As Crônicas da Tempestade
6 Capitulo 5 - Ameaças sutis
Capítulo 5 – Ameaças sutis
Cidade República, Reino da Terra.
A velocidade alarmante do trem fazia a paisagem ao redor não passar de um borrão colorido no horizonte à medida que avançavam para seu destino. A cidade se projetava a frente em todo o esplendor de seus prédios gigantescos e dirigíveis que transitavam entre os famosos cipós espirituais da Cidade República. Mesmo a distância não havia como passar despercebido o raio de luz dourado que cortava o céu azul, o portal para o mundo espiritual, a fronteira final entre os dois mundos. Lana se endireitou no acento, não conseguia parar de sorrir, finalmente estava ali onde tudo aconteceu!
A Cidade Rebública sofrera inúmeras modificações através das últimas décadas. Ela fora palco de importantes momentos da História, criada pelo Avatar Aang e protegida pela Avatar Korra durante a revolta dos não-dominadores. Fora ali também onde ocorrera a luta final entre o Império da Terra e as demais Nações, o desfecho da vitória de Korra sobre a comandante Kuvira. Lana crescera ouvindo essas histórias e sonhava um dia ser capaz de superá-los, o que não seria uma tarefa tão fácil.
O trem se aproximou da estação e uma voz feminina anunciou a chegada à Cidade República. Lana desprendeu os cintos e correu para a saída, onde foi barrada por dois guardas da Tribo da Água.
— Espere mais um pouco senhora — um dos soldados pediu pacientemente. — Há uma multidão lá fora, não podemos deixá-la sair ainda. Ordens do mestre Firion.
Do lado de fora uma multidão de fãs se aglomerara na estação na esperança de conhecer o novo Avatar. Desde a infância, sua identidade fora deixada em segredo para proporcioná-la uma vida tranquila até estar preparada para tornar-se uma figura pública. Lana observou ansiosa pela janela: traziam faixas coloridas e flores de todos tipos e ainda por cima gritavam o nome dela como um hino, pareciam tementes ao Avatar.
— Não precisa ficar nervosa Avatar — disse uma voz por trás dela, pertencia a Firion. Ela nunca o conhecera muito bem o mestre Firion, mas tudo que sabia sobre ele lhe fora contado pelo pessoal da Lótus com quem convivera. Diziam ser um honrado guerreiro da Nação do Fogo que acabou com uma revolta sem que nenhuma vida se perdesse, assim foi nomeado para a Lótus Branca como pacificador. Vencer através do pacifismo? Esse sim era um de seus heróis. — Todos estão aqui por você, veja como é querida pelo seu povo. Sei que pode parecer assustador, mas preciso que encare tudo com coragem e determinação.
A ideia de toda aquela gente estar lá por ela realmente a assustava. Mas bem no fundo ela sentia que por quem eles chamavam era pelo Avatar imponente e sábio, não pela Lana, uma órfã do Reino da Terra. Ainda depois de todos aqueles anos ela ainda se sentia uma estranha naquele mundo de intrigas e responsabilidades que nunca pedira para fazer parte.
— Não há problema Lana, podemos esperar pelo tempo que precisar — Mestre Kan pousou a mão delicadamente em seu ombro e sorriu. Isso a ajudou a parar de tremer.
Ela respirou fundo reunindo toda coragem que podia agarrar só podendo rezar para ser o suficiente.
— Eu estou pronta — Lana respondeu decidida — Vamos!
O soldado abriu a porta revelando a multidão do lado de fora e Lana deu o primeiro passo em direção a sua nova vida como o Avatar. Ela caminhou de cabeça erguida escoltada pelos soldados, flashes cegavam seus olhos e os gritos das pessoas eram de ensurdecer, mas ainda assim caminhava decidida, não havia lugar para fraquezas ali. A massa de pessoas os pressionou tentando tocar o Avatar, mas acabaram repelidos pelos escudos dos soldados que forçava a passagem contra fanáticos que tentavam inutilmente furar o bloqueio. Do lado de fora da estação um carro preto os esperava a frente da estátua do Senhor do Fogo Zuko. Dentro do carro Lana pode relaxar novamente.
— Você foi bem — observou Kan conferindo os óculos. Uma perna deles amassara e ficara torta na orelha. — Muitos teriam entrado em choque. Estou orgulhoso de você.
— Ela não é qualquer uma Kan, ela é o Avatar — Firion falou — Ela nasceu para isso.
Lana forçou um sorriso ansioso.
— Para onde iremos agora?
— Para um hotel. — respondeu Firion — Amanhã iremos ao Conselho das Nações, para uma reunião com os líderes mundiais. É crucial que tenhamos o apoio dos Nômades do Ar em nossa investida. Talvez isso ponha algum juízo na cabeça de Raidou.
Lana acenou com a cabeça. Viemos mesmo a negócios afinal, ela suspirou fitando as ruas pelas quais ansiava conhecer. Pareciam sombrias através do insulfilme.
Alguns minutos depois chegaram ao hotel destinado aos líderes convidados de outras nações quando visitavam a Cidade república, o Kalafar. O próprio dono fizera questão de pagar todas as despesas já que não era todo dia que se hospedava o Avatar e o líder da Lótus Branca. O hotel era tudo que Lana poderia querer, possuía mais de sessenta andares e suítes de luxo e ainda uma própria plataforma onde abrigava dirigíveis dos nobres que se hospedavam nele. Além é claro do mais magnífico saguão que Lana já vira na vida, que tinha desde lustres até mesmo a uma fonte com a estátua da Avatar Korra.
Agora sim aquela viagem estava começando a valer à pena.
Enquanto Kan e Firion conferiam as reservas Lana ouviu um tumulto vindo da portaria. Parecia que alguém estava causando confusão com um dos hospedes, os seguranças já estavam a caminho e não pareciam muito contentes.
— Ei, o senhor não pode entrar aqui, é uma propriedade privada! — dizia o porteiro rodeado de três seguranças a um estranho rapaz que discutia com um outro garoto mais baixo. O rapaz vestia roupas comuns e desgastadas demais para ser algum hospede do hotel.
O rapaz cravou seus frios olhos verdes no porteiro fazendo-o estremecer.
— Com todo respeito, o senhor está incomodando os nossos hospedes, precisa se retirar — continuou o porteiro, mas não tão confiante quanto antes.
— É dê o fora daqui seu mendigo, ninguém o quer aqui! — o garoto acrescentou por trás dos seguranças.
O rapaz sorriu, irônico, com o comentário. Agora aquele pivetinho havia passado dos limites.
— Ah! Então estou incomodando esse bando de riquinhos? E daí? — o rapaz fez questão de que todos ao redor ouvissem. — Desculpe pela minha aparência, não queria lhe ofender com minha pobreza! Não tenho explorado muitos trabalhadores ultimamente. Bom, não que saibam de onde vem seu precioso dinheiro.
Um dos seguranças tentou segurá-lo, mas o rapaz se soltou e lhe deu uma cotovelada no nariz.
— Isso é modos de tratar um hospede? — ele exclamou indignado.
Lana não pôde ficar parada, pessoas arrogantes como aquele cara só causam problemas por onde passam. Antes que desse ouvidos ao bom senso ela já estava indo em direção ao barraco.
— Ei você ai! — ela chamou, enquanto se aproximava ia arregaçando as mangas da jaqueta — Ele mandou você sair!
Só então o barraqueiro a percebeu e se virou para ela. Ergueu uma sobrancelha e disse entre dentes:
— Fique fora disso moça, tenho tanto direito de estar aqui quanto qualquer um desses riquinhos esnobes. Paguei por isso… — ele segurou o garoto rico pela gola — Agora, merdinha… te desafio a repetir o que falou. Bora, tô esperando!
O garoto estremeceu:
— O meu pai não vai gostar de saber disso! — ele guinchou, mas o rapaz simplesmente não ligava.
— Ei você não ouviu? — Lana segurou o braço do rapaz, ele era mais forte do que parecia. — Eu mandei deixá-lo em paz.
Os olhos do rapaz faiscaram. Ele empurrou o garoto rico para longe e se aproximou de Lana, o suficiente para suas testas quase se encostarem.
— E se eu não quiser deixá-lo? — ele perguntou ameaçadoramente.
— Terei que te dar uma bela surra! — ela respondeu a altura.
O rapaz ia dizer algo mais, mas foi interrompido por uma mulher que o puxou pela camisa:
— O que pensa que está fazendo Dalai? Enlouqueceu? Caçando briga a essa altura? — a mulher lhe perguntou séria. Ela usava a farda da Nação do Fogo e parecia muito, mas muito irritada.
O rapaz se soltou bruscamente só então percebendo a pequena plateia que se formara.
— Eu não estou fazendo nada! — ele falou abrandando a voz — O garoto que veio até mim me mandando sair, até chamou os seguranças. O que eu podia fazer? Só porque não tenho papai nenhum para me bancar não quer dizer que podem me tratar como querem.
— Perdão? — Lana falou — Mas quem você pensa que é para ofender os demais nesse hotel?
Dalai deu um sorriso irônico:
— Eu sou o melhor dominador de ar vivo, princesa.
Lana não aguentava mais esse cara, o ego dele era do tamanho do mundo.
— Apenas pare de incomodar os outros, ou terei que colocá-lo para fora — ela falou
— Claro, princesa. Mal posso esperar para ver você tentar.
A mulher da Nação do Fogo o agarrou pela camisa e o arrastou para longe. Quem aquele cara pensa que é? Lana pensou furiosa, não passava de um vagabundo qualquer, espero nunca mais vê-lo.
Enquanto os dois saiam, Lana viu outros dois homens escoltados por guardas da Nação do Fogo e do Reino da Terra se juntar a eles e discutirem com o rapaz. Droga, foi tudo que Lana pode pensar quando reconheceu quem eles eram e como gostaria de estar enganada.
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