As Crônicas da Tempestade
17 Capítulo 16 - Batalha de Kyoshi Parte 1
Capítulo 16 — Batalha de Kyoshi Parte 1
O esquadrão se moveu com extrema cautela. Seria um desastre se acabassem detectados àquela altura do campeonato, provavelmente seriam abatidos imediatamente pelos bombardeios dos dominadores de ar. Os novos satomóveis submarinos provaram-se de longe os veículos mais práticos já inventados quando se tratava de discrição. Lian Fu limpou a testa com as costas da mão e suspirou estressada. Embora discretos os veículos possuíam o tamanho de uma cápsula a qual cabia apenas uma pessoa, no caso o piloto, para guiá-lo. Esse sistema proporcionava melhor mobilidade e vantagem sobre radares menos avançados.
— Por que tinha de ser tão quente? — Lian Fu praguejou. O interior daquela lata velha parecia uma caldeira preste a explodir. Com a flexibilidade de um atleta profissional, a capitã se despiu da farda.— Quando eu encontra-lo eu vou te matar Dalai! Vão precisar raspar seus pedaços das paredes quando eu terminar! Não podia esperar mais uma semana? Mas não! Tinha de bancar o herói e fugir! Bastardo convencido.
O líder do esquadrão corrigiu a rota em vinte graus a sudoeste e os demais submarinos o seguiram. Eram 23 no total, amontoados em formação de seta. Naquele ritmo chegariam a Kyoshi em algumas horas onde dariam início ao plano de invasão e tomada da ilha. Por mais que não aparentasse, a Ilha de Kyoshi se tratava de um importante ponto estratégico do Reino da Terra que dava ligação a duas outras ilhas que podiam servir perfeitamente de bloqueio contra as tropas inimigas vindas do norte e do oeste, além de impedir reforços para as forças já atuantes no território da terra. A tomada de Kyoshi era um ponto chave da guerra.
— Capitã, corrija sua rota para dez léguas abaixo, acabamos de entrar em território inimigo — um de seus subordinados a avisou pelo rádio.
O esquadrão de Lian Fu ficara encarregado de interferir em qualquer tentativa de socorro, sua missão era cortar a comunicação de Kyoshi com as outras ilhas do norte e do oeste. Essa era uma missão importante e se fosse bem sucedida sua carreira no exército ganharia uma acelerada absurda.
— Avise ao Jee que estamos próximos ao ponto de encontro. Diga a ele para preparar para emergir — a capitã ordenou deixando as mãos trabalharem no painel.
— Sim, senhora.
Lian Fu apertou bem o cinto e puxou a alavanca de ignição e virou o leme para baixo fazendo seu submarino iniciar o processo de emersão. O bico de seu veículo irrompeu para fora d´água com o familiar tranco e depois avançou rente a superficie até a praia onde parou na areia. A capitã soltou o cinto e retirou o capacete, caçou uma alavanca no escuro e abriu a escotilha e escorregou para a terra firme, grata pela brisa refrescante da madrugada.
Alguns instantes depois os demais submarinos saltaram para fora d´água como um cardume de peixes metálicos.
— Jee… — Ela chamou apertando o rádio que trazia na mão — Reportar a situação.
Uma das escotilhas de um submarino se abriu e um rapaz de cabelos raspados desceu.
— Sem sinal do inimigo. Não sabem que estamos aqui — ele informou à sua superior.
Jee era um homem alto de pele acobreada e de músculos bem definidos proveniente da região das minas. Vestia apenas uma camisa regata que um dia fora branca manchada de graxa, nada especial para de um mecânico, e caças largas marrom do uniforme.
— Apresse o pelotão, temos... — ela conferiu no relógio — duas horas até o nascer do sol. Quero já estar bem longe quando a luz do sol estiver no céu.
— Sim, senhora.
E ele partiu para ajudar os companheiros a desembarcar e mantê-los em ordem. Lian Fu não sentiu uma certa nostalgia, era muito bom voltar a trabalhar com ele. Conhecia Jee desde os tempos da academia quando ainda não passavam de moleques. O rapaz era três anos mais velho do que ela e duas cabeças mais alto. Na época a guerra civil da Nação do Fogo havia acabado de terminar e seus líderes presos, no entanto o ódio ainda era presente dos dois lados, Jee foi pego nesse fogo cruzado, e apesar de ser um piloto incrível, seus superiores não permitiram sua ascensão no exército e o mandaram para o setor de reparos. Mas Jee se provara um cara durão, e logo se destacou como um prodígio e agora brilhava ao lado dos melhores mecânicos da Nação do Fogo, mas nunca deixou de sonhar em pilotar de novo.
— General Raidou, a fase um foi um sucesso — ela anunciou à central de controle — Estamos a cinco horas do ponto de partida da fase 2.
— Entendido, capitã. E... boa sorte menina — Raidou disse do outro lado.
— Ela não vai aparecer — Kaijin disse com toda a certeza — Lana nunca iria comprometer a causa por mim.
Dalai apertou ainda mais as correntes que prendiam o pulso do prisioneiro.
— Cala a boca.. Não pedi sua opinião — respondeu indiferente — Ela vai aparecer.
Depois pegou a outra ponta e jogou por cima da viga de aço do depósito.
— Estou dizendo que isso é uma loucura, seu plano é idiota. O Avatar nunca cederia ao mau, ela deve deixar de lado suas emoções e agir pela lógica. Aí! Seu desgraçado...
Dalai o suspendeu do chão pela corrente e a prendeu bem firme em uma coluna.
— Esse é o problema: mesmo sendo o Avatar, o ser divino, o escolhido e todas essas babaquices, seu símbolo da paz ainda é uma garota que nunca conheceu o mundo aqui de fora. Ela ainda é ingênua e vai fazer a escolha errada, só precisou de um empurrãozinho... — e, deu outra puxada na corrente para que Kaijin ficasse ainda mais alto — e pronto, agora você é uma bela lantejoula.
— Espere até eu me livrar dessas correntes! Eu vou te estripar! — Kaijin urrou.
— Uma bem tagarela por sinal.
— Um amigo meu já está providenciando um barco para nos tirar da ilha — Mizu disse entrando pela portão de ferro, parecia bem ansiosa — Acha que vai dar certo? Ela já está muito atrasada.
— Não temos outra escolha, ela vai ter que vir buscá-lo.
— Mas e se ela vier com um exército de ninjas da Nação do Ar?
Dalai deu de ombro.
— Então acabamos com todos eles.
— E se Yako também aparecer? Aquele velho louco não perderia a chance de ter sua cabeça, sabe bem disso. — Mizu indagou.
— Deixe que eu me preocupo com o Yako, apenas se concentre no plano. Se tudo correr certo estaremos bem longe de Kyoshi ao nascer do sol de amanhã. Não se preocupe demais Mizu, tenha um pouco de fé.
Mizu imaginava se ele é que estava se preocupando de menos. Ela sabia que ainda não estava recuperado dos ferimentos da luta contra Olhos de Tigre e suspeitava que já estivesse machucado antes disso, caso a troca desse errado tinha sérias dúvidas se o rapaz conseguiria lutar contra a Nação do Ar.
Dalai pegou sua mão:
— Ei, relaxa, tudo vai dar certo...
— Espero que tenha razão, não posso perdê-lo de novo.
Lana perambulou pelo quarto, ansiosa, como já fizera uma centena de vezes roendo as unhas. Não importava o quanto pensasse, sempre acabava em um beco sem saída. O assassino do ar parecia lhe conhecer bem melhor do que imaginava e achava claramente tê-la manipulando e mesmo sabendo disso, Lana não podia fazer nada a respeito, mas mesmo assim... A garota socou a parede de frustração, abrindo um rombo para o quarto ao lado.
Ignorando os xingamentos de seu vizinho, a garota continuou a dar voltas em círculos. A rainha da terra era, sem dúvidas, o grande trunfo da Lótus, se a perdessem perderiam também o herdeiro do trono. Mas se não fizesse nada o herdeiro da Tribo da Água da Norte poderia ser executado por aquele psicopata. Se dissesse a alguém certamente seria um desastre envolvendo um possível conflito na ilha e muitos civis poderiam se machucar no fogo cruzado!
— Como isso foi acabar assim? — uma pena as que paredes não pudessem dar respostas.
Lana passara as últimas horas meditando tentando fazer contato com as suas vidas passadas, mas nenhuma resposta veio do outro mundo. Apenas o silêncio desesperador de sua mente em conflito. Devia haver algo que pudesse fazer para se livrar dessa situação infernal.
Frustrada, saiu porta a fora em busca de ar. Enquanto descia as escadas encontrou mestre Yako, que se possível, parecia mais ignorante do que antes. Lana tentou passar mas o mestre barrou seu caminho.
— Senhorita Lana, está atrasada para a aula de dominação do ar! O que houve com todo seu entusiasmo de ontem?
Lana não estava com cabeça para aquilo no momento.
— Não posso fazer a aula hoje, mestre, desculpe o importuno, mas estou com alguns problemas no momento para resolver...
Essa não era a resposta esperada e o mestre permaneceu fixo como uma estátua.
— O que poderia ser mais importante do que seu aprendizado? O Avatar deve dominar todos os elementos para poder vencer essa guerra!
Lana agarrou o velho monge pelas vestes e explodiu:
— Caso o senhor não saiba sou uma mulher na puberdade passando por mudanças! Meu corpo está estourando de hormônios, e ainda tenho a merda do peso do mundo nas minhas costas! Preciso de um tempo! Não aguento mais ficar parada! Quer ser útil a essa guerra? Deixe-me em paz e sai da minha frente ou eu mesma o obrigarei a fazer isso!
Lana o empurrou para o lado e se foi sem esperar pela bronca que viria. Estava tão farta de tudo! Se era a mulher que ele queria, então ela daria a ele. O Avatar sabia que simplesmente invadir a prisão não daria certo, precisaria de um plano para tirar a rainha em segurança. Tinha até o nascer do sol, seria uma corrida contra o tempo. Ainda pensando nisso, fez seu caminho até a prisão improvisada da rainha, taciturna.
Os dois guardas de praxe ainda faziam a segurança da rainha.
— Estou indo ver a Rainha da Terra — ela anunciou em seu tom mais autoritário possível.
Um dos guardas assentiu e abriu a porta. A porta dava para um extenso corredor mal iluminado pelas luzes fluorescentes, o outro guarda a escoltou até a cela onde estava a prisioneira.
— Deixe-nos — o Avatar ordenou.
O soldado pensou em retrucar, mas pensou melhor e decidiu que uma mulher grávida não era um perigo ao Avatar e foi embora, fechando a porta atrás de si.
— Veio discutir sobre sua ideologia novamente menina? — A Rainha da Terra indagou com certo escárnio na voz.
— Ele está aqui — Lana disse sem se deixar irritar pelo veneno — Ele chegou à cidade ontem. Ele tem meu amigo Kaijin... quer fazer uma troca.
Um raio de esperança apareceu no rosto de Laya por um momento, porem logo se desfez, havia um problema, sempre havia um problema. A rainha se levantou com dificuldade de seu leito e bamboleou até as grades.
— Mas?
Os olhos do avatar se escureceram.
— Não posso entregar seu bebê — ela disse em tom obscuro — Você vai sair, mas ele fica. É assim que vai ser...
— Não, não pode pegar o meu filho! Se for assim eu fico! — Laya gritou desesperada. Ela não podia fazer isso com uma criança que nem nasceu ainda!
— Não estou dando escolha alguma, esses são os fatos. Não me importo com o que vai pensar de mim, mas o que faço é por algo maior do que eu e você... — ela disse friamente.
— Não! Não pode tirar ele de mim! Por favor, não faça isso — Laya implorou recuando até as paredes cavernosas — Não precisa ser desse jeito, ainda dá tempo de voltar atrás!
Lana assumiu a monstruosa posição proibida, a tão temida dobra de sangue condenada em todo o mundo. Mestre Kan lhe ensinara para fins medicinais, mas agora teria um propósito mais útil. Lana se conectou com a água correndo no sangue da rainha, podia sentir cada órgão de seu corpo, a pulsação de seu coração, até mesmo a vida crescendo dentro dela. Lana então fechou as mãos e espremeu a bolsa.
Laya sentiu um líquido estranho descer por entre as pernas. Ela gritou, por medo, por desespero e por ódio, ódio daquele ser a sua frente. Os guardas irromperam pela porta preparados para repreender a prisioneira.
— Rápido, chamem um médico, ela está tendo o bebê! — Lana gritou para eles.
— Você é um monstro! — Laya berrou para ela quando os guardas se foram — Vai pagar por isso! Eu mesma vou me certificar disso!
Não demorou muito para os paramédicos chegarem e levarem a rainha para a enfermaria para ser atendida. Lana a seguiu de perto por todo o processo esperando sua chance de agir.
Raidou observou rigidamente seu exército abaixo. Todos olhavam ansiosos para o parapeito de onde o general os fitava com gelo nos olhos. Cresceram ouvindo histórias sobre aquele homem, sua coragem os espirara a se tornarem membros das forças armadas, agora teriam a honra de lutar ao seu lado. Aquele é o rosto do homem pela qual dariam suas vidas com prazer.
— Senhoras, senhores, companheiros patriotas. — Raidou começou — Estamos todos presentes neste dia para fazer História, essa noite, não seremos apenas soldados lutando pela sua nação. Não. Essa noite seremos aqueles que decidirão o destino de todas as vidas do mundo! Essa noite lutamos pela humanidade, lutamos pela paz, por pessoas que nunca conhecemos e também por nossas famílias e amigos. Essa noite traçamos o caminho para um futuro brilhante para nossas crianças, sem mais guerras!
O urro dos homens fez as aeronaves estremecerem, aquelas palavras incendiaram seus espíritos e fez queimar o orgulho que existia em cada homem e mulher da Nação do Fogo. Raidou fitou orgulhoso aqueles jovens, mas em seu coração só havia tristeza, pois sabia muito bem que muitos deles não retornariam para suas casas.
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