As Crônicas de Eslaim
1 Herdeira
Notas iniciais
— Boa noite a todos, está mensagem está sendo transmitida diretamente do palácio... – uma voz consideravelmente longe fez Christine sair do modo automático, o Jornal Real começava a ser transmitido, o que significava que já eram seis horas e que ela já estava acordada há treze horas. Essa era a sua rotina de todos os dias, ela tem que acordar as cinco se quiser chegar na hora certa no serviço. Ela caminhou até o balcão, pegou os dois pratos que o cozinheiro acabara de colocar e levou-os para a mesa do canto, onde uma senhora, muito bonita e bem vestida, estava sentada com um garotinho de no máximo oito anos. Ele abriu um sorriso para a garçonete quando viu a pilha de panquecas e assim que ela as depositou sobre a mesa ele derramou toda a calda que estava na mesa sobre elas.
— Obrigado. – ele disse entre engolidas e ela fez um leve afago na sua cabeça.
— Não foi mais que o meu trabalho anjinho. – ela se virou para ir embora mais parou ao sentir alguém segurando o seu braço.
— Eu posso pedir-te algo senhorita? – indagou a mulher com olhos alarmados.
— Sim minha senhora. – Christine não tinha certeza, mas uma mulher vestida daquele jeito só poderia ser de linhagem real.
— Eu e meu filho estamos a caminho do castelo... – ela hesitou – Acho que a senhorita já percebeu que não nos aparentamos com os daqui.
— Sim senhora. – Christine sentiu uma pontada de raiva, sabia que a mulher não falou com desdém, seu tom de voz não indicava isso, mas o fato dela expor a diferença entre elas de forma tão clara e direta a deixava irritava. De qualquer maneira, não se nega favores a alguém de sangue real.
— Faltam três cidades até o castelo e elas não são seguras para alguém como eu. Muitas pessoas não aceitam o fato de que a linhagem sanguínea ser o que rege nosso país.
— Eu não acho que seja apropriado que a senhora fale sobre isso aqui. – ela deu ênfase na ultima palavra – Está cidade também tem seus rebeldes, eles estão por toda a parte. – a mulher empalideceu.
— Você é um deles?
— Não minha senhora. – Christine tentou acalma-la – Acho que para que eu pudesse opinar o que é justo ou não na administração do país, seria necessário ao menos que eu soubesse sobre administração... – ela fez uma pausa pensativa – e politica também eu suponho.
— Você é inteligente e engraçada.
— Isso não foi uma piada. – ela abaixou a cabeça tentando esconder o rosto corado.
— Não fique assim querida, foi engraçado porque você usou sarcasmos, a rainha era assim também. Vocês são bem parecidas.
— Obrigada. Mas me diga minha senhora, o que deseja?
— Quero que cuide do meu menino. – de repente o menino parou de comer e observou a mãe, como se tentasse achar sentido em suas palavras.
— Minha senhora...
— Eu imploro pelo que você mais ama, se algo acontecer ao meu menino... – ela não terminou a frase, mas Christine sabia o que os rebeldes eram capazes de fazer com qualquer um que fosse contra eles, não importava a idade e a realeza era o alvo principal.
— Eu o farei senhora, tem a minha palavra, mas e quanto à senhora?
— Eu estou indo daqui a pouco.
— Não pode. Ao menos não vestida assim.
— Christine! – o cozinheiro gritou.
— Por favor, senhora, não saia daqui, eu já volto.
Christine foi até o cozinheiro e pediu permissão para sair mais cedo, ele olhou por cima de seu ombro em direção à mulher e ao menino, que se encolheu ao lado da mãe visivelmente desconfortável com o olhar daquele homem.
— Eu preciso ajudá-los Joshua. – os olhos dela brilhavam como os de uma criança e ele soltou um suspiro.
— Essa sua bondade vai acabar te metendo em grandes problemas Tine.
— Obrigada. – ela disse e se virou.
— Mas eu nem disse que podia.
— Disse sim, de forma discreta, mas disse.
Ela tirou o avental e fez sinal para que a mulher viesse até ela, o menino ficou um pouco relutante em passar perto de Joshua, mas assim que o cozinheiro lhe abriu um sorriso ele ganhou mais confiança. Eles passaram por uma porta lateral e foram até os fundos em direção ao estacionamento. Ao lado do carro velho de Cristine estava um carro caro, um novo modelo da Fitgz, a única empresa autorizada a fabricar carros no país.
— A senhora está vindo de onde mesmo, isto se eu puder perguntar é claro.
— Cidade Quatorze. Eu estav...
— Por favor, não termine. Se existe uma coisa que aprendi na vida é que a realeza deve SEMPRE ficar dentro do castelo e que se eu vir um de vocês por aqui boa coisa não é.
— Deixe me explicar senhorita.
— Melhor não. Eu irei ajuda-la minha senhora, mas é apenas porque não se nega favores a vocês.
Christine foi para o carro e entrou, a mulher como se estivesse hesitando demorou um pouco, mas logo entrou no carro seguido do menino que pareceu não se importar muito com a situação. Antes que Tine pudesse dá à partida a mulher segurou a sua mão e ela se virou para encarar a outra.
— Há alguns anos eu me apaixonei por um homem que era diferente de mim, se é que você me entende – “alguém que não era da realeza” deduziu Tine – e eu acabei me casando com ele sem a benção do rei. Meu tio foi bondoso o suficiente para não mandar matar a ele e a mim, mas deixou claro que eu só voltaria para casa no dia em que ele... no dia em que o meu marido...
— Entendi senhora. – Tine sentiu remorso, não devia ter desconfiado da mulher sem saber o que de fato aconteceu, ela era só uma viúva tentando voltar para a família – não precisa terminar.
— Preciso sim. – ela respirou fundo – Não tínhamos a mesma vida que eu levava no palácio, mas era uma vida boa, boa o suficiente para eu continuar me vestido como antes, mesmo nada sendo como antes. Acho que eles descobriram e vieram atrás de nós. Eu consegui fugir com o Miguel, mas meu marido ficou, disse que iria atrasa-los.
— Meus sentimentos senhora.
Christine dirigiu o mais rápido que pode sem levantar suspeitas e só parou quando chegou em casa. Assim que estava certa de que ninguém estava olhando abriu as portas do carro e eles saíram. Quando entraram na casa a mãe de Christine ficou imóvel, não acreditava que aquela mulher estava na sua casa.
— O que ela faz aqui? – indagou rispidamente.
— Mamãe, está é a senhora...
— Estela. Estela lá Fontan. – a senhora fez uma curta reverência.
— Ela precisa da nossa ajuda.
— Com o que?
— Eu preciso que a senhora empreste algumas de suas roupas para ela, como pode ver, se ela continuar vestida assim e cruzar o caminho de algum rebelde será seu fim.
— Eu posso fazer isso.
— Assim que a senhora comer deverá partir quanto mais tempo demorar pior poderá ser.
— Venha comigo, por favor. – disse a mãe de Tine fazendo sinal para o quarto.
Estela trocou as roupas e se olhou no espelho, eram as roupas mais humildes que já vestira na vida, mas nunca havia se sentido tão bem. Pelo canto do espelho ela viu a mãe de Tine olhando-a, ela a estava olhando desde que entraram no quarto, mesmo sendo desconfortável, ela sentiu um pingo de nostalgia na cena. E foi então que um clarão surgiu em sua mente, ela era Makaila, a serva de sua prima, a rainha.
— Eu não acredito que é você. – ela disse.
— A senhora me reconheceu. – Makaila sabia que não adiantava mentir, mesmo que dissesse que a estava confundindo, ela logo iria juntar as peças.
— Você não me parece feliz em me rever. Espere um pouco... Ela é a...
— Sim minha senhora.
— E por que você não a levou de volta ao castelo?
— A rainha foi bem especifica minha senhora.
— Ela acha que a filha está morta.
— Como? – Makaila ficou pálida, era como se todo o sangue tivesse sumido do seu corpo – Eu fui ao encontro dela, a esperei por dias.
— Eu não entendo.
— Quando o castelo foi invadido, a rainha me entregou Christine e disse para encontra-la em um abrigo perto a marina na cidade um. Ela me pediu para proteger Christine e que a mantivesse em segurança.
“Lembro como se fosse hoje. O cheiro forte de algo queimando, Christine começou a chorar, a rainha correu para a porta e forçou o trinco, como se estivesse a fechando, mas eu já havia trancado a porta do quarto. Ela estava visivelmente apavorada. Eu estava com a Tine no colo, tentando acalma-la e de repente a rainha estava ajoelhada aos meus pés, ela me implorou para fugir com Christine. O protocolo era claro: os soberanos deverias sempre ficar dentro das imediações do castelo, mas o herdeiro poderia, em caso de ataque, ser levado para fora afim de manter-lhe a salvo e assegurar a linhagem real. Eu aceitei, sempre tive um amor especial por aquela pequena criaturinha.”
“Mas a rainha não apareceu. Ela disse “caso eu não vá ao seu encontro em até cinco dias leve-a para o mais longe que conseguir e a esconda até ela fazer dezoito anos e puder reivindicar seu lugar de direito.” Eu a esperei por duas semanas, sem ter nenhuma noticia de como as coisas estavam no castelo, sem saber se ela estava viva ou morta. Desde então tudo o que eu fiz foi para manter Christine viva e longe desses rebeldes.”
— Bem que ela me lembrava da rainha.
— A cada dia ela se parece mais com a mãe, até no humor.
— Você sabe que precisarei contar isso a ela...
— Eu sei e parte de mim está sendo esmagada com isso, eu pensei que tivesse mais tempo com ela, antes de ter que revelar tanta coisa.
— Chego ao castelo em cinco dias caso eu continue seguindo a principal. Assim que chegar contarei a minha prima e os guardas virão buscar meu filho e a herdeira, então você tem mais aproximadamente uma semana.
— Obrigada.
— Não me agradeça. Aproveite esses dias para prepara-la para o pior. O rei não é mais o mesmo de antes, dizem que a guerra o transformou. Se ela for com muitas expectativas pode ser que se decepcione.
— Obrigada. – ela repetiu e Estela a abraçou.
Estela saiu logo após se trocar, como já tinha comido na pequena lanchonete recusou educadamente juntar-se a eles no jantar. Deu um beijo no filho e o abraçou o mais apertado que pode, se despediu de forma recatada da velha amiga e por fim não se conteve a abraçou com firmeza Christine, como se quisesse ter certeza de que ela era real e ela retribuiu igualmente o abraço. Ouviu atentamente as instruções: parar apenas em um posto de combustível por cidade, pagar sempre em notas pequenas e de preferencia em moedas, não estacionar em locais desertos, caso o carro parasse de funcionar era só esperar três minutos e girar a chave novamente e se achar que estiver sendo seguida, certificar-se primeiro antes de acelerar.
Assim que ela foi embora Tine levou Miguel para o quarto para que ele pudesse descansar um pouco, logo após ele pegar no sono ela foi para a cozinha ao encontro de sua mãe.
— A senhora está estranha desde que eu cheguei com eles.
— Não é todo dia que eu reencontro alguém da nobreza.
— Então a senhora já a conhecia? Isso foi no tempo em que trabalhou no castelo?
— Foi sim, eu servia a rainha, prima dela, desde que ela ainda era chamada de princesa. Nós crescemos juntas – ela suspirou relembrando – mas eu sempre soube onde era o meu lugar.
— Elas te maltratavam? – Christine ficou imóvel, por um momento chegou a desejar não ter ajudado aquela mulher.
— Não. – Makaila sabia o que a filha estava pensando – Elas me tratavam como da família, mas no final do dia eu quase sempre voltava para meu quarto e no castelo, a diferença entre um quarto real e o de um empregado e muito visível. Mas você fez certo em ajuda-la e traze-la aqui. Eu só queria ter mais tempo.
— Aposto que vocês logo irão se reencontrar. Ela voltará com guardas para buscar o filho.
— Eu preciso te dizer uma coisa filha. – ela se ajoelhou na frente de Christine que inclinou a cabeça um pouco perplexa – Você foi à coisa mais linda que eu recebi. Cria-la foi uma benção e eu fico cada dia mais e mais feliz em ver a mulher que você está se tornando, apenas te peço para, independente do que acontecer, que você nunca se esqueça de que tudo o que eu fiz por você foi por amor e não por obrigação.
— A senhora é a responsável por isso, tudo o que eu sou é graças a você – ela segurou o pequeno rosto de sua mãe nas mãos, sentindo suas bochechas começarem a corar – Eu não entendo o porquê disso, mas mãe, eu nunca vou esquecer-me disto. Você é meu exemplo em tudo na vida.
Makaila começou a chorar. Não estava pronta para contar a verdade sobre quem Christine realmente era, mas tinha que estar logo, pois senão ela descobriria da pior forma.
Christine não entendeu aquela reação, talvez se lembrasse do pai dela e de como ele não pode ver a filha se tornar um ser bondoso, talvez estivesse relembrando de como a vida era no castelo, talvez estivesse pensando na sorte que elas têm por não precisarem viver trancadas no palácio ou outra coisa qualquer, apenas abraçou a mãe e a deixou chorar.
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