As Crônicas Dos Malditos
1 Introdução divina.
Notas iniciais
Sussurros abafados em meio às trevas falam de uma lenda que acompanha a humanidade desde tempos imemoriais, uma lenda tão antiga quanto o primeiro pensamento consciente do homem. Um conto sombrio sobre aventura, paixão, coragem, terror e morte que se desenrola sem o conhecimento da maioria da humanidade.
Um trágico épico sobre a vida emocionante e terrível de pessoas amaldiçoadas a uma luta eterna contra forças que estão fora de sua compreensão, condenadas a serem marionetes de um destino cruel do qual nem mesmo a morte pode oferecer uma esperança de libertação. Homens e mulheres destinados a terem uma vida de dor e sacrifício que sempre termina em uma morte horrível e solitária. E por um simples capricho do destino, a história sobre o heroísmo e sofrimento desses indivíduos jamais chegou aos olhos e ouvidos do resto da humanidade, até agora...
– Que porra é essa!? Mas que bosta de introdução é essa!?
– Ah, de novo não... O que é que tem de errado agora, Tália?
– O que tem de errado? Tá tudo errado nessa porcaria de texto!
– Você só sabe reclamar. Se não pode me dar nenhuma crítica construtiva, então fique quieta e me deixe trabalhar.
– Você quer uma crítica construtiva? Então que tal essa? Seu texto é chato!!! Você fica tão preocupada com essa sua prosa pomposa que acaba esquecendo sobre o que estamos tentando escrever aqui.
– Você é tão grosseira. Não consegue perceber que toda história precisa de um certo polimento para se tornar mais atrativa?
– Atrativa!? E você não percebe que toda essa sua enrrolação vai fazer os leitores ficarem aborrecidos. Assim eles vão perder o interesse pelo texto antes mesmo que percebam sobre o que estamos escrevendo?
– Ora, não fique tão irritada Tália. Você sabe que esse é o jeito de Clio contar histórias.
– Mas, Melpômene. Se Clio continuar “enchendo linguiça” desse jeito, essa introdução vai acabar ficando mais longa que própria história que estamos tentando apresentar.
– Por Zeus, como você é exagerada.
– Além do mais, não se deve demorar tanto com introduções. Uma introdução deve ser breve, simples, intensa. E deve manter um certo ar de mistério para atrair a curiosidade dos leitores. Esse texto precisa ser curto e grosso, precisa de mais paixão, precisa ter mais graça.
– Tudo tem que ter graça pra você. Não é, Tália?
– E tudo tem que ser sempre tão sério e forçado pra você. Não é, Clio?
– Por favor irmãs, não briguem. Vamos trabalhar juntas para terminarmos esse texto da melhor maneira possível. O que acham?
– Trabalharmos juntas? Essa é boa. Como podemos trabalhar juntas se essa mulher pomposa nem sequer escuta minhas sugestões?
– Eu não preciso da ajuda de alguém com um gosto literário tão vergonhoso quanto o seu, Tália.
– O que você disse!?
– Desculpe-me. Será que meu vocabulário é complexo demais para que você possa entender o que eu disse?
– Ei Clio, não acha que isso foi um pouco cruel de sua parte?
– Sua bruxa arrogante! Lembre-se de que está falando com uma deusa.
– Com a deusa da comédia, a forma de arte literária mais baixa e vulgar de todas. Eu nem mesmo consigo acreditar que os autores realmente precisem de seu auxilio para fazer algo tão simples e estúpido como escrever piadas.
– E eu não consigo acreditar que a humanidade ainda não morreu de tédio por causa de todas as histórias maçantes que você sussurra em seus ouvidos por tantas eras.
– Ah, por que não tentamos nos focar novamente em nossa tarefa de escrever essa apresentação?
– Por favor, Melpômene. Eu estou sempre focada em minha tarefa de proclamar grandes histórias.
– Proclamar grandes histórias!? Você ainda não proclamou nada! Está tão preocupada com essa sua prosa requintada, que não percebeu que está polindo uma história que ainda nem foi escrita.
– Eh, Clio. Acho que Tália tem um pouco de razão.
– Até você, Melpômene? Eu pensava que você tinha o bom senso necessário para não levar os comentários dessa palhaça à sério.
– Estou começando a perder minha paciência.
– Você ainda nem começou a escrever sobre os Guardiões. Que são, caso não se lembre, o tema principal desse texto.
– Eu já estava chegando nessa parte, antes de ser rudemente interrompida.
– Ah tá, você já estava chegando nessa parte. Vamos todas fingir que isso é verdade.
– Certo, então por que não continuamos de onde você parou? E, a partir de agora, vamos tentar escrever de um jeito mais objetivo, tudo bem?
– E mais interessante, e mais divertido, e mais criativo, e menos entediante...
– Muito bem, Tália. Acho que já entendemos.
– Francamente, eu não consigo entender por que vocês, dentre todas as nossas irmãs, foram as únicas que concordaram em me ajudar com essa introdução.
– Eu poderia dizer o mesmo. Por que não nos diz qual o seu motivo para estar tão interessada nessa história?
– Eu estou aqui porque estou sempre disposta a ajudar qualquer uma de minhas belas e preciosas irmãs.
– Ah, você é tão amável Melpômene. Tão amável e gentil que quase me esqueço de que estou falando com uma sádica.
– Eu também te amo, Tália.
– Mas que pergunta idiota. Qual o meu interesse nessa história? Eu sou a deusa da História. Sou eu quem canta os grandes feitos e eventos importantes que ocorrem através das eras. Sou eu quem proclama os heróis cujos nomes serão lembrados por toda eternidade. E quando percebi a....
– Mas será que é tão difícil pra você dar uma resposta simples e rápida? Tem mesmo que fazer um longo e vagaroso discurso em resposta à todas as perguntas que lhe fazem?
– Como eu estava dizendo, como proclamadora de heróis e de seus feitos através da história, eu não pude deixar passar a oportunidade de contar uma história que ainda não foi contada. Proclamar heróis que a humanidade ainda nem sequer ouviu falar a respeito.
– Ah, Clio. Você é tão... Inspiradora.
– Ah não, você não disse isso! É claro que ela é inspiradora, nós somos musas! Nós temos que ser inspiradoras!
– É mesmo?
– Você é tão desligada que chega a ser....
– Trágico?
– Enfim, se está curiosa para saber por quê estou te ajudando, a resposta é muito simples, eu achei que devia impedir que você transformasse esse conto em mais um documentário chato. Então, estou aqui para garantir que essa história seja interessante e divertida de se ler. E, isso inclui, oferecer um alívio cômico durante a narrativa.
– Resumindo: você está aqui para macular minha história épica sobre heroísmo com suas piadas ridículas e infames. Estou correta?
– Sim, quer dizer, não! Eu só quero dar uma percepção mais humana sobre os Guardiões, para que os leitores possam sentir uma certa afinidade com esses seres desconhecidos.
– Agora é a minha vez! Eu resolvi ajudar o autor dessa história porque ele me garantiu que ela teria tudo o que eu mais amo em uma fábula: dor, tristeza, sangue, sofrimento, desespero, destruição, mortes horríveis ...
– Tá bom, tá bom, já entendemos Melpômene. E tire esse olhar apaixonado do seu rosto sua psicopata, tá me dando arrepios.
– Deixe-me ver se entendi. Se juntarmos tudo o que estamos tentando apresentar, teremos um conto épico sobre os Guardiões, seres que nenhum mortal jamais ouviu falar.
– Ou, pelo menos, nenhum mortal jamais ouviu falar sobre eles e viveu para contar.
– Que seja. Então estamos falando de uma história obscura, cheia de batalhas grandiosas e atos heroicos.
– Uma história que narra os horrores e tragédias que assolam a vida de heróis misteriosos que sofrem e morrem para proteger a humanidade desde os início dos tempos.
– E, através de uma narrativa cheia de situações inusitadas e divertidas, mostraremos um lado mais humano dos Guardiões. Para que os leitores não conheçam apenas a lenda, mas também os homens e mulheres que forjaram a lenda.
– Sim, bem. Se escrevermos o que acabamos de falar sobre essa história, e darmos um pouco polimento na prosa ...
– Só um pouco de polimento!
– Tudo bem, já entendi. Se fizermos isso, acredito que conseguiremos criar uma formidável introdução para essa história.
– Agora estamos conversando, já estou até empolgada. Vamos logo com isso então!
– Certo!
– Escrever a introdução? Ah, acredito que isso não seja mais necessário.
– Hein? Por que você diz isso, Melpômene?
– É que, enquanto discutíamos sobre como escrever esse texto, parece que o autor que estamos inspirando já o está terminando.
– O que? Ele já está terminando, e sem a nossa ajuda?
– Eu não diria que foi sem a nossa ajuda.
– Mas o que ele escreveu?
– Tudo o que falamos.
– Tudo o que falamos?
– Tudinho. Vejam, nós não estávamos ajudando o autor a escrever essa introdução porque ele estava preocupado em apresentar a sua história de forma interessante?
– Certo.
– Exatamente. Criar uma introdução cativante é o nosso objetivo ao criar esse texto.
– Então, eu gostaria de perguntar, vocês não acham que esse texto ficaria mais interessante se adicionássemos um elemento mais exótico a sua narrativa? Algo como, uma discussão acalorada entre três belas deusas?
– Você quer dizer que....
– O autor... Incluiu a nossa conversa em sua introdução?
– Sim.
– Toda a nossa conversa?
– Isso mesmo. Não é maravilhoso?
– Isso... Isso é....
– Mas que ultraje! O autor colocou mesmo toda essa conversa vergonhosa que tivemos em seu texto, para que qualquer um possa ler!? Isso é um absurdo! Um completo insulto! Isso é....
– Muito engraçado!!! Isso é tão... Tão....
– Pare de rir Tália, isso é sério! Que humilhação, por que o autor faria algo tão insolente?
– Bem... Acho que foi porque eu o inspirei a fazer isso.
– Você deu essa ideia a ele? Sua... Tália, já falei pra você parar de rir!
– Eu não... Eu não consigo... Parar... Acho que vou morrer de rir!
– Eu sabia que você iria gostar, Tália.
– Faça o autor mudar de ideia, não vamos permitir que esse texto se torne uma humilhação pública para nós. Não concorda comigo, Tália?
– Não mesmo, deixe o texto como está! Perfeito... Genial... Hilário!!! Eu aprovo.
– Eu não estou acreditando nisso! Você duas vão me pagar!
– Então, isso conclui nossa introdução para a história que será intitulada de As Crônicas dos Malditos.
– Ainda acho que o título podia ser melhor, esse é muito mórbido.
– Para todos que tiveram a paciência de ler esse texto até o fim, esperamos que tenham gostado de nossa bizarra apresentação e torcemos para que todos vocês possam nos acompanhar pelo resto dessa história. Em breve o autor, com nossa ajuda, trará para vocês o primeiro capítulo dessa inusitada saga. Aproveitem.
– Agrad... Agradecemos pela atenção que nos deram até... até agora... Caramba, não consigo parar de rir! Espero que todos tenham se divertido.
– Clio, minha querida irmã, por favor venha se despedir apropriadamente de nossos fãs em potencial.
– Eu vou matar vocês duas por me fazerem passar por essa vergonha!
– Muito obrigada por essas doces palavras, Clio. E é aqui que nos despedimos. Espero, do fundo do meu coração, que possamos nos reencontrar em breve.
– E por hoje é só, pessoal! Até breve.
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