Notas iniciais
Aqui está o primeiro capítulo, sei que é longo, e pode até parecer confuso, mas é necessário para o desenrolar da estória. Quero agradecer à Jayne Bueno pelo primeiro comentário e por ter favoritado, adorei! Boa Leitura! até às notas finais...

1 de Setembro de 1998

Eram 10h da manhã, Hermione encontrava-se na Estação de King’s Cross, tinha chegado ali há uma hora, tinha preferido chegar com alguma antecedência para poder observar os alunos que iriam para Hogwarts esse ano. Ela estava diferente, tinha optado por cortar o cabelo bem curto dois dias antes de voltar, e com um par de óculos de sol escuros, e como nesse ano tinha optado por utilizar uma mala de viagem muggle, passava completamente despercebida entre os viajantes que se encontravam na Estação, fossem eles bruxos ou não.

Sabia que voltar tinha sido escolha sua, uma vez que muitos dos alunos que tinham participado na guerra, tinham sido dispensados de frequentar o último ano, como tinha acontecido com Harry e Ron. Os seus melhores amigos tinham resolvido aceitar um estágio no departamento de Aurores em vez de frequentar o último ano em Hogwarts. Mas Hermione sentia-se perdida desde que a guerra terminara, e as certezas que antes ela tinha, o seu futuro bem planeado, tudo tinha desaparecido.

Antes da guerra ela sabia que amava Ron, que o queria como companheiro, o que sentia por ele era diferente do que o que sentia pelo Harry, disso tinha certeza e ela sabia-o. Chegou à conclusão inequívoca que o amava enquanto procuravam os horcruxes, quando dava por si, a olhá-lo nos mais pequenos momentos, nos mais pequenos detalhes, porém o seu coração tinha sofrido quando Ron os deixou, e mesmo quando regressou e ela ficou mais feliz que nunca, ela sentia que bem no fundo do seu coração, um bocadinho de si, do seu amor pelo jovem rapaz, se tinha perdido.

Agora, ela estava ali, sozinha, sentada num banco ligeiramente afastado da entrada 9 ¾ e admirava a chegada de inúmeras crianças, algumas receosas outras alegres. Lembrava o seu primeiro dia, como se sentira alegre por saber que finalmente se ia sentir integrada, pois desde que os seus poderes se tinham manifestado, ela sentia-se sempre excluída pelas outras crianças que receavam brincar com ela. No entanto, e sem o demonstrar, pois ela não gostava de mostrar fraqueza, sentira-se também receosa por ir entrar num mundo tão diferente e do qual nem tinha conhecimento até há tão pouco tempo. Lembrava-se como tinha conhecido Harry e Ron, de como inicialmente eles a tinham excluído também, apenas porque ela era estudiosa e adorava a escola, tudo bem que por vezes era exageradamente petulante na maneira como demonstrava os seus conhecimentos, mas ela não conseguia evitar, era mais forte que ela, se ela sabia, ela tinha de falar. Mas essa sua determinação, fizera dela a jovem que era hoje, odiada por alguns, amada por muitos, Hermione fizera jus ao título de “bruxa mais inteligente” da sua idade.

Hoje, Hermione estava ali para começar mais um ano na escola que amava e que pensou que não voltaria a ver, afinal tinha sido ali que a guerra se dera, ali amigos e conhecidos morreram, mas mais importante ali tinha terminado uma fase da sua vida. Lord Voldemort morrera ali, e todos os anos que frequentara em Hogwarts tinham sido marcados por eventos relacionados com aquele. Todos os anos, ela e seus melhores amigos foram forçados a envolver-se em assuntos que bruxos mais velhos e experientes prefeririam evitar, mas eles não podiam virar costas, o futuro dependia de Harry Potter e de seus braços direitos. Era assim que eles viam as coisas, era doloroso enfrentar tantos perigos, mas pensando nas pessoas que amavam, no mundo que queriam proteger, tudo valia o sacrifício. E foi assim que se tornaram no “trio de ouro”.

A jovem Hermione inspirou fundo, sacudiu a cabeça, e disse a si própria pela milionésima vez essa manhã, que não podia pensar tanto no passado. Sim, ela tinha uma história longa para uma jovem de 18 anos, tinha sofrido muito, e com isso ela tinha amadurecido e tinha-se tornado mais introvertida, mas era tempo de olhar em frente e pensar nela própria, escolher o seu caminho. Esse era o seu objectivo para aquele ano em Hogwarts: descobrir-se a si mesma, sem os amigos inseparáveis do “trio de ouro”, sem rótulos, e sobretudo em paz. Não iria procurar confusões, manter-se-ia afastada de problemas, aquele seria o seu ano de retrospectiva, sozinha.

Sozinha, era assim que ela se sentia desde o final da guerra. Após descobrir que os seus pais se tinham mudado para a Austrália quando ela lhes retirara a memória de que tinham uma filha, Hermione decidiu partir à sua procura, uma vez que o Ministério da Magia se encontrava numa confusão e apenas adiavam os seus requerimentos, que pediam a procura dos seus pais e a respectiva “cura” do feitiço obliviate. Já estava disposta a partir sozinha, pois Harry e Ron estavam demasiado empenhados em ajudar o Ministério a recuperar a paz do mundo mágico, quando este último finalmente caiu em si e resolveu ajudá-la na procura da família Granger. Hermione sentia-se um pouco egoísta por abandonar o país e os amigos naquele momento, e ainda mais por levar Ron consigo, mas naquele momento tudo dentro dela lhe dizia que era o mais correcto. Ela abdicara da sua família, retirara-lhes a memória, tornara-se órfã, de modo a proteger os seus pais, enquanto ela ajudava a salvar o mundo mágico do feiticeiro das trevas, Lord Voldemort. Quando tudo terminara, e só restava reconstruir o que tinha sido destruído e sarar as feridas que a guerra tinha aberto, ela finalmente soube que também ela merecia ser feliz, esquecer um pouco os outros, tornar-se um pouco mais egoísta e procurar a sua família, em detrimento de tudo o resto. Partiu para a Austrália com Ron, sem saber onde começar a procurar, não sabia sequer se ainda se encontravam ali ou se por algum motivo se tinham mudado novamente. Daí o primeiro passo que deram foi procurar a comunidade bruxa daquele país-continente, e pedir ajuda ao Ministério. Ali a guerra mal tinha sido sentida, os poucos seguidores da Voldemort tinham sido identificados com antecedência e por isso, enquanto no Reino Unido se dava uma forte batalha entre o bem e o mal, ali tudo tinha sido controlado, os seguidores das Trevas já sinalizados pouco mal fizeram, pois foram presos de imediato. Porém, quando Hermione e Ron se reuniram com o Ministro da Magia da Austrália, aquela percebeu que algo de ruim teria acontecido, afinal se a guerra já tinha terminado e nada demais tinha acontecido na Austrália, não havia motivos para o Ministro ter aquele semblante derrotado quando os recebeu.

Mesmo que a guerra não se tivesse alastrado a nível mundial, Harry Potter, Hermione Granger e Ronald Weasley tornaram-se famosos internacionalmente por terem derrotado o maior feiticeiro das trevas, se bem que tivessem tido a ajuda de muitos, o trio de ouro sobressaía e era reconhecido em toda a parte. Foi deste modo que Hermione tinha conseguido encontrar-se tão rapidamente com o Ministro da magia australiano, e foi também devido ao seu mediatismo que este já sabia o porquê daquela reunião, as notícias que tinha para dar à jovem heroína eram as piores, e ele não sabia sequer como contar-lhe. Ele estava a par de tudo o que acontecera no Reino Unido, tinha de controlar os avanços da magia negra no seu país, e quando a notícia de que a guerra acabara e que Voldemort estava finalmente morto, sentiu um enorme alívio, tudo terminara sem a interferência internacional, e em grande parte tal devia-se aos dois jovens que tinha à sua frente e ao famoso Harry Potter. Assim, ele sabia que as perdas que os bruxos ingleses tinham sofrido eram enormes, muitas vidas perdidas, e sabia que embora muito jovens, aqueles dois tinham perdido muitos amigos e familiares, tinham-se sacrificado durante longos meses para que o mundo mágico vivesse em paz, para que tudo ficasse bem. Quando Hermione Granger lhe solicitou ajuda para encontrar os seus pais, mesmo que ela não o tivesse feito pelos devidos meios legais, ele não tinha como negar-lhe ajuda, todo o mundo bruxo lhe devia demasiado, de imediato o Ministro australiano colocara os seus melhores aurores em busca do casal muggle, pais da jovem heroína. Quando recebeu o relatório dos aurores não ficou de todo surpreendido, esperava estar errado nas suas suspeitas, mas estas foram confirmadas.

Jack Lachlan, assim se chamava o Ministro da magia australiano, nome que a morena às vezes preferiria não ter conhecido, chamou Hermione ao seu gabinete 5 dias depois de ela e Ron estarem em Camberra à procura dos seus pais, ele tinha-se prontificado a ajudá-los desde o início e agora tinha respostas para a rapariga. Enquanto se dirigia para luxuosa sala do Ministro, Hermione apenas pensava em como queria reencontrar os seus pais, repor-lhes a verdadeira memória, e abraçá-los e nunca mais os largar. Mas quando viu o semblante triste da secretária, avisando da sua chegada, quando entrou na sala e observou o ar pesaroso do chefe dos aurores, em pé ao lado da enorme secretária de mogno, e o olhar de compaixão com que Jack Lachlan a olhava, sentado na sua cadeira brilhante, Hermione soube que não ia querer ouvir as palavras que aqueles dois estranhos tinham para lhe dizer. Naquele momento, ela preferia ter ficado no seu país, imaginando os seus pais numa qualquer praia australiana, vivos e felizes, mas agora não podia viver na ilusão, a realidade abatia-se sobre ela e soube a verdade antes mesmo de a ouvir da boca do Ministro.

Flasback On

20 de Junho de 1998

– Srta. Granger, lamento, mas não tenho boas notícias. Aliás, lamento ter de ser eu a dar-lhe tão terrível notícia… — o Ministro preparava-se para iniciar o seu discurso, mas foi interrompido por Hermione, que não aguentando mais se sentou na cadeira mais próxima.

– Poupe-me Senhor Ministro à sua prosa de bom político, sei que pretende amenizar as palavras que tem para me dizer, e agradeço. Agradeço toda a ajuda que me disponibilizou desde que aqui cheguei. Mas agora não quero essa reticência, eu quero, eu preciso ouvir de sua boca sem grandes floreios o que tem para me dizer. Preciso ouvir a confirmação daquilo que o meu coração já sabe. Fale. – era um pedido, doloroso, que saiu com tom de ordem.

Ron observava toda a cena ainda encostado à porta, não sabia muito bem o que fazer, o que dizer. Ele sempre fora alegre e optimista, a guerra tinha-o deixado um pouco abatido, com a morte de familiares e amigos, mas tal não o impediu de viajar com Hermione, a mulher que amava, disposto a ajudá-la em tudo. Tinha-a visto desanimar quando as buscas não estavam a correr bem, mas ele estava lá e pedia-lhe calma, dizia-lhe que tudo ia correr bem. Ele tinha a certeza que tudo ia correr bem, iam encontrar os pais dela, recuperar a sua memória, podiam até passar ali mais uns dias, quem sabe numas férias bem merecidas. E depois regressariam ao Reino Unido, onde arranjariam trabalho e em pouco tempo se casariam e iniciariam uma vida a dois. Tudo iria correr bem, ele tinha a certeza. Mas quando chegaram ao gabinete do Ministro australiano, e viu o ambiente que estava na sala, percebeu que algo não estava bem, mas não podia ser o que ele pensava, quando Hermione falou, ele sentiu uma dor dentro de si, por tudo o que ela estava a sentir naquele momento, e por ver que nada ia correr como ele tinha imaginado, a começar por aquela notícia. Ron percebeu que tudo ia correr mal, mas como optimista que era, pensou para si “calma, ela vai precisar de ti. E tudo vai correr bem”. A sala estava em silêncio, todos sabiam o que faltava ser dito, mas ninguém tinha coragem para falar, foi quando ouviu a voz de Hermione, de novo, desta vez não tão forte como anteriormente, basicamente ela sussurrava:

– Por favor, diga-me de uma vez. – Hermione disse, com os olhos cheios de lágrimas.

– Os seus pais estão mortos. – O Ministro falou tudo de uma vez, de forma rápida, como quem arranca um penso-rápido.

Hermione chorava agora, soluçava violentamente. Ron aproximou-se e abraçou-a pelos ombros, tentando acalmá-la, dizendo-lhe palavras doces. Mas ela afastou-o, pediu-lhe silêncio, e olhou para Jack Lachlan:

– Continue. Diga me o que aconteceu. Sacrifiquei os últimos meses com eles, para os proteger, e quando tudo está bem para eles voltarem, descubro que tudo foi em vão. Diga-me como, quando?! – Recusava-se a acreditar, o seu mundo desabava e não havia nada que ela pudesse fazer. Repensava os últimos momentos com os seus pais, antes de lhes apagar a sua memória e partir com Harry e Ron na busca pelos horcruxes. Ela tinha feito tudo correcto, o feitiço era complexo, mas ela tinha treinado. Ela sabia o valor do sacrifício mas estava disposta a pagá-lo para que seus pais ficassem bem, para que sobrevivessem àqueles tempos conturbados. Todavia, apesar de todo o sofrimento que ultrapassou por estar longe deles, agora era suplantado pela aquela notícia que aquele homem lhe dava: os seus pais estavam mortos, não os veria nunca mais, e eles tinham morrido sem saber que tinham tido uma filha.

– Como sabem, a guerra mal chegou ao nosso país, – começou por dizer o Ministro – com as notícias que iam chegando do exterior sobre a ascensão de Lord Voldemort, pudemos preparar-nos antecipadamente. Os nossos aurores e a nossa equipa de investigação criminal de uso indevido da Magia, criaram uma divisão dedicada apenas à investigação do uso da Magia Negra, e desse modo conseguiram capturar os poucos seguidores do senhor das Trevas. Tudo estava a correr bem, aliás nenhum dos detidos era Devorador da Morte. Porém, há cerca de 3 meses, um Devorador da Morte foi sinalizado a entrar no país, a nossa equipa rastreou-o e encontrou-o numa área comercial, no entanto, antes que a equipa mais próxima chegasse ao local, chegou-nos a notícia que um pequeno restaurante tinha sido atacado. Lá dentro encontravam-se apenas o proprietário, um empregado, e 2 casais muggles. Nunca tínhamos percebido o porquê de aquele Devoradores da Morte experiente ter-se dirigido ao nosso país e mais propriamente a Camberra, apenas para destruir um restaurante muggle sem qualquer associação ao mundo mágico. Pelo menos era o que pensávamos.

– Mas quem era esse Devorador? – Perguntou Ron.

– Onde sepultaram os meus Pais? – Perguntou Hermione.

– Bem, na verdade não sabemos quem era o Devorador, apenas identificámos uma enorme quantidade de Magia Negra. Quando chegámos ao local do crime, apenas restava fumo e destruição, havia uma enorme confusão e as pessoas corriam e gritavam por todo o lado. Tivemos de proceder à limpeza do local e entrevistar centenas de muggles, tentando perceber o que sabiam, e o que tinha acontecido. Tivemos de alterar centenas de memórias. No fim todos os relatórios tinham um suspeito em comum, um homem alto e loiro, mas tal figura, com tais poderes, não mais foi encontrada no nosso território.

– Alto e loiro? – Perguntou Ron. – Nada mais? Não conseguiram saber mais nada?

– Não. Alguns diziam que era bem-parecido, outros referiam que tinha um olhar terrível e maníaco. Eram muitas informações, impossíveis de confirmar. – Respondeu o Ministro.

– Hermione, e se foi Lucius Malfoy? Ele é alto e loiro, e sem dúvida é bem-parecido, terrível, maníaco. Ele preenche a descrição, apesar de não termos muita coisa. Se pensarmos bem, Lucius não estava mais nas graças do seu senhor, e faria de tudo para o deixar contente. Inteligente como é pode ter descoberto os teus pais, depois que nós fugimos da sua mansão, ele pode ter vindo aqui matá-los, para que tu descobrisses e aparecesses, revelando o nosso esconderijo. As datas coincidem, não é verdade?!

– Isso agora não é o mais importante Ron. Depois pensarei nisso. O que aconteceu aos meus pais, Sr. Ministro? – Hermione perguntou uma vez mais.

– Como lhe disse, na altura sabíamos apenas que se tratavam de muggles, e que um dos casais era de origem inglesa, mas não conseguimos muita informação sobre eles, nunca os conseguimos ligar ao mundo mágico, apesar de acharmos que a nacionalidade inglesa era um elo de ligação com o Devorador da Morte, no entanto não havia nada de suspeito nessa coincidência. Descobrimos que se chamavam Wendell e Monica Wilkins, tinham chegado à Austrália no ano passado, tendo-se instalado em Camberra, depois de terem viajado por todo o continente, abrindo uma pequena livraria na cidade. Não descobrimos familiares nem aqui nem no Reino Unido, chegámos à conclusão que se tratava de um casal normal, que se mudara para a Austrália em busca de mais sol, como acontece com milhares de pessoas que aqui chegam. Sem ninguém que reclamasse os corpos, o próprio Ministério da Magia assumiu o seu funeral e foram sepultados no Cemitério de Camberra. Eu mesmo os levarei até lá, se assim o desejarem. – Jack Lachlan dissera tudo aquilo, olhando a jovem, que chorava sem parar, mas no entanto silenciosa e calma. Parecia que já estava à espera daquele desfecho.

Hermione acenou afirmativamente com a cabeça, ouviu o discurso do Ministro, mas parecia que estava noutra dimensão, que aquilo não era real, e precisava ver para acreditar que os seus pais não estavam mais vivos. Que apesar dos seus esforços, do seu sacrifício, eles foram mortos por serem seus pais, era sua culpa. E ela sentia essa culpa bater forte no seu peito, tinha-se separado deles para os proteger e no fim de nada valera, eles morreram porque ela tinha escolhido lutar contra Lord Voldemort, porque ela era uma sangue-de-lama, porque tinha nascido muggle mas tinha-se tornado numa bruxa poderosa e inteligente, morreram, longe, sem saber que ela existia. Tudo era culpa dela, e ela não poderia mais pedir desculpa pelos erros que cometera. Restava-lhe aceitar a realidade, não os voltaria a ver, mas precisava despedir-se de alguma maneira, se bem que olhando para o passado, ela já se tinha despedido deles, quando apagara a sua memória, e partiu pensando que ela própria morreria na guerra que estava para vir, ou que mesmo sobrevivendo não os encontraria ou que não haveria modo de repor as suas lembranças em comum. Hermione tinha pensado em tudo isso, mas sempre pensou, bem no seu íntimo, que tudo correria pelo melhor, que os seus pais estariam protegidos e quando ela voltasse, salva da guerra, voltariam a ser uma família feliz. Naquele momento, porém, não tinha mais nada a fazer, apenas aceitar a realidade, e pediu para ser levada ao cemitério de Camberra.

Já no Cemitério, Hermione, sempre acompanhada de Ron, chorou desalmadamente ao ver a sepultura de seus pais. Apenas uma, o Ministro explicou-lhe que quando os encontraram estavam irreconhecíveis, mas desde logo souberam que se tratava de um casal que se amava, pois o homem abraçava a mulher de forma protectora, como se aquele abraço os fosse proteger do que estava para vir. Daí, acharam que seria melhor sepulta-los juntos para que descansassem bem juntos um do outro. O cemitério era um longo jardim de relva verde, bem tratada, com pequenas pedras tumulares que marcavam as várias sepulturas, umas tinham flores naturais outras artificiais, outras não tinham nenhuma, como se tivessem sido esquecidas. Hermione observou a pedra simples dos seus pais, ali estavam os seus nomes, com o sobrenome falso, e uma fotografia dos dois, sorrindo, felizes. Ela não reconheceu a foto, nem o lugar, deve ter sido tirada durante o último ano e quem tratou do funeral deve tê-la encontrado nos pertences dos dois. Com a sua varinha, Hermione alterou a pedra, de modo a que apenas bruxos e bruxas a vissem, os muggles continuariam a ver tudo como estava. Ela escreveu os verdadeiros nomes dos pais: William e Emma Granger, e acrescentou, “Pais muito amados e Nunca esquecidos”, conjurou de seguida um ramo de tulipas brancas e deixou-as, com um beijo, sobre a relva. As lágrimas não deixavam o seu rosto, ela sentia que podia chorar um oceano e sempre sentiria aquele vazio dentro de si, ficara órfã oficialmente.

Ron levantou-a, olhou bem dentro dos seus olhos, e disse-lhe que tudo iria ficar bem, mas não era isso que ela queria ouvir, aliás, ela não queria ouvir nada, estava dilacerada por dentro, e aquela situação deixou-a com raiva. O homem que amava, e que dizia amá-la, não compreendia a dor que ela tinha, não percebia os seus sentimentos, e não sabia agir como ela gostava que ele agisse. Provavelmente, nem ela sabia o que queria que ele fizesse, mas não era aquilo, pois nada do que ele fizera melhorara ou amenizara a sua dor, e ele devia saber melhor, ele devia conhecê-la melhor que ninguém e por isso devia saber como reagir naquela situação. Era isso que ela esperava do amor, do seu amor, esperava que mesmo sem palavras ele soubesse atender aos seus mais íntimos desejos. Mas o Ron não sabia, nunca soubera lidar com os seus próprios sentimentos quanto mais com os dos outros, era apenas um miúdo grande, e fazia o que pensava ser o melhor, e esperava que o seu optimismo conseguisse passar para os outros, estava cheio de boas intenções, mas naquele momento só isso não bastava e Hermione preferiu afastá-lo. Passou os dois dias seguintes, fechada no quarto do hotel, sozinha, apenas abrindo a porta para que Ron ficasse mais descansado, ele preocupava-se e ela não o queria magoar.

Nesses dois dias, Hermione começou a delinear o seu futuro, sozinha. Não queria magoar Ron, amava-o e queria ficar com ele, mas a notícia da morte dos seus pais abalara-a demasiado, sem saber como deu por si de decisão tomada. Ela ficaria na Austrália mais uns tempos, não sabia quanto, enquanto Ron voltava à sua vida em Londres. Depois decidiria o que fazer em seguida.

Quando partilhou a sua ideia com Ron, ele não aceitou, disse que ficaria com ela o tempo que fosse preciso, que não a deixaria sozinha num país estrangeiro. Mas os seus argumentos eram fracos, perante o poder argumentativo de Hermione. Ela já tinha decidido e ele tinha de aceitar a sua decisão.

– Ron, escuta-me… – Disse a jovem – Este momento está a ser o pior da minha vida, mais que todas as provações que passámos na busca pelos horcruxes, mais do que o sofrimento causado pelas mortes que a guerra provocou, a morte dos meus pais trouxe-me um vazio que não consigo explicar. Se voltar agora ao nosso país, onde todos se recuperam, vou sentir-me pior, e sobretudo vou sentir que uma parte de mim foi deixada para trás. Eu amava os meus pais, sofri para os proteger e no fim foi em vão, eles morreram sem saber que eu existia. Preciso saber como foi a sua vida aqui, os amigos que fizeram, sei lá. Preciso “reconstruir” a história dos meus pais, para poder seguir em frente. Serão apenas umas semanas, depois regresso a Londres, para ti.

Hermione explicava-se de forma clara, calma, para que Ron percebesse que ela estava bem e que o amava mesmo que estivesse pedindo para ele partir. Seriam só umas semanas, era o que ela supunha ser necessário para conhecer o lugar onde os pais viveram e trabalharam, e para descobrir como tinha sido a sua vida ali. Ela precisava saber se pelo menos tinham sido felizes, assim o seu sacrifício não teria sido completamente em vão.

A jovem morena não podia imaginar que se passariam dois meses até ela perceber que era hora de voltar. A verdade é que tinham sido algumas semanas, como tinha prometido ao Ron, ela não dissera quantas, mas sempre que se falavam ela ia adiando o seu regresso, não porque o evitasse mas porque sempre surgia algo que a fazia ficar. E mesmo quando não houvesse nada, ela sentia-se bem em Camberra, todos os dias ia visitar o túmulo de seus pais, deixando sempre uma tulipa branca, e sentia-se reconfortada, como se eles ouvissem realmente o que ela falava. Assumira a livraria que antes lhes pertencera, e naquele espaço cheio de livros sentia-se um pouco mais completa, como se os seus pais tivessem escolhido aquela loja para ela, afinal os livros sempre tinham sido a sua melhor companhia. Conheceu os vizinhos da casa onde eles se instalaram, alguns clientes assíduos, e mais importante conhecera um senhor de alguma idade, de nome Tom Smith, que se revelara o amigo mais chegado da família “Wilkins”.

Aos poucos, o coração de Hermione foi se acalmando, conforme ia descobrindo a vida dos seus pais naquela cidade. Eles tinham sido felizes, de uma forma simples, modesta, eles tinham refeito a sua vida longe do país de origem, mas redescobriram a felicidade um no outro, foi isso que Tom Smith lhe dissera certa vez em que Hermione se mostrara mais deprimida. Ele não sabia que ela era filha dos seus amigos, pois não havia como lhe contar que ela era uma bruxa que apagara a sua imagem das memórias dos pais através de um feitiço, por isso Hermione dissera apenas que era uma familiar distante que tinha tomado conhecimento da fatalidade que ocorrera e que se interessara pelo assunto, e que quanto mais sabia mais se emocionava. Mas o velho senhor percebera que havia algo de errado naquela história, embora não comentasse nada e contasse tudo o que sabia sobre os seus amigos ingleses sem fazer qualquer pergunta, como se soubesse que era a atitude mais correcta.

Numa noite quente de fins de Agosto, em que Hermione passeava com o Sr. Smith, este resolvera ser frontal de uma vez por todas:

– Minha pequena – começara a dizer, tratava-a sempre por pequena, de forma carinhosa – passaram-se 2 meses desde que nos conhecemos. Fiquei intrigado quando apareceste na minha casa, a fazer perguntas sobre um casal de amigos que me era muito querido, como se fossem filhos para mim. Contaste-me a “tua” estória, e eu aceitei, porque não vi malícia na tua pessoa, vi nas tuas perguntas verdadeira curiosidade, cheias de emoção, diria mesmo amor. Eras uma rapariguinha de aparência frágil, mas de personalidade forte, com um olhar sofrido, que tentavas esconder atrás desse belo sorriso, hoje vejo que o teu sorriso é mais sincero e sinto que, apesar do vazio que sempre sentirás, encontraste uma serenidade, que nem mesmo tu estavas à espera. E eu, do alto da minha idade avançada, fui juntando os pontos que faltavam nesta história. Não sei o que aconteceu, nem pretendo saber como é possível que os teus pais nunca me tenham falado que tinham uma filha. Sim, desde cedo percebi que havia algo mais na “tua” estória, não podias ser só uma familiar distante, eras demasiado parecida com eles, física e intelectualmente, e as tuas atitudes de filha denunciaram-te. E eu aceitei-te como uma “neta”, vi o teu ar de dor sempre que ouvias as histórias sobre os teus pais, e percebi que precisava ajudar-te, não só a aceitar essa dor, mas também a ultrapassá-la para que possas ter a vida feliz que mereces. E é isso que não podes esquecer, tu mereces ser feliz, e para tal tens de aceitar as tuas dores, as tuas derrotas e as tuas vitórias, não podes renegar a tua pessoa ou subjugar-te às vontades de ninguém. Nunca estarás verdadeiramente sozinha nas tuas decisões, os teus pais amavam-te e mesmo que não estejam neste mundo, eles acompanham-te e velam por ti. E eu, como avô emprestado também não te falharei, estarei sempre contigo.

Nessa altura, já Hermione chorava copiosamente, realmente ela aprendera a amar aquele velho senhor como um avô, mas não imaginara que ele já soubesse de tudo. Sem pertencer ao mundo mágico, Tom Smith provara-lhe que todos somos capazes de ser mágicos, e que a maior magia era o Amor. Ali, ela compreendera Albus Dumbledore, que sempre defendera o Amor como elemento principal da magia. Estava disposta a contar-lhe a verdade sobre si, mas concluiu que era desnecessário, às vezes é melhor permanecer na ignorância. Ele sabia parte da verdade, a única que importava e era o suficiente. Mas tinha de lhe contar sobre o peso que carregava, a culpa que não a deixava nunca, só assim ficaria livre.

– Eu não mereço esse carinho – começou por dizer – menti-lhe, enganei-o. Dizem que certas mentiras são piedosas, que podem ser desculpadas pois não foram ditas por mal. Mas não deixam de ser mentira. E a mentira magoa sempre, eu já devia saber. Assim, como certos actos que cometemos dizendo que é para o bem das pessoas mas terminam em mal. O bem não justifica o mal, não o desculpa. E eu tenho culpa, muita culpa, dentro de mim. Sou contra todo o tipo de mentiras, e menti muitas vezes, com a desculpa que era necessário, ou que precisava proteger-me. Hoje estou a pagar por tudo o que fiz. Pensei que estava a proteger os meus pais, mas por minha culpa eles estão mortos. Eu fiz tudo errado… — terminou, chorando e soluçando junto do velho senhor.

Este apenas respondeu:

– O amor perdoa tudo. O bem que se fez através do mal pode nem sempre desculpar, mas ajuda. Não sei o que fizeste para pensares que agiste tão incorrectamente assim, posso apenas falar do que sei, do que vi, desde que te conheci. Sim, é verdade que me mentiste para obter informações dos teus pais, mas sendo eles teus pais, que tanto amavas, as histórias pertenciam-te a ti mais do que a mim. Minha pequena, todas as nossas acções têm consequências, e se por um lado nós podemos decidir sobre as nossas escolhas, as suas consequências já não dependem de nós. Na verdade, é um paradoxo universal, querida Hermione, somos livres de escolher, mas não somos livre das consequências das nossas escolhas, por isso no momento em que escolheste proteger os teus pais, escolheste porque era o melhor para eles, mas as consequências desse acto não dependiam mais de ti. Sim, é verdade que viverás sempre com o resultado que a tua decisão originou, mas ele não dependia de ti. Agora tu és livre de fazer novas escolhas e não podes ficar presa a uma decisão do passado. Não podes ter medo de viver. Está na altura de voltares ao teu país e viveres a vida que te espera. Já chega de te esconderes neste país longínquo, apenas porque te sentes culpada de algo que não estava nas tuas mãos. Tenho a certeza que os teus pais te amaram em vida, que fazias parte deles, mesmo estando longe, e a única coisa que qualquer pai deseja para os seus filhos é que sejam felizes. É por eles que tens de ser feliz. Deves achar que sou um velho tonto, que fala demais, por isso deixa me contar te uma última história dos teus pais, que preferi guardar para o fim, sim hoje será o nosso último encontro, quero que de seguida vás para casa, arrumes as tuas coisas e voltes ao Reino Unido amanhã mesmo, se for possível. Querida Hermione, sempre vi os teus pais felizes desde que os conheci, mas também fui o único a quem eles confidenciaram as suas angústias mais profundas. Confessaram me certa noite, enquanto bebíamos um chá, que se amavam muito e que por se completarem tanto, nunca tinham tido filhos, mas que imaginavam muitas vezes a sua vida com uma menina linda. O teu pai olhou-me sério e disse que se tivessem tido filhos, sem dúvida, teriam uma filha única, depois sorriu e completou que seria bela como a mãe, de cabelos e olhos castanhos, perfeita. A tua mãe riu, e completou, que ela seria inteligente como o pai, sempre com o nariz nos livros e com a mania que sabia tudo. Mas o tempo tinha passado e não podiam mais ter filhos, esse era o seu único desgosto. Mas não fiques triste, acho que bem no seu íntimo, tu continuavas dentro dos teus pais. Presumo que as tuas flores preferidas sejam tulipas brancas?! – Hermione assentiu com a cabeça, e o velho continuou – A tua mãe colocava todos os dias um ramo de tulipas brancas junto da porta da sua casa, dizia que nunca tinha gostado particularmente daquelas flores, mas desde que chegara à Austrália, elas transmitiam-lhe paz, e que as colocava na rua porque sentia que elas iriam alegrar alguém. Eu não sei o que se passou, mas como vês, não foste totalmente retirada das suas vidas. Agora, minha pequena, é tempo de partires, espero que sigas os conselhos deste pobre velho, e que construas a tua felicidade, com alicerces fortes.

Tinham sido as mais belas palavras que Hermione ouvira, não conseguia dizer nada, despediram-se em silêncio, olhos nos olhos, e o velho Tom Smith virou costas e caminhou até à sua casa. Sem se aperceber tinham caminhado durante horas e já estavam no bairro do idoso, que não ficava longe da casa que pertencera a seus pais. Enquanto andava sozinha pelas ruas, Hermione decidiu seguir o conselho do velho amigo. Era hora de regressar a casa, ao Reino Unido, aos amigos que tinha deixado para trás, e construir a sua vida, a sua felicidade. Quando entrou em casa, a sua decisão estava tomada, iria regressar não só ao seu país mas à sua antiga Escola, era a sua melhor escolha, voltar aonde fora mais feliz. Hogwarts ainda era a sua casa, e os seus estudos eram fundamentais, não conseguiria ficar bem consigo própria se não os concluísse.

Nessa mesma noite arrumou a casa, deixou indicações escritas para que a livraria ficasse com Tom Smith e para que dessem tudo o que ela deixasse para trás, a alguma instituição de solidariedade. Escolheu apenas algumas coisas que lhe lembravam de seus pais, as fotos de ambos e pouco mais. Arrumou as suas próprias coisas numa grande mala, e pensou na melhor maneira de voltar a Londres. Inicialmente quis rejeitar a via mágica, não queria encontrar o Ministro da Magia, Jack Lachlan, sentia-se desconfortável na sua presença, desde que ele lhe dera a notícia sobre seus pais e por isso não o tinha voltado a ver. Mas a ideia de viajar de avião e passar quase 24 horas no ar, fê-la decidir que era melhor viajar magicamente. Como faltava pouco para mais um dia começar, a jovem morena resolveu tomar um duche rápido, vestir-se e sair para comer qualquer coisa no caminho para o Ministério da Magia. Quando ali chegou, teve de esperar uma hora até que finalmente o Ministro chegou e a recebeu de braços abertos. Afinal até era bastante simpático e prestativo, pensara Hermione, quando mais uma vez Jack Lachlan assentira em ajudá-la sem qualquer problema. Assim, despediu-se e através da Rede de Pó de Floo seguiu directamente para o Ministério da Magia Inglês, uma vez que tão longa viagem não podia ser realizada por Aparição.

25 de Agosto de 1998

E finalmente, Hermione Granger estava de volta ao seu país natal. Tinha sido bom viajar directamente para o Ministério, apesar de chegar ali ao início da noite, pois a diferença horária era de 11 horas entre Camberra e Londres, sabia que os seus amigos ainda estariam ali. Sempre que falava com Ron, ele contava-lhe que o Ministério ainda estava em polvorosa e que todos faziam horas extra para que tudo voltasse à normalidade o mais rápido possível, só os julgamentos dos Devoradores da Morte que tinham sido detidos estavam a ocupar grande parte do tempo dos funcionários ministeriais. Desta forma, sabendo que encontraria Harry e Ron ali, seria mais fácil contar-lhes da sua decisão de voltar a Hogwarts, esclarecendo logo tudo, sem perder a coragem redobrada que trazia consigo desde a noite anterior.

Assim que chegou, em poucos minutos o seu melhor amigo, Harry Potter, e Ron Weasley foram avisados que ela estava ali e correram para a encontrar. Abraçaram-se, sorriram, choraram. Estavam felizes por estar novamente juntos. Todavia, quando Hermione lhes comunicou que não ficaria com eles, que não queria trabalhar no Ministério, pelo menos por enquanto, e que a sua ideia era voltar a Escola para terminar os estudos, a reacção dos dois foi muito diferente: Harry compreendeu, conhecia a sua melhor amiga, como se fosse sua irmã, sabia que a escola era importante para ela, e que se não concluísse o 7º ano que lhe faltava, ela sentir-se-ia sempre incompleta, no entanto Ron não podia ser mais intolerante com a sua escolha, gritou e barafustou, disse-lhe que ela sempre fora a mais inteligente dos três, a mais inteligente da sua geração, que aquilo não fazia sentido nenhum, que ela podia escolher o emprego que quisesse pois a posição de heroína de guerra lho permitia, repetiu-lhe inúmeras vezes que ela seria brilhante, sempre, tivesse ou não concluído os estudos. Quando terminou, Hermione apenas disse que a sua decisão era definitiva, agradeceu o apoio de Harry e a opinião de Ron, mas no final a sua escolha prevaleceria. Despediu-se e encaminhava-se já para a saída quando se virou novamente para os dois amigos, que a olhavam ainda, e rematou: “tenho pena que ao fim de tanto tempo ainda não me conheças o suficiente, Ron”, ele ia falar mais qualquer coisa, mas foi interrompido pela morena que lhe disse que ia para casa descansar, ela deu-lhe um beijo na face e virou costas. Não derramou qualquer lágrima, mas mais uma vez sentia que Ron matara um bocadinho do seu amor, caminhou calma até à rua e resolveu que pensaria nisso noutra altura, agora estava muito feliz para isso.

Só quando já estava numa rua agitada de Londres, se apercebeu que cometera uma gaffe. Ela disse que ia para casa, mas onde era a sua casa? Os seus pais tinham vendido a casa, onde ela crescera, antes de partirem para a Austrália, logo ela não tinha mais casa. Pensou ir para A Toca, mas não queria ficar num sítio com tanta gente, era um facto que ela adorava os Weasley, eram a sua segunda família, mas naquela hora ela só queria descansar e não responder às milhares de perguntas que lhe colocariam, e sobretudo não queria encarar olhares misericordiosos e palavras sentidas pela morte de seus pais. Decidiu que preferia ir para um hotel, e “enfrentaria” a família Weasley noutra altura.

Flashback Off

Hermione chegara a Londres com tempo suficiente para se deslocar a Diagon-Alley para fazer as compras para o seu ano em Hogwarts, e ainda passear pela cidade, aproveitando os últimos dias de férias.

E assim tinha chegado o dia 1 de Setembro, dia de se dirigir a King’s Cross e apanhar o comboio que a levaria à Escola de Hogwarts. Nos dias antecedentes, lanchara apenas com Harry, falaram sobre tudo mas de forma ligeira, e em pouco mais de meia hora despediram-se, e ela declinou a oferta de ele a levar à estação. Com Ron as coisas estavam mais frias, pouco o tinha visto, e as poucas vezes que se encontraram era por insistência dele, mas de todas as vezes acabavam a discutir, ora porque ela não queria se mudar para A Toca, ora porque ela não queria visitar a sua família, ora porque regressar a Hogwarts continuava a ser uma tolice na sua cabeça. Havia momentos que Hermione já não o suportava, e encurtava os encontros dando desculpas, para ficar sozinha. Por saber que iam discutir, a morena tinha achado melhor que Ron também não a acompanhasse até ao Expresso de Hogwarts. Porém, havia fortes probabilidades de encontrar os dois ali, pois ambos tinham comentado que Ginny também frequentaria o 7º ano em Hogwarts.

Tinha sido a sequência destes eventos que levaram Hermione Granger a estar sentada sozinha num banco, ligeiramente afastado da entrada 9 ¾ e a ficar momentaneamente escondida, enquanto via chegar os primeiros alunos. Para sua própria surpresa, a lembrança dos acontecimentos do último ano, já não lhe provocavam tantas lágrimas, o vazio no seu coração acompanhara-a desde a Austrália e não a abandonava nunca, mas tinha voltado mais calma e serena. Ali sentada, apenas duas ou três lágrimas mais teimosas, tinham escapado dos seus olhos. Agradecia mentalmente a Tom Smith, por todos os conselhos que lhe dera, sentia-se mais forte quando pensava no velho senhor, que se tornou seu “avô” emprestado. Perdida em seus pensamentos, nem tinha dado conta do tempo passar, estava quase na hora da partida e foi nesse momento que avistou ao longe um grupo de pessoas com cabelos ruivos, não foi preciso olhar duas vezes para saber de quem se tratava. E num impulso, levantou-se e correu para a plataforma 9 ¾, e atravessou-a rapidamente, baixou a cabeça e transportou a sua mala directamente para o interior do velho Expresso de Hogwarts. Havia poucos alunos lá dentro, pois todos ainda se despediam de seus familiares na plataforma, deste modo podia escolher uma cabine que sabia de antemão que ficaria vazia, e iria poder viajar em sossego. Teria tempo suficiente para falar com os seus amigos, aquele não era o momento.

Notas finais
Link: http://www.polyvore.com/kings_cross/set?id=104331180&lid=3093360 Espero que tenham gostado, e me desculpem qualquer erro. Qualquer opinião é bem vinda. Qualquer dúvida em relação a qualquer expressão, deixem a dúvida no review ou em MP. Bjs Dani