As Crônicas dos Defensores de Luminia
9 Encontro
Notas iniciais
Quem poderia ser aquela pessoa que andava pela sua floresta igual a um rinoceronte? Gwen podia ouvir a correria à quilômetros de distância. Isso a irritou. Aquela barulheira atrairia seus perseguidores.
A garota até pensou em deixar pra lá, mas percebia que aquele brutamontes se dirigia cada vez para mais perto dela. Reuniu suas coisas com dificuldade. Aquela flecha lhe acertara o braço e, embora ela estivesse tratando da forma como a mãe a ensinara, ainda sentia dor e rigidez. Pelo menos agora a ponta da flecha lhe serviria de arma, caso precisasse.
Amarrou seus pertences com um pano em volta de seu corpo magro e escolheu uma árvore com galhos fáceis de escalar. Subiu e se posicionou de forma que ficasse escondida pelas folhas, mas que ainda permitisse que Gwen visse o que acontecia no solo. Aguardou enquanto, lentamente e com majestade, o sol nasceu.
Não demorou muito e um garoto negro e esfarrapado apareceu no campo de visão de Gwen. Ele já não fazia aquela barulheira, parecia cada vez mais perdido conforme andava. Por fim, parou exatamente embaixo da árvore que Gwen subira. Ela prendeu a respiração, mas o garoto não olhou para cima.
Percebeu imediatamente que ele estava perdido, pelo modo que ele olhava para os lados, como se procurasse por algo, até por fim se voltar para trás e voltar pelo caminho que viera.
Gwen sentiu compaixão pelo garoto. Perdido e sozinho numa floresta estranha? Exceto pelo fato de que nenhuma floresta eram estranha para ela, Gwen se sentia da mesma forma. Não conseguia saber o que fazer nem para onde ir agora que havia perdido sua mãe. Decidiu seguir o garoto, talvez pudesse ajudá-lo de alguma forma. Foi pulando de galho em galho, de árvore em árvore, enquanto o observava.
Ele começou a andar em círculos, o que ela sabia que era um comportamento de quem estava perdido: inconscientemente voltar sempre ao ponto de partida. Podia ver que o garoto estava fraco de fome, será que ele não via as frutas suculentas ao seu redor? Havia até alguns macaquinhos alegres numa das árvores, se lambuzando de sumo de fruta. Gwen derrubou uma fruta madura no chão, próximo a ele, caso ele não estivesse vendo. Mas, depois de um rápido olhar, ele continuou em frente sem tocar no alimento. Gwen girou os olhos. Será que ele queria morrer? Continuou o seguindo.
O sol subia no céu e ela ficava cada vez mais ansiosa. Morria de medo de descer para falar com ele, e de ser uma emboscada para capturá-la, mas estava começando a achar que não teria escolha. O garoto sentou-se no chão e escondeu o rosto. Enquanto Gwen se torturava em indecisão, ele de repente se levantou e se aproximou de duas árvores frutíferas, pensando. Com tanta árvore por aí, ele tinha que ir direto nas duas mais venenosas? Desceu os galhos com rapidez, fazendo uma careta quando seu braço voltou a sangrar, e pousou no chão, silenciosa como um gato. Quando ergueu os olhos, o garoto já estava estendendo a mão para pegar uma fruta, e ela se desesperou e esqueceu-se de andar silenciosamente. Afastou uns galhos de qualquer maneira, chutou um monte de folhas, passou por dentro de meio metro de erva-de-adão e saiu ofegante na frente do garoto, que a olhou como se fosse um bicho. Estavam a menos de vinte centímetros de distância um do outro, e Gwen, assustada com a proximidade, ergueu a ponta quebrada da flecha apontando para o garoto, que imediatamente se afastou três passos para trás, erguendo as mãos.
Ela analisou as mãos dele rapidamente. Nenhum sinal de fruta.
— Você pegou? – disse ansiosa, apontando para a árvore.
— Não – respondeu ele. – Desculpe, eu não sabia que tinha dono. – E afundou no chão, exausto.
— Não, a floresta não tem dono – Gwen replicou, franzindo a testa como se ideia lhe parecesse absurda. – Mas aquela fruta iria matá-lo só de encostar nela.
O garoto estremeceu.
— Então posso comer da outra? – perguntou, esperançoso.
Gwen balançou a cabeça em negação.
— A outra te deixaria vomitando sangue até morrer.
Ele fez uma cara de horror. De novo, Gwen sentiu compaixão. Não pressentia nenhum perigo nele, mas não abaixou a guarda.
— Vem comigo. Sei onde você pode comer alguma coisa.
Ele se levantou imediatamente, confiando plenamente em Gwen, o que a deixou irritada. Eles nem se conheciam, ele deveria desconfiar um pouco, não?
— Meu nome é Gwen – ela disse.
— O meu é Enzo.
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