As Crônicas Dela
1 Ela e a Chuva de Verão
Notas iniciais
Hoje eu perdi meu ônibus. Odeio esperar, então… O que me impedia de voltar andando pra casa? A chuva? Não, ela não me incomoda. Ela é minha amiga. Ela é fria, e eu gosto de coisas frias.
Gosto de andar por aí no meio dessas tempestades mesmo que acabe resfriada depois, só para ter o prazer de ver as ruas outrora movimentadas transformadas num deserto. Gosto de ver as pessoas amontoadas em baixo dos toldos das lojas, se espremendo sob as marquises fugindo da água que cai. É divertido. Sempre rio de como as pessoas deixam cair suas máscaras em dias como este. Hipócritas. Quantas vezes já não devo ter escutado: “Eu amo a chuva.” Ou então “Adoraria que chovesse hoje.”? E ainda sim na primeira garoa todos eles se escondem da sua tão “amada” chuva. Pergunto-me se ela se magoaria se tivesse sentimentos.
A chuva desperta boas coisas em mim. É como se por um instante ela lavasse todas as minhas preocupações e ressentimentos. Nunca saberei ao certo porque tive este rompante de reencarnar minhas velhas brincadeiras de criança e sair pulando de poça em poça pelo meio da rua, só sei que não durou muito tempo. Tropecei em algo e cai sentada no chão. Uma caixa de papelão. Devo ter amaldiçoado pelo menos as próximas três gerações do ser desmiolado que a colocou ali no meio da passagem antes de ter a ideia de empurra-la para um beco ali perto. Uma boa ação por dia. Não é assim?
Um dos males humanos é a curiosidade, e compartilho deste mal. A caixa era leve, parecia vazia e qualquer um a deixaria de lado e seguiria seu caminho, mas eu não. Abri a caixa devagar com precisão quase cirúrgica e me deparei com algo que me partiria o coração se eu já não o tivesse partido. Naquela caixa de papelão encardido jazia um gatinho preto e magro de olhos amarelos que já tremia de frio. Que tipo de pessoa abandonaria um animalzinho tão indefeso quanto um filhote no meio daquele dilúvio? Na verdade, não me surpreende. Já perdi a fé no homem há muito tempo. O ser humano é mal e egoísta a ponto de não se importar com a vida de outro ser? Sim, é e eu já sabia disso. Porque a vida daquele filhote valeria menos que a de qualquer outro? Só porque ele era “indesejável”?
Sou cética, mas existem coisas que não podem ser ignoradas. Quais eram as chances disso ser apenas uma mera coincidência? Aliás, quais seriam as chances dele ali sozinho, com fome e com frio? Não, eu não o deixaria ali. Ele era apenas uma vitima, ele não pediu por isso. Eu acho que no fundo aquela coisinha me comoveu, logo eu, que pensava não ter mais nenhuma sensibilidade.
Eu peguei aquele pequeno ser nas mãos e coloquei dentro do meu casaco torcendo pra que eu tivesse um pouco de calor para dividir. Ele se aconchegou contra o meu peito e eu sorri. Há quanto tempo eu não sorria assim, sem sarcasmo ou ironia?
- Vamos pra casa, pequenino.
Acho que talvez eu esteja começando a acreditar em destino… Não sei. Só acho.
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