Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato

6 CAPÍTULO EXTRA: O ALVORECER DO REINO ESQUECIDO


Notas iniciais
O Alvorecer Do Reino Esquecido (O trecho final do Capítulo 87, revisado pela alma de Arthur e pelo desejo de Helena)

O fogo na lareira da estalagem estava morrendo, reduzido a brasas que pulsavam como um aviso. Lá fora, o vento uivava contra as pedras, mas dentro daquele quarto pequeno, o silêncio era tão pesado quanto o aço que Kaelen carregava nos ombros.

Elara não se moveu. Ela estava parada junto à janela, a silhueta recortada pela lua minguante. Quando ela se virou, não havia a distância de uma princesa, mas a urgência de uma mulher que não aceitaria mais o exílio das palavras.

— Você passou a vida se protegendo de golpes que o mundo desferiu contra você, Kaelen — disse ela, a voz suave como o veludo, mas afiada como uma adaga. — Mas aqui, não há inimigos. Por que você ainda usa essa couraça?

Kaelen sentiu o peso do metal. Por dez invernos, aquela armadura fora sua única casa. Debaixo dela, ele era um herói lendário. Sem ela, ele era apenas um homem marcado por cicatrizes e silêncios.

— Se eu a tirar — ele começou, a voz rouca, os olhos fixos nos dela — você verá que não há um herói por baixo. Há apenas... o que sobrou da guerra.

— Eu não quero o herói — Elara deu um passo à frente, e o cheiro de baunilha e brisa (o perfume que Arthur agora conhecia tão bem) preencheu o espaço entre eles. — Eu quero o homem que treme quando eu chego perto.

Ela esticou a mão. Com uma lentidão deliberada, seus dedos tocaram a fivela de couro no pescoço dele. Kaelen fechou os olhos. O toque dela era a única verdade que ele não podia editar, a única realidade que não precisava de magia para ser absoluta.

Um por um, os pedaços de metal caíram no chão de madeira. Cada estrépito era o fim de um hiato, a queda de uma barreira que ele jurara nunca romper. Quando a última placa de peito caiu, Kaelen sentiu o frio do quarto encontrar o calor de sua pele. Ele se sentiu exposto. Nu. Vulnerável.

Elara levou a mão até a grande cicatriz no ombro dele — a marca de uma batalha antiga que quase o levara. Seus dedos contornaram o tecido cicatricial com uma reverência que o deixou sem fôlego.

— Você é lindo — ela sussurrou.

— Eu sou um desastre de remendos, Elara.

— Então seja o meu desastre — ela respondeu, puxando-o para si.

Kaelen não usou um grande discurso. Ele não citou as leis do reino ou as profecias dos deuses. Ele apenas a envolveu com braços que, pela primeira vez, não buscavam uma espada, mas o calor de outro corpo. Ele a beijou com a fome de quem viveu dez anos de sede, descobrindo que o clímax da sua história não era uma vitória no campo de batalha, mas a coragem de ser visto, amado e aceito em toda a sua imperfeição.

Naquela noite, o Reino Esquecido foi lembrado. E Kaelen, o guerreiro que nunca tirara a luva, descobriu que o toque era a escrita mais poderosa que o destino já criara.