Artigo 205
2 CAPÍTULO 2: Sangrando
Acordo as cinco horas da manhã como faço a pouco mais de um ano,e mesmo já tendo me acostumado com o horário,sempre estou com sono.Levanto da cama com a animação de uma condenada a forca,e me preparo para mais um dia esgotante de trabalho.Coloco a farda na mochila,a pistola no bolso lateral e me apresso para não perder ônibus.
Coloco o fone de ouvido e ligo o celular,já que a única coisa capaz de me fazer acordar é uma playlist cheia de músicas techno,que além de me acordar fisicamente,me fazem conseguir encarar um coletivo a essa hora do dia.Quando o ônibus finalmente chega eu suspiro,pois do lado de fora dá para ver que está lotado e que assim como nos demais dias terei que ir em pé para a corporação.Ao mesmo tempo que escuto Cybotron pelo celular,consigo observar pela janela que começa a chover,estamos em outubro que é mais do que normal de acontecer,mas a chuva vem em boa hora.A chuva me renova,me dá energia e eu me sinto completamente revigorada.
Duas conduções e alguns minutos depois eu consigo enxergar meu ponto de parada.Enrolo o fone e o guardo na mochila junto com o celular,desvio de uma senhora que parece imóvel na frente da porta de saída,e escapo dessa caixa de confinamento.Corro para não me molhar,sigo debaixo das marquises dos prédios e em questão de minutos chego na corporação.Comprimento meus superiores e vou em direção ao vestiário,aonde me troco e vou para o pátio e lá encontro meu parceiro que me espera pacientemente na viatura.
"Achei que você não iria vir hoje"fala com um tom de deboche.
"Temos que nos apressar ou não conseguiremos um café grátis!"
Dou a volta na viatura e entro pelo lado do motorista,manobro e saio do pátio.Cerca de quinze minutos depois ligo a sirene e vou o mais rápido que consigo em direção a uma das padarias da redondeza.
Chegamos em poucos minutos,estaciono bem na entrada e já vou para o balcão e lá com a mesma empolgação de sempre encontro Dona Luiza,a gerente/proprietária da padaria que já me espera com um saco de biscoitos de queijo e dois copos de café.Quando enfim consigo encontrar algum equilíbrio com as mãos ela resolve iniciar uma conversa.
"E como está indo o dia soldado?"balanço a cabeça de forma afirmativa já que minha boca está ocupada carregando uma sacola de papel amarga."Tenha um bom dia então''fala se virando para dentro da cozinha.
Com o maior cuidado do mundo entrego o café a Leo e entro no carro.Quando decido dar a primeira golada no que seria minha primeira refeição do dia,recebemos uma chamada via copom.
"Merda"digo jogando o copo ainda cheio pela janela.
A essa altura do dia a chuva já havia passado e o sol ainda não saira por completo e temos que atender a um chamado de assalto em andamento.Não são nem oito da manhã e os trombadinhas dessa cidade já estão agindo.Não demoramos a chegar no local solicitado;paro o carro na esquina e descemos cautelosos.O chamado disse que a ocorrência era perto de um mocó,a rua parece deserta,nos aproximamos e escutamos um grito de socorro vindo lá de dentro; entramos. Leo vai na frente com a arma em punho,repito a ação e sigo atrás dele.Ele segue pela direita e me faz um sinal para que eu vá pela esquerda,obedeço.
Quando cruzo a porta quase que vomito,sem dúvida é o lugar mais fétido em que estive.Por todos os lados encontro vestígios do uso de drogas,fezes se misturam a latas de refrigerante amassadas.Faço a vistoria por todo o perímetro que me foi dado e não encontro nada.
''Nada"grito e espero que Leo me fale a mesma coisa o que infelizmente não aconteceu.
"SOLDADO"quando ele diz isso prevejo que ele encontrou quem estava pedindo por ajuda.Sigo pelo caminho que entrei e viro para onde Leo está.E o que vejo ali me faz ter mais ódio daquele lugar.Uma garota com não mais de quinze anos caída aos pés do Sargento.Suas roupas rasgadas e manchadas com o sangue que eu acredito ser somente dela.Me abaixo para tentar encontrar um último suspiro de vida em forma de pulsação mas não obtenho sucesso.Leo vai para a viatura relatar o corpo,não sei o que aconteceu com essa menina mas sei que naquela casa alguém teria tornado o último cenário na vida de uma criança
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