As Crônicas da Tempestade

2 Capitulo 1- O Filho da Tempestade


Capítulo 1- O filho da Tempestade

Algum lugar nos céus, Reino da Terra.

Os luminosos relâmpagos cortavam o céu noturno em espetáculo brilhante de cores vivas enquanto as correntes de ar arrastavam o dirigível pelos céus, uma folha metálica ao vento. As montanhas se erguiam por detrás da gigantesca cidade como enormes colossos que eram e lançavam uma atmosfera de desolação típica dos desertos rochosos do Reino da Terra. General Raidou observava tudo empoleirado na janela envolto em sua própria melancolia quando foi trazido de volta por uma voz conhecida.

— Estamos chegando general — informou da porta da cabine a Capitã Lian Fu em posição de sentido. — Omashuu está bem a nossa frente.

Era incrível como seus subordinados tinham tanto talento para dizer o óbvio, Raidou pensou taciturno ainda fitando a janela. Apanhou o cachimbo sobre a mesa ao lado e o acendeu rapidamente com uma faísca na ponta do dedo. Dando uma baforada voltou à meditação, podia ver agora os muros maciços que cercavam a cidade entalhada nas montanhas. A grandiosa Omashuu já havia vivido dias melhores, bom, pelo menos melhores do que aqueles, ele sabia bem. O general se virou para ver a capitã melhor. Muito jovem, devia estar na flor da beleza, mal completara vinte e poucos anos e já assumira o posto de capitã, um feito e tanto para sua idade e experiência, era o que chamavam de prodígio da Nação do Fogo.

— Lian Fu sabe o que fazemos aqui? — o general perguntou, gostava de testá-la sempre que podia. Algumas vezes divertia-se com as respostas mirabolantes.

— Estamos em uma missão diplomática senhor. — A moça respondeu hesitante do outro lado da sala.

— Sim, é claro que estamos. — Ele frisou impaciente. — Mas sabe o motivo? O porquê disso tudo?

— Não, senhor, isto não me dizem respeito, apenas sigo ordens.

O general voltou-se novamente para janela observando o dirigível cruzar os muros de pedras da cidade. A cidade que já fora uma das maiores do Reino da Terra se tornara apenas uma sombra distorcida da glória de Eras passadas. As casas ruíam na estagnação e sua população morria de fome e pobreza devido aos impostos à cora real, as terras áridas eram propriedades dos mais fortes agora, uma situação deplorável. Até mesmo seu maior orgulho, seu complexo sistema de correios fora deixado de lado pela segurança dos satomoveis durante a Revolta de Kuvira.

— Viemos pedir ajuda aos homens que fazem isso com seu próprio povo. — Ele acenou com o queixo para o lado de fora. Quando voltou a fitá-la, um sorriso irônico formou-se no canto da boca — Isso é cúmulo do desespero não acha?

Lian Fu apenas concordou com a cabeça. Era esse o seu trabalho, apenas concordar.

— Devemos chegar ao castelo em alguns minutos senhor — ela repetiu paciente e fez uma saudação ao sair.

O dirigível pousou no enorme pátio do castelo, um dos poucos legados deixados pelos antigos Reis da Terra que não fora demolido para a construção de cortiços para abrigar o cada vez maior inchaço da população urbana. Raidou desceu pelas escadas de metal do titã voador e olhou ao seu redor, tudo mantivera-se exatamente da mesma maneira desde sua última visita a Omashuu há muito tempo quando iniciara sua carreira militar. Uma comitiva de homens os esperava no pátio, soldados de vestimentas verdes com o brasão da Terra estampado no peito.

— Dê uma boa olhada nos lendários guerreiros Dai Li — o general comentou à capitã enquanto desciam pelas escadas. — Parecem bem assustadores, não? É o que se espera da elite da Terra.

Os soldados abriram caminho e fizeram uma mensura para a passagem do primeiro ministro do Reino da Terra, Huaq Guiazu. Lian Fu avaliou o homem que se aproximava à passos largos. Segundo os registros da nação o regente era um homem baixo e troncudo por volta dos cinquenta anos com um temperamento tão ruim quanto de um cavalo-avestruz. Raidou podia afirmar com toda certeza: ele era mais feio do que um.

— Raidou, é bom vê-lo meu bom homem! — O primeiro ministro recebeu seus convidados com um sorriso no rosto — Vejo que ainda tem bom gosto para mulheres, como se chama mocinha?

— Me chamo Lian Fu senhor. — A capitã respondeu, inflexível.
Raidou estreitou os olhos. Lian Fu o avaliara bem, uma resposta neutra para uma pergunta obviamente intimista algumas vezes revelava intenções. Uma recepção mais fria significava profissionalismo.

O general sabia que Huaq não flor que se cheirasse, o homem podia ser mais escorregadio do que uma enguia e sabia muito bem sondar o terreno em que pisava. Certamente não poupava esforços para bajular quando preciso, não era à toa que mantinha o cargo de segundo homem mais poderoso do Reino da Terra. Céus! Como o general odiava a política! Sempre havia segredos dentro segredos dentro de segredos.

Estando no conforto do gabinete do primeiro ministro, os dois homens mais velhos se sentaram a mesa enquanto Lian Fu fazia a guarda. O primeiro ministro serviu duas taças de vinho e sorriu para seu convidado:

— Que assuntos a Senhora do Fogo tem a tratar comigo dessa vez? Pelo que eu saiba os rebeldes foram derrotados e as fronteiras pacificadas. O que eu posso fazer pela senhora Akame?

— Quem nos dera se fosse apenas uma guerra civil. — Raidou suspirou com pesar, os dois longos dias de viagem estavam cobrando seu preço. — Sinto que seja eu um portador de más notícias Huaq. Como bem sabe, a Lótus Branca é a encarregada da proteção e educação do Avatar, mas tememos que isso acabe saindo do controle. O líder de um grupo radical da Lótus Branca assumiu o poder e agora difunde suas ideias anarquistas pelas nações.

O primeiro ministro pousou sua taça na mesa e permaneceu em silêncio escutando atentamente o general. Raidou quase gostou de ver a máscara do homem cair e revelar o seu verdadeiro lado frio e calculista.

— Ele não só formou uma aliança com a Tribo da Água do Norte como também negociam com a Nação do Ar nesse exato momento. O objetivo deles é tornar o mundo uma só nação livre de governantes ou leis, e assim alcançar o equilíbrio astral. — Raidou continuou. — Para deter esse lunático, o senhor do fogo propõe uma aliança contra esse auto proclamado Libertador.

— E a pior parte é que ele têm o Avatar, não teremos chance — o primeiro ministro concluiu pensativo retomando sua taça e dando um gole generoso. — Mesmo unidos, nossas forças não podem com a Nação do Ar e da Água juntas. Sabemos o quão mortíferos são os dominadores de água de mestre Kan.

Raidou suspirou, era por isso que odiava tanto a política e sua covardia.

— Isso não é bem verdade.

— O que exatamente tem em mente, general?

— A Senhora do Fogo acredita que talvez tenhamos uma chance se usarmos o garoto — Raidou o encarou esperando a explosão que viria em seguida.

A ira ardeu nos olhos do primeiro ministro e a taça de prata amassou entre seus dedos.

— Nunca! Nuca vou permitir isso! — o homenzinho esbravejou esmurrando a mesa, derramando o vinho — O garoto não pode ser controlado, sabemos muito bem disso, ele é apenas um monstro!

— Ele é única jogada que ainda temos — Raidou se manteve impassível. Todo o mundo sabia da história do primeiro ministro e do garoto que lhe manchou a honra — Temos de usá-lo a nosso favor. Precisamos igualar as forças para termos tempo para negociações.

O primeiro ministro parecia a ponto de explodir. Quem ele achava que era? Vir até suas terras e insinuar ideias absurdas desse jeito?

— Raidou, nos conhecemos a muitos anos e eu gosto de você, mas o garoto está fora de cogitação.

— Sabe que temos de fazer isso. Estamos em guerra, primeiro ministro, sacrifícios são necessários.


O sol já nascia no horizonte rosado quando chegaram a prisão Valu de segurança máxima do Reino da Terra. O dirigível rodeou a imensa torre de platina que subia em espiral pelos céus e aterrissou na plataforma lateral, na única entrada da prisão, uma condição imposta pelo próprio Rei da Terra Fang. Raidou e o primeiro ministro, escoltados pela capitã e mais dois soldados da Nação do Fogo desceram do dirigível e acompanharam o guarda porta adentro. O interior da torre possuía dezenas e dezenas de celas cheias e fazias tão miseráveis que Raidou quase teve pena, quase. O único meio de transitar por entre elas era pelo elevador de serviço vigiado constantemente por Dai Lis. Dessa forma, desceram até o último andar que dava para uma enorme porta de cobre.

Aberta a porta, se revelou uma extensa câmara cavernosa cujo chão fora escavado formando um reservatório flamejante de lava, e bem no centro, pendurada por correntes, havia uma plataforma onde se achava uma cela. Os guardas, com um movimento rápido, ergueram uma ponte utilizando o metal dobrado a beira do precipício.

— Isso era realmente necessário? É apenas um prisioneiro — Lian Fu deixou escapar.

Os guardas se viraram para ela e riram com escárnio.

— A senhorita não faz ideia de quem ele é, né? Ele é o demônio. — Um dos guardas exclamou com o típico jeito nativo. — Ele arrasou uma vila inteira sozinho com sua maldita dobra de ar.

— Dizem que nem mesmo os monges do Ar o quiseram. — comentou o segundo guarda. — Ainda hoje acreditam fervorosamente que ele assassinou o antigo mentor. E não vamos esquecer o incidente com a filha do...

Nesse instante o primeiro ministro os silenciou com olhar de ódio mais fulminante que Lian Fu já vira na vida.

— Vamos. — Grunhiu o regente e partiu na frente.

Os três adentraram pela ponte até a cela. O que encontraram fora apenas um garoto de não mais de vinte e dois anos acorrentado à grilhões e correntes nas mãos e tornozelos, impedido de realizar o menor dos movimentos. No entanto, o mais assustador fora seu olhar, o olhar de fazer um homem correr de medo, o olhar de um predador brilhando verdes ferozes.

— Você é Dalai? — perguntou o general sua voz mostrava uma pontada de decepção.

O rapaz estreitou os olhos e sua boca se contorceu em um sorriso terrível.

— Quem mais eu seria? — ele respondeu com a voz embaçada como a de alguém que se esqueceu como falar. — O Presidente da República?

— Não tenho tempo para brincadeiras, eu faço as perguntas e você responde se ainda quiser manter seus dentes na boca — o general disse.

O Rapaz olhou por cima do ombro do general e disse:

— A quanto tempo senhor Huaq, como anda a Laya? Não a vejo faz alguns anos.

O primeiro ministro serrou os punhos e então ouve um estalo nas correntes que prendiam Dalai, se apertando cada vez mais.

— Casada e bem longe de você! — ele urrou bem no rosto do prisioneiro.

— A que devo então o prazer dessa visita senhores? — Dalai indagou em seu tom mais arrogante.

— Viemos com uma proposta. Precisamos da sua ajuda — Raidou voltou a falar. — Não acha que já é hora de se redimir pelo que fez?

— E o que exatamente eu fiz?

— Você é procurado pelos quatro cantos do mundo acusado da morte de seu mentor e líder da Nação do Ar Iann Lanzou. Você nega?

— E você acreditaria? — ele rebateu

— Estamos lhe dando a chance de sair dessa prisão, isso se colaborar — interveio a capitã Lian Fu.

Dalai só então percebeu a figura feminina e se virou a ela sorrindo:

— O mundo todo é uma prisão, querida, apenas estaria me mudando para uma cela maior, e bem, já vejo esse lugar como uma espécie de lar. Além do mais não pretendo ser usado como um peão nesses seus jogos políticos, afinal é para isso que temos um Avatar.

— O Avatar é o nosso problema e esperamos que você o resolva. — Raidou disse e acrescentou em desafio — Isso se estiver mesmo a essa altura.

O rapaz arregalou os olhos e não pode segurar o riso. Eles queriam que ele derrotasse o Avatar? Todos sabem que não há como derrotar um Avatar! Dalai fechou os olhos e respirou fundo, como costumava a fazer para manter o foco.

— Não posso perder uma oportunidade como essa — ele falou por fim — não é todo dia que o primeiro ministro da Terra e o general da Nação do Fogo vem até mim pedir humildemente ajuda, como eu poderia negar? E ainda me oferecerem a chance de lutar com o Avatar, realmente é uma oferta única na vida. Eu topo.