As Crônicas da Tempestade

13 Capítulo 12- Dúvidas, certezas e reencontro


Notas iniciais
Yo pessoal, desculpe ai o limbo, a verdade é que eu estive passando por alguns problemas pessoais e acabo de sair de uma forte depressão e estou voltando agora a dar continuidade a minha história , que para mim, a trama está se tornando cada vez maior e explorando bastante do mundo de Avatar, embora a maior parte dos locais se passe em cidades fictícias. Bom, gente, aproveitem bastante!

Capítulo 12 — Dúvidas, certezas e reencontros

Em algum lugar do oceano

Os ventos frios sopravam a maresia salgada do mar que entrava sem ser convidada pelas frestas da janela da cabine de Lana, fazendo com que a garota estremecesse. Por que diabos tinha de ser um barco? Lana praguejou deitada na cama, trincando os dentes de frio mesmo debaixo das cobertas. Incapaz de dormir, fitava o teto remoendo os últimos dias. Toda a vida fora criada como uma vencedora, forjada para ser o Avatar, o dominador mais poderoso de sua geração, aquele que traria paz ao mundo e todas as outras besteiras batidas de sempre. A lembrança da derrota ainda lhe trazia um gosto amargo à boca, como uma ferida aberta que nunca sarava.

Temia também por Kaijin que fora capturado pelo inimigo, imaginava os horrores que fariam com ele quando descobrissem sua real identidade. Sua mente voltou ao assassino do Ar e toda sua fúria, sentia calafrios, por parte da febre e parte da lembrança de seus golpes e da forma como ele lutava nunca vista antes. Algo nele de alguma maneira não estava clara, como se escondesse sua verdadeira forma e objetivos.

Lana tentou se erguer, porém logo sentiu uma pontada de dor. Fazendo careta, ela apalpou os hematomas arroxeados imaginando como fora acabar daquela forma. Eu sou o melhor dominador de ar vivo, Lana se lembrou daquelas palavras arrogantes e concluiu que havia um pouco de verdade naquela fanfarronice toda.

Batidas na porta interromperam a melancolia de Lana e a arrastaram de volta a realidade. A garota se agarrou a cabeceira da cama e se ergueu com esforço deixando de lado seu inútil cobertor verde.

— Senhora Lana, mestre Yako deseja vê-la em sua cabine imediatamente — anunciou o monge mensageiro.

Lana suspirou exasperada. Sempre desejara ser parte da ação, no entanto agora as coisas pareciam tão diferentes do sonho infantil, sentia-se tão despreparada quanto um recém-nascido. No fim das contas a realidade tende a ser decepcionante.

— Diga ao mestre Yako que o verei logo — ela respondeu tentando esconder a dor. Porem o homem não estava tão disposto a obedecer e continuou a fitá-la no aguardo.

— Logo quando senhora? — ele insistiu.

Lana franziu o cenho irritada. Esses monges do ar são tão irritantes! Mestre Yako não parava de mandar mensageiros toda vez que tinha a chance de perturbá-la, no fundo ele ainda nutria a esperança de trazer o Avatar para o seu lado e torná-la um Monge do Ar e sua protegida. As coisas pioravam para o Nômades do Ar nas últimas décadas com os novos valores vieram junto da tecnologia, muitos dominadores de ar haviam abandonado às tradições e adotaram novos líderes dispersos. Yako acreditava que com o Avatar ao seu lado poderia unificar novamente os dominadores de ar nos ensinamentos do credo embora Firion tivesse deixado bem claro sua opinião sobre o velho mestre e suas intenções ocultas. Yako era um homem honesto em suas crenças, porém perigoso se ofendido. O alinhamento da Nação do Ar com Aliança Libertadora era recente e mais frágil do que o esperado.

— Diga ao mestre Yako que me juntarei a ele para o jantar — ela respondeu acalorada.

O monge fez uma breve reverencia e partiu silenciosamente pelo corredor do navio deixando Lana sozinha novamente com seus conflitos. Sua cabeça rodopiou novamente e teve de se agarrar a cabeceira para evitar a queda, respirou profundamente e quando ergueu os olhos para o espelho havia um brilho emitindo no seu lugar. De repente seu mundo escureceu.

Em algum lugar do deserto, Reino da Terra

Os buracos na estrada de areia faziam o satomóvel pular, remexendo o almoço. Maldito seja o desgraçado que criou essa fera! Dalai xingou entre os dentes, se agarrava com as duas mãos às laterais do veículo. Kaijin, no entanto, ignorava seu novo companheiro de viagem, ou ao menos na superfície, no fundo havia certo prazer no sofrimento de um inimigo, ainda guardava rancor da forma como ele havia tratado Lana durante a invasão a Ba Sing Se.

Kaijin espreitou seu novo colega de viagem pelo canto do olho. Se não fosse pelas algemas em suas mãos, já o teria degolado com prazer. Só precisava de um tiquinho assim de água... O herdeiro da Tribo da Água do Norte ainda não podia acreditar na sorte que dera, ser libertado pelo Primeiro Ministro da Terra parecia uma impossível tacada do destino, sorte demais para seu gosto. Isso lhe cheirava a armadilha, desconfiava de estarem sendo seguidos por Raidou e seus cães imundos da Nação do Fogo. O que lhe preocupava mais no momento era se Lana completara a missão sem grandes problemas, havia dias desde que fora capturado e nenhuma notícia havia chegado do resgate da Rainha da Terra.

— É aqui — Dalai indicou com o queixo o local e Kaijin encostou.

Até que enfim, pensou Kaijin embora suspeitasse que o governo ter abafado o caso e impedido a notícia sobre o ataque a Ba Sing Se de se espalhar. Admitir um ataque à capital seria o mesmo que dar um golpe fatal a imagem da nação. Mas por mais que o caso ficasse afastado da mídia as pessoas ainda falavam, não demoraria para virar notícia. Vagavam pelo Reino da Terra há três dias parando apenas para se alimentar e reabastecer antes de cair novamente na estrada, percorreram mais de 340 quilômetros de deserto até aquela pequena vila que se erguia logo adiante.

Dalai desceu do carro, grato por finalmente estar em terra firme, deu uns três passos antes de perceber que seu prisioneiro não o acompanhava.

— Vamos princesa não temos o dia todo!

— Vá se ferrar maldito! Não foi você que dirigiu a viagem toda até aqui, estou exausto!

Kaijin bufou, odiava aquele cara, odiava aquele maldito lugar, por que era tão quente naquele fim de mundo? O Reino da Terra não passava de uma terra de bárbaros fedidos a merda.

— Como sabe que é aqui? Esteve preso durante anos! Podem ter fugido há tempos — Kaijin replicou descendo do satomóvel.

Dalai lhe deu às costas e adentrou a pequena vila de Bee Wan. Bom. A vila já tivera dias melhores, embora nem em mesmo em sua fundação pudesse ter sido chamada de bela, agora fora tomada quase que completamente por areia e as piores pragas do deserto desde trapaceiros até assassinos foragidos. Tendas furadas armadas de forma desleixada e espeluncas caindo aos pedaços a mercê do vento árido do deserto compunham as ruas. Suas construções, bem próximas umas das outras, formavam becos estreitos e escuros propícios a emboscadas, que desciam pelo planalto na qual fora sido construída.

Dalai inspirou profundo e expirou com prazer:

— Sente este cheiro? — perguntou ao outro.

— Fede a escória. — Kaijin respondeu em cerimônias.

— Esse é o cheiro de casa — e abriu um largo sorriso.

Há alguns anos, quando fora expulso dos Monges do Ar, Dalai vagou por todo o Reino da Terra de cidade em cidade mendigando e roubando, passou por momentos difíceis e fez muitas coisas da qual não se orgulhava para sobreviver. Nem mesmo o grupo de dominadores do ar renegados, os Irmãos do Silêncio, o quiseram após os boatos sobre a morte de Iann chegarem aos seus ouvidos. Esteve perdido por muito tempo até finalmente chegar a Bee Wan, a lendária cidade sem lei, o lar dos fortes e terra das oportunidades. Fora ali que formara sua gangue; ali fora o único lugar que pôde chamar de lar. Mas estraguei tudo, como sempre, recordou amargamente.

— O que viemos fazer aqui Dalai? Pensei que fosse me trocar pela sua amiga especial — Kaijin indagou enquanto faziam seu caminho por entre os bêbados caídos e fossas jorrando merda — Eu odiaria estar em seu lugar, amigo. Deve ter sido difícil: levar uma vida de miséria como bandido, ser preso durante anos, e para variar agora o mundo todo odeia você...

— Não é como se me adorassem antes, só aumentou o número de pessoas que me odeiam em algumas centenas, não é nada com o que me preocupar. Posso viver com isso — deu de ombros indiferente, ele lançava olhares aleatórios procurando por algo.

— Mas tem a garota... Ah, sei o que está pensando, se ao menos pudesse ficar com ela tudo valeria a pena, não é? Mas adivinha: não vai acontecer cara — Kaijin atirou a isca — Se bem me lembro ela é esposa de um rei e será a mãe do futuro Rei da Terra, entende isso? E o que você é? Acha que a resgatando ela vai ser sua, certo?

Kaijin mal terminara a frase quando o punho se chocou com sua cara e o atirou contra a parede de um bar caindo aos pedaços. Quando ergueu os olhos Kaijin viu a morte de frente, apenas a alguns metros dele.

— Acho que você está confundindo as coisas por aqui! Se fosse você tomaria cuidado com as palavras, amigo. Preciso de você vivo, não inteiro...

Dito isso os olhos de Dalai se estreitaram pela janela do bar. É ela! Nem posso acreditar. Atrás do balcão, uma mulher esguia de cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo e olhos dourados profundos servia bebidas a dois velhotes tão embriagados que nem notavam que o que bebiam era na verdade água. A mulher era jovem, na flor da mocidade, embora olheiras enfeitassem seus olhos, usava um elegante vestido verde sem mangas de gola até o pescoço que valorizava bem as curvas do seu corpo.

Quase que hipnotizado Dalai empurrou para o lado a porta e hesitante, deu um passo a diante. Seu olhar se cruzou com o da moça e os olhos dela umedeceram. Ele não podia ser real. Abriu a boca para dizer algo, mas nunca chegou a falar, sua voz morreu na garganta.

— Olá Mizu, eu voltei.

A mulher estreitou os olhos e de um instante para o outro sua boca se fechou numa careta de raiva.

— "Olá Mizu"? "Olá Mizu"! — ela repetiu incrédula — Você some por seis anos e de repente aparece e diz " Olá Mizu"? Seu filho da puta! — uma garrafa voou de sua mão e se espatifou no batente da porta fazendo chover estilhaços. — Depois correm os boatos que você foi capturado, sabe quão preocupada eu fiquei? Sabe o quanto nós procuramos por você seu cretino? — ela chorava tanto por raiva quanto por emoção. Mas Dalai apenas se aproximou calado. — Eu pensei que estava morto! Aí, do nada, misteriosamente, você aparece em todos os jornais como o homem mais procurado do mundo! Nós te avisamos... Eu te avisei que ela era problema, e mesmo assim você não me ouviu!

Dalai a envolveu em seus braços e a deixou chorar em seu peito.

— Eu estou aqui agora, e não vou mais te abandonar. Somos uma família, um cuida sempre do outro.

— Seu filho da puta arrogante! Acha que vai ficar tudo bem só com isso?

Ela tentou lutar para se soltar, mas ele a manteve junto de si, pela primeira vez em seis anos Dalai permitiu as lágrimas a descerem novamente. Nada mais importava naquele momento. Ela finalmente cedeu e o abraçou bem forte como se caso o soltasse ele pudesse escapulir por entre os dedos.

Kaijin tossiu.

— Detesto acabar com o climão de reunião, mas temos negócios a tratar.

Dalai a soltou e ela esfregou os olhos com os dedos do jeito que só ela fazia. Como sentira saudades daquilo.

— Então essa não foi uma visita para rever os velhos amigos, não é? — ela indagou ainda tentando controlar a emoção, não era como se já não esperasse por aquilo, Dalai sempre fora assim: só aparecia quando havia um problema. — Quem é o seu novo amigo?

Dalai sorriu sem jeito.

— Esse é o futuro líder da Tribo da Água do Norte, Príncipe Kapin.

— Kaijin...

— Foi o que eu disse!

Mizu recuperou a compostura e pôs três copos sobre a mesa e os encheu com uma bebida amarelada. Depois fez um gesto amplo com os braços para as duas cadeiras vazias:

— Sabe como funciona certo? Você me diz algo que quero saber e eu lhe passo a informação, simples assim. Três perguntas por três respostas.

Dalai sorriu, pegou um dos copos e bebeu tudo de uma vez.

— Manda a ver! O que quer saber?

— Algumas fontes minhas estão interessadas em informações sobre um tal de general Raidou. Os boatos dizem que ele é o representante da Nação do Fogo aqui no Reino da Terra. Dizem que ele mantém um gênio sempre por perto, que está preparando um substituto para o cargo. O que pode me dizer sobre ele?

Dalai apanhou o outro copo antes que Kaijin pudesse estender a mão e o virou na goela.

— Raidou é um estrategista experiente, um guerreiro excepcional, ao que dizem é amigo íntimo da Senhora do Fogo. Liderou o exército do fogo contra a invasão da Tribo da Água durante a Batalha do Eclipse Lunar há dez anos.

Ela assentiu e prosseguiu:

— Já sei disso tudo, me refiro a sua personalidade

— E o que isso tem a ver?

— Não sei e nem ligo, meu cliente está dando altos valores por essas informações e eu as quero.

— Tudo bem. Raidou é severo, impetuoso, o que se espera de um herói, mas não é um homem bom, não tenho dúvidas que faria o que fosse preciso por seu país e isso é assustador. Do meu pouco convívio com ele não pude deixar de admirar o cara, ele é uma lenda viva.

Mizu não precisava tomar nota, mantivera a memória afiada como uma navalha, um gênio nato tanto nas artes táticas quanto nos negócios. Quando ainda eram um bando, Mizu sempre fora decisiva para a sobrevivência da família coordenando saques e mantendo uma logística de alimentos.

— A segunda pergunta é sobre Valu. — Nesse ponto ambos deixaram a conversa morrer durante o tempo de meia respiração, a atmosfera se tornou pesada de repente.

— O que exatamente quer saber sobre aquele inferno? Quer mesmo saber o que acontece lá?

Mizu assentiu séria.

— Quero informação sobre um prisioneiro em particular. Uma mulher chamada Yuzushi Atakano.

Dalai franziu o cenho.

— Vou querer saber por que o interesse na mulher que liderou a guerra civil na fronteira da Nação do Fogo?

— Digamos que Raidou não é o único filho da mãe insano que pretende ter criminosos perigosos do seu lado.

Dalai apanhou o terceiro copo e o virou como os outros dois. Ainda girando-o na mão ele prosseguiu:

— Yuzushi Atakano. Esse era o nome na boca dos prisioneiros durante os últimos dois anos. A mulher que transformou algumas centenas de mineradores de carvão nos guerrilheiros mais mortais da história da Nação do Fogo, tanto foi o desespero que o Reino da Terra teve de intervir a favor do governo para capturar as forças rebeldes. E tudo que os rebeldes queriam era um pouco de reconhecimento e leis de trabalho justas. Os boatos em Valu eram que ela podia derreter qualquer metal, dominar as massas de ar quentes, e ainda dizem que ela ferveu o cérebro de um guarda apenas tocando em sua cabeça com as mãos nuas.

Mizu sorriu pelo canto da boca.

— Parece que até mesmo o temível Filho da Tempestade tem medo dessa dona.

Dalai não pôde deixar de dar um sorriso sem humor.

— Eu só a vi uma vez, quando a trouxeram para o subterrâneo. O que eu vi naquele dia não era uma mulher, era a loucura encarnada. Lembro dos olhos embaçados parecia uma casca vazia ambulante.

— Então a guardam no subterrâneo?

— Sim. Numa das áreas de contenção especializadas para criminosos figurões, que tive o desprazer de fazer parte.

Dalai então se acomodou na cadeira e lançou um longo e demorado olhar de alto à baixo para Mizu.

— Você ganhou um belo corpo, sabia?

Ela deu risinho e piscou de modo provocante.

— Não se têm 15 anos para sempre, né? Uma garota tem de saber usar bem as armas que têm.

— Faça logo a última pergunta de uma vez.

O risinho morreu e Mizu prosseguiu:

— Você está indo atrás dela, não é? — Nem precisava dizer quem era ela, ambos sabiam muito bem.

— Não posso abandonar a Laya, ela é parte da família.

— Foi só por isso que veio me ver? — havia certo tom angustiante em sua voz, no fundo Mizu tinha medo da resposta.

— Sim... — Dalai respondeu, desviando o olhar, não conseguia encará-la.

— Você a ama? — os olhos de Mizu se umedeceram novamente, mas ela segurou as lágrimas, não permitiria que ele a visse chorar.

— Sim...

E os dois tomaram uma longa e forte dose.