Capitulo 11 – Fuga

Ba Sing Se, Reino da Terra,

As paredes cavernosas do calabouço real tremeram outra vez com a onda de choque fazendo com que os trabalhadores ocasionalmente sentissem os tremores na superfície. O ar rarefeito e úmido cheirava a urina velha e desespero. O golpe furioso cortou o ar novamente fazendo seu alvo estremecer com a dor. Sob uma máscara de fúria, um homem usava a persuasão dos punhos.

— Onde ela está?! — Dalai gritou para o prisioneiro. Incapaz de se quer esperar uma resposta, ele já preparava outro golpe. No entanto quando seu punho voltou a descer foi interrompido por uma mão forte em seu pulso.

— Vá com calma Dalai! — Lian Fu advertiu o rapaz. Mesmo assim não podia aplacar sua fúria. — Desse jeito ele vai morrer.

Dalai se dignou a deitar um olhar de desprezo em seu prisioneiro, só agora enxergara as feridas em seu corpo e o sangue seco e suor ensopando seu inimigo. Mas Dalai não era um homem que se detinha por pena, tampouco de vagabundo, muito menos de um que sequestrava mulheres grávidas. Não, o desgraçado pagaria.

— É melhor eu assumir daqui. Vá espairecer um pouco, esfriar a cabeça — Lian Fu disse, sem que por um momento soltasse seu parceiro. Dalai lhe lançou um olhar magoado e depois se soltou irritado virando as costas e saindo do calabouço.

Enfurecido caminhou a passos rápidos a distância entre as masmorras do castelo e o salão de reuniões onde Raidou conferenciava secretamente com o Rei da Terra. Dali não se conformara! Como pudera ser tão fraco? Como deixara ser surpreendido pelo inimigo? Fitou então os punhos em carne viva e pensou em Laya e na forma como o olhara quando a salvara do assassino do Ar. Ela pensa que sou um monstro, ele concluiu e tudo que podia pensar era em como provar o contrário, eu realmente não nasci para ser bom. Mas se há bondade em mim foi por sua causa, você é a razão.

— Eu vou te achar, meu amor, eu juro — ele murmurou impaciente enquanto cruzava os corredores — Vou achar quem fez isso a você e quando os encontrar… não restará nenhum para recolher os corpos. — E então chutou a porta com o pé.

As portas se chocaram com força contra a parede em uma estrondosa trovoada. Duas dúzias de generais e conselheiros se viraram para confrontar o rapaz e o que significara essa intromissão. Os guardas do Rei da Terra avançaram rapidamente saindo das sombras e barraram o caminho do dominador de ar. Suas ordens era para que ninguém sem autorização pudesse entrar.

Dalai olhou para os guardas vestindo o verde e então sorriu arrogante enquanto avançava ignorando-os por completo.

— O que significa isso? — o primeiro ministro da Terra indagou fazendo valer sua posição

— Cala a boca que não é contigo! — Dalai gritou para o senhor e bateu na mesa com o punho — Você fica quietinho ai!

Depois atravessou a câmara e parou diante do rei que esboçava uma calma anormal, apenas estudando o homem furiosos a sua frente como se fosse um jogo. Ali ficou alguns segundos, fitando os olhos do marido de sua amada. Olhos duros como rocha que ocultavam qualquer preocupação.

— Em que lhe posso ajudar, Dalai? — o rei perguntou por fim.

— Eu quero respostas!

O rei fechou o rosto em um semblante sombrio. Ninguém dizia a um rei o que fazer!

— Espera entrar dessa forma em meu castelo, ameaça meus subordinados e ainda pretende me dar ordens? Ponha-se no seu lugar plebeu, você não está em posição de querer nada!

Dalai sorriu nervoso, não gostava muito de joguinhos.

— Dalai, é melhor se retirar agora, antes que se arrependa depois — Raidou interveio do outro lado da mesa, preparado para agir. — Vou pedir uma última vez para que saia de forma pacífica...

Mas o rapaz se limitou a um ar de escárnio e ignorou o fato de estar cercado por guardas e pelos dominadores de fogo e terra mais poderosos de suas gerações.

— Quero saber o porquê de ainda não termos enviado um resgate para buscar a Laya — Dalai perguntou sem tirar os olhos dos do rei.

O rei respondeu a altura sem se intimidar:

— Não podemos nos precipitar, estamos em guerra. Cada ato deve ser repensado, agir de forma afobada favorece somente nossos inimigos. E a rainha tinha total ciência dos riscos que trazia a coroa e mesmo assim aceitou esse fardo.

Dalai conteve os punhos e trincou os dentes.

— Já se passaram três dias e nenhuma exigência foi feita pela Lótus Branca ou qualquer outra nação. Só nos resta esperar. — O rei continuou.

Dalai deu mais meio passo e suas mãos foram parar na gola das vestes reais.

— Ela está esperando um bebê, imbecil! O seu filho! E o que você está fazendo, hein? Passando as noites com prostitutas enquanto ela está presa sabe se lá aonde? — Dalai sibilou.

— Exatamente! Meu filho, não seu! A minha palavra é definitiva! — o rei disparou.

— Veremos! — Dalai rugiu e depois, com toda a satisfação, enfiou o punho em seu rosto com toda força fazendo-o envergar para trás — Seu covarde! Seu povo deve se envergonhar de ter você como líder! Espero que se engasgue com seu vinho tinto!

O rei tombou para trás em sua cadeira com as mãos no nariz. Todos os presentes demoraram um instante para processar os acontecimentos. Havia anos que alguém ousara levantar a mão contra um Rei da Terra. Naquele instante Raidou praguejou, por que o garoto tinha de ser sempre assim tão imbecil?

— Guardas! — o rei despertou os guardas que não perderam tempo imobilizando seu agressor.

— Se escondendo atrás de seus soldadinhos? Que grande homem você é! — Dalai uivou quando estava sendo arrastado para fora da câmara.

Lian Fu ofereceu uma garrafa com água para o prisioneiro e assistiu enquanto ele sugava o líquido como se não houvesse amanhã. O que era bem possível dada à situação em que se enfiara. Dalai causara um bom estrago no jovem príncipe. Seu rosto antes de um charme tribal se encontrava agora inchado e cortado pelas rajadas do dominador de ar deixando-o quase irreconhecível, certamente teria morrido se ela não tivesse interferido antes do ogro esmagar seu crânio

— Sei que não pretende nos dizer nada — Lian Fu disse por fim quebrando o longo silêncio. Mas se intimidado Kaijin não demonstrou limitando-se a erguer o queixo em desafio. — Admiro seu espírito.

— Sou leal a minha nação e aos princípios da Lótus — ele declarou.

Lian fu suspirou.

— Sabe o que acontecerá após Firion derrubar a Nação do Fogo? — Lian Fu prosseguiu impaciente — Sem ninguém para se opor a ele não demorará muito para que vista o manto de governante supremo. Liberdade ao povo? Isso é fachada para ocultar seus planos! Com as quatro nações dominadas ele será o mais poderoso do mundo. Manipular as massas para elegê-lo será tão fácil quanto estalar os dedos.

— Diz a mulher que defende tiranos! Firion nunca trairia nossa causa, é para isso que a Lótus Branca foi criada. Para defender a justiça!

Lian Fu riu com a ingenuidade do rapaz.

— Roga sobre liberdade, mas não permite ao Avatar trilhar seu próprio caminho? Forçá-la a guerrear contra seu próprio povo? As milhares de pessoas que vivem no Reino da Terra temem o Avatar que deveria representá-los nessa vida e não os caçar durante a noite! Você acha que os bombardeios se limitaram aos muros do castelo? Os focos de incêndio queimaram várias casas na redondeza, muitas pessoas inocentes se feriram com sua “operação de libertação”.

Kaijin abriu a boca para rebater, mas foi interrompido pelo som dos gritos obscenos de Dalai vindos do corredor. Acompanhado de cinco guerreiros Dai Li, o Filho da Tempestade foi arrastado até a cela ao lado onde foi jogado, surrado e devidamente trancafiado. Os guerreiros Dai Li fizeram um breve aceno para a capitã e partiram.

— E digam aquele covarde do seu rei que eu vou mostrar onde deve colocar sua coroa! — Dalai vociferou quando a pesada porta de metal se fechou.
Lian Fu suspirou e se perguntou por que fora escalada com alguém tão problemático! Será que ele não podia simplesmente ficar calado e evitar confusões? Ou será que seu senso distorcido de justiça era mais importante que sua vida? Seja lá o que se passava na cabeça dos idiotas permanecia um mistério para ela.

— Não me diga que... — Lian Fu indagou enquanto balançava a cabeça — Não acredito que invadiu a reunião! Enlouqueceu? O Rei pode pedir sua cabeça só por levantar a voz contra ele. Quer voltar para Valu por acaso?

Dalai se limitou a calá-la com um aceno de mãos.

— Aquele rei de merda não se preocupa com a Laya! Nenhum deles se preocupa com ela. — Ele disse sombrio apoiando-se nas barras — Não será por meio deles que vou achá-la. — Dalai a fitou nos olhos — Essa aliança já não me é de serventia.

Kaijin começou a rir, parte por já estar zonzo e parte pela ironia.

— Agora se volta contra os seus monarcas? O que vai fazer? Fugir? Você é homem mais procurado do mundo, o inimigo público número um. Se acha que pode simplesmente caminhar pelas ruas está muito enganado.

— Não importa, se entrarem no meu caminho eu apenas vou atropelá-los. Fiz isso a minha vida toda e não vejo razão para parar agora — Dalai disse indiferente.

— Não poderá ajudar a rainha preso nesse calabouço — Lian Fu argumentou — Peça desculpas ao Rei da Terra e quando a encontrarem você terá todo poderio do Reino da Terra ao seu lado. Não seja estúpido de ir sozinho.

Dalai desviou os olhos sombrios.

— Essa não é uma opção — e se virou para um canto, carrancudo.

Ao cair da madrugada Dalai escutou passos apressados vindo do corredor e barulho inconfundível de um molho de chaves. A princípio achou ser sua imaginação, não seria a primeira vez que tinha alucinações por causa dos remédios para dor. No entanto, o som persistia em um timbre ritmado até que as grossas portas das masmorras se abriram em um rangido surdo. Dalai, agora totalmente desperto se remexeu para fora de sua pilha de fenos e espiou pela barra a figura encapuzada que se aproximou.

— Quem é você? — Dalai perguntou quando o ser misterioso parou a sua frente. Então uma mão enluvada puxou para trás o capuz revelando um cabelo grisalho e o rosto de fuinha que Dalai nunca esquecera durante seu tempo em cárcere — Primeiro Ministro? — ele indagou confuso.

O senhor enfiou a chave na fechadura e a abriu o mais silenciosamente que pode.

— Rápido, você tem que sair daqui!

Dalai mancou para fora da cela ainda confuso com os acontecimentos. O que diabos aquele puxa saco do Raidou estava pensando? Isso ia contra todos seus preceitos covardes de político safado! O que estava tramando?

— Por que está me ajudando?

Ele lhe lançou um olhar que Dalai poucas vezes vira em seu rosto: desespero.

— Eu te ajudei porque preciso de você, é o único que pode salvá-la. Cometi um erro em achar que o lugar mais seguro seria ao lado de um rei, agora eu vejo! Dalai, você é o único que pode salvar a minha filhinha, traga minha Laya de volta.

Dalai assentiu com a cabeça e apertou a mão tremula do pai de Laya.

— Não se preocupe, eu vou trazer — ele assegurou.

— Mas como vai encontrá-la? Ninguém tem ideia de onde ela possa estar.

Dalai acenou com a cabeça para a cela ao lado e sorriu:

— Eu não vou, ele vai..