As Crônicas Dos Malditos
6 O Herói - parte IV
Notas iniciais
A perna latejava tanto que Duruka achava que seu coração tinha se movido para o joelho. E cada batida era uma agonia. A dor não o deixava dormir muito, mas isso até que era uma coisa boa. Pois sempre que fechava os olhos, sonhava com o gigante de fogo. Mas a dor sempre o tirava dos pesadelos, trazendo-o de volta ao seu colchão de palha no meio de seu quarto. E as vezes a frustração por estar preso a sua cama era pior que a dor, estava deitado a tanto tempo que havia contado todos os pregos das vigas que corriam pelo teto.
Depois de tudo o que havia passado, ficar parado era insuportável.
Mas pelo menos haviam deixado ele em paz por enquanto. Quando o sol nasceu após toda aquela loucura, quase toda Orgrimmar acordará como se nada tivesse acontecido. Mas pelos três dias que se seguiram após a batalha, Duruka respondera um sem número de perguntas sobre o incidente e em pouco tempo havia ficado completamente enjoado de sua própria história.
Já estava cansado de dizer como havia conseguido se arrastar até seu machado e, no último instante, o arremessou de forma certeira no crânio de Mannoroth, rachando-o ao meio. A dedução de Hirbag provou estar correta, pois assim que o crânio foi destruído o demônio de fogo desmoronou numa montanha de cinzas e madeira enegrecida. O feiticeiro, que estava bem ao lado de Mannoroth quando a criatura entrou em colapso, tentou escapar através da nuvem de cinzas que restara de sua criação, mas acabou tropeçando no próprio Duruka enquanto fugia. Com esse erro, Duruka foi capaz de matar o miserável com as próprias mãos.
E mesmo depois dos questionamentos terminarem, Duruka ainda precisou repetir a história para seu pai, para seus primos, para os colegas que conheceu durante seu treinamento, e para todos os curiosos que vinham visita-lo para ouvir seus grandes feitos. Duruka nunca tinha visto seu pai tão orgulhoso em toda sua vida como quando veio dizer a ele que o próprio chefe-guerreiro Thrall pretendia vir falar com ele em breve.
“Ah, se seu irmão estivesse aqui para ver isso!” Duruka ouvia seu pai dizer sempre que o visitava. Por toda Orgrimmar todos diziam seu nome. Duruka, o poderoso; Duruka, o matador de demônios; Duruka, o herói; Duruka, o...
– Jantar! – ela exclamou quando afastou as peles de javali que cobriam a porta para entrar no quarto – Está com fome, herói?
– Não me chame assim – Duruka rosnou para a garota enquanto a via atravessar o quarto carregando uma enorme tigela que fumegava, enchendo o lugar com o cheiro de carne de porco.
Já era ruim o bastante levar essa farsa adiante com todos que conhecia, não precisava de um filhote de humano zombando dele com essa palavra. E para piorar sua culpa, toda a cidade insistia em continuar clamando seu nome, mas levou pouco mais de um dia para esquecer os nomes dos verdadeiros heróis.
Encontraram Traigar bem onde Mannoroth o tinha deixado. Na pequena cratera aberta por seu punho monstruoso quando esmagou o velho caolho. Hirbag foi mais difícil, mas por fim o encontraram empalado em um espigão de uma das muitas torres de vigia espalhadas pela cidade.
Duruka nem teve a chance de prestar honras antes dos corpos dos dois guardas serem queimados. Ele aprendeu mais sobre seus companheiros um dia depois de morrerem do que pelos meses que os conheceu em vida. Hirbag era o único filho de um orc morto em batalha, sua morte era o fim de toda uma linhagem.
Aprender sobre Traigar foi mais doloroso ainda, o velhote tinha feito parte da primeira Horda. Dobrou o joelho ao senhor do abismo junto de seus filhos. Após o fim da primeira guerra, Traigar se viu livre do domínio de Mannoroth só para se dar conta de que estava acorrentado em um campo de prisioneiros, com um olho a menos e seus cinco filhos mortos.
Mannoroth tirou tudo dele e ainda voltou dos mortos para terminar o serviço, só de pensar nisso fazia a cabeça de Duruka doer quase tanto quanto sua perna.
– Não precisa ficar irritado, achei que já tinha se acostumado em ser chamado assim – Anna saltou para uma cadeira em frente a cama, descansando a tigela sobre suas pernas.
– Eu não preciso que me ajude a comer – Duruka protestou enquanto sentava-se sobre a cama, ergueu a mão para a tigela da garota, mas ela levantou-se em cima da cadeira tirando a comida de seu alcance.
– Sem chance! Não vai beber o ensopado direto da tigela de novo, você se sujou todo da última vez – ela disse levando uma colher de pau ao ensopado.
– Eu não me importo! Não serei humilhado assim por uma... – rápida como uma cobra, a colher investiu contra sua boca, misturando suas pragas com o sabor de porco cozido.
– Você sempre reclama, e as coisas sempre acabam do mesmo jeito – Anna cantarolava alegremente enquanto Duruka quase se engasgava.
A humana tentou puxar a colher de volta, mas Duruka a prendeu com os dentes e depois agarrou o ensopado da mão de Anna.
– Tudo bem! Eu como usando a colher, satisfeita? – ele disse dando mais uma colherada na tigela.
A garota ficou lá sentada, assistindo Duruka comer como se duvidasse de sua palavra.
– Onde arrumou essas roupas? – ele perguntou.
– Ah, isso aqui? – ela disse puxando o ombro da camisa que usava – Peguei de um varal que achei por aí depois de tomar banho. Acho que era de um goblin, sei lá.
Duruka não duvidava disso, a camisa tinha mangas que eram compridas demais para os braços da garota, mas era curta a ponto de deixar metade a barriga dela a mostra. E seu dito banho não acontecera a muito tempo. Anna ainda tinha os cabelos castanhos meio molhados caindo pesados sobre seus olhos e agarrando-se atrás de seu pescoço. Também usava um par de calças surradas que ela fizera questão de rasgar até a altura de seus joelhos. E, como sempre, estava descalça.
– Gostou? – a humana perguntou toda ansiosa. Duruka terminou de beber o caldo do ensopado.
– Cozinhou demais, como sempre.
Anna fez uma expressão engraçada que Duruka supunha ser de irritação.
– Da próxima vez, jogo um porco vivo no seu colo. O que acha?
– Agora estamos conversando! – Duruka deu uma breve risada.
– Bom ver que está se recuperando – a humana retrucou, arregaçando as mangas de sua camisa – Ainda tem pesadelos?
Todas as noites. Já faziam quinze dias desde que aquela noite, mas as memórias estavam frescas em sua mente como se toda aquela loucura tivesse ocorrido horas atrás. Duruka podia fechar os olhos e ver o machado bem a sua frente, e a morte caindo sobre ele. Mesmo ouvindo o totem descendo zunindo para esmagá-lo, Duruka só se virou para encarar seu fim após conseguir agarrar sua arma.
E quando se virou, não compreendeu o que viu.
Ainda estava vivo, o que já foi o suficiente para deixá-lo atônito. O totem havia parado sobre ele, com o imenso bico da águia esculpida pairando tão perto de sua cabeça que podia tocá-lo. E entre Duruka e Mannoroth, lá estava ela. Estava morta, Duruka a viu ser esmagada, mas mesmo assim a garota estava lá em pé diante dele, com uma mão erguida para o alto, tocando o totem acima deles. Não, não tocando. Segurando.
O imenso pilar de madeira desceu zunindo sobre ele e de alguma forma a única coisa que o deteve foi Anna. Com apenas uma mão.
– Baixei a guarda de novo – a garota morta disse – Demorei demais para reunir minhas forças. Fui muito lenta. Por isso... Por isso todos...
Mannoroth ergueu o totem de novo para tentar outro ataque. Dessa vez sua arma descreveu um arco para acertar a ambos de lado e manda-los voando até o horizonte como fizera com Hirbag. Anna esticou seu braço em direção ao golpe do senhor do abismo. Quando o totem se chocou contra ela, vergou-se e se estilhaçou numa explosão de lascas de maneira, a cabeça da águia voou para longe. E mesmo assim Anna jazia intacta com seu braço ainda esticado, não havia sequer se movido.
– Eu sinto muito. Não devia ter deixado vocês se envolverem nisso – a pequena humana tinha uma expressão cansada no rosto – Fique aqui. Não quero que se machuque mais.
Duruka não conseguia falar. Tudo o que pôde fazer foi observar a garota dar-lhe as costas para encarar seu inimigo.
A criatura que todos julgavam ser um feiticeiro sibilou alguma coisa que Duruka não entendeu, e então o gigante de fogo largou seu totem arruinado e recuou até seu mestre. Uma mão negra desceu lentamente até o chão para ajudar o feiticeiro a subir pela montanha em brasas, onde repousou em cima do ombro de Mannoroth.
E no topo de sua criação, o feiticeiro começou a soltar mais daqueles sons estranhos enquanto apontava e gesticulava para eles.
– Ah, não... Não acredito que ele está fazendo isso – Anna resmungou.
– Fa... Fazendo o que? – de alguma forma, Duruka conseguira encontrar parte de sua voz. A humana levou as mãos até a cabeça e sacudiu seus cabelos num gesto irritado, estava coberta de terra e areia.
– Ele está fazendo o clássico “discurso de vilão” – ela disse – Sabe, aquele momento em que o cara mal tem certeza de que já ganhou e começa a falar coisas como que somos todos idiotas por achar que podemos derrotá-lo, que nosso fim é inevitável e... Ah, isso é interessante. Ele já chegou na parte em que explica todo orgulhoso o seu plano maligno.
Enquanto a criatura encapuzada continuava a sibilar seu “discurso de vilão”, Mannoroth começou a andar em volta deles, como um leão espreitando sua presa. Duruka não entendia o idioma que o feiticeiro falava, mas Anna parecia não ter essa dificuldade.
– Deixa eu ver... Ele ainda está se gabando, dizendo como é inteligente – Anna dizia enquanto ouvia os silvos do feiticeiro – Agora está dizendo algo sobre ressuscitar o Destruidor – ela fez uma pausa para ouvir mais silvos – Está dizendo que em breve o demônio estará completamente restaurado – houve mais silvos – E... quando o sangue de Mannoroth voltar a correr em suas veias... O povo que uma vez bebeu desse sangue se curvará a ele de novo – e mais silvos – o Destruidor terá seus servos mais uma vez... Mas dessa ele terá um mestre a quem servir.
O feiticeiro ergueu um punho enquanto sibilava – e com tempo, toda Azeroth terá o mesmo mestre e blá, blá, blá. Resumindo, o idiota aqui quer dominar o mundo – Anna soava decepcionada – Quanta originalidade...
Duruka sentiu que ia perder os sentidos. Aquilo era demais para ele, a dor, a loucura. Havia se preparado o melhor que pôde durante seu treinamento, mas ninguém nunca o treino para saber o que fazer diante de um possível fim do mundo. Mannoroth vai ressurgir, e seremos todos seus escravos. Será como a primeira Horda tudo de novo. O que farei? Ele se perguntava. O que posso fazer?
– Me empresta isso – Duruka mal percebeu Anna tirando o machado de suas mãos. A garota brandiu a arma com descaso, como se fosse a coisa mais leve do mundo. Mas Duruka já não se impressionava com mais nada.
– O que você vai fazer? – ele se pegou perguntando, confuso demais para sentir medo.
– O que fiquei a noite toda dizendo que faria – sorriu, descansando o machado por cima de seu ombro – vou terminar minha missão.
Duruka só pôde ficar lá sentado enquanto a humana se afastava até seu alvo, foi a primeira vez que ele notou que Anna estava descalça, embora não fazia ideia de por que havia reparado nisso agora.
Então Anna desatou a correr para longe, fazendo Duruka pensar que ela estivesse fugindo. Mas o demônio se apressou para alcançá-la se pondo em seu caminho. Mannoroth tentou agarrar a garota, mas Anna escapou de seu alcance e ainda tentou um golpe de machado contra uma das pernas do gigante. Ela levou a luta para longe de mim, Duruka compreendeu sentindo-se terrivelmente inútil.
O monstro não tentava esmagar a humana, talvez tivesse aprendido com a brincadeira com o totem. Em vez disso, tentava agarrá-la ou golpeá-la de lado. Anna se esquivava e recuava, tirando lascas de madeira das mãos de Mannoroth sempre que ele investia contra ela.
Anna continuou recuando até se aproximar do local onde Mannoroth havia matado Traigar. O que ela pretende? Duruka se perguntava, enquanto o feiticeiro começava a lançar bolas de fogo verde de cima do ombro do gigante. Uma delas a atingiu em cheio quando Anna se virou para alcançar o enorme martelo que Hirbag havia deixado cair pela última vez.
Mas a garota nem pareceu sentir o fogo queimando em suas costas. Gravou no machado no chão e agarrou o martelo de guerra, e esperou. Esperou Mannoroth e seu mestre se aproximarem.
E então atacou.
Anna avançou, esquivando-se mais uma vez das mãos do demônio, até ficar entre as patas dianteiras do senhor do abismo. Arremessou o martelo contra a pata esquerda de Mannoroth, e deu um simples soco na pata direita. Ambas se estilhaçaram quase ao mesmo tempo fazendo o gigante estatelar-se contra o chão em uma tempestade de fumaça e fagulhas. Seu mestre foi arrematado de seu ombro, rolando para longe pela areia.
E enquanto Mannoroth desabava, Anna conseguiu correr até o machado que havia abandonado. O destruidor jazia caído a seus pés quando os dedos da garota se fecharam sob o cabo do machado.
Rápida como uma cobra, a lâmina partiu o crânio do senhor do abismo ao meio.
O final foi tão súbito que Duruka quase se sentiu decepcionado. Depois que o crânio se quebrou em dois, as chamas e brasas verdes que corriam pelo corpo do monstro se apagaram de uma só vez como o soprar de uma vela, e tudo o que restou daquele pesadelo foi uma pilha indistinta de cinzas e gravetos enegrecidos.
Anna ergueu-se daquela nuvem de poeira, agora cinza da cabeça aos pés e com um sorriso estúpido no rosto.
Mas entre ela e Duruka, uma figura negra e esquálida ergueu-se também. O feiticeiro sibilava freneticamente, cara a cara com a pequena humana que dizia estar ali para matá-lo. A ideia já não soava ridícula para o jovem guarda.
Anna começou a se aproximar lentamente de seu alvo, enquanto a criatura dava passos trôpegos para longe dela, sem nunca desviar-lhe o olhar. Mas a cada passo que o feiticeiro dava para se afastava de Anna, sem notar, aproximava-se de Duruka.
Só mais um pouco, ele cerrou os dentes. Só mais alguns passos.
– Ei, idiota – Anna disse ao seu alvo enquanto se aproximava – cuidado onde pisa.
A garota deu um passo rápido para frente, o feiticeiro deu um passo rápido para trás. Então Duruka fechou sua mão sob a perna esquelética da criatura com tanta força que ouviu um belo som de estalo e então torceu-a, levando o feiticeiro ao chão. Duruka nem chegou a ver o rosto daquele ser. Quando o feiticeiro tentou se virar para encará-lo, o jovem orc fechou sua outra mão sob o rosto dele. A criatura contorceu-se debilmente, cravando garras negras e afiadas no pulso de Duruka, mas isso lhe deu mais raiva do que dor. Sua mão fechava-se sob a cabeça do feiticeiro cada vez mais forte, e mais forte. E mesmo quando sentiu o crânio ceder em sua palma, continuou esmagando-o até que uma estranha gosma esverdeada começou a escorrer por entre seus dedos.
– Por que está erguendo o punho? – a voz de Anna o fez sair suas lembranças, se encontrando de volta em sua cama, encarando seu punho fechado.
– Eu... Eu estou com câimbras, só isso – ele estudou as faixas que cobriam os cortes em seu pulso antes de abaixar a mão.
– Não sou herói nenhum – Duruka resmungou – eu não pude fazer nada. Foi você...
– Não comece – Anna interrompeu-o – Já falamos sobre isso umas mil vezes. Não pode dizer a verdade para ninguém. Nunca. Você prometeu.
De fato, Duruka prometera. Quase uma hora depois que o feiticeiro morreu, o guarda Gramak voltara de Monte Navalha com os reforços dos quais Duruka já havia se esquecido. Eles foram os primeiros a ouvir a história do jeito que jurara a Anna que contaria. E quando Gramak perguntara sobre a humana que haviam capturado, Duruka podia dizer que ela também tinha morrido. Mas o que responderia quando perguntassem onde estava o corpo dela? Só restou dizer que a garota devia ter fugido enquanto lutavam contra Mannoroth. Até agora haviam certos esforços para encontrá-la.
Para a morte do guarda Tadish, restara apenas suposições. O podre diabo deve ter tido o azar de surpreender o feiticeiro enquanto este se esgueirava pelas sombras da cidade e por isso foi silenciado. Até Anna concordava com essa teoria. Tadish se foi deixando uma montanha de dívidas de jogos, e um filho pequeno cuja mãe morrera durante o parto.
– Se você sair por aí contando o que me viu fazer, nós dois vamos estar em perigo – Anna explicou-lhe novamente – Quanto menos pessoas souberem o que eu sou, melhor para nós dois.
– Quanto menos pessoas souberem o que você é... – Duruka refletiu sobre isso por um momento e então respirou fundo – e o que exatamente é você?
A pergunta estava presa na garganta de Duruka há semanas. Mas por alguma razão, não conseguira fazê-la até então. Duruka levou todos esses dias para conseguir por sua dúvida para fora, desde a noite em que o trouxeram de volta para sua casa e acordou de um sono dolorido como os barulhos que Anna fazia ao ficar revirando todos os seus pertences. Não ficou nem um pouco surpreso em vê-la de novo, naquele ponto ele já havia a muito desistido de se surpreender com aquela estranha garota.
A garota moveu-se desconfortavelmente sobre a cadeira.
– Eu não sei o que sou – ela respondeu imediatamente, como se já tivesse respondido a essa pergunta centenas de vezes – mas sei que já chamaram pessoas como eu de muitas coisas. Mas hoje em dia a maioria daqueles que sabem sobre nós, nos chamam de Guardiões.
Guardiões. Uma palavra simples, que pouco fez para esclarecer as dúvidas de Duruka.
– Seja lá o que eu for, parece haver algum propósito para eu ser... o que eu sou... – Anna começou a puxar uma mecha de seu cabelo que caía-lhe sobre os olhos, parecia fazer isso sempre que estava nervosa – As missões... É tudo sobre as missões... Existimos para elas, recebemos poderes para cumpri-las, somos jogados aos lugares mais distantes e estranhos que você pode imaginar... chamados por elas. Se as cumprimos com sucesso, esperamos até sermos chamados para a próxima missão, e a próxima, e a próxima, e a próxima...
Pela primeira vez, a humana pareceu ficar cansada de falar. Abaixo a cabeça e ficou puxando teimosamente seu cabelo, fitando seus próprios pés.
Seus pés. Essa era uma das partes que mais intrigava Duruka. “Enquanto estiver com os pés na terra, sou invencível!”, Anna alegara depois de Duruka conseguir perguntar como uma pequena humana conseguira derrotar um demônio flamejante de quase dez metros de altura.
– E o que acontece se você falhar em sua missão? – Duruka sabia que se arrependeria dessa pergunta.
– Morremos – ela disse, de cabeça baixa – Nós, e os milhares ou milhões de pessoas que dependem do nosso sucesso.
Duruka não precisou questionar as palavras da garota, não conseguia imaginar o horror que ocorreria se Anna tivesse falhado naquela noite. Quantos morreriam se Mannoroth e a primeira Horda ressurgissem no mundo?
– Nem todas as missões são tão fáceis quanto essa foi. Comparada com outras que já fiz, essa aqui foi brincadeira – a humana soltou uma risada forçada.
O corpo dela mostrava a verdade do que dizia. Só depois de ver Anna com mais atenção, Duruka notou as duas cicatrizes. Uma começava perto de seu umbigo e serpenteava por sua pele até terminar no meio das costas. A outra era uma linha pálida que atravessava seu olho esquerdo, começando abaixo da sobrancelha e terminado no meio de sua bochecha.
– Posso ser enviada para outra missão há qualquer momento – a voz de Anna soava um pouco trêmula – É uma coisa meio súbita, então não espere nenhuma despedida.
Aquilo de alguma forma doeu em Duruka. Anna o salvou, salvou todos os orcs, mas mesmo assim ela insistia que ninguém devia saber sobre ela. Duruka, o inútil, seria lembrado como um herói. Até os mortos seriam lembrados de alguma forma, mas ninguém saberia que a verdadeira heroína sequer existiu.
– Não há nada que eu possa... – a pergunta morreu em sua garganta.
Anna sorriu o máximo que pôde.
– Não pode me ajudar com isso Duruka, ninguém pode – a Guardiã espreguiçou-se – E você é um herói, mesmo que não aceite isso. Fui eu que falhei quando deixei aquele tal de Mannoroth me nocautear logo no começo da luta. Consegui empurrar seu amigo Traigar para longe do monstro antes que ele fosse esmagado, mas mesmo assim ele acabou morrendo logo depois...
Anna abaixou a cabeça como criança costuma fazer quando está envergonhada por ter feito algo errado.
– Eu que fui uma inútil, não consegui salvar seus amigos. E se você e os outros não tivessem ganhado tempo para eu me recuperar, a coisa podia ter ficado muito feia.
Duruka ponderou sobre aquilo por um instante.
– É, não consigo imaginar um jeito melhor de descrever o fim do mundo como “uma coisa muito feia” – ele retrucou, fazendo Anna gargalhar.
– Já cansei de falar de mim mesma – Anna inclinou-se para frente, aproximando de Duruka – Me conte mais histórias sobre esse seu irmão.
– Não tenho mais nada para falar dele – Duruka coçou as ataduras de sua perna – Hakar morreu em Nortúndria na batalha final contra o Rei Lich. Já lhe contei isso.
– Eu sei. Me alguma outra história engraçada sobre vocês dois, eu adoro ouvir esse tipo de coisa.
Pensar no irmão quando ainda era só uma criança fazia Duruka sentir-se feliz e triste ao mesmo tempo.
– Já te contei da vez em que Hakar fez uma colmeia de vespas cair na minha cabeça?
– Sim! – Anna respondeu tentando conter o riso – Essa foi muito boa, mas tem não alguma outra história?
– Bom... Houve aquela vez em que meu irmão achou que seria uma boa ideia montar em um javali selvagem...
Os olhos de Anna brilharam em expectativa.
– Me conte! – ela exigiu.
– Você só precisa saber que o javali derrubou Hakar como se fosse um boneco de palha. E ainda deu-lhe o troco. Porque quando viu meu irmão de cara no chão, o porco resolveu montar nele... Se é que você me entende.
O rosto de Anna ficou vermelho como uma maçã, então começou a chorar de tanto rir. Duruka gargalhou com tanta violência, que sua perna estremeceu de dor. Mas ver Anna sorrindo dava algum alívio a ele.
Porém, Duruka sabia que ria mais de si mesmo do que da vergonha de seu irmão morto. Duruka, o herói, era como o chamavam agora. Essa era a verdadeira piada. Duruka, o herói que não pôde salvar seu irmão, o herói que não pôde salvar seus companheiros, o herói que não era capaz de ajudar sequer uma criança.
Lá fora, o vento da noite uivava acompanhando as gargalhadas de ambos. Duruka pegou-se pensando em como seria sua vida depois que Anna partisse para alguma outra de suas missões. Provavelmente seria um tédio.
Fale com o autor