Notas iniciais
Demorei MUITO mesmo, mas finalmente consegui terminar o terceiro capítulo de As Crônicas dos Malditos. Espero que gostem!!!

Duruka estava entediado, realmente entediado, monstruosamente entediado, tão entediado quanto qualquer jovem poderia ficar em seu primeiro emprego. Ele sabia desde o início que seria apenas uma questão de tempo para que a rotina de seu serviço acabasse com a excitação de estar finalmente começando sua carreira militar, mas não esperava ficar tão aborrecido em tão pouco tempo. Como muitos cadetes, Duruka imaginava-se saindo do campo de treinamento e indo direto para a batalha onde cravaria um machado na cabeça de algum inimigo desafortunado. E isso realmente poderia ter acontecido, se seu irmão não tivesse morrido em batalha, há menos de um ano atrás, enquanto tentava cravar um machado na cabeça de algum inimigo não tão desafortunado.

Um golpe no ar, um breve instante em que seu irmão baixou sua guarda, e Duruka tornou-se o único filho de um velho herói de guerra. Um herói que, ao cobrar alguns favores de antigos companheiros, conseguiu manter o jovem longe do calor da batalha para assegurar o futuro de sua linhagem. Então, até que tivesse seus próprios filhos, Duruka permaneceria rodeado pelas muralhas de rocha e ferro da capital do reino de seu povo cumprindo seus deveres como guarda. Deveres que consistiam basicamente em manter a segurança e a ordem na população, patrulhar as ruas da cidade dia e noite, e ocasionalmente dar informações sobre localidades para visitantes desorientados. E o dia de hoje não tinha sido diferente.

Ao cair da noite, Duruka deu início à parte mais tediosa e desgastante de seu trabalho: a vigília noturna. Dando passos firmes pelas ruas iluminadas fracamente por braseiros, e com olhos e ouvidos atentos para tudo, apesar do tédio ter afugentado sua mente para milhões de quilômetros de distância, Duruka estava completamente convencido de que nada de inesperado aconteceria naquela noite da mesma forma que ocorrera nas várias noites anteriores.

Então ele encontrou o cadáver.

Por um segundo ele acreditou que se tratava apenas de algum vagabundo que havia praticado com afinco a antiga arte de levantamento de caneca. Mas ao aproximar-se, percebeu que o cheiro que impregnava o corpo não era de álcool, mas de sangue. Um arrepio subiu por toda a sua espinha. Um rápido olhar pelos arredores não acusou a presença de mais ninguém nas proximidades, o que o fez sentir-se seguro o bastante para ajoelhar-se para examinar o cadáver. Era uma massa imensa de músculos rígidos e agora completamente estáticos, sua pele era de um tom gritante de verde. Abaixo de um grande e disforme nariz encontrava-se a boca da criatura, entreaberta, deixando a mostra dentes amarelados tão grandes quanto as presas de um javali, os olhos do cadáver eram grandes e quase tão amarelos quantos seus dentes. Ou seja, tinha exatamente a aparência que se espera de um jovem orc comum. Muito parecido com o próprio Duruka.

O corpo estava trajando o manto com o brasão de Orgrimmar, igual ao de Duruka, igual ao de todos os guardas da cidade. Um breve toque sobre o corpo revelou que ele não havia morrido há muito tempo, ainda estava quente.

Ele sabia o que tinha que fazer. Tinha que alertar seus superiores e o mais rápido possível, um dos guardas da cidade foi morto e o assassino não podia estar longe.

– Minha nossa! Vocês estão bem? – uma voz preocupada soou atrás do jovem orc.

– Afaste-se! – Duruka vociferou, levantando-se abruptamente para encarar o dono daquela voz, acreditando que se tratava de algum cidadão curioso – Volte para a sua casa e tranque as port...

O guerreiro engoliu seu berro ao perceber com o que estava falando. Iluminada pela luz avermelhada dos braseiros espalhados pelas ruas, uma fina e pequena silhueta aproxima-se casualmente de Duruka. A aparição só parou de avançar quando estava a menos de um metro do jovem orc, dando a ele a chance de ver em detalhes o que não conseguia acreditar estar vendo. A figura que mal tinha metade do tamanho de Duruka estava usando um longo casaco cinza que cobria a maior parte de seu corpo. E ainda visto de cima, apenas a cabeça da criatura era perfeitamente visível, mas era o suficiente para aturdir o guerreiro. Sua pele era rosada, grandes e curiosos olhos castanhos fitavam-no por baixo de seus cabelos que também eram castanhos. Uma criatura pequena, esbelta, de traços delicados e pele rosada, Duruka estava diante do maior inimigo de seu povo.

Um humano! Seu cérebro ficava repetindo enquanto terminava de assimilar a informação que recebera.

A criatura pareceu não notar o assombro que lhe causara. Pois estava muito ocupada inclinando seu corpo para o lado tentando enxergar o corpo estirado no chão atrás de Duruka.

Antes que pudesse pensar em fazer qualquer coisa, o humano moveu-se para o lado de forma impressionantemente rápida. Contornando Duruka e desaparecendo de sua vista. Mas com uma agilidade completamente inconsistente com seu tamanho, o guerreiro deu meia-volta com o machado de duas lâminas já em suas mãos, tendo certeza absoluta de que estava prestes a ser atacado pelas costas.

Mas, ao invés de encontrar uma luta, ele encontrou seu inimigo ajoelhado diante do morto.

– Mas, por que será que fizeram isso? – a figura misteriosa retrucou com um tom melancólico. – Pensei que não queriam chamar atenção.

– Afaste-se dele! – disse Duruka com um rugido que faria o mais bravo dos cavaleiros estremecer dentro de sua armadura. O pequeno intruso não demonstrou sequer tê-lo ouvido, ele levantou a cabeça para encará-lo como se tivesse acabado de notar sua existência.

– Sinto muito, eu devia ter previsto algo assim. Não queria que isso acontecesse com o seu amigo.

– Cale-se! – Duruka rugiu novamente – Afaste-se do corpo, bem devagar. E nem pense em tentar fazer algo, se não... – ele ergueu o machado de guerra em frente a seu alvo.

O intruso piscou seus grandes olhos parecendo estar confuso – Tudo bem – disse calmamente, então ergueu-se e afastou-se uns três passos do cadáver. – Você, por acaso, não acha que fui eu que fiz is...

O jovem orc soltou um rugido que ecoou pela noite e fez solo sob seus pés tremer.

– Para com isso! – a criaturinha exclamou cobrindo seus ouvidos com as mãos – Que barulheira, o que você está fazendo?

– Vai descobrir em breve, velhaco! E não se mexa ou vou cortá-lo ao meio! – o orc ameaçou.

Alguns segundos depois que os ecos do rugido de Duruka silenciaram-se, o chão começou tremer novamente. Um leve tremor que foi se intensificando até que sua causa foi revelada. Emergindo da escuridão das ruas, uma manada de gigantes blindados corria em direção ao chamado do guarda. O grupo continuou avançando até ficar a menos de dois metros atrás de Duruka. Eram três orcs no total, posicionados em uma formação triangular, com um na frente e outros dois nos lados.

O orc na frente era o maior do grupo, um monstro de quase três metros de altura embalado em tiras de couro e placas de aço. Uma barba cinzenta e trançada pendia sob seu queixo, seu rosto era severo e marcado pela idade, e pela falta de um olho. Mas seu olho restante lançava um olhar inquisidor para a cena diante dele.

– O que significa isso? – ele perguntou duramente.

– Ora, mas se não é o velho Traigar – disse Duruka com desdém misturado com nervosismo – De todos os patrulheiros, você é quem eu menos esperava que fosse atender meu chamado tão rápido.

O orc estreitou seu único olho em resposta.

– Por todos os demônios! Esse infeliz no chão é o Tadish! – exclamou um dos acompanhantes do orc caolho, Duruka o reconheceu pelo enorme anel de bronze que balançava em seu nariz quebrado.

– Cale-se Gramak! – urrou o velho Traigar.

– Tadish! – repetiu o terceiro orc na formação, de cabeça raspada e um olhar que sugeria esperteza. Mas a orelha esquerda mutilada em um acidente de treino era uma prova bem evidente do contrário – Não! Eu não acredito! Ele não pode ter morrido! Ele me devia quatro peças de ouro!

Traigar lançou um olhar assassino sobre seus companheiros.

– Se eu ouvir mais alguma coisa que não seja uma explicação sobre esse incidente, alguém irá se juntar a esse infeliz no chão. E Duruka, eu estou falando com você! Explique o que houve aqui!

O jovem orc voltou toda a sua atenção ao seu prisioneiro.

– Eu estava patrulhando essa área quando me deparei com isso – disse Duruka apontando o machado para o cadáver. – Seja quem esse infeliz fosse, ele encontrou um fim terrível. Foi assassinado, sua garganta foi cortada de orelha à orelha e isso ocorreu há pouco tempo atrás. É só o que eu sei.

O velho orc aproximou-se pesadamente de Duruka até ficar ao seu lado.

– E quem seria essa? – Traigar perguntou dando um olhar perplexo e sombrio para a figura parada diante deles.

– Ah, eu? – perguntou o humano com entusiasmo. – Eu sou...

– O assassino, é claro! – Duruka interrompeu segurando firmemente o machado em suas mãos.

Ao ouvirem isso, os outros dois orcs que até agora escutavam ao relato em silêncio também ergueram suas armas. Gramak desembainhou uma espada com a lâmina de quase dois metros de comprimento. O outro levou às mãos um martelo de guerra que devia ser muito mais pesado do que alvo que ele pretendia acertar.

– Todos parados! – Traigar exclamou. – O quão tolo você consegue ser, Duruka? Realmente acredita que essa criança seria capaz de matar um de nossos guerreiros?

– E no que você acredita, velhote? – Duruka questionou ferozmente. – Que um humano invade os muros da cidade, é encontrado próximo ao cadáver de um dos guardas, e que isso tudo é apenas coincidência?

Traigar não respondeu.

– Essa coisa matou Tadish? – rosnou Gramak cerrando os dentes, com o largo anel do nariz batendo em seu lábio. – Cortou sua garganta?

– Vamos dar-lhe um pouco de seu próprio veneno. – seu parceiro careca sugeriu, abaixando o assustador martelo e puxando de seu cinto uma igualmente assustadora adaga com sua ponta curvada como um gancho.

O humano recuou.

– Esperem, eu não...

– Eu já disse para ficarem parados! – O orc caolho urrou. – Ninguém vai matar ninguém. Não até descobrirmos o que está acontecendo.

Traigar voltou-se para o suspeito em questão.

– Quem é você? – perguntou secamente.

– Eu sou Hirbag. – respondeu o orc que segurava a adaga.

– Você não, seu idiota! Estou falando com ela!

– Eu me chamo Anna! – o intruso respondeu alegremente.

– Ela? – disse Duruka confuso.

– Sim, ela! – Traigar anunciou. – Trata-se de um humano fêmea. Vai me dizer que não percebeu?

– Se eu percebi? – o jovem orc indignou-se. – E como você conseguiu perceber? Pra mim, eles são todos iguais. E que diferença faz se essa coisa é macho ou fêmea?

O rosto de Anna ficou vermelho e aborrecido.

– Ah, qual é!? Não perceberam que eu sou uma garota?

– Silêncio! – Duruka exigiu. Mas silêncio era exatamente o oposto do que ela lhe ofereceu.

– Quer dizer, eu sei que não sou muito feminina. E eu posso estar meio esfarrapada e um pouco suja, mas o que esperavam? Eu estou vagando por esse deserto há quatro dias. Quatro dias! Assim fica difícil atender a certos estereótipos de beleza.

Nesse ponto, Hirbag começou a passar o dedos distraidamente sobre a lâmina de sua adaga.

– Eu estou curioso. Se cortarmos um dos braços dela, será que ela vai parar de tagarelar? – perguntou enquanto parecia usar o facão para limpar embaixo de suas grandes unhas.

Duruka notou que o único que parecia demonstrar um ínfimo interesse nas tolices da garota era o velho Traigar.

– Você disse que vagou por essas terras por quatro dias? – o orc caolho perguntou.

– Isso mesmo. – ela disse sem nenhuma hesitação.

– Hirbag, Gramak! – Traigar chamou seus companheiros.

– O que? – os dois responderam em uníssono.

– Vasculhem a área. Chequem cada rua, cada beco, cada canto escuro nas proximidades e depois, se não encontrarem nada, apresentem-se no quartel e relatem sobre o que aconteceu aqui.

Os dois orcs trocaram olhares confusos.

– Vão! Agora! – exclamou Traigar impaciente.

– C... Certo! – Hirbag e Gramak disseram em um coro assustado. Deram meia volta e então, tropeçando um no outro, marcharam para longe pelas ruas sombrias da cidade.

– Por que você fez isso? – Duruka indagou não vendo lógica alguma nas ordens do veterano. – Mandar aqueles dois vasculharem os arredores, o que espera que eles encontrem?

– Pense, seu moleque – sugeriu-lhe o velho guerreiro, não tirando o olho da invasora – Ela disse que está viajando por essas terras áridas há quatro dias.

– E você realmente acredita nisso!? – Duruka sentiu uma vontade de rir que quase não conseguiu conter – Ela está mentindo, Traigar. É um animal encurralado. Vai falar ou fazer qualquer coisa para ter uma chance de escapar.

O último comentário pareceu irritar Anna

– Primeiro me chamam de assassina, depois não percebem que sou uma garota, depois disso me chamam de mentirosa e aí dizem que sou um animal... Sério, essa missão está começando a me dar nos nervos.

– Mesmo que ela esteja mentindo – Traigar explicou – Seria impossível para um humano tão pequeno sobreviver sozinho à jornada até os portões da cidade e ainda mais passar pelos mesmos portões tão facilmente. Só esse fato já é mais do que o suficiente para concluir que ela não deve estar sozinha.

Enquanto Duruka tentava digerir a ideia de que mais humanos poderiam estar perambulando por toda Orgrimmar, o velho orc voltou sua atenção para a garota que parecia observá-los com grande interesse.

– Você disse que seu nome é Anna, estou correto? – Traigar perguntou.

– Sim! – ela disse com animação. – Anna Thea, esse é o meu nome. Prazer em conhecê-los.

– Você entende o que está acontecendo aqui, não é? – o orc perguntou impassível – Vou perguntar apenas uma vez. Você matou este orc?

– Não – Anna respondeu instantaneamente. A resposta simples e direta apenas fez o único olho de Traigar estreitar-se.

– Se estiver mentindo...

– Eu não estou mentindo – ela interrompeu.

Traigar então procurou uma abordagem diferente.

– Muito bem, como eu disse antes, não acho provável que um minúsculo filhote de humano seja capaz de matar um orc com mais que o dobro de seu tamanho – ele admitiu – Então deixe-me fazer outra pergunta. O que você está fazendo aqui?

A garota hesitou por um instante.

– Hein? Ah... O que estou fazendo aqui? – ela começou a vacilar. Essa reação fez Duruka perceber que o velho Traigar havia conseguido algo.

– Estou esperando – disse Traigar de braços cruzados.

Anna começou a passar a mão nervosamente sobre sua nuca, evitando encará-los.

– Responda a pergunta! – Duruka rugiu – Por que invadiu Orgrimmar? O que veio fazer aqui?

Após mais um momento de hesitação, a garota voltou seus grandes olhos castanhos em direção a Duruka. Ele achava que havia aterrorizado a intrusa, mas ao ver melhor o rosto da garota ele percebeu que a expressão dela não era de medo, mas de constrangimento. Como se ela se sentisse envergonhada em responder a pergunta de Traigar.

– O que eu vim fazer aqui? – Anna repetiu com um sorriso trêmulo surgindo em seu rosto – eu estou aqui para matar alguém.

Notas finais
Antes que me matem dizendo "COMO VOCÊ LEVOU UM ANO PRA ESCREVER UM CAPÍTULO TÃO PEQUENO??", deixem-me explicar. Eu terminei todo um conto de minha fic, mas como ficou meio grande eu resolvi dividir essa coisa em algumas partes (caso não tenham notado o "parte I" no título desse capítulo) Fiz essa divisão por dois motivos: 1º - Um capítulo muito longo pode ficar cansativo de se ler para a maioria. 2º - Pra fazer quem gostou da história ficar passando vontade, esperando o resto da história!! Em breve, REALMENTE EM BREVE, eu irei postar o resto da história.