As Armas de Mubilpe
2 A iniciação
Notas iniciais
Breno estava em suas aulas cotidianas com o velho professor Welker.
O menino morava num orfanato, seus pais morreram na invasão a Mubilpe há 17 anos, quando ele era muito pequeno então nem se lembra de como era seus pais, desde então mora no orfanato governado por freiras. O orfanato foi uma das poucas construções poupadas na invasão à Mubilpe, sendo a mais antiga da capital Ul, onde Breno morava. As tardes de sexta, sábado e domingo, eram liberadas para que Breno fizesse o que quiser desde que voltasse antes do por do sol, afinal ele já tinha 17 anos.
Contudo o professor Welker depois de muita conversa com a madre superiora, Irmã Ruth, as tardes de quinta feira também foram liberadas, para a alegria de Breno que não aguentava mais passar todas as tardes rezando e tendo que ler velhas histórias. O orfanato contava com um grande número de crianças, afinal muitos pais morrerão na invasão e depois delas também, os chamados rebeldes que serviam de exemplo para os descontentes. Seus ossos ainda decoravam as praças públicas.
Breno era alto e magro, e inteligente, é claro, as muitas aulas de Welker surtiam efeito. Seu cabelo era ruivo escuro e olhos verdes brilhantes. O professor Welker era alto e um pouco gordo, tinha uma barba branca longa e era careca, gostava de usar túnicas, sua casa era grande e repleta de livros, uns grandes outros pequenos, em várias línguas diferentes todos empoeirados. A casa mais parecia um museu, cheio de artefatos cada um de um lugar do mundo.
As aulas, contudo aconteciam no porão, onde havia somente alguns livros, algumas pedras e um canteiro cheio de plantas diferentes e exóticas. As paredes eram cheias de desenhos sem significado algum para Breno.
— Professor o que são esses desenhos? — perguntou uma vez Breno há uns anos atrás.
— Símbolos — respondeu o professor lhe olhando profundamente — São os que nos mantém em segurança.
Um tempo depois Welker começou a ensinar esgrima a Breno, ensinou todas as artes marciais existentes, ensinou o menino a lutar de espada, a atirar de arco e flecha e a atirar punhais. Logo Breno se tornou um grande esgrimista e lutador. Um orgulho para Welker. E por cinco anos, tempo que ele ensinou Breno a lutar, tudo continuou sereno.
...
— Breno — chamou Welker, Breno descia as escadas para mais uma aula — Bem... Hoje vamos aprender algo diferente — o professor estava nervoso e olhava o tempo todo pelas aberturas para ventilação, a procura de alguém — Sente-se.
Breno se sentou em uma cadeira de frente para uma fogueira que ele achou estranho estar ali, a fogueira estava acesa e isso lhe incomodava, pois estava muito calor. O professor trancou a porta e desenhou outros símbolos lá, ele veio correndo, apreensivo, e entrou no meio da fogueira.
— Que você está fazendo? — Breno gritou se levantando e se aproximando da fogueira para tirar o professor.
— Sente-se — ordenou o velho, só então Breno percebeu que o velho não estava se queimando e que ele estava indiferente as labaredas que o envolvia — Breno eu preciso lhe contar uma história, mas para isso você precisa dormir...
Welker estalou os dedos e Breno dormiu abruptadamente, todavia sua mente permanecia acordada, ele se lembrava de tudo o que estava acontecendo e a voz de Welker começou a soar em sua cabeça, e a cada palavra uma imagem aparecia.
“Mubilpe, séculos atrás fora um reino próspero e integro. Fundado por poderosos guerreiros e cada guerreiro possuía uma arma mágica que dispersava as criaturas das trevas do reino. E somente criaturas benignas aqui viviam.”
Breno visualizou uma campina verdejante cheia de criaturas estranhas e brilhantes, criaturas mágicas. No centro havia sete pessoas, os sete guerreiros que fundaram Mubilpe, cada um deles segurava uma arma, contudo Breno não conseguia vê-las claramente.
“Contudo Mubilpe sempre fora um reino guerreiro, com um poderoso exército harmônico entre humanos e criaturas mágicas diversas. Todavia a paz de Mubilpe foi abalada, bem como a paz de todo o continente. Um rei se ergue em Streb, matando o antigo rei Serpe, sendo este já rei das Terras Nefastas, conseguiu o apoio do reino Nortada, Pilion, e de muitos outros e assim atacaram os reinos bons do continente, e um por um, foram caindo.”
Breno viu um homem liderar um exército de homens e monstros contra várias terras diferentes e estranhas, viu vários homens pomposos com coroas (reis dos outros reinos) caírem mortos. Viu criaturas horrendas assumindo seus tronos.
“A guerra chegou a Mubilpe depois de 23 anos desde a queda de Streb, a qual, os reinos não deram muita bola, mas quando Tcherrer, a nação mais guerreira e armada caiu, há 35 anos, o continente se agitou. Mubilpe foi atacada inúmeras vezes mais as armas a protegiam contra as criaturas de trevas, contudo algumas criaturas que eram de nascença benigna e se corromperam, conseguiam entrar, e essas criaturas eram que atacavam o reino, porém o exército poderoso defendia o reino delas.”
A visão mostrou a mesma campina agora cheia de soldados com escudos onde estava estampado um corvo de três pernas em frente ao sol. Do outro lado estava um exército de criaturas estranhas, contudo graciosas, como gigantes de um olho só, e pequenos homens barbados e mulheres aladas, criaturas de nascença benigna que se corromperam. No meio do exército humano de Mubilpe havia criaturas exóticas, como elefantes de três cabeças, rinocerontes gigantes, gazelas aladas com dois chifres na testa, antílopes com dois chifres flexíveis e gigantes feitos de pedra, e muitos outros.
“Mas foi pelas mãos de um humano que Mubilpe caiu. Um nobre, filho de uma Ala, espíritos das tempestades. Ele se encontrou secretamente com o Imperador Praika, que lhe prometeu que ele seria o rei se traísse o reino. O nobre assim fez, pegou a primeira arma dos fundadores e a escondeu em um lugar remoto, ao chegar ao local se encontrou com uma feiticeira do Imperador que realizou um feitiço sobre a arma, a destituindo de poder, tornando-a nula. Sem a primeira arma os monstros começaram a conseguir entrar, primeiro os mais fracos como os duendes, até os mais poderosos como os demônios. E assim uma a uma as armas caíram, e foram escondidas, por sorte elas não poderiam sair de Mubilpe, só foram colocadas nos lugares mais inóspitos.”
As imagens agora mostravam um homem que Breno conhecia só não se lembrava de quem era. O homem estava escondendo embrulhos por vários lugares estranhos que o menino não sabia onde ficavam. Depois a imagem mudou e mostrava a campina arrasada, um campo negro, queimado. Uma imensidão de monstros terríveis e hediondos. Um exército macabro marchando sobre a capital, onde um velho rei os aguardava com uma pequena legião, os que haviam sobrado, até todos estarem mortos.
Welker estralou os dedos e Breno acordou. Olhou ao redor se lembrando de tudo que vira, viu Welker no meio da fogueira, e só então percebera que também estava no meio do fogo. As chamas cresceram e envolveram a poltrona onde ele estava sentado. Contudo o fogo não lhe machucava, mas começou a sentir um leve formigamento, logo começou a sentir calor e por fim começou a queimar vivo.
O professor estendeu a mão e falou algo e o fogo se apagou completamente. A roupa do jovem fumegava e ele olhava incrédulo para o professor, se perguntando como e porque o velho estava fazendo aquilo.
— Vá para a casa, já está escurecendo — disse o velho se virando e procurando algo nas prateleiras repletas de livros empoeirados.
— Não — respondeu o jovem se levantando — Você tem que me explicar tudo isso que me mostrou e como fez isso.
— Eu lhe mostrei como o Imperador Praika se ergueu e como ele baniu os exércitos benignos.
— Quem era aquele homem que roubou e anulou o poder das armas?
— O rei Dieval de Mubilpe — respondeu o professor se virando para encara-lo. Agora Breno reconhecia o nobre, era o rei que governava atualmente Mubilpe. Governava graças a um acordo com o Imperador. Graças a uma traição.
— Como você fez com que eu dormisse e ainda assim escutasse sua voz? E aquele lance com o fogo? — perguntou Breno ainda admirado ao saber a verdade sobre o rei. Welker se voltou para a prateleira e tirou um livro e o jogou ao jovem.
— Magia — respondeu dando um sorrisinho. Breno pegou o livro, a capa era dura e verde cheia de pedras e detalhes em relevo. Ele abriu o livro, estava cheio de fórmulas e palavras mágicas, ensinava a fazer feitiços diversos e vários rituais. Vários dos símbolos das paredes do porão estavam ali no livro.
— Eu... Eu quero aprender a fazer isso, a resistir ao fogo, a fazer os outros dormir, tudo que está no livro eu quero aprender — falou Breno entusiasmado com a ideia.
— Se você aprender magia será caçado pelo rei Dieval. Todos os magos que se revelam sem o consentimento do rei são mortos. Afinal todos esses magos na verdade pretendem tirar Dieval do poder autoritário que ele exerce em Mubilpe. E você não tem capacidade de resistir aos soldados do rei. Além disso, você é muito novo. — respondeu o velho fazendo voz e cara de pouco caso, e se voltou para as prateleiras à procura de outro livro.
— Como? Você me treinou esse tempo todo, tempo sim condição de lutar contra os soldados do rei e se você me ensinar magia eu posso ficar mais forte. E eu não sou novo. Logo os emissários do reino virão me buscar para servir ao exército de Mubilpe, e principalmente agora sabendo a verdade, eu não quero ir — respondeu o menino visivelmente abalado.
Welker sorriu e jogou o outro livro para ele, este tinha uma capa roxa escuro, só que na capa havia uma imagem de um monstro com a boca aberta e olhos esbugalhados, e o mais estranho: cabelos de serpentes.
— Eu te treinei todos esses anos para isso meu pequeno, achou que eu estava falando sério? — Welker começou a rir — Você primeiro tem que aprender o teórico, o básico. E vamos começar com as criaturas mágicas.
Breno se sentou involuntariamente na poltrona, magia de Welker, uma mesa foi empurrada sem nenhum contado físico até Breno, os dois livros saltaram de suas mãos e se pousaram na mesa, o de magia mais afastado e o das criaturas mágicas ficou bem a sua frente. Breno ficou assustado com tudo acontecendo tão repentinamente e sem nenhuma explicação física.
— O monstro da capa é uma górgona, criaturas com cabelo de cobra, presas de javali, asas de ouro, pés de galinha, escamas pelo corpo e podem transformar qualquer um que as olhe nos olhos em estátuas de pedra — começou o velho. Breno pareceu surpreso com as descrições da criatura.
— E aqueles monstros que vi na visão quais são? — perguntou Breno.
— Os pintados nos escudos dos soldados de Mubilpe são tripedais, corvos com três pés, criaturas do sol. As criaturas usadas pelos soldados de Mubilpe eram erawans, elefantes de três cabeças, emelas-ntoukas rinocerontes gigantes, pégasus etíopes as gazelas aladas, centicores, os antílopes de chifres flexíveis e chenoos, gigantes feitos de pedra. Os que apareceram do lado do Imperador, os corrompidos, eram ciclopes os gigantes com só um olho, anões os pequenos homens barbados e fadas caídas, as mulheres aladas.
A cada criatura que Welker falava o livro se abria numa página diferente revelando cada criatura e suas devidas descrições e histórias. Os dois ainda ficaram mais um bom tempo da noite lendo sobre as criaturas e suas propriedades mágicas, quais eram as mais poderosas e as mais exóticas e raras. E também as que possuíam racionalidade como as fadas, os elfos, os chenoos e os anões.
Depois Welker acompanhou Breno até o orfanato, afinal já havia passado três horas desde o por do sol, Irmã Taís os atendeu e os levou até Irmã Ruth que estava extremamente nervosa com a quebra da regra. Welker se explicou com a madre dizendo que eles haviam se entredito e perdido a hora, a madre aquiesceu, porém cortou as aulas de quinta feira. Breno só veria o professor na próxima sexta, afinal hoje era domingo. E nesse meio tempo muita coisa aconteceria. A vida de Welker corria perigo. E a de Breno mais ainda.
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