As 5 Guardiãs
1 Um
Notas iniciais
Sofia sonhava um pesadelo horrendo, e se debatia na cama também por outro motivo. Sabia que mesmo antes de acordar, aquelas criaturas cuja não sabia quem eram, estavam ali. Mas eu, ah. Eu sei muito bem quem são elas.
No sonho de Sofia, ela caminhava por uma estrada deserta rural circundada de montanhas e pedras pontiagudas, quando começou a escurecer repentinamente. O céu negro trazia consigo nuvens carregadas de raios e grandes pingos de água, que ao ver da menina, assemelhavam-se à um balde d'água jogado pelo céu. Um raio atingiu a frente dela enquanto corria, então ela tropeçou, caindo no chão. Não poderia acontecer nada pior, pensou ela. Sofia nunca esteve tão errada. Criaturas inexistentes surgiram das nuvens, aterrorizando mais ainda a pobre e indefesa garota. Pareciam-se com fantasmas pretos, que deixavam rastros no ar enquanto a atacavam de forma brutal.
Levantou o corpo da cama em um sobressalto ao sair do infinito pesadelo. Ela estava ofegante. Enquanto recuperava o fôlego, olhou ao redor,e ao ver oque estava no pé de sua cama, tomou outro susto.
─ O quê... o que você está fazendo aqui?─ perguntou uma Sofia duplamente assustada.
─ Eu vim em nome das outras avisar que você está se perdendo.─ disse a criatura que ela não sabia quem era.
─ Me perdendo?
─ Oh, sim. Se perdendo. Se perdendo no meio do contrato que fizemos. Você pode ver oque uma grande minoria é capaz, e não dá valor à isto. ─ Sofia não conseguia muito bem associar as palavras, mas sabia que se tratava de algo errado que havia feito, e agora, estava sendo repreendida. ─ Você violou o tratado do sigilo sobre nós, tentando contar oque via para sua mãe, por mais que ela ache que não passe de uma grande bobeira.
Sofia ficou irritada como sempre por estar sendo contrariada, e deu uma resposta em um tom alto, sem se lembrar de que a casa estava dormindo.
─ Mas o problema é que você, criaturinha, surge do nada quando estou na piscina ou quando meu corpo entra em contato com uma grande quantia de água, e quer o quê? Eu me apavoro, poxa!
─ O que é uma ação relevada no início, mas isto acontece com você há anos, e persiste nesse comportamento infantil. ─ Sofia ficou vermelha. Tinha 14 anos, por mais que ela não soubesse, mas de qualquer forma, era grandinha demais para ser chamada de infantil. Passos ecoaram pelo corredor, seguidos pelo ranger da porta do quarto de Sofia, dando espaço para a figura de Anna, sua mãe, que não parecia nada satisfeita com o que viu. Fez cara feia, e Sofia se preparou para a bronca:
─ Sofia!! É exatamente meia noite... ─ ela checou o relógio de pulso, confirmando ─ é, meia noite. MEIA NOITE! Não é hora para você ficar falando sozinha, acordando todo mundo! Eu não tenho idade para isso. Amanhã, quero você cedo em pé para arrumar suas coisas.
─ Arrumar minhas coi...
─ Sem perguntas! ─ disse, autoritária, e então fechou a porta. Sofia desabou na cama, percebendo que o alvo de sua conversa desagradável não estava mais ali. Gostaria, por um momento na vida, que estivesse, pois estava nervosa o suficiente para culpar o ser por ter criado essa paranoia dentro dela. Sua mãe havia desistido dela, e iria enviá-la para um lugar que só seria descoberto no dia seguinte. Ela acendeu a luminária, passando a noite em claro.
♦
A noite demorou para acabar, mas quando acabou, foi um alívio para a menina, quando ao mesmo tempo não foi. Arrastou-se para fora da cama enquanto o sol nascia, e jogou a pouca quantia de roupas que tinha sobre a cama, então, ensacou-as. Foi ao banheiro, penteou o cabelo e escovou os dentes e sem vontade de fazer qualquer coisa, foi até a cozinha.
Sua mãe a olhou, mas não disse absolutamente nada. Sofia enfiou a mão dentro do pacote de cereal e levou à boca.
─ Já ouviu falar em tigela, leite e garfo? ─ cutucou Anna.
─ Assim é mais gostoso ─ respondeu de boca cheia, ignorando o olhar de desaprovação da mãe. Você não vai mais se preocupar com essas coisas, já que estou saindo de casa, pensou.
─ Arrumou suas coisas? ─ Sofia assentiu, triste ─ Ótimo. Alimente-se e me espere no carro.
Sofia voltou ao quarto, pegou o saco, olhou por cima do quarto para certificar-se de que não estava esquecendo nada, então lembrou.
Ergueu o colchão da cama, e ao ver o estrado que suportava-o, se deparou com um caderno pequeno de muitas folhas e uma capa de couro marrom. Apanhou o caderno, colocou de baixo da jaqueta e fez o trajeto até o carro.
Passou a viajem inteira olhando para fora do carro, encarando a paisagem e fazendo de tudo para evitar sua mãe. A viajem foi longa, principalmente porque se tratava da Costa Sul, e as duas moravam ao Norte. Sofia passou por uma rua que parecia ser a do seu pesadelo, chacoalhou a cabeça como se fosse resolver alguma coisa, e encarou outro lugar. O carro parou repentinamente, e ela viu uma casa enorme de uns 3 andares, com a pintura desgastada. Anna anunciou a chegada, Sofia ignorou e desceu do carro segurando suas coisas. Atrás da casa, parecia haver um bosque, com árvores altas. Sofia caminhou até o portão, e sem pedir nem se preocupar, apertou um botão com um sino em cima. Nada aconteceu. Segundos depois, uma porta foi aberta, revelando uma idosa de cabelos grisalhos e avental de cozinha atravessando o jardim de plantas mortas.
─ Hahaha! Olá, queridas! ─ ela disse com um grande sorriso, acenando freneticamente em direção àquelas duas.
─ Oi, mãe! ─ gritou Anna, para que a velhinha a pudesse ouvir. Ela tirou do bolso do avental um grande molho de chaves, que tilintava exageradamente. Colocou a maior delas numa fechadura, girou e empurrou, abrindo o portão escandaloso. Sofia estava um poço de tédio, naquele lugar, iria virar um oceano. Ela cumprimentou a senhora alegre e adentrou a casa. Cada passo nas madeiras era um rangido brusco. Ao receber as instruções de onde ficava seu quarto. Era uma sala velha e ampla, com móveis empoeirados, seguindo o padrão da casa. Sentou-se na cama.
Era uma nova vida para Sofia.
Ela bateu as mãos na cama chamando seu único amigo peludinho, Bob, para perto de si. Enquanto acariciava o cão, duas batidas soaram atrás da porta, que foi aberta gradativamente revelando a figura pequena e roliça de uma senhora.
— Oi, Sofia. — disse ela com um sorriso meigo no rosto.
— Hã... oi.
— Já deve ter percebido, eu sou sua avó — Anna nunca falara dessa senhora para a filha, e de repente, ela passou a morar com ela. Sofia não sabia exatamente se isso era temporário ou ficaria ali por tempo indeterminado. ─ Me chamo Verônica, mas você pode escolher como me chamar. Vó. Avó, vovó, e por aí vai.
Beijou a testa da neta e se retirou do quarto. Sofia estava perdida naquela casa. Pegou a coleira de Bob e foi explorar a casa velha. Segundo os pensamentos dela, casa velha é sinônimo de mistério, a palavra favorita de Sofia. Ao descer a escada, sentiu alguma coisa a tocar.
— Oh... desculpe. Eu sou Audrey. Você deve ser Sofia, não é? — Audrey abriu um largo sorriso, enquanto estendia a mão. Sofia assentiu lentamente ao mesmo passo que erguia a mão para cumprimentar a outra.
— Sim, eu sou a Sofia. Hã... é. Sofia.
— Legal! Bem, preciso ir agora. A gente se vê depois. — e subiu as escadas de dois em dois degraus com os pés descalços. Ela segurava na mão esquerda uma sacola ampla, que aparentava estar cheia. Sofia coçou a nuca e saiu para os fundos da casa. O bosque que havia visto minutos antes pareceu dobrar de tamanho.
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