas ao se levantar. Vendo-se sem tempo, a assassina deu uma pirueta para o lado e de suas mangas pequenas estrelas laminadas seguiram para acertar a Senhora do Fogo.
Porem seu fiel defensor já cobria todos os ângulos de arremesso protegendo sua senhora com o próprio corpo. A assassina investiu sobre o soldado ferido e usou seu joelho que cedera para dar impulso e voar na direção da senhora...
Meia dúzia de penas vermelhas surgiram em seu peito e a assassina tombou no chão ensanguentada, furada como uma peneira. Os arqueiros nas ameias se provaram úteis como Fong previra.
— Senhora, está ferida? — Fong indagou quando se ergueu e arrancou as estrelas de seu corpo, a maior parte dos órgãos vitais foram protegidos pela armadura.
— Não fui ferida, Fong. — Ela lançou um olhar de desdém para a assassina morta e sorriu — Yuzushi, sua cadela imprestável! Se pensa que vai me provocar com uma tentativa de me matar em minha própria casa está muito enganada.
Ela sentiu o cheiro muito antes de vê-lo. O decrépito bar de beira da estrada ameaçava vir abaixo a menor brisa de verão. Ela abriu a porta e entrou na escuridão que cercava o interior do estabelecimento. Ali o cheiro da fumaça da fornalha e de bebida fazia os olhos lacrimejarem, sem falar é claro do tipo de pessoa que frequentava aquele lugar. Assim que entrou notou o ringue escavado na terra batida alguns metros abaixo onde dois homens lutavam.
O mais novo era esguio, porém possuía um corpo musculoso e bem definido, tomado por cicatrizes terríveis, e aparentava ser bem rápido. Já o segundo, mais velho, com os cabelos da barba já grisalhos, assumia uma expressão fechada e erguia os braços em guarda que se assemelhavam muito a dois troncos de árvores.
O mais velho avançou rapidamente em disparada com dois jabs rápidos para estabelecer seu alcance. Seu adversário sequer erguia as mãos quando se esquivou e se limitou a rodeá-lo, mantinha a expressão determinada, no entanto era visível pelo seu andar que andara bebendo. O mais velho avançou novamente de guarda alta e desferiu um poderoso direto de direita flamejante, mas foi facilmente dissipado pelo seu adversário. O mais novo sorriu, gostava daquele tipo de velhote durão.
Ela observou calada quando o lutador avançou dessa vez com um chute médio que foi defendido com o cotovelo, causando um grande dor no atacante. Mas o veterano não desistiu. Sob o grito de incentivo do público pagante, avançou com ferocidade distribuindo socos em sequências impressionantes.
Seu adversário se esquivou para trás e, usando as paredes de terra, tomou impulso virando com um chute na mandíbula do adversário mais velho lhe atordoando. Sem dar descanso, deu uma cotovelada no rosto e o jogou por cima do ombro e pisou em seu ombro. Sob os urros da multidão, deslocou o ombro do adversário sem demonstrar remorso ou prazer.
Amigos do homem caído pularam na terra batida e o socorreram enquanto o vencedor apanhava sua camisa num canto e era recebido com tapinhas nas costas. Mas ele não sorria. Quando pode se afastou de seus fãs, que sem dúvidas apostaram em sua vitória, se sentou num canto do bar e pediu uma bebida.
— Então é assim que pretende passar o resto de sua vida? — Lian Fu disse quando se sentou ao seu lado.
Dalai lhe encarou inexpressivo.
— Não devo satisfação a você — ele tragou outra bebida.
Ela o fitou. Estava com a barba por fazer e via claramente as olheiras das noites sem dormir, além do cheiro de bebida impregnado nas roupas e hálito horrível.
— Raidou a mandou? — ele indagou irônico.
— Ele tem ordens para você — ela falou e afastou do alcance do outro um segundo copo de bebida que lhe fora servido.
Dalai bufou bem puto.
— O que ele quer de mim agora? Já não basta a última vez...
— Ordens são ordens. Temos uma guerra para ganhar...
— É mesmo? — ele retrucou seco voltando-se para ela. — Já não basta ele ter assassinado quase uma geração inteira de dominadores de ar e destruir um monumento secular?
Foi a vez de Lian Fu bufar.
— Foram baixas necessárias para tomarmos Kyoshi.
Dalai a encarou e disse cético:
— Ele teria bombeado uma cidade cheia de civis! Então, capitã prodígio, me explique uma coisa: essas pessoas estavam erradas por tentar mudar esse mundo podre em que os poderosos pisam nos pobres?
Um tapa estalou o rosto de Dalai e a capitã disse seria:
— Ganhamos tempo para poder negociar a paz. As vidas perdidas não foram em vão. Mas certamente não me lembro de você ter se importado com ninguém além da sua rainha.
Dalai trincou os dentes.
— Eu não posso voltar, sabe disso...
— Esperava que depois de tudo o que fez iria ficar tudo bem? Você desobedeceu a ordens! Pôs tudo a perder! Teve sorte de não acabar morto.
Dalai atirou algumas notas no balcão e se levantou.
— Derrotei o avatar para eles e como me agradecem? Me exilando do Reino da Terra. Sabe capitã, eles só enxergam um monstro quando olham para mim... Até mesmo ela...
— De um tempo para a rainha, ela acaba de perder seu herdeiro. Ela está confusa e magoada.
Dalai deu um sorriso sem humor.
— Outra promessa que não cumpri — e, dando-lhe as costas, fez seu caminho para fora do bar.
Lian Fu não percorrera toda aquela distância para simplesmente desistir assim tão fácil. Ela o alcançou e agarrou seu braço.
— Está procurando redenção? Não vai encontrá-la aqui seu covarde. Não vire as costas para mim, não fuja do seu povo. Você é o único capaz de terminar com tudo isso.
— Como posso salvar o mundo quando não fui capaz de proteger um bebê?
— Precisamos de você Dalai — ela implorou — Uma nova ameaça surgiu, bem aqui no coração da Nação do Fogo.
— O que quer dizer?
— Yuzushi Atakano está de volta.
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