Notas iniciais
Boa leitura.

Quando digo que sou uma lagarta, não estou a mentir, é sério, acreditem em mim. Meu corpo é esguio e esverdeado, cheio de patinhas abaixo para poder me locomover. Hoje era mais um dia de caça. Desta vez, escalava um galho áspero, cheio de partes quebradas e, para a minha insegurança, estava prestes a se partir. Mas o meu objetivo estava claro: Correr o mais rápido possível até a ponta daquele cabo de madeira para poder me alimentar de folhas verdinhas e suculentas.

Porém, nada na vida é de graça. O galho se partiu quando cheguei mais na ponta, devido ao meu peso. Eu caí junto com ele sobre a vegetação rasteira daquela floresta. Me machuquei, mas a minha fome era uma ferida maior. Mesmo com as patinhas e corpo doloridos, resolvi ir em direção àquelas folhas. Quando cheguei, já era tarde de mais: Muitos outros insetos já estavam a desfrutar do incrível sabor de tais verdinhas.

Eu não podia falar com eles, até porque eles praticamente roubaram o meu almoço. Virei-me, andando em direção àquela mesma árvore, pronto para embarcar em uma jornada de muito esforço, em busca das folhas mais verdes. Era um extenso caminho a ser tomado, mas não tinha escolha se queria provar das melhores folhas de uma floresta: as encharcadas e verdes de uma árvore.

Minhas patas estavam ensanguentadas. Meu corpo estava ensanguentado. Não sei nem como eu sobrevivi à queda. Mas agora, tinha mais uma vez, uma visão privilegiada: Pude contemplar o panorama do tronco de uma árvore tão bela e com tantos galhos latifoliados, enquanto os raios solares passavam entre as folhas que constituíam a copa daquela árvore... Sem dúvidas algo muito belo e, mesmo sendo capaz de ver o tempo inteiro tal coisa, nunca perde a graça.

Enquanto estava a escalar novamente, encontrei-me com outra lagarta, só que esta tinha uma coloração purpurina, talvez para poder se tornar um lindo inseto azul no futuro. -Olá? — Ela ou ele dizia, calmamente.

–Oi, como vai? — Eram tantas perguntas para fazer... Afinal, é um tanto quanto raro encontrar um membro da mesma espécie vagando por aí em uma floresta tão densa.

–Ah, vou bem... — A lagarta era então interrompida com uma surpresa tão assustadora quanto despencar de um galho alto: Uma ave aterrissando no tronco da árvore, em seguida fisgando as suas garras na lagartinha, imediatamente batendo as suas asas para fugir dali.

E assim a vida corre, até que de repente senti como era ruim ter um frio na barriga como se estivesse voando... Eu estava voando. Parecia ser um milagre até eu virar os meus olhos para cima, encarando a pose robusta de uma ave de penugem castanha e branca. -Ei, para onde está me levando? — Perguntava, apesar de provavelmente o cordado que ali se encontrava não entendesse a minha linguagem.

Olhando mais para o horizonte, avistava também a outra lagarta que havia sido capturada por uma ave, chegando a um ninho e servindo de alimento para os filhotes. -Acho que ocorreu um engano... Eu não sou uma minhoca para os seus filhos se alimentarem de mim! — Entrava em desespero, com o meu coração batendo em um ritmo acelerado.

Chegando naquele lugar composto por gravetos e outros materiais que se equilibrava em um galho, comecei a me debater, balançando de um lado para o outro. -Me tire daqui, por favor. — Mas eu não tinha escolha se não servir de alimento.

O bico me soltou, removendo uma grande força que estava a me apertar o tempo inteiro, até meus olhinhos ficarem esbugalhados. Quando caí na "boca" do filhote, percebi que a lagarta roxa ainda estava a entupir a ave e, aproveitando a aproximação que eu tinha da abertura de seu bico, a escalei. Como se tivesse dado um salto, acabava indo muito para frente, chegando a passar do ninho.

Eu caía entre todas as folhas que podiam existir naquelas árvores e nenhuma ousava surgir abaixo de mim, para amortecer a queda. Caí, ou melhor, despenquei em um lago, felizmente e, como não estava tão ferido, fui capaz de rastejar até as margens do mesmo, tentando escalar também o tronco de um grande carvalho que se estendia diante de mim, começando a partir de suas grossas raízes.

Algo me dizia que havia chegado a hora. Cheguei até um os galhos e ali arrumei uma espécie de casulo, ficando dentro dele, minha visão era tampada pelo mesmo enquanto eu passava por um processo de metamorfose.

Estava tudo muito escuro e, como se já pudesse escutar adequadamente, eu podia ouvir muitos ruídos de fora de minha "humilde residência". Sentia que podia mexer as minhas novas e longas patas, aproveitando tal habilidade para bater nas paredes "casulais" e então as quebrar.

O mundo que eu me acostumei a viver agora estava diferente: Havia muitos troncos de árvores cortados, plantas arrancadas e o lago que antes havia ali agora era só um enorme buraco na terra, enquanto um cheiro esquisito de fumaça me atraía. Bati cada vez mais forte, me libertando e abrindo minhas grandes asas douradas. Comecei a voar de uma maneira desajeitada, afinal, ainda estava aprendendo a como usar tais membros. Ao menos o carvalho em que me estabeleci ainda estava em pé e, olhando a minha volta, pude perceber que o único verde existente naquela "floresta" eram as folhas da copa e dos galhos da grossa árvore em que passei por uma transformação.

–As últimas folhas? — Aproveitando a minha capacidade de voar, repousei em um galho, caminhando até a sua ponta e então abocanhando as suculentas folhas. -O gosto... Por que está tão ruim?

Notas finais
Caso esta história tenha te entretido e você tenha curtido a mesma, não esqueça de a favoritar e recomendar, pois isto ajuda imensamente. Desde já, grato.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!