As Crônicas da Tempestade

8 Capitulo 7 - Primeiros Movimentos


Capítulo 7 — Primeiros Movimentos

Ba Sing Se, Reino da Terra.

O tênue som da melodia reverberava pelo vagão tomando a atenção para a jovem violinista que, mesmo em tão pouca idade, já experienciava o dom da música. Ao redor, de ouvidos em pé, diferentes figurões da nobreza do Reino da Terra cochichavam sobre os negócios e sobre a guerra, o que por sinal era o mesmo assunto. Poucas coisas soavam tão bem para o Reino da Terra quanto a guerra. Um negócio promissor, principalmente por ser melhor fornecedor de aço e platina de todo o mundo. Comerciantes de todo o país chegavam à capital na esperança de fechar um grande negócio com os ministros bélicos da nação e expandir seu poder e influência. Aqueles homens faziam Dalai ter náuseas, lucrar com a desgraça alheia não era exatamente um negócio digno.

— O que viemos fazer aqui mesmo? — Dalai sussurrou para a Capitã Lian Fu. Mesmo ao fundo, onde estavam sentados, percebiam pequenos sinais de hostilidade naquele local, nada tão chamativo, geralmente um olhar atravessado ou um comentário maldoso. Tratava-se de um vagão da primeira classe destinada à nobreza, não um comboio militar.

Lian Fu franziu cenho. Estava de olhos fechados apreciando a doce melodia do violino quando o rapaz a chamou. Céus! Será que ele não conseguia se quer ficar quieto por um instante sem fazer perguntas?

— Se você tivesse prestado atenção no plano do general saberia o que viemos fazer aqui — ela disse rispidamente.

— Desculpe, estava ocupado demais na última semana caindo em uma armadilha da Lótus e me tornando o vilão da história! — ele rebateu.

Dalai suspirou e voltou sua atenção para a jovem artista que dava seu espetáculo num palco iluminado. Ela vestia um vestido vinho escuro decotado e curto que lhe caia muito bem em seus cabelos avermelhados, tão raros no Reino da Terra quanto no resto do mundo. Espinhos entrelaçados subiam pelos seus braços em uma tatuagem adornada e provocante unindo-se na nuca e descendo pelas costas cobertas pelo vestido. Dalai admirou boquiaberto beleza a garota.

— Hey, Lian Fu — Dalai a chamou novamente, dessa vez havia remorso em sua voz — Acha que podemos lidar com isso? Vencer?

Ela o avaliou por um tempo, fitando impassível, as profundas poças verdes reluzentes que eram seus olhos. Então meneou a cabeça, agora mais emotiva

— Não temos outra escolha senão essa — e uma sombra de um sorriso tristonho se formou em seus lábios. — Temos um dever a cumprir. Famílias contam conosco, não é mesmo?

Dalai suspirou, resignado, mal via a hora de sair daquele pedaço de lata. Como se não bastasse estar naquela situação complicada, ainda era visto como o inimigo número da metade do mundo depois do episódio em Cidade república. Cartazes com seu rosto foram distribuídos na capital mundial e, nos países pertencentes a Aliança Libertadora, puseram uma recompensa por sua cabeça como nos velhos tempos. Talvez tivesse sido melhor ter ficado na prisão, pelo menos faria menos besteira lá.

— Próxima parada: Ba Sing Se. Senhores passageiros, próxima parada: Ba Sing Se — uma voz feminina anunciou no interfone momentos antes do trem parar — Senhores passageiros permaneçam sentados até que as portas se abram, por favor.

As ricas figuras cessaram a conversa e se prepararam para saltarem. Parado o trem, Dalai e Lian Fu foram levados pelo fluxo até o lado de fora da 3ª estação da cidade de Ba Sing Se. A estação demonstrava claramente as marcas mais óbvias da crise econômica que assolava o Reino da Terra. Moradores de rua se abrigavam em cabines abandonadas e em bilheterias arruinadas na esperança de se protegerem do frio e dos recrutamentos forçados. Suas velhas passarelas caiam aos pedaços ameaçando tombar sempre que passava um trem. As paredes estavam repletas de pichações e cartazes de prostitutas feias. Tendo em consideração que aquela era a capital do reino e seus muros decadentes caindo aos pedaços, Dalai não se surpreendia que o general achasse que aquele seria o próximo alvo do inimigo.

Do lado de fora, um automóvel preto os esperava. Dalai ainda não se acostumara com aquilo, ainda tinha lembranças da última vez que andara em um satomóvel do Reino da Terra, principalmente do fato de estar sempre no banco traseiro do carro da polícia. A lembrança o fez sorrir, as coisas eram tão mais fáceis naquele tempo, nunca se preocupara com as intrigas políticas antes, mas agora parecia uma época distante quase como se tivesse sido com outra pessoa.

— Então... Pode me dizer agora por que viemos a Ba Sing Se? — Dalai perguntou enquanto percorriam as ruas.

— O general acredita que a Aliança Libertadora visa à destruição das figuras opressoras nas nações, em outras palavras: a monarquia. Hoje em dia apenas a Nação do Fogo e o Reino da Terra ainda mantém o regime, embora na Tribo da Água o cargo de chefe da tribo seja passado de pai para filho, título esse que é dado ao líder militar e político, atualmente serve mais como um símbolo de inspiração do que outra coisa, um conselho elegido pelo povo é quem comanda em conjunto com o chefe.

Dalai assentiu:

— Então, ele acha que tentarão algo em breve contra o Rei da Terra... — Dalai concluiu. Então pensou na figura imponente de Firion com seu rosto frio assustador, possuía os olhos de homens que tinham tudo sempre sob controle e perguntava se seria possível prever tão facilmente seus movimentos. — Mas então por que não nos enviar para a Nação do Fogo? Já que também poderia ser um alvo em potencial?

— A Nação do Fogo é em sua tradição um povo guerreiro e nossas fronteiras estão fortemente protegidas.

— Tá, e qual é o real motivo?

— Bem, o Primeiro Ministro insistiu que fosse você que protegesse o rei e a rainha. Você está ficando bem famoso Dalai, esse é preço que se paga por se destacar — ela explicou — Parece que chegamos, é melhor irmos.

A sua frente se erguia o palácio real que desde sua reforma se encontrava agora munido de maciças muralhas de platina, trincheiras foram cavadas ao seu redor e guaritas erguidas onde guerreiros Dai Lis fazia a guarda, olhando de cara feia para qualquer um que chegasse perto demais do portão. Portões esses que agora se abriam para deixar que os visitantes entrassem e logo depois fechando com um som abafado.

Ao saírem do carro, foram recepcionados pelo conselheiro de comunicações públicas e pelo diplomata local da Nação do Fogo, acompanhados de uma pequena escolta de agentes Dai Li. O diplomata sorriu ao ver Lian Fu e a abraçou carinhosamente ao se aproximar.

— Como é bom vê-la de novo minha irmãzinha — ele falou quando a soltou, então se virou para o rapaz — Só esperava que fosse em tempos melhores do que estes. Bom, você deve ser o famoso dominador de ar de que todos falam. — e estendeu a mão para Dalai

Dalai apertou e disse:

— Não sabia que Lian Fu tinha um irmão, mas de qualquer modo é bom conhecê-lo. Me chamo Dalai.

— Ren — ele se apresentou e então apontou para seu companheiro — E esse é o senhor Riagi, o encarregado das comunicações públicas por aqui.

— É um prazer — disse o homem.

Dalai apertou sua mão também e o diplomata voltou a falar:

— Creio que estejam a par da situação — ele continuou — O palácio agora está sob restrição total até que a ameaça do ataque seja descartada, no entanto é melhor errar por excesso de proteção do que pagar no futuro.

— Esperamos fazer um bom trabalho, Ren. — disse Lian Fu quando começaram a andar em direção a entrada — O general Raidou também torce para que estejamos errados a respeito do ataque.

— Todos nós esperamos que sim.

— Como o rei reagiu ao estado de sítio? — Dalai perguntou por cima do ombro.

Ren sacudiu a cabeça exasperado. Só então o rapaz pode notar as olheiras que enfeitavam seu rosto.

— Temo que sua majestade não esteja muito feliz com as nossas medidas de segurança. O rei não é exatamente um poço de paciência.

— Posso imaginar quão bravo ele deve estar — Dalai sorriu, ainda sentia certo remorso do cara, afinal ele o deixara apodrecer por quase 4 anos em um fim de mundo no deserto e agora o pediam que o protegesse? Era meio irônico na verdade, havia um certo prazer agridoce nisso tudo.

Viraram em tantos corredores e passaram por tantos salões que Dalai logo se viu perdido e caso fosse deixado para trás não tinha muita esperança de encontrar a saída. Todo o interior fora ricamente decorado com toda uma gama de velharias históricas como armaduras de antigos Reis da Terra destruídas destacando onde o ferimento de suas últimas batalhas lhe tirou a vida. Os rodapés das paredes eram adornados de ouro e ricas tapeçarias de cenas heroicas ostentavam penduradas por todo o canto bordadas com um caleidoscópio de cores estonteantes.

Após virarem outro corredor, deram de cara com uma enorme porta de bronze que exibia a imagem do primeiro Avatar dominando Terra em uma pose romantizada. Dois agentes Dai Li protegiam a entrada. Crise? Estou vendo a crise de que todos falam, Dalai pensou enquanto os dois guardas abriam a porta revelando um imenso salão.

Ao fim do salão se encontrava o Rei e a Rainha da Terra sentados em seus tronos. Ao vê-la Dalai sentiu o coração pular acelerado. Isso não podia estar acontecendo, não mesmo, ele tentava se convencer enquanto caminhavam pelo salão e se ajoelhavam perante Suas Majestades.

— A quanto tempo Dalai — cumprimentou a rainha em tom formal. Dalai sentia seus sentimentos se remexendo onde ele os mantinha escondidos. — Lembra-se de mim?

— Como poderia esquecê-la rainha Laya — ele respondeu seco. Parecia que no fim o velho Huaq havia vencido. Casada e bem longe de você. Ali ajoelhado no salão real sob a sobra de sua imagem, sentia-se realmente muito distante dela.

Lian Fu percebendo os maus modos de seu companheiro interveio:

— É uma honra servi-los Majestades — ela anunciou formalmente — Como ordens do general Raidou, estamos aqui para garantir vossa segurança nesses períodos tão conturbados.

O Rei da Terra não era exatamente como Dalai esperava, ele era alto com ombros largos e com cabelos negros curtos e expressões definidas do reino da terra. Mas fora isso ele parecia muito jovem, deveria ter por de seus vinte e cinco anos e no entanto, assumia sua pose de Rei Todo Poderoso e todo o peso que seu cargo carregava.

— Então vocês foram o melhor que Raidou conseguiu para proteger-me e minha rainha? — ele disse, mas era perceptível o sarcasmo em seu tom — Um criminoso e uma garotinha? Não posso dizer que estou impressionado.

Dalai foi invadido pela incrível vontade de arrebentar a cara daquele engomadinho e fazê-lo engolir sua coroa. Mas, por outro lado, o que Laya pensaria dele se o fizesse? Talvez ela realmente o amasse. Esse pensamento fez seu peito doer.

— Se assim deseja Vossa Majestade — ele falou em seu melhor tom formal. Finalmente as aulas de etiqueta do Templo lhes foram úteis — Creio que não seja um grande problema nos retirarmos de volta para o general. Acredito que esteja seguro o suficiente com seus agentes Dai Li.

O Rei estreitou os olhos. Aquele plebeu acabara de lhe dizer o que fazer?

— Não temo pela minha vida, monge, mas sim pela de minha esposa — o Rei disse e acenou graciosamente para sua rainha — Ela carrega consigo o meu herdeiro. Penso apenas na segurança do meu herdeiro.

Dalai demorou um tempo para absorver a informação. Grávida, ela estava grávida do Rei da Terra? Ele a observou com seus frios olhos verdes, imaginando a criança que ela carregava na barriga. Era um fardo enorme para se carregar sozinha.

— Não se preocupe com a segurança de Vossa senhora minha Majestade — disse Lian Fu — Tomaremos todas as medidas necessárias para a sua proteção.

O Rei concordou com a cabeça e fez sinal para que se retirassem. Dando uma última olhada por cima do ombro, Dalai fitou aquela que um dia fora seu primeiro amor.

Mais tarde foram levados a seus aposentos onde permanecem até a hora do jantar, que lhes fora entregue em seus quartos. Lian Fu achava que de alguma forma haviam aborrecido o rei.

— O que diabos aconteceu com você naquela hora? — Lian Fu o perguntou quando finalmente estavam sozinhos. — Sugerir ao Rei da Terra que nos dispensasse? Ficou louco? Sabe o quão vital é a nossa missão?

Dalai a ignorou e continuou o seu jantar.

— Isso não é da sua conta — ele disse simplesmente.

Lian Fu soltou uma fagulha de fogo pela boca, agarrou a cadeira onde o rapaz estava sentado e a virou obrigando o a olhar para ela.

— Já tive muita paciência com você nesses últimos dias e agora estou cheia desse seu jeito estúpido — ela vociferou com os olhos queimando em raiva reprimida — Se vamos fazer isso dar certo, precisamos ter confiança um no outro, e não estou vendo você sequer tentar! Agora me diga o que está havendo, agora!

Dalai sustentou o olhar de raiva da oficial e enfim desviou os olhos derrotado.

— Certo. Lembra-se da discussão que tive com o Huaq em Valu? Sobre a filha dele...

— A que você supostamente corrompeu com seus encantos? — Lian Fu indagou com sarcasmo — O que tem ela?

— Ela está sentada ao lado do rei. Parece que o velho Huaq cumpriu sua promessa — ele disse tristemente com a dor de um homem com o coração partido — No fim ela está casada e distante de mim como ele disse, e agora ela carrega o herdeiro do trono da Terra.

Por mais que ele disfarçasse, Lian Fu podia ver por trás dele, ainda estava apaixonado pela rainha Laya e isso podia ser um problema.

— Você sabe que não pode vê-la...

— Acha que eu não sei? — Dalai a interrompeu e levantou-se — Eu já disse, estou bem. Isso não vai comprometer nossa missão, é apenas o passado me lembrando que ele já passou.

Lian Fu tocou em seu ombro e disse:

— Estarei em meu quarto, se algo acontecer me chame — ela disse em seu tom mais solidário.

Assim ela se foi, deixando-o com seus demônios do passado.