As Crónicas de Hermione
11 Sou mais do que aparento
Notas iniciais
O fim de semana em Hogwarts tinha sido calmo e divertido, as quatros amigas puderam aproveitar o bom tempo que a Primavera tinha trazido. No domingo, tinha havido jogo de quidditch entre Gryffindor e Hufflepuff, Ginny estava em grande forma e a equipa do leão tinha ganho mais uma vez, por uma grande margem de diferença.
Com esta atmosfera de alegria, Hermione preparava-se para começar mais uma semana de aulas. Como era hábito escrevia a sua mensagem para Draco à noite depois do jantar e na manhã seguinte depois do pequeno-almoço, antes de começar as aulas, ia ao corujal enviar o pequeno envelope.
Desde que enviara o poema críptico como resposta à pergunta de Draco Malfoy, este não respondera mais. Ela só continuou a escrever porque Pansy insistia.
Nessa segunda-feira, tomou o pequeno almoço e como hábito foi ao corujal, antes da primeira aula, hoje Pansy fazia-lhe companhia porque de seguida iam ter aula de Defesa Contra as Artes das Trevas com Tonks.
— Pansy, acho que está na hora de desistirmos. O Malfoy não quer responder. Não adianta ter este trabalho todo se ele não quer ajuda.
— Não, Hermione!! — a slytherin ficou imediatamente com lágrimas nos olhos — imploro-te que continues a escrever-lhe! Pensa, as cartas não voltam, não são recusadas. É porque chegam a ele e ele aceita, isso é bom sinal.
Hermione suspirou e lá enviou mais uma carta.
As duas alunas dirigiram-se a sua aula, saudaram Tonks animadamente, e sentaram-se juntas. A meio da aula, quando todos estavam a fazer um exercício, Tonks abeirou-se de Hermione e disse lhe baixinho que precisava falar com ela quando a aula terminasse. A cara da professora mostrava um ar preocupado. Hermione olhou para Pansy que também ouvira o recado, e esta encolheu os ombros. Que será que a professora queria dela?!
Finalmente a aula chegou ao fim, Hermione esperou que todos saíssem e disse a Pansy que a procuraria à hora de almoço, dirigindo-se de seguida à professora.
— Que se passa, Tonks? Pareces preocupada.
— Hermione não tenho boas notícias…
A aluna olhou para a professora a ficar cada vez mais preocupada, e começou a fazer perguntas rapidamente:
— O que aconteceu? Foi o Harry? O Ron? Que lhes aconteceu? Está tudo bem? Conta-me..
— Calma, está tudo bem com eles — respondeu Tonks — o problema é em relação a ti. Hoje de manhã, bem cedo recebi uma carta do ministério, do departamento dos aurores.
Hermione já estava a olhar para ela em pânico. A professora continuou:
— O chefe de departamento pôs-me a par de uma situação singular que está a acontecer, explicou-me que Draco Malfoy — e começou a ler a carta em seguida — “recebe correspondência diária neste momento desde há dois meses. O caso encontra-se em investigação e temos já um agente infiltrado para descobrir mais informações. Até à data descobrimos que a correspondência parte da Escola de Hogwarts mas não conseguimos identificar quem as envia e por isso recorro à tua pessoa, enquanto ex-auror, e pessoa digna que és, apelando aos teus velhos instintos. Na impossibilidade de enviar Harry Potter ou Ron Weasley, aurores atribuídos à investigação, para Hogwarts para fazer um inquérito, queria pedir a tua colaboração nesta investigação. Seguem os dados que temos até agora, pedindo a tua discrição. Pedimos apenas que enquanto professora de Hogwarts, possas estar atenta a quem se dirige ao corujal recorrentemente e que faças uma lista de nomes que depois será analisada pelos aurores responsáveis, assim como prestar atenção à caligrafia das alunas.” — levantou a cabeça e olhou para Hermione, que já estava com lágrimas nos olhos e com ar de quem iria ter um ataque de pânico a qualquer momento, apontou para um volume de folhas um tanto ou quanto extenso, e continuou — Isto é o relatório da investigação, estão aqui cópias das cartas que o Malfoy recebeu desde o dia 1 de Março, e das respostas que ele enviou. Não há nomes, quer dizer o agente que sinalizou o caso e que neste momento está infiltrado em Azkaban, refere inicialmente o nome dos pais, mas depois de analisar dezenas de bilhetes, sugere o nome de Pansy Parkinson. Foi ele quem descobriu que a correspondência partia de Hogwarts. Não há nenhuma tese do porquê destas cartas, e a investigação iria terminar agora, no entanto os últimos desenvolvimentos relançaram a hipótese que tem cúmplices cá fora. Sabes que a caça aos devoradores da morte se mantém, Hermione? Que neste momento tudo é suspeito e tudo é investigado? Tens noção disso, certo? Tens dois amigos que fazem parte das investigações em curso desde o ano passado, e o Malfoy não é apenas um prisioneiro comum, é alguém que pode levar a outros que interessam muito mais do que ele, sabes disso certo?
Hermione estava em pânico. Como é que nunca tinha pensado naquilo?! Como é que pode meter-se nesta embrulhada sem pensar nas consequências?! Era óbvio que um prisioneiro como Draco Malfoy era demasiado importante e que ao receber tanta correspondência iria levantar suspeitas. A morena que sempre pensara em tudo pela primeira vez não o fez, e agora não sabia como iria sair daquela encruzilhada em que se encontrava. Que diriam os amigos, os conhecidos, quando soubessem que era ela que escrevia a Malfoy? Pensariam que era uma traidora? Logo ela? Olhou para Tonks sem palavras, a professora já sabia que era ela. Como explicar tudo sem contar todos os detalhes? Se contasse tudo estaria a trair a confiança de Pansy, iria expor o segredo de Draco. Era melhor defender-se e proteger a sua lealdade àqueles que sempre conheceu ou proteger aqueles que sempre a tinham tratado mal? No fundo ela sabia que não estava a fazer nada de mal, que não estava a trair os amigos, as cartas que tinha enviado até agora não eram suspeitas. No entanto sabia também que as investigações sobre o paradeiro dos pais de Draco continuavam, e ela sabia o que tinha acontecido, podia já ter posto um ponto final a essa investigação que continuava a requerer esforços, que eram ao final desnecessários e podiam ser canalizados para outras investigações.
Hermione levantou-se sem dizer palavra, e começou a andar de um lado para o outro. Finalmente resolveu falar:
— Tonks, tu conheces-me, sabes que não sou nenhuma traidora e se já leste esse relatório com todas as mensagens, sabes que não há nada de mal em tudo aquilo que enviei. Percebo se tiveres de responder e indicar o meu nome, mas nada do que aí está é perigoso. — ela queria contar mais à professora, mas não sem antes falar com Pansy, pois se falasse mais naquele momento iria revelar o que não podia, pelo menos tinha de lhe dar uma justificação — Não sei como te convencer que não sou culpada, mas peço-te que confies em mim.
A professora estava numa posição constrangedora, não era mais uma auror e podia recusar a tarefa de que era incumbida, mas sempre fora leal ao Ministério e acreditava que para a ordem ser mantida, todos tinham de contribuir. Mas ao ver a aluna e amiga à sua frente, em pânico, não podia ficar indiferente. A aluna suplicava-lhe com o olhar e quando fez menção de falar foi interrompida por ela:
— Tonks, dá-me apenas um dia, umas horas, para tentar arranjar as coisas todas, prometo que te explicarei tudo assim que puder e depois poderás fazer o que quiseres. Mas acredita, foram cartas inocentes que enviei, não tive resposta a maior parte delas como podes constatar. O Malfoy não me disse nada. — Hermione contornou o assunto, não estava a mentir, aquilo que sabia sobre o prisioneiro Í¥525 não tinha sido partilhado por este mas sim por Pansy. Quando a professora ia responder, ela só acrescentou — Por favor, dá-me até amanhã.. até ao final do dia!! — ela só queria ganhar umas horas para organizar um plano.
A professora acenou com a cabeça, e aceitou a proposta. Hermione agradeceu e saiu a correr, tinha de encontrar Pansy antes do almoço.
Finalmente encontrou-a quando a slytherin já estava prestes a entrar na aula de História da Magia, o professor ainda estava à porta e Hermione inventou uma desculpa rapidamente, disse que ia para a aula de Poções mas não estava a sentir-se muito bem e pediu que deixasse Pansy ajudá-la para chegar a enfermaria. Assim que a porta se fechou, Pansy olhava chocada para a amiga pois percebera que estava a mentir.
— Hermione Granger, que se passa para andares a mentir aos professores para faltar às aulas?!
Hermione pediu que se calasse e puxou-a para que a seguisse. Já na sua pequena sala de estudo, contou toda a conversa com Tonks, que o Ministério estava a par das cartas, que estavam a investigar e que não tardaria muito a chegar à conclusão que era ela quem as enviava.
— Só uma coisa, Hermione, como é que a Tonks já sabia que eras tu?! — Pansy ouvira a amiga com atenção e aquele pormenor não lhe escapou.
— Quando visitámos Tonks em Hogsmead na última vez que estivemos na aldeia, e eu fiquei para trás, ela já me tinha falado no assunto. Ela percebeu que alguma coisa estava a acontecer. Ela via-me passar todos os dias para o corujal, perguntou-me porquê. Não escondi, ela já me tinha ajudado quando me deu esta sala. Não dei detalhes mas contei-lhe que escrevia ao Malfoy. Ela prometeu guardar segredo, e agora que penso nisso, ainda bem que já lhe tinha contado, pois senão o tivesse feito, quando agora ela recebesse esta carta do departamento, provavelmente desconfiaria logo de mim e podia ter passado essa informação sem me dizer nada.
Pansy concordou que tinha sido melhor assim, também ela ficara em pânico quando ouviu a amiga contar que havia um inquérito em curso, e que ela era suspeita. Não podia atrair atenção para si, não agora que tinha recebido uma nova carta do Blaise.
— Mione, desculpa, fui eu que insisti para fazermos isto. Devia ter pensado que era algo suspeito, que iríamos chamar a atenção sobre o Draco, sobre tudo. O que vamos fazer agora? E se os aurores começam a interceptar todo o correio?! — Pansy já chorava por esta altura, e confessou a amiga — O Blaise escreveu-me novamente no fim de semana, quer encontrar-se comigo, disse me para esperar mais indicações. Eu não sei como o avisar, se ele escreve novamente, e se os aurores apanham a carta antes de mim, pode acontecer uma desgraça. Como é que vamos sair disto? Que porcaria..
Hermione respirou fundo, quando achava que as coisas não podiam piorar, elas pioravam ainda mais. Agora tinha a amiga em pânico porque era a principal suspeita e se abrissem toda a sua correspondência iriam descobrir que contactava com Blaise Zabini, um fugitivo desde o fim da guerra. Tudo iria descambar. Só viu uma solução: entregar-se.
— Pansy, acho que o melhor é pedir a Tonks que me entregue a mim. A verdade é que não vão ter motivos pra nada, os aurores responsáveis são o Harry e o Ron, eventualmente ficarão chateados comigo e não vão perceber o motivo, mas a mim não me vai acontecer nada. Estou pronta para aceitar a responsabilidade. — olhava para a amiga chorosa, que acenava com a cabeça negativamente, mas não dizia nada.
Nesse momento, sentiram um barulho na janela e saltaram sobressaltadas. Viram a pequena coruja cinzenta encostada ao vidro, à espera que o abrissem. Quando o fizeram e a coruja saltou para o interior, viram um papel atado cuidadosamente à sua pata. As duas ficaram em estado de choque, agora compreendiam quais eram os desenvolvimentos que levaram ao reforço da investigação quando já estava no final. Hermione lembrou-se que a Tonks referira que no relatório estavam todas as cartas que ela enviara assim como as respostas de Draco, mas ela só tinha recebido uma. Na hora ela nem pensou quando a professora se referiu às respostas dele, no plural, mas agora que a coruja tinha chegado, Hermione percebeu que eles já tinham tido acesso àquela resposta, souberam antes dela o que ele tinha respondido. Que péssima escolha de momento para o Malfoy responder, pensou Hermione com os seus botões.
Pansy desatou a carta e passou-a a Hermione, dando uma bolacha à coruja que olhou de lado e dispensou, levantando voo para o corujal.
Hermione estava nervosa quando começou a abrir o bilhete, ainda disse a Pansy para ser ela a ler mas a amiga recusou. Passando os olhos pelo texto que Malfoy tinha escrito, Hermione ficou emocionada, e quando a amiga lhe pediu para ler, ela leu tudo com um nó na garganta. Aquele texto mostrava um Draco frágil que questionava tudo o que tinha feito, mas com vontade de mudar, uma pessoa tal como ela, que perdera tudo e queria reencontrar-se com ele próprio, ser apenas ele mesmo e não o que os outros esperavam que ele fosse. Queria ser ele, e não o nome que tinha. Hermione compreendeu de tal forma que ganhou confiança, ela não iria desistir. Iria assumir que era ela a autora das cartas, não havia provas de nada, ela sabia o que tinha escrito e agora o que tinha recebido como respostas, não havia nada no conteúdo que comprometesse a sua integridade. E não precisava expor o segredo de Draco, se um dia ele quisesse partilhar, só lhe competia a ele fazê-lo.
Agarrou em 2 papéis e escreveu dois bilhetes. Pansy olhou para Hermione intrigada, ainda lhe perguntou o que estava a fazer, mas a amiga pediu-lhe silêncio, e continuou a rabiscar nos papéis.
Hermione não queria perder o fio de ideias, queria responder a Draco o quanto antes, aquelas perguntas finais não lhe saíam da cabeça: “Como podes garantir que posso ser outra pessoa no futuro? Como é que me posso escolher a mim? Como é que posso ser eu, se ser eu, é ser tudo isto?”, respondeu-lhe que a vida é feita no presente e não no passado, somos constituídos por ele mas não é ele que nos determina, é o que escolhemos no presente que vai determinar quem somos de verdade. Terminou com uma frase de um filme muggle que tinha visto há uns anos, era um filme de animação e como sempre tinha muitas lições de moral que se podiam guardar para a vida: “Sim, o passado pode doer. Mas do modo como eu vejo, você pode fugir dele ou aprender com ele.”
O segundo bilhete ela ia enviar para Harry, ia pedir lhe que viesse a Hogwarts urgentemente com Ron. Se ia confessar que escrevia a Malfoy, preferia fazê-lo de uma só vez aos amigos, sabia que era a eles que devia uma justificação, pois não tendo cometido nenhuma ilegalidade, sabia que ambos teriam dificuldade em aceitar o porquê, e muito provavelmente a conversa terminaria mal sobretudo da parte do Ron que consideraria aquilo como uma traição pessoal. Fosse de que maneira fosse, ela não iria recuar, não tinha medo de defender aquilo em que acreditava e de proteger quem naquele momento precisava dela. Não iria deixar de ser ela própria para que os outros a aceitassem, não quando estava precisamente a dizer ao Malfoy que a vida era aquilo que cada um escolhia no presente, sem medo do que os outros pensam.
Contou então a Pansy o que pensava fazer. Iria enviar primeiro a carta para Harry, e de seguida iria falar com Tonks. Não iria contar o segredo de Draco que a amiga lhe tinha confidenciado há muito tempo, a única coisa que partilharia é que das conversas com Pansy percebera que as coisas não eram como pareciam e que quis ajudar o Draco, inocentemente. A carta para Draco iria ser enviada depois da conversa com todos, faria questão de lhes esfregar na cara que não tinha nada a esconder, que podiam ler o que quisessem e que ela não iria parar de enviar estas cartas, mesmo que eles não aprovassem o seu comportamento. Exigindo que eles não interferissem, nem contassem quem era a autora das cartas.
Pansy olhava espantada para amiga, como é que de repente ela estava tão calma e tão decidida com tudo, aquilo ia mudar tudo na vida de Hermione. Os seus amigos iam ficar chateados, ela seria vista de lado por toda a gente quando se soubesse (sim, porque tudo se sabia naquela escola), e tudo para ajudar um tipo que apenas a tinha maltratado ao longo de toda a vida que se tinham conhecido. Ela abraçou-a, chorava e perguntou-lhe:
— Porque fazes isto tudo? Porque fazes isto por pessoas que só te trataram mal? Só penso como fui estupida antes, como te tratava. E agoras estás aqui, a defender-me, a defender o Malfoy.
— Faz parte de mim, Pansy. Não consigo ver injustiças e ficar quieta. Não consigo ver alguém ser maltratado e ficar quieta. Não suporto isso, mesmo que neste momento aqueles que precisam tenham sido um inferno pra mim no passado. Mas lá está, é passado. Como podia estar aqui a dar conselhos, a ti e ao Draco, para guardar o passado onde ele merece estar, e depois fazer outra coisa? Eu não sou assim.
Pansy Parkinson estava de boca aberta, finalmente tinha encontrado uma amiga que valia a pena. Admirava a sua coragem e a sua compaixão para com os mais fracos, ela nunca foi assim. Agora estava a aprender aos poucos. Abraçou a amiga mais uma vez, apertou-a contra si e agradeceu-lhe. Hermione esperneou e riu-se ao afastar-se de Pansy. Disse-lhe que a melhor maneira de lhe agradecer, era fazer ela própria o mesmo: fazer o bem, sem olhar a quem.
Com tudo isto, nem viram o tempo passar, e a hora de almoço já tinha acabado também, saíram da sala e Hermione despediu-se de Pansy, disse-lhe que iria ao corujal e depois iria procurar Tonks, mas ela podia voltar às aulas, para não levantar suspeitas.
A coruja para Harry saiu logo de seguida, Hermione esperava que o amigo a recebesse o quanto antes e que viesse logo para Hogwarts, ela tinha sido muito clara que o assunto era urgentíssimo. Conhecendo-o, sabia que o amigo iria largar tudo para vir ver se tudo estava tudo bem. Ainda não sabia como lhe ia dizer a verdade, não estava preparada para ver um olhar de desilusão nele. Do Ron ela já sabia, já tinha visto esse olhar quando ele soube da amizade com Pansy, agora ficaria ainda mais enojado. Mas Harry sempre a defendera, sempre a tratou como uma irmã, e agora ela ia desiludi-lo.
Hermione desceu ao corredor da sala de Tonks e bateu à porta, abriu-a quando a professora mandou entrar, e passou a ombreira de cabeça baixa. A confiança que tinha adquirido na sala de estudo começava a ficar mais frouxa, agora que tinha de começar a contar tudo, mesmo que Tonks já soubesse. Talvez por isso a professora tenha decidido brincar com ela:
— Ora, senão é a defensora dos coitadinhos, sejam eles humanos, animais ou devoradores da morte!! — ao ver que Hermione não se riu e ainda ficou mais acabrunhada, voltou a falar — Vá lá, Hermione, até tive piada!!
— O pior é que até tens razão, Tonks!! Tenho esta coisa em mim de tentar sempre proteger os mais fracos, sejam eles o que forem. Eu ouvi o teu conselho em Hogsmead, eu não quero salvar o Draco, mas não quero que ele morra. E se puder ajudar, porque não o hei-de fazer? Quer dizer que há humanos que merecem mais do que outros, que uns são de primeira e outros de segunda? Mas isso era o que eles diziam, o Voldemort e os seus devoradores da Morte, queremos mesmo ser iguais a eles? Não era suposto sermos melhores? Mas se tratamos os prisioneiros de guerra da maneira que estão a ser tratados, não somos melhores do que eles. Não lhes estamos a dar oportunidade de se redimir, de aprenderem, de mudar. Agarrámos nos criminosos, e prendemo-los em Azkaban como sempre se fez, torturamo-los como sempre se fez. E quando saírem? É suposto que eles tenham mudado do nada? Como vão ser inseridos na sociedade, se provavelmente saem mais loucos do que entraram? A meu ver, se pudesse ajudar um que fosse, já valia a pena. Calhou ser o Draco, a minha aproximação com a Pansy, levou me a pensar nisso. Aconteceu assim, e não me vou arrepender por ter tentado fazer o bem. Até porque acho que consegui. Leste a última carta, certo? A resposta que me enviou e que todos leram antes de mim, percebeste que ele quer mudar? Que está numa fase de reflexão, de construção interna? Podem dizer o que quiserem, mas para mim já valeu por tudo.
Tonks não a interrompeu uma única vez. Ouviu atentamente, e só falou quando percebeu que a aluna não tinha mais nada a dizer.
— Tens a certeza que não queres trabalhar no Ministério?! Acho que em três tempos serias a nova Ministra da Magia. Quem fala assim, não é gago. Tens todo o perfil para trabalhar num Ministério, és diplomata e preocupada, farias uma grande diferença no Ministério com as tuas ideias, as coisas podiam melhorar verdadeiramente. Caramba, fiquei sem saber o que dizer, a não ser que por esse prisma tens razão. E agora falando mais seriamente sobre o assunto, já li este relatório várias vezes, e eles não têm qualquer caso. Percebo que tratando-se do Malfoy eles queiram encontrar aqui informações sobre os pais, mas a única coisa que vejo e segundo a minha experiência enquanto auror, são cartas de uma adolescente enamorada do Malfoy, e isso não deve faltar em Hogwarts, mesmo que ele seja um criminoso. É isso que vou responder ao chefe do departamento de aurores.
Hermione estava chocadissima, percebeu que a professora ia responder aquilo para a proteger, mas ela não ia aceitar, ela não estava apaixonada por Malfoy. E se ela levantasse essa suspeita, se um dia a verdade viesse ao de cima, seria ainda pior.
— Tonks, eu não estou “enamorada” do Malfoy. Não podes dizer isso. Eu vim ter contigo porque já tomei uma decisão. Já pedi ao Harry para vir a Hogwarts com o Ron, e vou admitir isto tudo que admiti para ti, é a verdade, não a vou esconder, não tenho porque mentir. Não fiz nada de mal, não há nada de errado, nem sei nada que lhes interesse, pois o Malfoy nunca me respondeu nada de jeito, como podem ver em tudo o que têm.
— Tens a certeza, Hermione? Tens noção que o Harry e o Ron poderão não aceitar isso, e provavelmente vão irritar-se, chatear-se contigo?! É isso mesmo que queres fazer? Terás o meu apoio se assim for.. — olhou a aluna nos olhos e esta acenou lhe afirmativamente, mostrando uma confiança que não tinha quando entrou na sua sala. — Ok, vou respeitar. Quando o Harry e o Ron chegaram podemos falar todos. Será mais fácil.
Hermione agradeceu o apoio, iria fazer-lhe bem ter uma pessoa como a Tonks na sala quando contasse tudo de novo, sobretudo agora que contava com o apoio dela. E já se preparava para sair, quando a professora a chamou novamente:
— Hermione?! Tens a certeza que não tens sentimentos pelo Malfoy? Analisando o relatório de fora, a minha resposta foi honesta. Se ainda estivesse no departamento, e isto me chegasse às mãos, deitaria fora pois o que vi foi bilhetes amorosos, sem informação, sem códigos. Tenho alguma experiência no assunto, não é fácil enganar-me. — vendo que aluna respondia que não veemente, ela concluiu — Tudo bem, não insisto, se dizes que não sentes nada pelo “Draco”, eu faço de conta que acredito.
A professora enfatizou o nome próprio do rapaz, fazendo aspas com as mãos, como para mostrar que tinha percebido que a rapariga tratou o “inimigo” várias vezes pelo seu nome. Tal não era normal, era um facto. Mas não era importante, refletiu Hermione quando fechou a porta do gabinete depois de insistir que não se passava nada, foi um lapso apenas por ouvir a Pansy falar tanto do Malfoy.
Hermione resolveu procurar pelas amigas pelo castelo, tinha acabado por faltar a todas as aulas. Queria falar também com Ginny e Luna antes de falar com os dois amigos que tinha convocado. Estavam todas num corredor, depois de a última aula ter acabado. Viraram-se todas para ela ao mesmo tempo, Pansy com um ar um tanto ou quanto envergonhado, pois já sabia o que se passava. Ginny começou logo a fazer perguntas:
— Hermione, onde andaste? Desapareceste durante todo o dia, que aconteceu?! Estás bem?
— Calma, Ginny. Vou contar tudo, sim aconteceram algumas coisas, e é melhor que saibam de tudo por mim. Vamos até a minha sala para que possa explicar tudo sem ninguém nos interromper, e sobretudo que ninguém nos ouça.
Quando já estavam na salinha de estudo, Hermione contou tudo, com todos os pormenores sobre o que escrevia, sem esconder nada a não ser o segredo de Malfoy, a morte dos pais. Depois de ter contado tudo, esperou que as amigas falassem. Pansy manteve-se calada com um olhar agradecido por não ter partilhado nada sobre ela e sobre os seus segredos. Mas Ginny estava chocada e Luna mesmo não transparecendo o mesmo choque, notava-se que tinha perguntas.
Ginny barafustou, era explosiva como Ron, gritou inclusive com ela, enquanto dizia que não fazia sentido nenhum ela querer comunicar com Draco Malfoy. Ele era um fuinha, cruel, que a maltratou sempre que possível. Ela estava louca em querer ajudar tal sujeito.
Luna no entanto interrompeu-a, dizendo-lhe que não tinha o direito de dizer aquelas coisas à amiga. Tinham de avançar, não se podia viver no passado, e os motivos de Hermione eram válidos, todas as pessoas mereciam uma segunda oportunidade.
Hermione explicou que tinha pedido a Harry e Ron para virem à escola, e contar-lhes-ia tudo desde que chegassem. Aí Ginny refletiu em tudo, e acabou por dizer a amiga que isso sim, seria complicado, pois até o Harry teria dificuldade em compreender aquela história. Acabou a desejar-lhe boa sorte para os encarar. Hermione engoliu em seco, desde que tomara aquela decisão, era precisamente aquilo que mais temia, a reação do seu amigo-irmão, que ela admirava e amava. A opinião dele era importante para ela, agora que estava sozinha no mundo.
Ficaram todas na sala, em silêncio durante um bom bocado, até que Ginny falou novamente:
— Bom, agora já não há nada a fazer. O que for, será. Por isso vamos jantar, que já são horas e tenho fome.
Acabaram todas a rir, realmente Ginny tinha esse condão, de transformar um mau ambiente, numa galhofa. Saíram da sala quando anoitecia, em direção do Salão Principal. Hermione acabou por se aperceber que não tinha comido nada desde o pequeno-almoço, e também estava com fome.
Durante o jantar, quando já estavam quase a terminar, as portas do salão abriram-se e por elas passaram Harry Potter e Ron Weasley, quais vedetas, fizeram virar a cabeça de todos os alunos e professores. Os comentários começaram, os alunos mais novos ficaram deslumbrados. Ginny revirou os olhos perante o aparato e Hermione encolheu-se, estava a perder toda a confiança que conseguiu juntar durante o dia, agora que via os dois amigos mais leais, que procuravam por ela entre os alunos. É óbvio que pensaram que alguma coisa de grave tinha acontecido pra ela os chamar assim de forma tão urgente. Ela não sabia onde se enfiar, Pansy agarrou-lhe a mão, e disse-lhe baixinho: Coragem!!
Mcgonnagall viu os dois rapazes entrar e levantou-se, dirigindo-se imediatamente a eles para saber o que se passava. Hermione viu os 3 falarem, e viraram-se ao mesmo tempo na sua direção, ela sentiu que estava a ficar vermelha que nem um tomate. A seguir, viu-os dirigirem-se para a sua mesa. Cumprimentaram os presentes, Harry cumprimentou Ginny com um beijo rápido e Ron olhou de lado para Pansy, suspirando que no seu tempo Hogwarts estava melhor organizado, o que fez com que Mcgonnagall o repreendesse como se ainda fosse um aluno da escola, dizendo-lhe que nestes novos tempos não havia lugar para este tipo de preconceito. Hermione esperava que ambos guardassem aquele pensamento.
Nesse momento, Tonks juntou-se ao grupo, olhou para Hermione. E esta falou:
— Harry, Ron, obrigada por terem vindo tão rapidamente. Preciso falar com os dois. — e quando viu que estes iam começar a falar, interrompeu-os — Vou já explicar tudo, mas vamos sair daqui para ter alguma privacidade.
Tonks propôs que fossem falar no seu gabinete, e Mcgonnagall olhou para outra professora sem perceber nada. Estava disposta a virar costas, mas Hermione chamou-a e pediu-lhe para estar presente também, a professora, agora directora, sempre tinha sido um exemplo para a jovem e queria que ela estivesse presente.
Já no gabinete de Tonks, o grupo estava em silêncio à espera que Hermione falasse.
Hermione demorou um instante mas resolveu falar tudo de uma vez, rápido, iria custar menos.
— Harry, Ron, chamei-os aqui porque hoje soube que vocês fazem parte de uma investigação em curso sobre Draco Malfoy.
Os dois rapazes olharam para amiga sem perceberem como ela sabia daquela investigação, Harry não tinha contado sequer a Ginny sobre isso. A professora Mcgonnagall ficou espantada, pelo motivo daquela reunião ser Draco Malfoy. Ron olhou de Tonks para Hermione e percebeu que havia ali qualquer coisa. Foi a vez de Tonks falar:
— Recebi uma carta do departamento de aurores hoje de manhã cedo, com o relatório da investigação. Sim, fui eu que contei a Hermione. — terminou cedendo a palavra à jovem de novo.
— Desde que voltei para Hogwarts muita coisa mudou, tornei-me amiga de uma pessoa que nunca pensei ser possível — olhou para Pansy, ouvindo Ron resmungar qualquer coisa entre os dentes — tentei desde o início compreender as novas circunstâncias em que todos nos encontramos, a vida mudou para todos, e as guerrinhas de antigamente deixaram de fazer sentido. Não quis que o passado interferisse nesta nova fase e passei uma borracha em tudo. Foi aqui que tudo mudou, eu mudei com tudo o que me aconteceu no ano passado, porque é que as outras pessoas não podiam ter mudado também?! Este ano tem sido pacífico como nenhum outro ano em Hogwarts, e pela primeira vez pude ser eu mesma, sem ser apenas a sabe-tudo que acompanhava o Harry e o Ron. — viu os amigos começarem a dizer que nunca se pôs aquela questão, que ela era a Hermione, mas continuou — escutem, nunca estive sozinha e desde o ano passado que estou só no mundo, eu sei com quem contar mas ao mesmo tempo sinto-me vazia desde que perdi os meus pais de vez, e nenhum de entre vós o consegue entender. Eu tenho a sorte de ter amigos que podem colmatar os meus momentos mais frágeis, mas há quem não tenha essa sorte. E foi no meio de muitas conversas com Pansy que comecei a pensar nesse assunto.
Engoliu em seco, a pensar como dizer de uma vez que se preocupou o suficiente com Draco para lhe escrever, antes que começassem todos a falar sobre ela, deitou tudo para fora de uma só vez:
— Enviei uma carta para Draco Malfoy no Natal. — o drama, o choque, o horror, foi o que viu no olhar daqueles que ainda não sabiam de nada. — Sim, entendi que ele precisava de uma palavra amiga, mesmo que toda a vida tenhamos sido inimigos. Mesmo sabendo que se fosse ao contrário, ele não faria o mesmo por mim. Mas pensei apenas que era uma pessoa, que estudou aqui, e que estava preso, já a pagar pelos crimes que cometeu, sozinho no Natal. Pelo menos teria uma palavra amiga nessa época.
Harry e Ron levantaram-se ao mesmo tempo, o primeiro visivelmente desiludido e o segundo com ar enraivecido. Ron começou a gritar:
— És uma idiota, ou melhor, eu sou um idiota. Terminas comigo no Natal com desculpas esfarrapadas e afinal andavas a mandar cartinhas ao Malfoy. Era por isso que já não servia para ti, eu Ron Weasley que sempre te tratou bem, não servia, mas Draco Malfoy que tem nojo de ti por seres uma sangue de lama, já serve?!
Neste momento, amigas e professoras interromperam o discurso de Ron, e até Harry lhe chamou a atenção para as palavras usadas. Ron continuou a berrar, dizendo que não entendia, que de todas as pessoas, Hermione devia ser a última a preocupar-se com a fuinha de cabelos loiros, era um criminoso, e para ele a pena aplicada até tinha sido muito leve, devia ter apanhado muito mais anos para ver se aprendia uma lição e dizia de uma vez onde os pais andavam escondidos. Que eram uma estirpe tão odiosa que nem queriam saber do filho, e ela andava a preocupar-se com aquela besta.
Harry pediu ao amigo que se calasse, e foi a vez dele falar, aproximou-se de Hermione para a olhar nos olhos, e falou calmamente, notava se que estava desiludido com as ações da amiga, mas que queria entender:
— Porquê Hermione?! As palavras do Ron foram fortes, mas disse uma verdade: se nem os pais do Malfoy querem saber dele, porque raio é que tu queres saber?! Porque não foi a Pansy a enviar-lhe a carta com palavras amigas?!! Porquê? Queres ver se ele se descai e diz onde estão os pais? Resolveste investigar por conta própria se foi mesmo o Lucius que matou os teus pais, enganando o filho? É que é a única coisa que faz sentido neste momento. — Hermione olhava para ele com os olhos marejados de lágrimas, o seu amigo gostava tanto dela que queria ter uma resposta lógica para aquela situação, e para ele a lógica seria uma vingança contra todos os Malfoy. Iria desiludi-lo mais uma vez.
Pansy que tinha ouvido tudo atentamente, orgulhosa por Hermione estar a assumir que estava a ajudar um amigo seu, esteve a um passo de dar um murro no Ron quando ele foi um ordinário para a amiga, mas agora a conversa de Harry era outra. Primeiro, tinha razão que devia ter sido ela a enviar a carta no Natal, como amiga que se dizia ser, devia ter ignorado a “ordem” de Draco para não lhe escrever mais e mostrar-lhe que pensava nele, que não estava sozinho, mas ela ainda tinha muito para aprender com Hermione. E depois, seria possível que tudo aquilo fosse um plano de Hermione? Ela nunca lhe tinha contado da hipótese de o assassino dos seus pais ser o Lucius Malfoy, se o tivesse feito, ela tê-la-ia informado que isso não era possível.
— Potter, não escrevi ao Draco no Natal porque já tinha escrito antes e ele me proibira de lhe voltar a escrever, e como não tenho o bom senso da Hermione, aceitei a vontade dele e respeitei. Tinha contado tudo à Hermione, foi talvez por isso que ela tomou a iniciativa de lhe escrever — Pansy sentia necessidade de se justificar, por ser uma amiga tão desnaturada, em seguida virou-se para a amiga morena — Mas, Hermione, não sabia que tinhas essa dúvida em relação a Lucius Malfoy, não sabia sequer que tinham levantado essa hipótese e que estavam a investigá-los por isso. Porque não me contaste?
— Porque até eu tenho dúvidas dessa teoria, porque eu sei pensar por mim, e desde o início que nunca fez sentido para mim que o Lucius Malfoy tivesse ido de propósito a Austrália para matar os meus pais. Mas sim sabia que ele estava a ser investigado por isso.
— Estava, não, ESTÁ. — corrigiu Ron, atento — Porque eu não vou desistir de o apanhar e de o trazer à justiça. Ele tem de pagar por tudo o que fez.
— Pois eu sei que não foi Lucius Malfoy que matou os pais da Granger — Pansy dirigiu-se a Ron de forma sarcástica, e arrogante, como a Pansy de antigamente. — E se ela já me tivesse contado antes desta suspeita, eu já teria acabado com ela há muito tempo. — olhou para Hermione enquanto falava. — Como te contei depois da Páscoa, o Draco voltou ainda mais sorumbático das férias, sempre preocupado com a mãe. Ele escrevia-lhe várias vezes para saber se estava bem, e ela falava sempre que o pai estava insuportável.
— Ah é essa a tua prova da inocência do Lucius Malfoy neste caso?! Cartas da mãezinha do Draco a dizer que o paizinho estava em casa muito mal?! — Ron ria-se ironicamente enquanto falava — é que vou já acreditar… Deixa-me pensar, também dizia nas cartinhas que o pai era uma jóia de senhor?!
— Cala-te imbecil, já não posso ouvir a tua voz. É assim que trabalhas?! É que basta começares a falar e qualquer um confessa tudo só para deixar de te ouvir… — Pansy continuava a ser uma slytherin quando queria, respondia como uma víbora.
Mcgonnagall e Tonks viram que a conversa ia começar a azedar e intervieram, pedindo calma, não era hora de falarem naquele tom, estavam ali para resolver assuntos mais importantes.
Pansy pediu desculpa por se ter exaltado, mas se Ron continuasse a insultá-la a ela, à Hermione e aos seus amigos, ela iria perder a paciência a sério. Mas lá continuou a falar:
— Como o Draco estava tão em baixo por isso, disse-lhe que ia pedir à minha mãe para arranjar uma maneira de tirar a mãe dele da mansão. E assim fiz. No mesmo dia a minha mãe respondeu-me que já tinha estado com a Narcissa, e o plano era ela levá-la para França para passar uns dias para descansar. Mas o Lucius não deixou, ou melhor, fez-se de convidado e disse a minha mãe que ia também. Por isso durante duas semanas a seguir à Páscoa, mais ou menos, os Malfoy estiveram com os meus pais em França. E sim, os meus pais podem confirmar que o Lucius esteve sempre lá, ele foi horrível para todos e já ninguém o suportava. Se bem me lembro, Hermione, disseste que os teus pais morreram uns dias depois da Páscoa, quando um Devorador da Morte entrou no país. Ora, o Lucius e a Narcissa foram para França dois ou três dias depois da Páscoa, e voltaram uns dias antes do dia 02 de maio. Ele não foi a Austrália, alguém se teria apercebido lá em casa. Podem perguntar aos meus pais. — voltou a repetir a jovem morena quando viu o ar incrédulo de Harry e Ron
— A palavra deles não vale grande coisa… — disse Ron amargamente — mas iremos interrogá-los assim que possível, temos maneira de saber se estão a mentir ou não. É muito conveniente terem um álibi para o senhor Malfoy.
Pansy já ia explodir, se Hermione não lhe agarrasse o braço, provavelmente a outra iria esmurrar o auror Ron.
— Não é álibi nenhum, é a verdade! — respondeu Parkinson — quero lá saber do que acontece ao Lucius, fez tanta coisa horrível que matar os pais de Hermione seria apenas mais uma. Não temos motivos para o proteger.
— Obrigada Parkinson, pela informação! — Harry conseguia ser educado e profissional. — Iremos falar com os teus pais para confirmar, mas pelo menos podemos fechar este caminho da investigação e recomeçar, mas não temos qualquer suspeito neste caso. — olhou preocupado para Hermione.
No meio desta conversa surpreendente em que Pansy acabou por eliminar Lucius Malfoy como suspeito do assassinato dos pais de Hermione, quase se esqueciam do verdadeiro motivo de estarem todos ali. Mas claro que Ron fez questão de trazer o assunto principal para a conversa novamente:
— Então se já excluímos o Lucius como assassino dos teus pais, e tu confirmaste que nunca consideraste essa hipótese viável, podemos também excluir que contactaste o Malfoy mais novo para te vingares, para obteres informações que ajudassem a investigação em curso? Certo, Hermione? — Ron dirigia-se a ela de forma fria como se ela fosse suspeita de alguma coisa, como se ela tivesse feito alguma coisa de grave.
— Certo, Ron! Já disse o motivo porque contactei o Malfoy, porque é um ser humano e merece ser tratado como tal. Mesmo que ele me tenha feito tudo o que fez, mesmo que ele fosse o chefinho dos puro-sangue que nos maltratava na escola. Isso parece que foi há uma eternidade, tanta coisa mudou… não vou ficar presa ao ódio do passado. Já disse a Tonks, a maneira que estamos a tratar os presos de guerra não é diferente da maneira que eles pretendiam governar o mundo, como se tivesse de haver sempre uns melhores do que outros. Mas seremos assim tão melhores do que eles se insistimos em torturas, em maus tratos, em fechar prisioneiros sem qualquer intuito de os reabilitar? Somos superiores a eles porque somos “bons”, mas somos bons apenas para quem é bom? De que serve isso? Não devíamos ser bons para todos? Somos todos humanos. — virou-se para Harry, e terminou — Harry, eu sei que estás desiludido, mas ainda me lembro de uma conversa que tiveste com o Sirius em que ele te disse: “O mundo não se divide em pessoas boas e más. Todos temos luz e trevas dentro de nós. O que importa é o lado pelo qual decidimos agir. Isso é o que realmente somos!”, só te peço que me dês o benefício da dúvida em relação ao que estou a fazer, a Draco Malfoy. Todos podemos mudar.
A sala ficou em silêncio, ouvia-se a respiração de todos mas ninguém ousava falar, todos pensavam nas palavras de Hermione. Ninguém tinha ficado indiferente. Era um facto que a jovem sabia falar bem, sobretudo quando era sobre uma causa na qual estava empenhada. Como ninguém falava, Hermione acrescentou:
— Lamento se os desiludi por ser quem sou, não vou pedir desculpa por fazer o que está certo. Acredito piamente que estou a fazer o correto. Podem ler os relatórios, as minhas cartas, a respostas, nada do que está aí é incriminador. E mais, eu não vou parar, eu vou responder ao Malfoy, eu vou ajudá-lo a sair daquele sítio com alguma sanidade, quer vocês queiram, quer não.
Harry foi o primeiro a falar:
— Hermione, admito que fiquei desiludido. Não via lógica nem sentido nenhum para andares a trocar correspondência com o Malfoy. Mas conheço-te tão bem que sei que estás a fazer isso de coração, que senão fosse o Malfoy, haverias de descobrir outro pra ajudar. Sei do que falas, já estive em Azkaban algumas vezes e sei que não há condições nenhumas ali, que o tratamento que se dá aos prisioneiros não é muito diferente de antes, mesmo que o Kingsley tenho pedido para mudarem. Penso no que o Sirius terá passado ali, ainda mais que ele era inocente. Tenho de concordar contigo que todos temos luzes e trevas em nós, mas como podes ter a certeza que o Malfoy tem alguma luz?! Como podes saber se ele vai recuperar e deixar de ser o monstro que era? Vale a pena, perderes tempo com isso? Provavelmente ele nunca vai mudar.
— E se mudar, Harry? E se houver uma hipótese de salvarmos uma pessoa que foi apanhada no meio disto tudo sem ter outra escolha? Nós também fomos envolvidos nisto tudo sem quereremos, mas como estávamos do lado do bem não nos questionámos.
Todos ouviam, e concordavam que se devia dar uma segunda oportunidade a Malfoy, afinal tinham exemplos daquilo que a jovem aluna falava. Mcgonnagall no seu papel de directora, sábia como sempre, referiu o exemplo de Snape, se Dumbledore não lhe tivesse dado o benefício da dúvida, nunca teriam conseguido alcançar a vitória, pois foi graças ao falecido diretor ter confiado no ex-devorador da morte que muito se soube do outro lado, e foi ele que protegeu Harry constantemente, mesmo quando ele agia como um verdadeiro discípulo de Lord Voldemort. Pansy deu o seu exemplo, mesmo que tivessem dúvidas acerca dela, ela tinha mudado.
O único que era completamente contra era Ron, defendeu sempre de forma acérrima que o Malfoy não merecia nenhuma compaixão, devia pagar pelo que fez, assim como todos os outros:
— Não vou aceitar nunca que tenhas mudado de lado, que andes a defender um slytherin como se fosse um velho amigo que cometeu um erro sem consequências! Se pretendes continuar com esta palhaçada, para mim a nossa amizade fica por aqui! — o jovem auror olhava de forma inquisitória para Hermione.
A jovem gryffindor susteve o olhar e replicou:
— Se não consegues entender o meu ponto de vista, se não consegues olhar para um ser humano e ter compaixão por ele, independentemente das suas ações, tenho pena mas se calhar realmente não somos amigos. Todos erramos, e não estou a pedir para esquecermos o passado, antes pelo contrário, eu estou a dizer que conhecendo o passado, mudemos o futuro!!
Ron respirou fundo, e falou-lhe rispidamente:
— Então não temos mais nada para falar, se queres ser amiga do Malfoy, força!! Quando ele te tratar como uma sangue de lama novamente, não contes comigo para afogar as mágoas. — virando-se para Harry, terminou — Espero-te na entrada, não estou mais pra isto. Se quiseres, tenta tu fazer-lhe ver que está a fazer figura de idiota. Que é vergonhoso o que ela está a fazer, com ela e connosco. — olhou para Hermione de lado e virou-se para sair.
As professoras, Tonks e Mcgonnagall, estavam de boca aberta quando Ron virou costas para sair, nunca tinham visto o rapaz reagir assim, chamaram-no para lhe fazer ver as coisas de outra maneira, mas ele continuou em direção à porta. Harry chamou-o, Ron parou:
— Ron, fica, vamos resolver isto como deve ser. Quem é que esteve lá para nós quando tudo corria mal?! Foi sempre a Hermione, que nos ajudou, que pensava em tudo, que se preparava para tudo. Não vires as costas a isto. Também não me agrada esta história — e olhou para Hermione — Mas ela é minha amiga, é minha irmã, e eu confio no instinto dela, no julgamento dela. Mesmo discordando eu vou apoiá-la, e não quero sair daqui com os meus melhores amigos chateados.
Hermione ficou de tal maneira emocionada com as palavras de Harry, que deixou as lágrimas caírem, aproximou-se dele, agarrou lhe a mão e agradeceu.
Da ombreira da porta, Ron ainda respondeu:
— Faz como quiseres, mas não insistas ou perdes um amigo e eu saio daqui sem ninguém. Se preferem unir-se pra ajudar o Draquinho, se calhar o melhor é mesmo eu afastar-me.
— Ron, não é nada disso. Penso o mesmo do Malfoy, mas também me lembro que ele não me denunciou quando nos levaram para a mansão, ele podia ter dito imediatamente quem eu era, ou achas que ele não me reconheceu? Ele viu-te a ti e a Hermione, e não disse nada. A mãe dele protegeu-me, se estou vivo é por causa dela. Pra mim é suficiente pra lhe dar o benefício da dúvida, e tentar que ele endireite a vida quando sair de Azkaban. Se alguém o pode ajudar é a Hermione, se ela está disposta a fazê-lo, eu confio nela, e vou apoiá-la. Achas que podes fazer o mesmo? Confiar no discernimento dela?
— Não. — Ron foi curto, sem volta a dar, e fechou a porta ao sair.
Hermione continuava a chorar, agradecida por Harry a compreender, por ele confiar nela e ainda a apoiar, a amizade dele valia ouro, não podia pedir mais. Mas magoava-a que o Ron saísse dali assim, zangado com ela e quase chateado com o Harry, não era nada daquilo que ela queria. Ginny pôs-lhe a mão no ombro, apertou-o e disse-lhe que ia falar com o irmão, ela entendia o lado dele, o Draco Malfoy sempre tinha zoado com eles, desde crianças, apenas porque eram pobres, sempre os rebaixou, e agora estavam numa posição inversa, e ela depois de ter terminado o relacionamento estava a ajudar essa pessoa que ele odiava desde sempre. Saiu a correr para apanhar o irmão e tentar meter-lhe algum bom senso na cabeça. Chamou Luna para ir com ela.
Como já era tarde, Mcgonnagall anunciou que se não precisavam mais dela, ia dar uma volta aos corredores e ia recolher-se.
Hermione ficou com Harry, Pansy e Tonks. Agora que tinha o apoio do seu melhor amigo, ela estava mais leve, não podia mais dizer que estava sozinha. Essa era a diferença dela com Draco Malfoy, ela tinha alguém que se preocupava com ela e que a amava tanto, que a apoiava mesmo quando não tinha toda a razão. Explicou que ia enviar na manhã seguinte uma nova carta ao Malfoy, e perguntou ao Harry o que aconteceria à investigação, explicando-lhe que não pretendia dizer a Draco Malfoy que era ela quem enviava as cartas.
Harry e Tonks, que tinha sido auror durante anos, disseram-lhe que a investigação terminaria. Já sabiam que o Lucius Malfoy, não estava implicado na morte dos pais dela, que era o principal motivo porque insistiam tanto, as cartas analisadas não continham nada de importante fosse de um lado ou do outro, por isso a investigação seria cancelada. Mas Harry acrescentou que contava com ela para partilhar alguma informação que o prisioneiro pudesse partilhar e que fosse pertinente para algum caso, nomeadamente a localização dos pais. Hermione garantiu-lhe que o faria se tal acontecesse, engolindo em seco por mentir ao amigo, e olhando para Pansy de lado.
Harry despediu-se abraçando a amiga, disse que já era tarde, que era melhor ir ter com Ron para tentar falar com ele em condições antes de chegarem ao departamento, não sabia se conseguiam falar com o chefe ainda nesse dia mas no dia a seguir teriam de contar tudo, disse-lhe ainda que teria de estar preparada para os olhares e comentários das pessoas, pois assim que se soubesse, haveria com certeza falatório, pois a maioria das pessoas continuavam muito conservadoras.
Pansy ficou ainda com Hermione e Tonks, agradecendo sempre o apoio que estavam a dar ao amigo. Já tarde e depois de muito falarem, e de a Hermione ter cansado as outras duas com as suas constantes dúvidas: se estaria a fazer bem ou mal, se devia insistir arriscando-se a perder a amizade de Ron ou se eventualmente o amigo iria cair em si e aceitar as mudanças, a morena já não sabia nada, ela e Pansy deixaram o gabinete da professora para irem descansar, tinha sido um dia longo e extremamente extenuante.
Antes de dormir, Hermione abriu ainda o bilhete que guardou para enviar ao Malfoy no dia seguinte, e corrigiu algumas coisas:
“ Obrigada por partilhares as tuas dúvidas, são mais do que normais, e se te questionas é porque muita coisa pode mudar. A vida é feita no presente e não no passado, somos moldados por ele mas não é ele que nos define, é o que escolhemos no presente que vai determinar quem somos de verdade. Por isso todos os dias podes escolher. Como ouvi dizer uma vez, “Sim, o passado pode doer. Mas do modo como eu vejo, você pode fugir dele ou aprender com ele.” Lute!! Assinado: J.”
Deu uma última leitura e enfiou o bilhete debaixo da almofada, no dia seguinte iria enviá-lo antes de ir tomar o pequeno almoço, enquanto pensava e sem se dar conta adormeceu rapidamente, o dia tinha sido muito cansativo.
No entanto, a jovem teve uma noite agitada, um sonho fê-la acordar sobressaltada, e demorou uns segundos a assimilar tudo o que tinha sonhado. Num murmúrio deixou escapar, “Desde quando é que sonho com o Malfoy? Desde quando um sonho com Malfoy não é um pesadelo?”
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