As 11 poesias de Halicarnasso
2 Bola de cristal, cadela galáctica e curso grátis de biologia
Notas iniciais
II
A verdade veio como um raio: EU ESTAVA MORTO. Kurt e Laika me encaravam esperando por alguma reação, mas eu não conseguia parar de pensar, acreditando que, talvez, pudesse haver mais alguma mísera dica perdida naquele clarão de informações, entretanto, para o meu azar, a epifania cessara. Notícia de última hora: sim, você está morto. Sim, não te daremos mais dicas. Parabéns, você foi sorteado! Mas. Que. Desgraça.
Kurt contornou meu corpo com passos entediados e ficou atrás de mim. Sua respiração fantasma criava pequenas nuvens etéreas no ar. Ele soltou um sonoro “KARINA BEUREGARD. KARINA! Eu... não conheço”, mas o ignorei. Guardei o pergaminho no bolso direito do meu jeans e suspirei cansado. Se é que fantasmas podem se sentir cansados, não é? Por mais incrível que pareça, eu não me sentia nem um pouco interessado em fazer questionamentos sobre meu estado halloween.
Virei meu rosto para encarar Kurt (sim, ele permanecia atrás de mim. Pi-ra-do) e ficamos nos encarando por alguns instantes, até a situação ficar desconfortável demais. Ele escarrou, como se catarro fosse um tópico para se iniciar um bate-papo agradável em plena noite na...
– Ei, drogado punk com um buraco no queixo, onde estamos? Que país é esse? – perguntei.
Ele deu alguns passos de dança para trás e pulou dentro da fonte. Chutava a água, como se estivesse tocando Singin’in the Rain (mesmo eu não sabendo o que diabos era essa canção), e, repentinamente, parou. Olhou-me com sanidade nos olhos e gritou:
– TURQUIA, BABY!
Bom, isso era um avanço. Pelo menos, naquele momento, eu sabia onde estava (vai nessa) e sentia-me bem com isso. Kurt disse que aquele país chamava-se... é... TOURKIA... ou algo do tipo. Notei que a cadela esfregava sua cabeça fantasma na minha perna. Decida-se, ó, cadela magricela (eu podia ver suas costelas): tu és um felino ou um canino abestado? Ótimo. Ela esboçou sua língua quase transparente para mim e latiu.
Afastei-a, delicadamente, enquanto Kurt cantarolava alguma melodia teatral e fingia atuar em meio à ABRE ASPAS chuva FECHA ASPAS. Estava próximo de retornar as escadas, quando o maldito puxou-me pelo cachecol. E arrastou-me. E lançou-me contra um dos gramados repleto com bolas de vidro que emitiam luz.
– Filho da mãe! O que foi isso? Cadê os bons modos? – perguntei.
– Ficaram para trás, quando eu dei um tiro no meu próprio queixo – Kurt respondeu, enquanto fingia que sua mão esquerda era uma arma imaginária prestes a estourar seus miolos. Ele sorriu. – Me desculpe pela introdução bizarra. Eu deveria ter sido mais cortês. Pode começar com as perguntas?
– Que perguntas, cara? Do que você está falando? Se eu fosse você, largaria o mundo das drogas – respondi.
– Você já esteve no paraíso? – Kurt disse, enquanto levava um de seus dedos em direção aos lábios fazendo o típico sinal de silêncio. – Já viu um unicórnio voador? Creio que não. Muito menos uma berinjela falante, man. Então fica calado em relação às drogas.
– Você não tem moral para me mandar calar a boca. Olhe o seu estado! Nem Laika lhe daria permissão para fazer isso! – a cadela mostrou os dentes num sorriso divertido. – Enfim, que perguntas eu deveria fazer?
– Bom, aí está à primeira delas. Você podia, por exemplo, perguntar sobre dúvidas fantasmas! – Kurt disse alegremente.
– Ok... já que sou um fantasma... por que meu corpo não fica semitransparente igual ao seu? Digamos que eu consigo ver a fonte através de você. O monumento também.
– Há fantasmas que não compreendem a morte que tiveram, logo, a transformam em algo banal. Talvez esse seja o motivo de seu corpo parecer tão vivo. Próxima pergunta.
– Tá bom, se eu sou um fantasma... meu corpo inexiste. Olhando o seu, então. Logo, atravessamos as coisas! Como naquele filme... é... droga! Onde foi parar minha memória? Que desgraça.
Kurt aproximou-se da bola de vidro e lançou suas mãos sobre ela. Movia-as como se pudesse ver o destino através dela. O futuro dos pobres humanos entregue pela claridade artificial de uma lâmpada grande pra caramba. Ele olhava para mim, e logo desviava o olhar. Fez esses movimentos diversas vezes, como se estivesse tentando passar o que via para a sua bola de cristal (erro: memória desconhece esse artigo. Tente mais tarde). Finalmente, ele olhou para mim e revirou seus olhos e mexia-os para lá e cá, parecia seguir uma mosca brincalhona que tentava pousar na ponta de seu nariz. Ele gritou! Que susto.
– Os fantasmas! – Kurt disse num tom ululante tal como um orixá de rituais. – Eles são ligados às coisas terrenas, pois a morte está impregnada nelas. Nós viemos do chão e ao chão retornaremos. Do solo vem nossa comida e para o solo irão nossos corpos.
– O que quer dizer com isso, Kurt?
– Por que uma viagem de ônibus parece mais segura do que viajar de avião, ou de navio? Me diga! O solo, meu amigo. O solo! As rodas estão ligadas ao asfalto, igual a um cão raivoso que não larga uma maldita salsicha. – ele riu insanamente. Uma risada que misturava a loucura viva e a morbidez de um morto.
– Não sei do que está falando...
– Você não precisa entender agora, meu caro amigo. Apenas lembre-se dos três estados mais próximos da morte: o sono, o déjà vu e o câncer.
– O que é câncer? – perguntei inocentemente.
– Porra, mas você também não sabe de nada! Não ia para as aulas de biologia? – fiz uma cara meio ressentida, tentando disfarçar minha proeza de não saber quase nada. – Novidade, você não sabe o que é biologia também. Câncer é bobagem de saber. É simples.
– Então me diga, cara! Desembuche de uma vez! – gritei.
– Câncer é a morte. Talvez uma das faces de Hades seja um câncer de pulmão, bem talvez. Apenas não deseje ter essa doença. Nem sífilis. E nem... diabetes – Kurt levantou-se e ofereceu uma de suas mãos. Talvez a física fantasma fosse diferente, mas eu consegui segurá-la. “Como isso é... possível?”, perguntei. Ele respondeu: fantasmas conseguem interagir com outros fantasmas. Simples.
Ele caminhou de volta para a escadaria do monumento. Seguia-o logo atrás com Laika próxima dos meus passos. Não havia notado antes, mas uma coleira que tinha a frase “NASA sucks” grafadas num tom dourado estava presa ao seu pescoço. Ela era uma cadela legal, aham.
Kurt estava sentado no primeiro degrau da escadaria. Sentei-me do seu lado. Ao longe, o sol começava a nascer. De acordo com Kurt Cobain, os turistas e cidadãos começariam a circular pelas redondezas. Disse que era melhor nos mantermos perto do monumento... longe dos humanos.
“Os fantasmas não conseguem compreender de todo o seu estado ausente, completamente desligado do mundo terreno. Alguns ficam loucos e outros se corrompem tornando-se maus. Mas o pior de tudo é que podemos nos apaixonar. Os sentimentos transbordam de um coração etéreo porque é a única coisa que nos restou. E não há nada... NADA! Compreende? Nada mais frustrante do que não poder tocar alguém que é amado por você. Entretanto, pior ainda, é não poder amar”.
Sábias palavras, Kurt. Sábias palavras. Ficamos ali com o silêncio absoluto pairando sobre nós. Admirávamos as cores quentes que pareciam acender o cômodo que os humanos chamam de PLANETA TERRA. Kurt Cobain estava errado apenas quanto a uma coisa: não foram apenas os sentimentos que me restaram. Toquei o bolso direito do jeans, no qual estava o pergaminho dos maiores problemas mundiais do século XXI.
O papel estava em chamas, queimando através do tecido grosso do jeans.
Ele queria ser lido.
Ele queria ser descoberto.
Ele queria ser decifrado.
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